sexta-feira, 1 de março de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 3



CAPÍTULO 3

        Isolaram-me nesta cela, porque, no primeiro dia de prisão, eu matei, só com as mãos, três detentos. Então, a direção da cadeia achou que eu fosse de alta periculosidade. Mas eu sou inocente.
        Agora, parece que ficarei aqui até o meu dia do Juízo Final, em que espero ser absolvido de tudo quanto me acusam. Entrei aqui por engano da justiça humana, e aqui matei por legítima defesa. Ora, queriam comer meu cu. Tu o darias?
        Tudo bem que não era para tanto, mandar três almas para o inferno só por causa de uma coisinha fedorenta foi exagero. Foi exagero porque pimenta no cu dos outros é refresco, ou tu liberavas numa boa? Não sei não, tu és esquisitão. Quem cala consente.
        E tu terás de calar por enquanto. Se este escrito não for nunca lido, o todo o mundo retórico representado por ti calará para sempre, liberando o franzido cósmico de todos para todos indefinidamente. Tem culpa eu? Não.
        Ora, defende a Humanidade desse malefício! Mas nem eu sei como. Cá do passado, posso convencer alguém no futuro; mas alguém no futuro não pode me convencer de nada. Viagem no tempo me parece inviável, senão alguém do futuro já teria visitado o passado, e disso não há registro.
        Preso, estou me sentindo bem. Lá fora, era mau. E eu me sentia mal por eu mesmo ser mau, sem saber disso. Era a necessidade de sobrevivência, expressa nos gestos, nas palavras, nas relações com os outros. O inferno não são os outros, o inferno é nossa atitude para com os outros. Aqui na cadeia, pude sentir a diferença. A minha ruindade de lá fora ficou evidente, mas não sei se melhorei, pois sozinho não posso comparar.
        Um fato que leva muita gente ao ateísmo é a existência do mal e do sofrimento. Mas sem mal e sofrimento a coisa funcionaria? Sim, funcionaria. Funcionou até Adão. Então, não funcionou por muito tempo. Após a perda é que se dá valor. Porém, mesmo sem crer no pecado original, o mal tem seu lugar no mundo, e o sofrimento tem sua função. Só podemos saber se alguém nos ama, se esse alguém já sofreu por nós, diria um pensamento um tanto egoísta. Mas, como o egoísmo é inerente ao ser vivo, Cristo veio e sofreu por nós.
        Se é errando que se aprende, é sofrendo que se melhora. Que outro fator pode levar alguém de um estado de maldade para um estado de bondade? Poder levar não significa que leva. Há quem piore com o sofrimento, e quer me parecer que quem assim procede é revoltado. Ora, revoltar-se contra a ordem das coisas foi o que o diabo fez.
        Se, porém, o sofrimento tem finalidade boa, bom é sofrer e fazer os outros sofrerem? Nem uma coisa nem outra. A humildade em aceitar o sofrimento sem revolta sim é que é sinal de elevação. Mesmo assim não é meritória, como muito menos o é a expectativa de um prêmio. Por isso Cristo sofreu por remissão de nossos pecados, pois não teríamos como nos redimir por mais que sofrêssemos ou praticássemos o bem.
        É fácil não se sentir egoísta quando se está sozinho como estou, nada melhorei apesar de me sentir melhor. O convívio me proporcionaria uma melhora real. Tu és com quem achei de conviver.
        Se bem que há um camundongo que frequenta aqui os meus domínios. Se fosse uma ratazana ou mesmo um rato, eu já teria providenciado seu funeral com toda pompa e ocasião. Mas camundongo é inofensivo, o bichinho conquistou minha simpatia. Às vezes, o inofensivo leva vantagem sobre o agressivo, eu que o diga, não deveria ter matado aqueles três tarados, o que teria custado eu dar o cu para eles? Teria custado o meu cu, ora! Tu achas pouco porque o cu não é teu. Ou gostas da coisa?... Vai, confessa, quantas vezes mesmo foi que deste essa rabeta?
        Mudar de assunto não resolve questão nenhuma, mas pode preservar uma amizade. Sem ir muito longe, porém, o camundongo ingressou em minha vida na manhã em que acordei com ele tentando roer meu calcanhar. Com o susto, joguei o coitado longe. Eu deveria ter feito coisa semelhante com os tarados, poderia apenas tê-los posto fora de combate, mas o asco, o medo e a raiva do momento me levaram ao homicídio.
        Com o camundongo fui mais venturoso. Ele sumiu por uns tempos, findo os quais reapareceu mais respeitoso, quase reverente, pedindo permissão para vasculhar minha cela. Eu falei vem, e passei a deixar um pouquinho da minha comida para ele, ou ela, não tive ainda intimidade para averiguar. Macho ou fêmea, deve estar celibatário como eu, pois ainda não apareceu outro camundongo por aqui. Ou ele é macho, e a fêmea fica mais perto do ninho, já que nunca o vi grávido, digo, grávida(?). Quem sou eu para estudar a sociologia dos camundongos?
        A propósito, foi meu amiguinho quadrúpede quem me deu a ideia de monologar contigo. De tanto eu fazer seus ouvidos de penico, o bicho, um dia, resolveu roer a parede. Ora, o chão e as paredes da cela são de pedra, o roedor endoidara. Mas percebi nisso uma sugestão do além. Exarar em pedra era um costume da Antiguidade recorrente até hoje.
        Como minha mensagem é de somenos importância, ser exarada não merece, e viável para mim é escrevê-la a lápis. Ainda bem que só se lava o chão, já reparaste? E me puseram para lavar o chão e a latrina, o que me parece justo, apesar de minha inocência.
        De tanto reiterar a alegação de inocência, estou parecendo mais é político. Se bem que não, pois sou inocente de verdade.
        A classe política pode não ser a dominante, mas é privilegiada. Mesmo em situações em que, no faz de conta, as classes sociais tenham sido abolidas, os políticos se beneficiaram. Essa mentalidade vil foi superada pelo altruísmo em certas sociedades, pena que o vulgo goste de imitar o que seja feio.
        E coisa vulgar é Política; lá, os egoísmos particulares tomam vulto na briga de interesses entre grupos de indivíduos e de nações. Já a pessoa do político, até onde eu tenha visto, ou entra na Política para roubar ou entra nela por vaidade, sendo o povo governado pela escória.
        Mudar de assunto, de novo, parece-me boa ideia, ainda que Política seja uma responsabilidade geral, mas o camundongo é tão engraçadinho... Está ao meu lado, vistoriando a obra da qual se constituiu o mentor intelectual. Ser engraçado, pode ter conotação cômica, mas é sobre tudo ter graça, participar da Graça. Se até um camundongo pode participar da Graça, por que há tanto desgraçado no mundo? E olha que quem diz isso é um condenado preso. Eu.
        Tu me responderias, se pudesses, que é mais fácil ser desgraçado. E dar-te-ia toda a razão. Mas por que é assim? O tema é tão antigo quanto a Civilização. Sem querer te importunar aludindo novamente a ele, mas Cristo... diz para passarmos pela porta estreita. Contudo, se o fardo dele é leve, é porque alguém em desgraça acaba cansando, e procura a Graça, a não ser que ame o mal.
        Tu amas o mal? Tomara que não. Mas já flertaste com ele? Eu só posso responder por mim. Não há como dizer não, é o pecado original em nós. Adão e Eva foram iludidos pelo diabo, por isso descreram em Deus, desgraçaram-se. Eu descri também, por mais que não tenha sido uma descrença total, e talvez ainda esteja nesse estado morno até hoje, ou punheta não é pecado?

