terça-feira, 26 de março de 2019

TEMPO DE ANTICRISTO



TEMPO DE ANTICRISTO

Esgoto a céu aberto, aberto o inferno
da trama da tramoia transilvânica,
não tem explicação senão satânica
oculta pelas mangas desses ternos...

Em breve a morte vem, e vem o inverno
na idade anticristã, era tirânica
oposta àquela vinda messiânica
do Cristo anunciando o reino eterno.

Pois reine o anticristo enquanto pode,
palhaço caricato que resume
a carnal corrupção, e se sacode.

O séquito infiel verte chorume
na vala da agonia de seu bode,
e o ar rescende a peido com perfume.


Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 13 de março de 2019

O que te inspirou a criar o teu blog? - desafio da blogueira Raphaela Barreto


Raphaela Barreto lançou o desafio "O que te inspirou a criar o teu blog?" comemorando os 9 anos do blog dela.

Eu criei o meu blog em fevereiro de 2009, fazem 10 anos! Passou rápido e com muito gosto.

Antes disso, eu ingressara no Blogger para ler o blog de Márcia Frazão, romancista de quem eu tinha lido um livro escrito com bastante originalidade, intitulado "Senhoras do santíssimo feminino".

Então, Letícia, uma moça que recebeu o Crisma comigo em 2007, disse: "Cria um blog para publicar teus poemas.".

Eu só fui crismado aos 32 anos de idade. Antes, estudei várias religiões até ter certeza de que me adequava mais ao cristianismo católico.

Foi isso.

Blog de Raphaela Barreto: My Life

quinta-feira, 15 de março de 2018

PERSONA



persona

retrato da caveira, o raio x
revela o que uma foto não revela,
ali é feia a feia, é feia a bela,
mas do caráter mesmo nada diz.

ao dissecar um cérebro, o aprendiz
até pode encontrar uma sequela,
porém não vai saber se o dono dela
foi réu, foi promotor, ou foi juiz.

pois alma é que dá vida, ação, e fala;
na comunicação em ordem cênica,
o corpo é animado a revelá-la.

mas não revela, estando na ecumênica
reserva de pudor que não se abala,
mantendo a virgindade pouco higiênica.


marcos satoru kawanami

segunda-feira, 12 de março de 2018

VOLKANA

Volkana (Clerodendron fragrans)


VOLKANA

O mundo está perdido?, sei lá eu!,
perdido vem estado sempre..., tanto
que desde Adão conhece o mundo o pranto,
e jamais houve quem jamais sofreu.

Adão não faz sentido para o ateu,
mas vejo ateu sofrendo pelos cantos
que nem em penitência o maior santo
da mortificação se assim valeu.

Pois tome a sua cruz, quem crê ou não,
floresça em si com fé, sacra ou profana,
e que a cruz justifique suas mãos.

A cruz é dor sem alma, a torne humana
ao modo que a beleza no lixão
transforma o que é refugo em flor volkana.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 11 de março de 2018

ARROMBARAM O CONGRESSO NACIONAL



arrombaram o congresso nacional

se algum puto fanático homicida
arrombar o congresso nacional,
bastante gente vai achar legal
na raiva tanto tempo reprimida.

alguém comentará logo em seguida
que tudo não passou de irracional
ação estapafúrdia em bananal
república sem jeito toda a vida.

por ordem e progresso, pela lei?,
mas política, desde a antiguidade,
é feita com me dá que eu te darei.

não quero desvaler a ingenuidade,
só dê poder a um homem, faça-o rei,
pra vê-lo tal qual é na realidade.


marcos satoru kawanami

sábado, 10 de março de 2018

FRAUTA RUDA



frauta ruda

existe no informal autonomia
sobre toda e qualquer formalidade,
do rei e do plebeu goza amizade
pois ambos se aliviam todo dia.

já o formal pressupõe isonomia,
padrão no trato, às vezes falsidade,
um bem que faz à boa urbanidade,
e aplaca a besta fera, a rebeldia.

mas, se o informal existe sem ajuda,
conforme vem talhado na indolência,
não tem muito recurso que o acuda.

enquanto que o formal prevê clemência
se acaso desafina a frauta ruda,
requinte de uma espécie à permanência.


marcos satoru kawanami

quinta-feira, 8 de março de 2018

FORMIGA TATEANTE



formiga tateante

— o valor absoluto dos objetos
depende, e, ao depender, não vale nada. —,
pensava uma formiga ensimesmada,
vasculhando no mato alguns dejetos.

