sábado, 29 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 28



Capítulo 28

         Movimento é insatisfação. Calor é movimento, mas não é insatisfação. Vento é movimento, mas não é insatisfação.
         Contudo, se no frio ligamos o aquecedor, o calor resultante é consequência da insatisfação. E se no calor ligamos o ventilador, o vento por ele produzido é resultado da nossa insatisfação.
         Para que o movimento seja causado pela insatisfação, é necessário haver um eu, ainda que seja o eu de um inseto. O inseto mexendo a perninha, está lá a insatisfação.
         Sogra é insatisfação. Dizem. Tive a sorte de não ter sogra, minha senhora nasceu de uma ostra gigante. Isso já dá ideia para muita gente querer ensaiar um movimento de transformar a sogra em ostra. Porém, como disse Dicró, eu amo a sogra da minha mulher.
         Justiça seja feita. Há sogras que vêm para bem. Tenho visto sogras criando os netos, e tenho visto noras que parecem... E genros que seriam...
         Será que minha insatisfação está me movendo a escrever? Então estaria eu agora transmitindo insatisfação? Fui satisfeito no casamento, mas a insatisfação da viuvez causa este movimento. E você que me lê, está insatisfeito?
         A idade pesa. Gera insatisfação. E até mover-se na velhice é insatisfatório. Resulta que estou no cu do Saci, por estar no fim do pito.
         Terei uma boa morte, estou tranquilo quanto a isso. O que me instiga a escrever é a vontade de transmitir a outra criatura um pouco do que vivi, o que é bem diferente de transmitir a outra criatura o legado de nossa miséria. Mesmo porque tive vinte e cinco filhos, teria transmitido o legado de nossa miséria adoidado. Só que sou otimista.
         O otimismo tende a ser bastante procriativo. Não. Obviamente não. Padres e freiras são excelentes no otimismo, escatologicamente falando. E olha que eu falo como se a boca fosse o cu. Se tem tanta gente falando merda e sendo ouvida, por que não posso também?
         Não insinuo que esteja eu fazendo teu ouvido de penico, mesmo porque tu estás lendo. Mas, se fores cego e estejas ouvindo tudo isso, o que te move é a severa insatisfação do legado de nossa miséria. Mas, se estiveres lendo, a mesma insatisfação vale para ti. Ou não?
         Nunca se sabe, dizia um amigo meu, mas o dizia em qualquer situação, o que induzia-me a crer que ele fosse retardado. Acontece que ele tinha razão, nunca se sabe. Levei anos para verificar a sabença do meu amigo, sua agudeza de discernimento sapiencial em tão incipiente idade, pois ele já falava isso aos doze anos de idade. Na Física, o nunca se sabe é o princípio da incerteza; e, na Filosofia, Descartes também duvidava sempre. É ou não é?
         Não sei. Nunca se sabe.
         O que dizer então do que não se sabe mesmo? Tem coisa no conhecimento que a gente nem supõe que desconhece. A bem da verdade, em geral, é melhor desconhecer. O necessário já nos foi revelado desde Adão e Eva. Mas resolveram ter curiosidade..., olha no que deu.

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sábado, 22 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 27