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 2



CAPÍTULO 2

        Tu ainda estás aí, ou te escandalizaste comigo?
        É claro que estás aí! Tu e eu somos a mesma pessoa, ou ainda não percebeste? Eu sou um delírio da tua loucura. Isto aqui nunca foi escrito, tu és que o escreves agora, louco que és.
        Não, isso foi só uma possibilidade. Eu sou eu, tu és tu, e jacaré é um bicho. Faço é chamar atenção para essa apologia da loucura que volta e meia a gente ouve por aí. Fazem vista cega para o evidente: loucura é doença, o que não pode ser algo bom. A loucura é dolorosa, inclusive com dor corporal.
        Loucura só é boa para a farmácia e para o médico, que vive da desgraça alheia, como o advogado. Pronto, aí já comprei briga à toa! Tomara que tu não sejas médico nem advogado, povinho fuleiro esse.
        O cara vai ser médico ou advogado para enricar e ter status. Pode até se iludir envergando o dólmã do idealismo altruísta, mas isso é só vergonha de si mesmo. Salvo raríssimas exceções. Que não é o teu caso, sejas ou não dessas referidas profissões.
        Já profissão que não dá status nem muito dinheiro, mas ajuda nos bastidores é a de engenheiro. Cursei até o terceiro ano de Engenharia, sem reprovar nenhuma cadeira, mas então fui acometido pela loucura, que desgraçou-me por dez anos, até que a dúvida em mim mesmo e um esforço de vontade contínuo e incessante orientado pelo sentido da vida derivado de um raciocínio lógico estabilizou minha suscetibilidade emocional deveras aflorada desde a infância. E o raciocínio lógico está na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.
        Deus existe. Essa é a única certeza absoluta que tenho.
        E eu, existo? Sim, eu existo porque me sinto, e por enquanto. Contudo, minha existência não é uma necessidade lógica do Universo.
        Mas, para ti, eu sou uma necessidade lógica do que estás lendo. Enquanto tu és apenas uma hipótese para mim. Mesmo assim, essa necessidade de haver um autor para o que lês não implica que esse autor tenha de ser eu. Então, o que sou eu? Para tu, que me lês, sou o autor, o autor da hipótese que tu és.
        Então, me diz, como é ser uma hipótese? A hipótese está para o teorema assim como a esperança está para quem espera. De maneira que eu espero. Vida de condenado é esperar. Coisa estranha é o crente ser condenado a esperar, ao passo que o ateu é livre para desesperar.
        Hipótese e teorema têm a ver com escola, pois é: Quem sabe faz, quem não sabe vai dar aula. Lecionei em escola pública, é, pois é. Quem leciona em escola pública deve ter o pudor básico de não reclamar do baixo salário, isso é óbvio, mas o cinismo dos professores e políticos impõe um acordo tácito. Salários altos atrairiam profissionais mais qualificados para o serviço público, mas não dá para pagar bem tanto professor, porque é muita escola, e ainda tem a porcentagem de praxe reservada para os políticos roubarem.
        Ainda tem a degeneração da família para aumentar o problema escolar, e quem está falando isso é um condenado preso. Acontece que, sendo eu inocente, estou preso no lugar de alguém, e esse alguém deve estar por aí todo soltinho feito a Dagmar em seu vestido saco, e arrumando confusão com piston de gafieira.
        Hipótese, gostaste do afresco que pintei do panorama atual? No futuro melhorou? Não, né? Nunca melhora. A Humanidade é ladeira abaixo desde Adão, o by means of natural selection tem algum pé quebrado; não é porque algo acontece que seja a única coisa que aconteça. Se bem que, quanto a nós, ocorrem ciclos de melhora e piora moral, e incremento tecnológico não parece totalmente relacionado a isso. O fato é que hoje está uma merda. Está parecendo o Livro das Lamentações numa interpretação inspirada pelo Apocalipse.
        Pensei em escapar daqui, mas para esse mundinho aí de fora vale a pena? E dessa cadeia aqui ninguém escapa, ninguém nunca escapou pelo menos. É como a vida, só morrendo. Tem preso que se suicida aqui também, como lá fora.
