CAPÍTULO 3
Isolaram-me
nesta cela, porque, no primeiro dia de prisão, eu matei, só com as mãos, três
detentos. Então, a direção da cadeia achou que eu fosse de alta periculosidade.
Mas eu sou inocente.
Agora,
parece que ficarei aqui até o meu dia do Juízo Final, em que espero ser
absolvido de tudo quanto me acusam. Entrei aqui por engano da justiça humana, e
aqui matei por legítima defesa. Ora, queriam comer meu cu. Tu o darias?
Tudo
bem que não era para tanto, mandar três almas para o inferno só por causa de
uma coisinha fedorenta foi exagero. Foi exagero porque pimenta no cu dos outros
é refresco, ou tu liberavas numa boa? Não sei não, tu és esquisitão. Quem cala
consente.
E tu
terás de calar por enquanto. Se este escrito não for nunca lido, o todo o mundo
retórico representado por ti calará para sempre, liberando o franzido cósmico
de todos para todos indefinidamente. Tem culpa eu? Não.
Ora,
defende a Humanidade desse malefício! Mas nem eu sei como. Cá do passado, posso
convencer alguém no futuro; mas alguém no futuro não pode me convencer de nada.
Viagem no tempo me parece inviável, senão alguém do futuro já teria visitado o
passado, e disso não há registro.
Preso,
estou me sentindo bem. Lá fora, era mau. E eu me sentia mal por eu mesmo ser
mau, sem saber disso. Era a necessidade de sobrevivência, expressa nos gestos,
nas palavras, nas relações com os outros. O inferno não são os outros, o
inferno é nossa atitude para com os outros. Aqui na cadeia, pude sentir a
diferença. A minha ruindade de lá fora ficou evidente, mas não sei se melhorei,
pois sozinho não posso comparar.
Um
fato que leva muita gente ao ateísmo é a existência do mal e do sofrimento. Mas
sem mal e sofrimento a coisa funcionaria? Sim, funcionaria. Funcionou até Adão.
Então, não funcionou por muito tempo. Após a perda é que se dá valor. Porém,
mesmo sem crer no pecado original, o mal tem seu lugar no mundo, e o sofrimento
tem sua função. Só podemos saber se alguém nos ama, se esse alguém já sofreu
por nós, diria um pensamento um tanto egoísta. Mas, como o egoísmo é inerente
ao ser vivo, Cristo veio e sofreu por nós.
Se é
errando que se aprende, é sofrendo que se melhora. Que outro fator pode levar
alguém de um estado de maldade para um estado de bondade? Poder levar não
significa que leva. Há quem piore com o sofrimento, e quer me parecer que quem
assim procede é revoltado. Ora, revoltar-se contra a ordem das coisas foi o que
o diabo fez.
Se,
porém, o sofrimento tem finalidade boa, bom é sofrer e fazer os outros
sofrerem? Nem uma coisa nem outra. A humildade em aceitar o sofrimento sem
revolta sim é que é sinal de elevação. Mesmo assim não é meritória, como muito
menos o é a expectativa de um prêmio. Por isso Cristo sofreu por remissão de
nossos pecados, pois não teríamos como nos redimir por mais que sofrêssemos ou
praticássemos o bem.
É fácil
não se sentir egoísta quando se está sozinho como estou, nada melhorei apesar
de me sentir melhor. O convívio me proporcionaria uma melhora real. Tu és com
quem achei de conviver.
Se
bem que há um camundongo que frequenta aqui os meus domínios. Se fosse uma
ratazana ou mesmo um rato, eu já teria providenciado seu funeral com toda pompa
e ocasião. Mas camundongo é inofensivo, o bichinho conquistou minha simpatia.
Às vezes, o inofensivo leva vantagem sobre o agressivo, eu que o diga, não
deveria ter matado aqueles três tarados, o que teria custado eu dar o cu para
eles? Teria custado o meu cu, ora! Tu achas pouco porque o cu não é teu. Ou
gostas da coisa?... Vai, confessa, quantas vezes mesmo foi que deste essa
rabeta?
