CAPÍTULO 2
Tu
ainda estás aí, ou te escandalizaste comigo?
É
claro que estás aí! Tu e eu somos a mesma pessoa, ou ainda não percebeste? Eu
sou um delírio da tua loucura. Isto aqui nunca foi escrito, tu és que o escreves
agora, louco que és.
Não,
isso foi só uma possibilidade. Eu sou eu, tu és tu, e jacaré é um bicho. Faço é
chamar atenção para essa apologia da loucura que volta e meia a gente ouve por
aí. Fazem vista cega para o evidente: loucura é doença, o que não pode ser algo
bom. A loucura é dolorosa, inclusive com dor corporal.
Loucura
só é boa para a farmácia e para o médico, que vive da desgraça alheia, como o
advogado. Pronto, aí já comprei briga à toa! Tomara que tu não sejas médico nem
advogado, povinho fuleiro esse.
O
cara vai ser médico ou advogado para enricar e ter status. Pode até se iludir
envergando o dólmã do idealismo altruísta, mas isso é só vergonha de si mesmo.
Salvo raríssimas exceções. Que não é o teu caso, sejas ou não dessas referidas
profissões.
Já
profissão que não dá status nem muito dinheiro, mas ajuda nos bastidores é a de
engenheiro. Cursei até o terceiro ano de Engenharia, sem reprovar nenhuma
cadeira, mas então fui acometido pela loucura, que desgraçou-me por dez anos,
até que a dúvida em mim mesmo e um esforço de vontade contínuo e incessante
orientado pelo sentido da vida derivado de um raciocínio lógico estabilizou
minha suscetibilidade emocional deveras aflorada desde a infância. E o
raciocínio lógico está na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.
Deus
existe. Essa é a única certeza absoluta que tenho.
E eu,
existo? Sim, eu existo porque me sinto, e por enquanto. Contudo, minha existência
não é uma necessidade lógica do Universo.
Mas,
para ti, eu sou uma necessidade lógica do que estás lendo. Enquanto tu és
apenas uma hipótese para mim. Mesmo assim, essa necessidade de haver um autor
para o que lês não implica que esse autor tenha de ser eu. Então, o que sou eu?
Para tu, que me lês, sou o autor, o autor da hipótese que tu és.
Então,
me diz, como é ser uma hipótese? A hipótese está para o teorema assim como a
esperança está para quem espera. De maneira que eu espero. Vida de condenado é
esperar. Coisa estranha é o crente ser condenado a esperar, ao passo que o ateu
é livre para desesperar.
Hipótese
e teorema têm a ver com escola, pois é: Quem sabe faz, quem não sabe vai dar
aula. Lecionei em escola pública, é, pois é. Quem leciona em escola pública
deve ter o pudor básico de não reclamar do baixo salário, isso é óbvio, mas o
cinismo dos professores e políticos impõe um acordo tácito. Salários altos
atrairiam profissionais mais qualificados para o serviço público, mas não dá
para pagar bem tanto professor, porque é muita escola, e ainda tem a
porcentagem de praxe reservada para os políticos roubarem.
Ainda
tem a degeneração da família para aumentar o problema escolar, e quem está
falando isso é um condenado preso. Acontece que, sendo eu inocente, estou preso
no lugar de alguém, e esse alguém deve estar por aí todo soltinho feito a
Dagmar em seu vestido saco, e arrumando confusão com piston de gafieira.
Hipótese,
gostaste do afresco que pintei do panorama atual? No futuro melhorou? Não, né?
Nunca melhora. A Humanidade é ladeira abaixo desde Adão, o by means of natural selection tem algum pé quebrado; não é porque
algo acontece que seja a única coisa que aconteça. Se bem que, quanto a nós,
ocorrem ciclos de melhora e piora moral, e incremento tecnológico não parece
totalmente relacionado a isso. O fato é que hoje está uma merda. Está parecendo
o Livro das Lamentações numa interpretação inspirada pelo Apocalipse.
Pensei
em escapar daqui, mas para esse mundinho aí de fora vale a pena? E dessa cadeia
aqui ninguém escapa, ninguém nunca escapou pelo menos. É como a vida, só
morrendo. Tem preso que se suicida aqui também, como lá fora.