        Tu reparaste que minha letra é muito bem legível mas não é bonita, meu esforço é que seja legível, pois há letras bonitas pouco legíveis. Estou diminuindo ao máximo a letra porque não sei o quanto ainda escreverei nestas paredes.
        Tive calo no dedo médio da mão direita nos primeiros anos de escola por apertar muito o lápis na hora de escrever, minha mão treme. Meu cérebro funciona em conflito, os neurônios das diversas partes se embaralharam e trocaram de lugar. Isso acontece bastante no mundo.
        Mas meu anjo da guarda me ajudava até demais no começo da vida, eu ficava sabendo das coisas antes de as aprender, intuição forte. Logo vi que isso poderia ser perigoso, e passei a podar esse conhecimento prévio das coisas.
        Coisa semelhante ocorreu no ensino médio, mas sem anjo da guarda. Lendo livros em que a gramática e o vocabulário eram melhores que o coloquial de nosso tempo, tive de me corrigir para não falar assim com as pessoas, e escrever também. Em um trabalho de História, a professora perguntou de onde eu o havia copiado. Disse que eram minhas próprias palavras, e ela me orientou a não escrever daquela forma livresca. Ok, agora escrevo o mais coloquialmente possível, ainda que tendo em vista manter a precisão e a durabilidade da mensagem.
        Porém, coitado sou. Ora, estou preso ou não? Só que, após um hiato de tempo infernal, o anjo da guarda resolveu me ajudar de novo. Ele ausentou-se por culpa minha, de mais ninguém. Falo por mim, já disse, o assunto de que posso falar sou eu, mesmo porque não tenho a mínima cultura, e falar dos outros com propriedade é impossível para mim sem difamação ou elogio vão. Mas, quantas vezes mesmo foi que tu deste o cu? Desculpes perguntar; se pergunto, é por ignorância também.
        Sodomia deixou de ser vergonha, alguns até acham inconscientemente que isso seja sinal de refinamento. Mas não devo falar desses alguns, devo ater-me a mim, não é? Agora, tem uma coisa, acho que sodomia é pecado. Talvez porque ser sodomizado me pareça dolorido, e sodomizar me pareça nojento. Caso eu tivesse a mania feia, aí é que está o busílis da questão. Pecaria adoidado... Pois punheta é pecado, e não vivo sem. Que mal há na masturbação? Fumar faz mal, mas não está catalogado no livrão das penitências. Vício é pecado, fumar é vício, logo...
        O vício de rezar é virtude. Como é que ficamos? Cada passarinho conhece o cu que tem. Já vi passarinho comendo pimenta malagueta. Regrar sobre cada detalhe da existência cai no ridículo.
        Mas, religioso sodomita, eu não perdoo. Eles têm mais é que tomar no cu! Ué, o negócio deles não é regular a vida dos outros?
        Estou me apaixonando por mim mesmo. Lá fora, eu amava minha esposa; aqui, minha mão está ficando cada vez mais interessante. Mas não é ela minha paixão, nem paixão é o termo certo. Tenho adquirido intimidade comigo mesmo. Percebi que, mesmo inocente, eu mereço estar preso, e mereço no sentido meritório, não depreciativo. Sei que a prisão normalmente é uma escola do crime, isso para a mente criminosa. Como esse não é o meu caso, acho que até tenho melhorado. Estar isolado dos demais detentos, além de me preservar da contaminação moral, colabora na consciência do meu ser, que estranhamente vivia com menor intensidade livre do que preso. A sensação de liberdade que agora experimento é superior, e estar sendo injustiçado incrementa essa sensação, talvez por eu ser de fé católica, e um castigo sem crime psicologicamente me aproxime do Cristo, o cordeiro inocente que se oferece em holocausto.
        Não quero aqui cometer heresia, nem colher-me numa ideia megalômana, ao me comparar a Cristo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Só estou passando muito de longe pelo que se costuma chamar experiência da cruz. Cada um que pegue sua cruz, e siga-o.