Mudar
de assunto não resolve questão nenhuma, mas pode preservar uma amizade. Sem ir
muito longe, porém, o camundongo ingressou em minha vida na manhã em que
acordei com ele tentando roer meu calcanhar. Com o susto, joguei o coitado
longe. Eu deveria ter feito coisa semelhante com os tarados, poderia apenas
tê-los posto fora de combate, mas o asco, o medo e a raiva do momento me
levaram ao homicídio.
Com o
camundongo fui mais venturoso. Ele sumiu por uns tempos, findo os quais
reapareceu mais respeitoso, quase reverente, pedindo permissão para vasculhar
minha cela. Eu falei vem, e passei a deixar um pouquinho da minha comida para
ele, ou ela, não tive ainda intimidade para averiguar. Macho ou fêmea, deve
estar celibatário como eu, pois ainda não apareceu outro camundongo por aqui.
Ou ele é macho, e a fêmea fica mais perto do ninho, já que nunca o vi grávido,
digo, grávida(?). Quem sou eu para estudar a sociologia dos camundongos?
A
propósito, foi meu amiguinho quadrúpede quem me deu a ideia de monologar
contigo. De tanto eu fazer seus ouvidos de penico, o bicho, um dia, resolveu
roer a parede. Ora, o chão e as paredes da cela são de pedra, o roedor
endoidara. Mas percebi nisso uma sugestão do além. Exarar em pedra era um
costume da Antiguidade recorrente até hoje.
Como
minha mensagem é de somenos importância, ser exarada não merece, e viável para
mim é escrevê-la a lápis. Ainda bem que só se lava o chão, já reparaste? E me
puseram para lavar o chão e a latrina, o que me parece justo, apesar de minha
inocência.
De
tanto reiterar a alegação de inocência, estou parecendo mais é político. Se bem
que não, pois sou inocente de verdade.
A
classe política pode não ser a dominante, mas é privilegiada. Mesmo em
situações em que, no faz de conta, as classes sociais tenham sido abolidas, os
políticos se beneficiaram. Essa mentalidade vil foi superada pelo altruísmo em
certas sociedades, pena que o vulgo goste de imitar o que seja feio.
E
coisa vulgar é Política; lá, os egoísmos particulares tomam vulto na briga de
interesses entre grupos de indivíduos e de nações. Já a pessoa do político, até
onde eu tenha visto, ou entra na Política para roubar ou entra nela por
vaidade, sendo o povo governado pela escória.
Mudar
de assunto, de novo, parece-me boa ideia, ainda que Política seja uma
responsabilidade geral, mas o camundongo é tão engraçadinho... Está ao meu
lado, vistoriando a obra da qual se constituiu o mentor intelectual. Ser
engraçado, pode ter conotação cômica, mas é sobre tudo ter graça, participar da
Graça. Se até um camundongo pode participar da Graça, por que há tanto
desgraçado no mundo? E olha que quem diz isso é um condenado preso. Eu.
Tu me
responderias, se pudesses, que é mais fácil ser desgraçado. E dar-te-ia toda a
razão. Mas por que é assim? O tema é tão antigo quanto a Civilização. Sem querer
te importunar aludindo novamente a ele, mas Cristo... diz para passarmos pela
porta estreita. Contudo, se o fardo dele é leve, é porque alguém em desgraça
acaba cansando, e procura a Graça, a não ser que ame o mal.
Tu
amas o mal? Tomara que não. Mas já flertaste com ele? Eu só posso responder por
mim. Não há como dizer não, é o pecado original em nós. Adão e Eva foram
iludidos pelo diabo, por isso descreram em Deus, desgraçaram-se. Eu descri
também, por mais que não tenha sido uma descrença total, e talvez ainda esteja
nesse estado morno até hoje, ou punheta não é pecado?