a formiga notou que, nos afetos
pelas coisas, a gente — que piada! —
parece mesmo achar que eternizadas
serão as nossas coisas e projetos.

notou também, o inseto, que eu notava
seu solilóquio anônimo pensante,
então falou mais alto, um tanto brava:

— até uma formiga tateante
conhece o que ao humano humanizava,
que é pensar no absoluto a cada instante. —.


marcos satoru kawanami

terça-feira, 6 de março de 2018

ESTOICO



estoico

jejum, divina conexão da fome,
estranha afirmação que ao corpo nega
o estado natural de besta cega
que em ânsias dos instintos se consome.

difícil conseguir que a alma dome
as coisas da matéria, à qual se apega
por costume do corpo, seu colega,
seu amigo e rival de mesmo nome.

buscar o que é do alto é alpinismo
com muito pé no chão, esforço heroico
que vê, ao mais subir, maior abismo.

vertigem de inalar vapor benzoico
impõe-me a disciplina quando cismo
que bom é me ferrar, mas ser estoico.


marcos satoru kawanami

domingo, 4 de março de 2018

ENGRENAGEM HOROLÓGICA



engrenagem horológica

o mundo oscila entre matéria e luz
conforme pelo tempo vai andando
ao modo de engrenagem, que vibrando
na mínima amplitude se conduz.

matéria-não-matéria a qual produz
a passagem do tempo agora e quando
permite o movimento, compassando
tudo que à cinemática seduz.

o belo vem do belo desde a essência,
a vida vem da vida, e vêm os atos
de um ato que aos demais tem precedência.

a escrita guarda a história em seus relatos
seguindo pelo tempo uma sequência
que oscila, vão e vêm também seus fatos.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 2 de março de 2018

ATUAL CONJUNTURA

link: o samba do crioulo doido

atual conjuntura

propenso a não pensar na conjuntura
do mundo, para a qual não há potência
nem ato em minha reles contingência
que possa transcender a razão pura,

eu acho que é melhor, à essa altura,
ficar sem achar nada, e, com prudência,
cagar para os arautos da ciência,
talvez nem mais fazer literatura.

porém, se o mundo inteiro der-se as mãos,
ninguém conseguirá puxar gatilho,
a força do indivíduo é a união.

só que não. decadência é nosso trilho
traçado na tragédia desde Adão
até que volte o Pai que se fez Filho.


marcos satoru kawanami



ilustração: pintura de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

TEQUILA!


tequila!

infância, pirilampo que cintila:
acende, apaga, acende, apaga, avoa,
um rastro luminoso à noite à toa,
um astro refletido nas pupilas.

cachaça, quando a cana se destila:
apaga, apaga, apaga, apaga, entoa
um samba que dos bêbados caçoa
num verso que gargalha e diz: tequila!

palavras desconexas embaralham
o nexo do que vai supra versado
a fim de que estes versos nada valham.

mas, “se saiu de dentro...”, foi cagado!,
e é cada cagalhão que agora encalham
enquanto já me sento ali veado.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

LEDO LÍRIO


ledo lírio

há dias tenho febre e nada como,
guardado no meu claustro de abandono,
e penso que morri durante o sono,
sonhando entre o cipreste e o cinamomo.

deliro, delirando provo o pomo
dulcíssimo da morte, e a morte entrono
flertando com o mal, porém meu dono
restaura-me no bem, pois ecce homo.

não faz sentido algum morrer assim,
pecando mesmo até num vão delírio,
findando em desrazão ao ter um fim.

então, a Cristo entrego o ledo lírio
da vida que não mais pertence a mim,
querendo o abraço amigo do martírio.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

VAI NÃO INDO


vai não indo

é claramente obscuro, à luz do contra,
o trato airado com a coisa púbica
que paira desairoso na república
conforme uma cartilha que vem pronta.

quem não a encomendou, pagando a conta,
na seca em que soçobra deixa lúbrica
a mão que afana sempre a coisa pública,
e as coisas não coisas ficaram tontas.

pra bom entendedor, um ponto basta;
mas toda explicação não vale nada
pra quem tapou a mente, e entanto pasta.

pastando, vai não indo pela estrada
também a rês tapada que se afasta
sem ter um bom destino na jornada.


marcos satoru kawanami


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ENTRE A CRUZ E A ESPADA - verso alexandrino



entre a cruz e a espada

a parte mais tocante é quando alguém se toca
que, mesmo semelhante, a parte que lhe cabe
está bem mais adiante, em partes do quem sabe,
além, no altissonante além que o povo evoca.