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 1

Forte de Monsanto, que, em 1914, deu origem à única prisão
portuguesa de segurança máxima: a Cadeia de Monsanto.

CAPÍTULO 1

        Eu. Essencialmente, é isso. Só posso falar por mim. O assunto sou eu mesmo. Outrem não me diz respeito; a não ser na medida em que interfira em mim; especular sobre impressões alheias então fica basicamente no achismo, mas, o que eu acho, eu digo, e duvidar é direito de qualquer um, inclusive eu de mim mesmo.
        Vai este relato geral e impreciso escrito a mão nas paredes de uma cela de cadeia, por necessidade de comunicação de um preso isolado dos demais, e sem outra alternativa natural ou artificial de receber ou enviar notícia. Se tu estás lendo isso, azar o teu.
        Ou sorte minha. Pensando bem, não. Pensando um pouco melhor, sim. Na verdade, tanto faz. No fim das contas, sou eu comigo mesmo, e tu contigo mesmo desde o debutar da consciência a fazer registros na memória até o encontro com Deus ou com o diabo, sem pai nem mãe nem advogado.
        Prestarei contas no além. Por isso, presto contas a mim mesmo agora e a todo momento. Mas o que estou falando? Estou preso! Já estou prestando contas aos milhões de cidadãos que estão lá fora, mas me sustentando aqui dentro... É. É..., preso deveria trabalhar, né? Bando de vagabundo! Escória da espécie humana! Eu.
        Eu, não. Sou inocente. Quero dizer: Eu não sou inocente, não. Eu sou inocente!
        Essa é só minha opinião, e a respeito de mim mesmo, fato que endossa a outra minha opinião que vem a ser a opinião de que minha opinião não interessa a mais ninguém a não ser a mim, na minha opinião. Tua opinião difere disso? Como poderei saber? No além, tu me diz, se formos para o mesmo destino. Agora, eu estou numa cela; e tu também estás, mas no teu agora, não no meu.
        No teu agora, eu não sei, mas, no meu agora, todos os planetas do sistema solar têm aparecido simultaneamente bem grandes no céu diurno, durante meus sonhos noturnos. Não sei o que isso significa, só sei que sou inocente, e uma coisa não tem nada a ver com a outra senão eu.
        Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. E, quem tiver olhos para ver, não apalpe. Apalpar dá processo... Eu, que nem apalpei, estou preso.
        Hoje, tudo dá processo. A sociedade atual colocou todos os seus sócios uns contra os outros conforme previsto em leis que usurpam qualquer mérito ou ensejo ao bom-senso ou apelo à bondade. Astúcia e malícia respaldadas pela legislação negam qualquer brecha à pureza volitiva e inocência. E eu sou inocente.
        Sou inocente na medida do possível; só posso responder por mim, a maldade na cabeça das pessoas não depende de mim. Se dependesse de mim, eu não estaria preso, nem teu rabo. Por que tu não soltas o rabo? Eu jamais seguraria o rabo, nem o meu nem o de ninguém. Por isso não preciso soltar o rabo. Concordas comigo? Então, solta logo esse rabo!
        Nesse ponto temos de definir os parâmetros que diferenciam um rabo de uma raba, embasados teoricamente na diferenciação entre nabo e naba, que lhes é análoga. Análoga, etimologicamente, de analogia, foneticamente de anal logia, estudo do que é próprio do cu.
        A propósito, quantas vezes mesmo foi que deste o cu? Se não lembras, o franzido já laceou. Se negas tê-lo dado, é porque a negação compõe um dos estágios primários da esquizofrenia sodomita. É, os anos passam, mas o ânus continua o mesmo, guardião da memória pré-consciente da bunda, análoga à do rabo, que se expande consideravelmente na raba, feita para a naba, assim como dogmatiza a anal logia ao estabelecer o rabo para o nabo.
        Isso posto, bunda de cadeia fica passiva de ser passiva. Mas a minha não. Sou inocente.
        Porém, do supra exposto, indaga-se que, se minha bunda não foi passiva, foi ativa?
        Mudar de assunto é uma virtude, afinal obsessão é um vício, e este é mania feia. Mania feia semelhante a dar o cu. Então, quantas vezes mesmo foi que deste o cu?
        Obviamente ficarei sem resposta, estando eu na arqueologia de tua leitura. Mas espero ter aberto tua mente, expandindo teu raio de consciência durante a retração cósmica do teu terceiro olho, em analogia ao fenômeno onírico dos planetas gigantes no céu diurno durante uma apocalíptica retração do próprio sistema solar, se a Terra não for plana e centro da Criação...
        Mas tudo é uma questão de ponto de vista. Eu só posso responder por mim, tenho dito. Na óptica de Isaac Newton, no que a gente vê branco, ele via um arco-íris. Na minha perspectiva, porém, a gravitação celeste dele ficou avacalhada. E, o que eu chamo de azul, tu também o chamas, ainda que possas estar vendo o que eu vejo como amarelo. Daí, concluo novamente que eu só posso falar de mim mesmo. Mesmo que a mistura de azul com amarelo acabe sendo verde para nós dois. Mas verde é a palavra, o que tu vês como verde não é uma certeza absoluta para mim.
        Do que posso ter certeza afinal? Nem da existência dos outros e do Universo posso ter certeza. Tu existes? Pergunta inútil.
        É, mudar de assunto evita a paranoia, entre outros males. E olha que estou falando com uma parede de cadeia. Nem tanto, estou a escrevinhar nela. Mas, se tu não estás lendo, eu estou falando contigo sem que tu jamais o saibas, e tu acabas sendo todos retoricamente, na pessoa de ninguém objetivamente. Chegou a comida.
        Cagando estava a dama mais formosa, escreveu Bocage: Incultas produções da mocidade. Essa livre-associação vem a calhar na minha atual conjuntura. O fato é que a dama mais formosa cagava mesmo, consolo para as feias. Não sou feio, na verdade sou muito bem apessoado, mas minha modéstia me impede de dizer que sou o cavalheiro mais formoso, ainda que o seja. Outrossim, beleza não põe mesa. Logo, pau grande seria melhor. Mesmo porque pau grande ajuda até a pôr a mesa, é o pé de mesa, pois pau é feito de madeira. Se há uma constante universal é pau grande, tanto homem quanto mulher quer ter um.
        Se bem que uma das contradições da catilogência dialética, à luz de Lacan, numa abortagem freudiana, é que o Homem quer uma buceta, e a Mulher quer um caralho. Só siririca e punheta pra dar uma mãozinha nesse problema. Ou não, o que é muito melhor.
        Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Se tu estás lendo isso, é sinal que eu não estou mais aqui. Mas tu estás. Dizer o óbvio é melhor do que mentir. Não minto, sou inocente.
        A mentira pôs tudo a perder no mundo, junto com crer na mentira, por descrer da verdade. Às vezes a coisa é tão óbvia, que neguinho duvida. A dúvida e a curiosidade são duas gêmeas siamesas unidas pelo útero que pariram a Ciência.
        Ciência é sabença, não é sabedoria. Eu mesmo não duvido que tu podes estar duvidando da palavra de um condenado, nisso sou sábio, e tenho ciência. Mas apenas nisso, e pressupondo que estejas lendo o que escrevo. Nada palpável, e é bom não apalpar. Dá processo.
        Dá processo se alguém não gostar. Se gostar, não dá. Ou melhor, aí é que pode dar. Bem antigamente não havia esse problema; ninguém apalpava, era tudo na castidade muita, e funcionava pelo menos melhor que hoje. Contudo, dizer isso é implorar pela pecha de reacionário. Reacionário é palavrão, conservador é melhor. Aliás, conservador evita a gênese do reacionário, pois vai conservando de modo a não haver a necessidade de se reacionar.