Tu
reparaste que minha letra é muito bem legível mas não é bonita, meu esforço é
que seja legível, pois há letras bonitas pouco legíveis. Estou diminuindo ao
máximo a letra porque não sei o quanto ainda escreverei nestas paredes.
Tive
calo no dedo médio da mão direita nos primeiros anos de escola por apertar
muito o lápis na hora de escrever, minha mão treme. Meu cérebro funciona em
conflito, os neurônios das diversas partes se embaralharam e trocaram de lugar.
Isso acontece bastante no mundo.
Mas
meu anjo da guarda me ajudava até demais no começo da vida, eu ficava sabendo
das coisas antes de as aprender, intuição forte. Logo vi que isso poderia ser
perigoso, e passei a podar esse conhecimento prévio das coisas.
Coisa
semelhante ocorreu no ensino médio, mas sem anjo da guarda. Lendo livros em que
a gramática e o vocabulário eram melhores que o coloquial de nosso tempo, tive
de me corrigir para não falar assim com as pessoas, e escrever também. Em um
trabalho de História, a professora perguntou de onde eu o havia copiado. Disse
que eram minhas próprias palavras, e ela me orientou a não escrever daquela
forma livresca. Ok, agora escrevo o mais coloquialmente possível, ainda que
tendo em vista manter a precisão e a durabilidade da mensagem.
Porém,
coitado sou. Ora, estou preso ou não? Só que, após um hiato de tempo infernal,
o anjo da guarda resolveu me ajudar de novo. Ele ausentou-se por culpa minha,
de mais ninguém. Falo por mim, já disse, o assunto de que posso falar sou eu,
mesmo porque não tenho a mínima cultura, e falar dos outros com propriedade é
impossível para mim sem difamação ou elogio vão. Mas, quantas vezes mesmo foi
que tu deste o cu? Desculpes perguntar; se pergunto, é por ignorância também.
Sodomia
deixou de ser vergonha, alguns até acham inconscientemente que isso seja sinal
de refinamento. Mas não devo falar desses alguns, devo ater-me a mim, não é?
Agora, tem uma coisa, acho que sodomia é pecado. Talvez porque ser sodomizado
me pareça dolorido, e sodomizar me pareça nojento. Caso eu tivesse a mania
feia, aí é que está o busílis da questão. Pecaria adoidado... Pois punheta é
pecado, e não vivo sem. Que mal há na masturbação? Fumar faz mal, mas não está
catalogado no livrão das penitências. Vício é pecado, fumar é vício, logo...
O vício
de rezar é virtude. Como é que ficamos? Cada passarinho conhece o cu que tem.
Já vi passarinho comendo pimenta malagueta. Regrar sobre cada detalhe da
existência cai no ridículo.
Mas,
religioso sodomita, eu não perdoo. Eles têm mais é que tomar no cu! Ué, o
negócio deles não é regular a vida dos outros?
Estou
me apaixonando por mim mesmo. Lá fora, eu amava minha esposa; aqui, minha mão
está ficando cada vez mais interessante. Mas não é ela minha paixão, nem paixão
é o termo certo. Tenho adquirido intimidade comigo mesmo. Percebi que, mesmo
inocente, eu mereço estar preso, e mereço no sentido meritório, não
depreciativo. Sei que a prisão normalmente é uma escola do crime, isso para a
mente criminosa. Como esse não é o meu caso, acho que até tenho melhorado.
Estar isolado dos demais detentos, além de me preservar da contaminação moral,
colabora na consciência do meu ser, que estranhamente vivia com menor
intensidade livre do que preso. A sensação de liberdade que agora experimento é
superior, e estar sendo injustiçado incrementa essa sensação, talvez por eu ser
de fé católica, e um castigo sem crime psicologicamente me aproxime do Cristo,
o cordeiro inocente que se oferece em holocausto.
Não
quero aqui cometer heresia, nem colher-me numa ideia megalômana, ao me comparar
a Cristo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Só estou passando
muito de longe pelo que se costuma chamar experiência da cruz. Cada um que
pegue sua cruz, e siga-o.