Capítulo 27

         Tem gente que é que nem camaleão, com a cabeça diz que sim, com o rabo diz que não. Já eu sou do signo de Escorpião, aquele bicho que se defende com o rabo, segundo Dario, rei da Pérsia, meu amigo desde a Antiguidade.
         Ganho a vida com meu próprio negócio, que, de certa ou torta maneira, vem a ser meu rabo. Está cada vez mais difícil ganhar a vida honestamente. O crime não compensa, a família é a célula máter da sociedade, o dever nos chama. O crime não compensa. Se compensasse, não dava tanto trabalho. Ainda mais o crime organizado. No Brasil a política é corrupta, a escola é uma bagunça, a justiça é uma baderna, mas o crime é organizado.
         A logística do crime organizado é complexa, e, sendo fora da lei, tem de driblar o estado democrático de direito, e molhar a mão de muita gente. No tocante a molhar a mão, parece que a vocação de considerável parcela de quase todo o mundo no Brasil é o crime. Puta que la merda!
         Antes de se tornar um vagabundo, meu filho José ganhava a vida honestamente, na contravenção. Era apontador do jogo do bicho numa barbearia da Praça da Árvore, na capital paulista. Tudo bem que não era nenhum Nelson Rodrigues, orgulho do papai, mas tinha uma carreira promissora, estagiando na contravenção, trampolim para o glamour do assalto a banco. Mas não, o puto desistiu, a fim de viver em honesta vadiagem. E eu pergunto por quê? Ao que eu mesmo respondo: o crime dá trabalho.
         Gente, vai puxar uma enxada... Se bem que não. Gente, estuda, presta um concurso público, e prega o buzanfã numa cadeira de repartição, isso é que é vida! Enxada lembra-me um período de minha vida em que trabalhei na roça. Os homens do campo vivem com a mão na inchada. É. O trocadilho tinha de se intrometer nesse tema tão sério.
         Fiquei sabendo outro dia que o signo de Escorpião é muito intuitivo. Não acredito muito em Astrologia, nem em Astronomia, mas é certo que, eu pelo menos, tenho pendor a usar primeiro a intuição, depois a razão, se é que a razão tem tempo de entrar na história.
         Já os librianos têm uma racionalidade irritante, tenho reparado. Falta-lhes o arrojo de se lançarem em mares nunca de antes navegados, como faço eu, que tirei Afrodite dos ínferos, tomei uma chuva de caralhos, perdi meu caralho, ganhei meu caralho de volta, atravessei o Mar Adriático a nado, embarquei em caravela, e agora ganho a vida com a aplicação técnica do flato.
         Os do signo de Libra hesitam sobremaneira. Parecem até meio covardes. Mas, quando a coragem lhes é deveras requisitada, comparecem. Digo isso porque minha vida foi entrecortada por figuras desse signo. Cunegundes, por exemplo; meu pai também, a mãe dele, o avô dele, e aquela moça pela qual eu plantei uma horta na adolescência.
         Não creio em Astrologia, mas vou perguntando os signos dos viventes que me aparecem vida a fora. Só quanto ao signo de Libra as características são batata, sempre se confirmam.

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P.S.1: Todo cachorro é católico, menos o pastor-alemão.

P.S.2: Punheta é recreação saudável, gratuita e legal. Tinha de ser pecado?

P.S.3: Por que punheta parece mais obscena que siririca?



sábado, 15 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 26



Capítulo 26

         Conversando com as crianças, faço papel de bobo. Os adultos não sabem nada, não conhecem nem Deadpool...
         Tal fato seria um problema para que as crianças prestassem atenção nos ensinamentos da tradição familiar, da moral e da religião. Mas não é.
         Ainda que na escola os professores passem apuro em instruí-las, as crianças anseiam naturalmente por orientação. A falta desta é que acarreta a desordem mental da indisciplina. Não é culpa dos professores. A bagunça em sala de aula é reflexo da bagunça social, que, por sua vez, é reflexo do excedente de mão de obra.
         Só não vê quem não quer.
         A criança confia inicialmente na mãe, caso contrário é outra questão. Confiando na mãe, esta é a pessoa mais apropriada para ensinar à criança os fundamentos do que é viver. Mas como está a relação materna com a prole? Creche para a criança, e trabalho para a mãe. Não careço dizer mais nada.
         E não direi, para não cair novamente no assunto Política, que, via de regra, faz-nos tomar na tarraqueta. Mesmo porque não vejo-me no direito de opinar sobre mulher se não sou mulher. Mas que então o homem ou algum adulto da família fique encarregado de cuidar pessoalmente das crianças para o barco não virar como já tem virado por aí aos montes. Então pergunto: a quem interessa que toda mão de obra possível esteja à disposição do mercado? Interessa ao próprio mercado e essa insanidade de buscar o crescimento econômico incessante, que só leva à morte, do planeta, e de nós como espécie. Já falei demais, deixa pra lá; sou apenas um homem, e velho, pertencente à Antiguidade.
         Concentremo-nos em Deadpool, personagem cômico, super-herói do qual tomei conhecimento com meu bisneto Tatiano. Deadpool tem muito o que ensinar a um velho retrógrado como eu, como você, como todos os que agora me leem.
         Não como não.
         Outro fato evidente é a tecnologia. Criança é expert em tecnologia de ponta, parece que já nascem no Vale do Silício. Contornando a hipérbole, criança futrica nas novidades tecnológicas com a maior destreza, sem ler manual, sem ler as informações da caixa, sem ler no geral, ainda analfabetas. Na Antiguidade, eu também fui assim.
         A gente tem a tendência de fixar alguma fase da vida para nela seguir vivendo, por isso nos defasamos, é o fator fase. É aquele referido ditado: ou tu fazes, ou tu não fazes.
         Desenvolvendo o assunto, chegando ao caroço do problema, enfim, arrancando o mal pela raiz: ou tu fezes, ou tu peidas.
         Irei cagando e andando para minha inapetência senil da velhice em alta, e da crista da onda em baixa, evocando Jacob e seu bandolim, que naquela mesa ele juntava gente que nem bigato em bicheira. Eu, porém, peidando contra o vento, sem lenço e sem documento, cagando vou.
         Advertência seja feita, pois faz-se muito necessário evitar que crianças e adolescentes tenham contato com obras para as quais ainda não tenham conhecimento de mundo suficiente no sentido de discernir o que é verdade ou mentira, ensinamento real ou ensinamento fictício.
         Até adúlteros, digo, adultos devem estar se perguntando que merda é esta? Onde é que vamos parar? Não sei. Quero cavar um túnel que atravesse a Terra, passando pelo centro desta, a fim de ver se uma bola jogada no referido túnel oscilará entre um e outro hemisfério.

