Capítulo
29
Tive vinte e cinco filhos com
Cunegundes, e só tive filhos com ela. Todos eles frutos dos coitos de minha
senhora com outros machos. Mas pai é o que cria, e eu criei os vinte e cinco
com muito empenho, que nem o passarinho tejo cria os filhos do passarinho
chupim. Outrossim registrei no meu nome todos eles em cartório. O que faz toda
a diferença.
Fui feliz no casamento, tive família. A
família é a célula máter da sociedade, e a sociedade ou é de capital fechado ou
é de capital aberto. A minha sociedade foi de capital escancarado. Em
compensação, nossa descendência povoa a Terra, e ainda sou muito elogiado: “É
ele! Lá vai ele!”.
Ter muitos filhos tem a vantagem de
ganhar ajuda do governo. Só de bolsa-família quase fiquei milionário. Pensei
até em fazer carreira nisso. Mas daí veio José com aquele cabeção, e conduziu
Cunegundes ao óbito arrombatório no seu vigésimo quinto trabalho de parto
normal.
A cabeçorra de José é que não é normal.
Puta que o pariu! De mim, com certeza, ele não herdou aquelas dimensões
cranianas de E.T.. Talvez Cunegundes tenha sido abduzida, e emprenhada numa
nave extraterrestre, diria um ufólogo.
Ufólogo não sou, graças a Deus. A
ufologia demonstra movimento demais, ou seja, extrema insatisfação. É difícil
investigar o assunto, e achar o assunto, movimento demais. E tem revista
especializada nisso. Imagino quanta fraude os editores da revista têm de
descartar.
Não nego, porém, a existência de vida
inteligente fora da Terra; se mais rara é inteligência na Terra... Ora, a
apologia insistente e impertinente do crescimento econômico, por exemplo.
Crescimento econômico interessa a quem?
A mim não interessa. A você interessa? Então por que os telejornais ficam dando
tanta importância ao assunto até estourar o saco de nossa paciência?
Mistério... Nunca se sabe.
“Só sei que nada sei.”, atribuem o
famoso adágio a Sócrates, e ele foi um sujeito que dividiu a Filosofia em antes
e depois dele, sem nunca ter deixado nada escrito. Pô, ele é o cara! E não
sabia nada. Mas o oráculo de Delfos disse que sabia pra dedéu. Donde podemos
concluir que há mais sabedoria em não saber do que em saber. Paradoxo
fundamental para entender a santa ignorância, da qual sou arauto e porta-voz,
porta-voz e porta-bandeira, porta-bandeira e mestre-sala. Tem algum preconceito
com Carnaval? “Quem não gosta de Samba bom sujeito não é; é ruim da cabeça, ou
doente do pé.”, cantou o filósofo das sacadas dos sobrados da velha São Salvador.
A lembrança de donzelas do tempo do
Imperador, aliás, remete-nos novamente ao crescimento econômico. Hoje não há
mais escravidão, ainda bem. E, no entanto, a maioria esmagadora do povo anda
trabalhando mais que escravo, por conta das metas, por conta da necessidade do
lucro, por conta do crescimento econômico. Enfim, por conta da guerra dos
mercados, da disputa entre as nações para ver quem vai implodir-se mais
rapidamente, com a degeneração da família, com o tráfico de drogas, com a
guerra urbana, com a escassez dos recursos naturais.
continua sábado...
Alegria de maquiador é fazer mulher bonita ficar feia.
Alegria de maquiador é fazer mulher bonita ficar feia.
Livro: versão impressa