aqui, bem mais aquém, o cisma se provoca
estrábico demais, ainda que se gabe
da racionalidade, ainda que se babe
ao modo de um bebê diante da pipoca.

o cisma da razão em nome da verdade,
e o cisma da verdade em nome da razão,
têm muito divertido a louca humanidade.

por pouco gente morre a bala de canhão,
e por contrariamente, em tal calamidade,
por pouco gente morre a bem da salvação.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

BOBAGEM


bobagem

bobagem pode ser ou acontece
ou é pensada ou mesmo acaba escrita,
é má ou boa, às vezes é bendita
se algum dano maior ela amortece.

bobagem, malha que o destino tece
fazendo nossa vida mais bonita,
ou não, a depender de quem a fita,
porém, se a recebeu, a bem merece.

carregue sempre um pouco de bobagem,
não em excesso, assim não lhe convém,
mas uma ou duas dentro da bagagem.

porque muito pior é quando alguém
ostenta tanta fleuma na embalagem
que acaba apodrecendo o que contém.


marcos satoru kawanami


domingo, 4 de fevereiro de 2018

rei momo



rei momo

estando a sacudir de forma obesa,
o rei do carnaval se sacudia,
e, em vias de cumprir a profecia,
o momo era o plebeu na realeza.

o momo, assim, talvez ou com certeza
é o bobo que venceu a picardia,
e agora despotiza na folia,
e agora tem de tudo sobre a mesa.

contudo, cá no claustro, nada vejo
do rei saculejante e untuoso,
mas sacudo, sacudo de desejo.

o desejo é castigo rigoroso;
por isso, em penitencia, mais almejo
estar à mesa com o rei guloso.


marcos satoru kawanami



Conversa maluca extraída do filme Sonho de valsa, de Ana Carolina:

mulher: Se você fosse mulher, você namorava meu irmão?
homem: Na hora.
mulher: Sabe que, se eu fosse homem, também comia tua mãe?


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FLATOS FATUAIS



FLATOS FATUAIS

Em fino acabamento o mármore da História
conclui que concluir... demora pra caramba!,
e toda conclusão paira na corda bamba,
por mais que cabalmente oclusa e meritória.

Contudo, vasculhando as teias da memória,
alguém há de dizer que já dizia o samba...
que esse disse-me-disse, algum dia, descamba
como a lua do céu, como a ilusão da glória.

Um outro alguém ainda há de dizer: “Não disse?”,
dizendo sem dizer, com sopros do intestino
referendando o arbítrio à vista da mesmice.

E o mármore da História encerra o que é destino
numa vala comum, como quem concluísse
com flatos fatuais um verso alexandrino.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CRÉDITO É DÍVIDA



CRÉDITO É DÍVIDA

O que será da Zeferina um dia?,
do jeito que está indo, um dia, acaba
perdendo para o fisco a própria raba
gastando tudo ou mais do que devia.

E deve, no armazém, na drogaria,
em lojas deve tanto que se gaba
do crédito que tem em toda a taba,
vertendo muita fé na loteria...

O povo tem se rido pela naba,
a naba a qual avoa e tudo sonda,
e pega alguém dormindo enquanto baba.

Pois ela está fazendo a sua ronda,
e, além da Zeferina, um dia, enraba
aqueles que também vão nessa onda.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

alheio ao cérebro

Catedral - Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


alheio ao cérebro

de tudo quanto guardo na memória,
alheia-me do cérebro a mais viva
vivência, transcorrida na instintiva
idade de uma mente extracorpórea.

depois, em profusão de copa arbórea,
neurais sinapses, tino que nos criva
na cruz da nossa humana e purgativa
jornada até que venha o fim da história.

por isso tenho apreço a fase dantes,
a fase do ideal que permanece,
a fase consistente e mais constante.

e, após a copa arbórea que perece,
revele-se ela tão dessemelhante
na vida que de crivos não padece.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PARDAL



pardal

talvez alguma ideia positiva
conduza minha lira velha, um dia,
aos dias da pretérita alegria
que agora, a relembrá-los, me incentiva.

porém, ao ver cantar a patativa,
notei o quão pardal que pouco pia
tem sido minha estranha poesia,
jogada no papel de forma esquiva.

calando, pois, escrevo meu presente,
presente positivo e bem empírico
conforme o dia-a-dia, comumente.

e, à noite, dou vazão ao estro lírico,
o qual, à luz do sol, calou latente
seu canto de pardal, seu canto onírico.


marcos satoru kawanami