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Ficção é mentir, inclusive dizendo a verdade.




sábado, 8 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 25 - Reforma da Previdência prevê imposto sobre punheta, agora a porra ficou séria.



Capítulo 25

         Meu filho Quincas Berro d’Água teve uma filha, que por sua vez deu-lhe uma neta, a qual nasceu na República do Congo durante uma epidemia do vírus ebola. Em compensação, essa bisneta de Cunegundes escapou da zica e da chicungunha que grassavam por aqui. Quando vim a conhecê-la, dei-lhe o apelido de Zica, que, afinal, é apelido comum. Zica querida do bisavô, Zica pra lá, Zica pra cá, Chica, Chicungunha querida. Quincas Berro d’Água não gostou. Então, como o nome da fedelha é Renata, passei a chamá-la de Rê Ebola.
         Na vida, a gente tem que tentar conciliar as diferenças, procurar o equilíbrio, sem, contudo, querer agradar a todos, conforme o ditado de que toda unanimidade é burra; não sei. Mas um ditado hebraico vem a calhar: entre dois caminhos, procure um terceiro. Não à toa herdamos dos antigos hebreus o Livro da Sabedoria, Provérbios, o Eclesiastes e o Eclesiástico; faz-se essencial lê-los e relê-los sempre com atenção para proveito espiritual e da vida prática.
         Quincas Berro d’Água, batizei-o com esse nome pois nasceu em seguida do nosso filho Jorge Amado, e, ao contrário deste, é muito católico. Católico até demais para o meu gosto, chega mesmo a ser de um puritanismo protestante; não bebe, não fuma, e pouco fodeu na vida, já que foi de nossa prole o que menos nos deu netos, apenas doze.
         Mas, desses doze, nasceu uma raça de quadrigêmeos a cada parto que vem a me fazer perder a conta da descendência de Quincas Berro d’Água, tive sorte no casamento, tenho dito.
         Rê Ebola nasceu em África, filha de um negão que, só para se levantar da cadeira leva dez minutos, vai brumbrumbrumbrum subindo aos poucos até o bicentésimo quadragésimo terceiro andar de sua estatura colossal. No passaporte dele está escrito: Profissão: negão. Rê Ebola, pelo impossível que acontece, nasceu albina, que até as pestaninhas da bichinha são brancas. Coisa sortida minha família, tem de tudo.
         Duvidas que o impossível aconteça? Se duvidas, não tens fé. Se tens fé, dê um passeio de helicóptero. Andar de helicóptero é um ato de fé; eu, por exemplo, não ponho o pé num helicóptero nem fudendo. Olha bem pra aquela engenhoca. Quem pensa, não entra num helicóptero.
         No entanto, pensando muito na vida, alguém inevitavelmente um dia pensará em suicídio, pecado mortal. Confesso que sou homem de pouca fé, mas suicídio não é um hábito saudável, é uma estrada sem volta.
         Isso lembra-me da passagem só de ida para a Estação de Pindahyba com a qual fui contemplado no vale-brinde dum picolé que comprei na Central do Brasil; uma vez em Pindahyba, sempre em pindaíba. Assim tenho vivido, e quer me parecer que em maior pindaíba após abrir meu próprio negócio. Não tem cu que aguente. Aí vem fulaninho dizer que “Nascer pobre não é sua culpa, mas morrer pobre o é.”. Não sou pobre, prosperei com meu negócio, mas sinto-me como qualquer arrombado que sofre as cruéis angústias da indigência.
         E, se estas páginas estamparem “festival contentamento, crede, ó mortais, que foram com violência escritas pela mão do fingimento, cantadas pela voz da dependência”. Bocage, compartilho da tua dor.