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sábado, 9 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 34 e epílogo



Capítulo 34

         Cunegundes está entre os vivos.
         Vi em outro filme de Ana Carolina uma personagem confessar que tinha vergonha de desejar homem. Não sei por que, mas, realmente, mulher que sai desejando adoidado, expressando e concretizando seus desejos sexuais, acaba se dando mal ou se fodendo mesmo.
         Minha senhora, nesse ponto, foi mais venturosa. Desejava, apontava, e pronto. Era uma mulher muito viva.
            Cunegundes está entre os vivos.
         Eu estava assistindo ao telejornal da meia-noite, quando o presidente Temer apareceu numa reportagem. Senti um calafrio, e fui fechar a janela. Soltei um puta peido!, com caldinho e tudo. Era Temer na janela, mostrando os dentes caninos; tinha se transformado em vampiro. Percebendo meu cagaço, disse ele: “Minha vingança sará malígrina!”, e deu uma cuspidela para o lado. Era um vampiro brasileiro.
         Estando eu paralisado de horror, Vampiro Temer atravessou a parede, e créu, mordeu meu pescoço.
         Minha porção mulher veio à tona com tal mordida tão bem dada.
         Senti enjoo e cólica menstrual, mas senti fúria de TPM, eram os hormônios se rebelando. Pelos enormes nasceram em todo o meu corpo, minhas unhas viraram garras, meus dentes viraram presas. Eu virei lobisomem.
         Comi a minha vizinha.
         Mas, quando a caguei, ela se transformou num zumbi. O ciclo se completara. Zumbis mordiam gente, que viravam vampiros, que mordiam gente, que viravam lobisomens, que comiam gente, que eram cagadas zumbis!
         Juntei-me à horda de monstros, e saí comendo gente até encontrar Cunegundes, que foi a zumbi mãe de tudo aquilo.
         Soube então que Afrodite roubara uma retroescavadeira, e, cavocando no cemitério, libertara Cunegundes dos ínferos.
         Agora eu posso dizer: Sou feio, mas tô na moda.
         E nossa vingança será maligna! Você aí que me lê, tome esses escritos como advertência. Na próxima lua-cheia ou na próxima lua-nova, quando você sentir um calafrio no espinhaço, é nóis na fita. E créu.
         Sinal dos tempos, nossa horda disforme invadirá cada buraquinho deste mundo decrépito a fim de dar aos viventes a própria feição da desgraça em que têm vivido sua libertinagem. E créu.
         Vai vendo, vai vendo.
         Isto posto, ponho o ponto final.

