Capítulo
28
Movimento é insatisfação. Calor é
movimento, mas não é insatisfação. Vento é movimento, mas não é insatisfação.
Contudo, se no frio ligamos o
aquecedor, o calor resultante é consequência da insatisfação. E se no calor
ligamos o ventilador, o vento por ele produzido é resultado da nossa
insatisfação.
Para que o movimento seja causado pela
insatisfação, é necessário haver um eu, ainda que seja o eu de um inseto. O
inseto mexendo a perninha, está lá a insatisfação.
Sogra é insatisfação. Dizem. Tive a
sorte de não ter sogra, minha senhora nasceu de uma ostra gigante. Isso já dá
ideia para muita gente querer ensaiar um movimento de transformar a sogra em
ostra. Porém, como disse Dicró, eu amo a sogra da minha mulher.
Justiça seja feita. Há sogras que vêm para
bem. Tenho visto sogras criando os netos, e tenho visto noras que parecem... E
genros que seriam...
Será que minha insatisfação está me
movendo a escrever? Então estaria eu agora transmitindo insatisfação? Fui
satisfeito no casamento, mas a insatisfação da viuvez causa este movimento. E
você que me lê, está insatisfeito?
A idade pesa. Gera insatisfação. E até
mover-se na velhice é insatisfatório. Resulta que estou no cu do Saci, por
estar no fim do pito.
Terei uma boa morte, estou tranquilo
quanto a isso. O que me instiga a escrever é a vontade de transmitir a outra
criatura um pouco do que vivi, o que é bem diferente de transmitir a outra
criatura o legado de nossa miséria. Mesmo porque tive vinte e cinco filhos,
teria transmitido o legado de nossa miséria adoidado. Só que sou otimista.
O otimismo tende a ser bastante
procriativo. Não. Obviamente não. Padres e freiras são excelentes no otimismo,
escatologicamente falando. E olha que eu falo como se a boca fosse o cu. Se tem
tanta gente falando merda e sendo ouvida, por que não posso também?
Não insinuo que esteja eu fazendo teu
ouvido de penico, mesmo porque tu estás lendo. Mas, se fores cego e estejas
ouvindo tudo isso, o que te move é a severa insatisfação do legado de nossa
miséria. Mas, se estiveres lendo, a mesma insatisfação vale para ti. Ou não?
Nunca se sabe, dizia um amigo meu, mas
o dizia em qualquer situação, o que induzia-me a crer que ele fosse retardado.
Acontece que ele tinha razão, nunca se sabe. Levei anos para verificar a
sabença do meu amigo, sua agudeza de discernimento sapiencial em tão incipiente
idade, pois ele já falava isso aos doze anos de idade. Na Física, o nunca se
sabe é o princípio da incerteza; e, na Filosofia, Descartes também duvidava
sempre. É ou não é?
Não sei. Nunca se sabe.
O que dizer então do que não se sabe
mesmo? Tem coisa no conhecimento que a gente nem supõe que desconhece. A bem da
verdade, em geral, é melhor desconhecer. O necessário já nos foi revelado desde
Adão e Eva. Mas resolveram ter curiosidade..., olha no que deu.
continua sábado...
Livro: versão impressa