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"É por que eu sou feio que eu sou lindo, imagine se eu não fosse."
(Falcão, compositor e cantor cearense)

Novembro Azul é o mês da inclusão digital.

Reforma da Previdência prevê imposto sobre punheta, agora a porra ficou séria.


sábado, 1 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 24



Capítulo 24

         Enfim, o capítulo 24, no jogo do bicho: veado.
         Vejo-me na contingência de defender a causa veadista, combatendo com unhas e dentes, giletes e navalhas, a malévola homofobia.
         O veado está lá quietinho; de repente vem a homofobia, e créu. Assim não pode, assim não dá. Temos de respeitar o veado, bem como os demais integrantes do jogo do bicho, senão onde vai parar nosso folclore? Respeitem a cultura. Já pensou se um dia desses sai veado no milhar? Bem feito ao puto homofóbico que não joga no 24 nem por um caralho!
         Chinedo, bebum e veado acontece nas melhores famílias. Na minha, não. Talvez porque não seja das melhores famílias. O que importa é o amor.
         Uma das coisas mais melancólicas deste mundo deve ser veado com hemorroida. Isso é só um supositório. No campo especulativo, a Antropologia sugere que o homem seja o centro de tudo, antropocentrismo. Antropocêntrico é quem olha para o próprio umbigo, veado é quem olha para o próprio, não. Nem contorcionista. Quem sabe se não vem dessa limitação a sua curiosidade, seu hábito de ficar futricando lá...
         Se pudibunda não é uma palavra pudibunda, gay é uma palavra gay ao extremo; já viu um gay falando gay? Agora, todos hão de concordar que, para aguentar o que veado aguenta, tem que ser muito macho. Foi Millôr Fernandes que disse, na orelha do livro Jornal Dobrabil, que Glauco Mattoso não é gay, é homossexual, coisa pra macho. Realmente, o grande poeta de nosso tempo não dá a menor pinta, é sisudo e fala grosso. Mas lambeu meu pé. Foi a situação mais homossexual em que me vi metido desde a viagem de caravela. Senti-me praticamente enrabado. Mas decepcionei o amigo quando ele me perguntou se eu tinha experimentado naquela ocasião uma sensação de poder sobre ele. Eu disse que não, que só estava querendo agradá-lo. Foi o oposto do que ele queria.
         Uma coisa carece ser dita: homem é homem, mulher é mulher, sapatão é sapatão, veado é veado, e travesti é travesti. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
         Essa última frase, propiciou-me a conhecê-la Cunegundes, ao me apresentar à cultura futebolística. Joguei muito futebol quando moleque, mas só assistia a jogo da seleção. Depois do casamento, eu queria ver a novela, mas Cunegundes, com o controle-remoto na mão, punha no futebol e nos programas acerca de futebol. Hoje assisto ao futebol pela TV, pela Internet, e, quando não tem outro jeito, sintonizo meu radinho de pilha.
         Radinho de pilha lembra-me Júnior, figura cômica. Carioca de Madureira, com o qual tive o privilégio de trabalhar. Ele torcia para o Flamengo, eu torcia para o Vasco, da Gama e de minha senhora. Chegava segunda-feira, e era Juninho me sacaneando se o Vasco perdia do Flamengo, ou eu o sacaneando quando do contrário. Mas, um dia, o Flamengo perdeu não sei de que time, mas perdeu de lavada; como diz uma amiga portuguesa: foi uma cabazada de gols. Cheguei no serviço zoando muito o colega flamenguista, ao que ele ponderou na maior naturalidade: “É, pelo menos eu não fico grudado num radinho de pilha, ouvindo jogo dos outros...”.