   





Epílogo

         A propósito da Literatura Sanitarista referida nos anteriormentes deste livro, segue abaixo um soneto escrito nos conformes dessa estética, para livre divulgação latrinas do mundo afora:



FLATO VERÍDICO

O peido sai da peida, e é um gás
translúcido, odorífico, butano
mesclado com partículas do humano
cocô, e vem daí o seu cartaz.

O peido é igual a filho, só quem faz
aguenta. Digo bem e sem engano,
pois peido é sobre a gente soberano,
e, às vezes, é questão de guerra e paz.

Falar como se a boca fosse o cu
apraz quem reconhece, na humildade,
a leda condição de ser jacu.

Mas, tendo o erudito a tal vontade,
irá peidar, e, aí, o deixo nu,
despido de qualquer vã veleidade.



Nhandeara, 9 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


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sábado, 2 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 33



Capítulo 33

         Sinto atração pelo defeito. Mulher toda perfeitinha não é atraente. Cunegundes era bem dotada nesse quesito, tinha a qualidade defeituosa a contento. Uma de suas apetitosidades, além do joelho de porco, era o hiato entre seus dois primeiros dentes incisivos da arcada dentária superior. Outra apetitosidade sua era ter o mesmo defeito na arcada dentária inferior. Tinha as pernas tortas também, a bunda faltando um pedaço, sardas na testa, e olheiras roxas. Um piteuzinho.
         Minha cara-metade, meu outro lado da laranja, tinha domínio intelectual sobre o próprio peido; controlava-o ao extremo, não apenas retendo-o, mas dando o tom que quisesse a ele. Cunegundes assobiava com o cu. Eu muito me admirava desse talento nato do meu amorzinho, eu que consegui ser peidorreiro de ofício.
         Mas Cunegundes nunca ganhou a vida com o cu. E não foi por falta de incentivo. Cheguei a inscrevê-la num concurso público para primeiro trompete da Banda dos Fuzileiros Navais; ela, porém, em sua humildade, preferiu ser dona de casa. Mulher admirável, mulher à frente de seu tempo.
         Quem me lê, talvez esteja se perguntando por que tanto louvo as qualidades de Cunegundes, se ela, por racismo infame, preferiu ter todos os nossos filhos com outros homens. Ora, mas isso é só um detalhe, pai é quem cria, diz o ditado popular. E tem mais: Sara, esposa de Abraão, ordenou que sua escrava Agar se deitasse com ele a fim de poderem ter uma descendência. Eu, consentindo que minha senhora concebesse nossa prole com outros homens, livrei-a de qualquer culpa adulterina. É ou não é?
         O importante é participar. Necessário é o amor. Só o amor constrói. “O amor vem por princípio, a ordem por base, o progresso é que deve vir por fim.”. Não sou eu que o digo, mas Noel Rosa, que nunca foi corno.
         A cornologia, porém, é uma área do conhecimento humano fundada na Antiguidade junto com a cosmologia, a cosmogonia e a cornogonia. Filha da agonia, a sabedoria de todo corno é questionada e posta em xeque por uma frase indubitavelmente duvidosa, que vem a ser esta: “Todo castigo, para corno, é pouco.”. Eu nunca vi castigo algum, mesmo porque, corno não sou. Pelo contrário, sou é ovacionado por onde passo: “É ele! Lá vai ele!”.
         Debruçando-me sobre questões cornológicas, reparei, entre outras coisas pitorescas, que há corno que se gaba de o ser. Normalmente são as mulheres as mais orgulhosas pela galhada que ostentam, achando virtude no costume do marido de passar o rodo geral.
         No pertinente a sexo, existe de um tudo. Minervino, por exemplo. Minervino broxou, broxou de vez, e nem por um Viagra via o palhacinho envergar o paletó. Até que sua senhora lhe mandou a guampa. Minervino, quando a viu galopando sobre a pica de aço do mestre de obras como se fosse uma obra do mestre Picasso, ficou tesudo, e não pincelou mais, desde que a coisa fosse feita a três.
         O remédio de Minervino era o veneno da traição.

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"Cagar lo espiritual hasta hacerlo palpable, espiritualizar la mierda hasta hacerla invisible, en eso consiste el arte."
(Glauco Mattoso - Jornal Dobrabil)



sábado, 26 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 32



Capítulo 32

         “No princípio era o Verbo...”, diz o Evangelho.
         Os verbos indicam ação, e esta indica insatisfação. Deus luta, diz o Livro do Gênesis na ocasião em que Jacó se vê obrigado a lutar com o anjo. Deus, porém, é todo Graça e contentamento, pois, ao criar o mundo, Ele já o havia criado, Deus está fora do tempo e em todos os tempos. Logo, não faz sentido perguntar o que Deus fazia antes de criar o mundo. Até um peidorreiro feito eu enxerga isso, cacilda!
         O Verbo reverbera nos demais verbos particulares, nas nossas ações, as quais indicam nossas necessidades de reverberar o Verbo em nossos verbos constantemente. Os verbos em que estamos nós agindo, e, pensando bem, também os verbos que dependem de outrem alheio ao ser humano são centelhas divinas pelo mundo afora. Isso faz sentido quanto às almas humanas que animam os seres humanos, e às almas das coisas que animam as coisas, como um elétron, por exemplo. O mundo reverbera o Verbo.
         Sinto uma pontada meio na diagonal do ventre, e peido. Saboreio o peido, ou melhor, olfateio o peido, ou melhor, cheiro o peido, ou melhor, gozo meu próprio peido, pois de peido alheio quero distância.
         A felicidade custa tão pouco. A infelicidade custa caro. Vejo gente correndo atrás da infelicidade a vida inteira, sofrendo e fazendo sofrer em nome da infelicidade que em seu delírio lhe sorri. Sorri com um punhal na manga, com o qual despacha a gente coitada desta para pior.
         Felicidade, é em nós que ela existe. O único lugar onde pode haver felicidade é a alma. Esta felicidade começa com a Moral Natural, passa pela sabedoria, alia-se às virtudes, complementa-se com a fé, e alcança a plenitude em Nosso Senhor Jesus Cristo.
         É, admito que não sou politicamente correto. Professo minha fé católica despudoradamente. Para que pudor quanto a isso?
         Despudor pior é esse povo sem rumo fazendo merda, deitando em cima, rolando, e dando risada. Estou me referindo principalmente à degeneração da família, degeneração que é a célula máter do Livro das Lamentações. Vai lá e lê, vê se não tem tudo a ver com a crônica policial.
         Desgraça sempre houve, mas hoje o inimigo está primando em requintes apocalípticos, a desgraça globalizou-se. Por que não a fé globalizar-se também? A mídia cristã faz sua parte. O problema é que a grande mídia tem feito mil vezes mais, e melhor em ser pior.
         Peido é felicidade barata, felicidade dos sentidos. É lícito peidar e gostar do próprio peido, é justo. Mas não é sagrado. Sagrada é a felicidade em comunhão com a Verdade.
         O ser humano quer conhecer a Verdade, é um pendor natural. Só que o caminho da Verdade é a Cruz. Sofra tomando sua cruz, pois o sofrimento é fato com ou sem ela.
         A morte faz parte da vida, mas a vida faz parte da morte. Fora do Tempo viveremos a vida verdadeira e perene na Eternidade, e o Paraíso começa aqui.

continua sábado...


domingo, 20 de janeiro de 2019

ENSEJO EDIFICANTE

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ENSEJO EDIFICANTE

O breu, não sei por que, lá muito havia;
a falta, o nada ser era patente
diante da ignorância onipresente,
pois luz sobreabundava em carestia.

Porém, rompendo a enérgica apatia,
um grito metralhou todo o ambiente;
o grito era festivo e descontente,
o grito fez valente a covardia.

E, enquanto retumbava a euforia,
a mui leal prudência deu o alarme,
pois inda era só breu que persistia.

Mas tudo então brilhou no extremo charme
da verdade, por quem eu não perdia
o ensejo edificante de calar-me.


Nhandeara, 3 de agosto de 2017
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 19 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 31



Capítulo 31

         Tenho dois CDs do compositor e cantor cearense Falcão, gosto das músicas dele, do humor, do estilo e da crítica. Um dos CDs leva o título da canção A besteira é a base da sabedoria. Frase espirituosa, e, de certa maneira, certa, certeira e com certidão de verdade. Sim, pois, quando fazemos uma besteira, é porque erramos, e é errando que se aprende.
         Ocorre-me assim este corolário: A ignorância é a base da sabedoria.
         Nem sempre erramos por ignorância, mas esta colabora bastante com o erro. Escatologicamente falando, quem conhece a verdade não erra, a não ser que goste do erro, goste do mal.
         Todavia, a ignorância é a base da sabedoria uma vez que move, pela insatisfação, à vontade de conhecimento, seja por necessidade legítima, seja por curiosidade desnecessária. Constatada a ignorância, somos movidos a dissipá-la por meio de suposições e experiências. Após conhecer o que antes se ignorava, muitas vezes surge uma nova ignorância a ser superada, e assim por diante.
         De modo que a ignorância é a base da sabedoria, e, quanto mais se ignora, mais se conhece.
         Não, porque ciência não significa sabedoria. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Pensa bem. Sabedoria é mais próxima do bom-senso cumulado de vivência, enquanto ciência está mais próxima da técnica e do conhecimento.
         Logo, o corolário corrigido fica: A ignorância é a base da ciência.
         Já a base da sabedoria é o bom-senso. Mesmo porque, onde se despreza o bom-senso, inexiste sabedoria. Bem e mal novamente duelam; quero acreditar que o bom-senso busque o bem, e o bem ame a verdade.
         Mas, como não dou um peido pelo meu bom-senso nem merda nenhuma pelo meu conhecimento, tenho o costume de fazer besteira. Mas, se a besteira é a base da sabedoria, estou pregado na base.
         O jeito é estudar a fim de adquirir bom-senso. Quem estuda sem adquirir bom-senso gosta da coisa torta, de perseverar no erro. A intuição tropeça fazendo besteira, e aciona um alarme retumbante: Olha, tu te esqueceste da Moral Natural!
         Para quem não possui Moral Natural, ela não faz sentido; mas advirto que até os animais a têm. Vi um vídeo em que uma onça mata uma macaca a fim de devorá-la; nisso, repara que apegado à macaca está um filhote; então, a onça cata delicadamente o macaquinho, e pousa-o num galho de árvore; a onça, perdendo o apetite, deixa o local e o cadáver que devoraria. Isso é Moral Natural.
         Quanto ser humano não tem tal bom-senso instintivo, quanta gente, talvez por não ter alma, é inferior a uma besta fera. Dá pena e asco ao mesmo tempo.
         Seria possível ao ser humano não ter alma? Parece que considerável parcela da Humanidade, por não ter alma, está nesta vida como que figurantes ou robôs, gente que é só matéria, tipo um tubo de ensaio onde uma reação química se desencadeia sem a interferência de uma vontade própria. Os desalmados aparentam vontade, mas ali não reside consciência volitiva.

continua sábado...

"Cuidar muito da saúde é doença."
(Olavo de Carvalho)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ANNO GRATIA 2019



ANNO GRATIA 2019

Um mundo pós-cristão se descortina,
masturba-se no XVIDEOS todo dia,
normal é praticar a sodomia,
mamãe é, na novela, a cafetina.

Se é fake ou fato, o fato é que se opina
demais no Facebook, à revelia,
e o muito se mostrar, de anomalia,
virou uma obsessão por purpurina.

A bicicletaria está às moscas,
engorda a juventude ao celular,
e passa em videogame as horas foscas.

Um broto de bambu em chão lunar
distrai do pertinente a coisas toscas
o povo entorpecido a vegetar.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 12 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 30



Capítulo 30

         Peido inoculado em pneumáticos foi a tecnologia que desenvolvi, modéstia à parte. Sim, a tecnologia tem seu lado bom. Fato que me leva a ponderar sobre os lados das coisas. Que lado é melhor: o lado de fora ou o lado de dentro? O que seria melhor: admirar a beleza exterior, ou penetrar na beleza interior?
         Para um condenado preso, o lado de fora é melhor. Quanto à beleza, normalmente penetrar na beleza interior depende de se admirar a beleza exterior. Na dúvida, foda-se.
         A tecnologia tem seu lado bom, mas tem muito seu lado mau. Pelo andar da carruagem, a carruagem já virou carro, o carro virou avião, e o avião virou espaçonave. A espaçonave virará teletransporte. Nisso, já inventei tecnologia de ponta, pois peido será sempre peido, é flato consumado.
         Um dos lados maus da tecnologia é a gente ficar na mão dela, coisa que já acontece. Mas, e se nossas vidas dependerem totalmente da tecnologia? Louvada seja a policultura agronômica e também o selo orgânico. Ou seja, Deus tinha razão. E vivemos no melhor dos mundos possíveis, concordando veementemente com o Dr. Pangloss.
         No entanto, querem colonizar Marte. É. Disfarça, digo nada.
         Mas, se eu não fosse eu, seria o quê? Você, se não fosse você, seria o quê? Não seríamos, de modo geral. A consciência é o dedo que interfere movendo ou parando uma fileira de dominós que se derrubam. Se não tivéssemos consciência, ainda que pudéssemos aparentar consciência de nossa própria existência, não a teríamos. O fator externo ao corpo é a alma, e por ela temos consciência, pela alma somos.
         Logo, se eu não fosse eu, simplesmente não seria. E, se minha mãe fosse homem, eu teria dois pais. O que me leva a um problema infinitamente complexo: se o peido não fosse o peido, o que seria?
         Se Deus é onipotente, poderia criar uma cadeira em que não pudesse Se sentar? Ou não é onipotente? Ora, se Deus nos concedeu sabiamente o livre-arbítrio, Ele quis não ser onipotente.
         Que graça haveria em ser onipotente?
         Criar a Criação foi um ato de amor. Contar com a colaboração das criaturas significa que o Criador não quer ser autossuficiente, não quer a solidão. Quem quer companhia quer amigos, quem quer amigos quer amar e ser amado. Por isso Deus ama. Por isso Deus quer que o amemos. Por isso existe o drama da entrada do pecado no mundo.
         E o peido há de possuir sua finalidade também. Que é encher pneu. Minha colaboração no drama da existência foi aplicar cientificamente o peido, direcionando-o introspectivamente por meio da tecnologia rumo ao interior do pneu, na direção oposta ao meu interior extrovertido. Senão, vejamos: a cada ação, corresponde uma reação de igual intensidade em sentido contrário.
         Se ninguém concorda comigo, Isaac Newton concorda.
         E basta.

continua sábado...


"quando come osso,
todo bassê faz um troço
branco, duro e grosso."
(Glauco Mattoso)