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P.S.: Já andei de Mercedes, quando era caminhoneiro.

sábado, 24 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 23



Capítulo 23

         The pursuit of happyness, gostei desse filme. Sou um sujeito de pouca fala, e nunca choro; apenas choro vendo filme muito triste, tem de ser muito triste para eu chorar; drama não serve, tem de ser tragédia. O referido filme é apenas um drama, mas não apenas triste, é triste de fazer chorar; mas tem sua graça, por isso gostei dele. Sou assim, um retrato cubista.
         Eu era um sujeito baixo na infância, brigava na escola todo santo dia, e da minha boca só saía baixaria; de cada dez palavras articulas pelo meu aparelho fonador, onze eram de baixo calão; a propósito, a palavra calão, eu a aprendi num bilhete que a professora enviou para minha mãe. Depois fui ficando alto, e me tornei adulto. Agora sou meio velho, meio jovem; meio magro, meio barrigudo; meio careca, meio cabeludo...
         Sou um sujeito de poucas palavras, quando não estou tagarelando. É que eu fico bêbado sem beber nada; de repente, desce o espírito do sagui em mim, e começo a fazer a maior farra, falo adoidado. É fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente, é um faniquito a sós ou no meio desse povinho fuleiro que não conhece donaire.
         Meu lema é adiantar o meu sem atrasar o de ninguém, a não ser que esse ninguém venha a atravessar o meu caminho; pode estar na faixa de pedestre, atropelo mesmo. Ah, tem gente que não se enxerga! Por isso faço questão de usar óculos. O apelido mosca é por causa dos óculos.
         Sim, tenho um apelido. Mas quem não tem um apelido? Quem? Quem? Agora quero saber. Cunegundes não tinha. Fora o apelido sargentona, mandachuva, e pezão, não tinha mesmo não. Mas eu sou a mosca que pousei na sua sopa, e ela teve que me engolir.
         Mas desaforo ela não levava pra casa. Uma vez, a encontrei atracada a um brigadista do corpo de bombeiros num beco perto de nossa residência. Cheguei, e disse: Qual é a da parada aí? O bombeiro, sufocado, disse que a sargentona o tinha agarrado à força só porque ele se negara a apagar o fogo que lhe saía do beco. Não entendi direito; vistoriei o beco; tudo normal, padrão beco; disse: Vamos embora, querida, já está tudo bem. E voltamos para o nosso lar doce lar, de cabeça erguida.
         Minha cabeça começou a coçar. Cocei, cocei, cocei até dar no osso. Cresceu um galo enorme na minha testa, como se fosse uma galhada de rena. Fiz sucesso no Natal, puxando o trenó do Papai Noel, foi outro emprego que tive na vida, temporário como os demais.
         Ainda bem que não tive de puxar o saco do Papai Noel, pois nunca fui puxa saco. Via o povo puxando saco pra subir na vida, e cada vez se rebaixando mais nessa sina de puxar o saco, mania feia.
         Mania feia existe bastante no mundo. Quem nunca teve aquela mania feia de chupar o dedo? E a de enfiar o dedo no nariz para limpar o salão? Quem nunca teve manias de enfiar e de chupar de um modo geral?
         Vai vendo, meu povo, vai vendo. Atualmente, o que era feio está ficando bonito, e o que era bom costume está sendo visto com maus olhos. Oh, povinho fuleiro que não conhece donaire!

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P.S.: Não confunda cagar com a arte de fazer merda.

P.S.2: Otimismo amplo deriva do conjunto de pessimismos equivocados. E vice-versa.


sábado, 17 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 22



Capítulo 22

         Não é para me gabar, mas fiz uma descoberta científica no campo da ginecologia. O lugar onde a mulher tem o couro mais grosso é o calcanhar. Eu achava que seria o joelho, mas é o calcanhar. Trata-se de ginecologia pois, além do grelo, vulgo clitóris para os acadêmicos, a mulher tem pontos erógenos diversos, inclusive o calcanhar. Mas, se tem o couro grosso, pode ser ponto de excitamento trepatório? Sim, basta dar uma suave mordida no calcanhar feminino para desencadear o furacão que existe em sua genitália, ou receber um chute na cara, nunca se sabe em se tratando de mulher. Mulher é outro bicho.
         Mas todos já sabem que tanto mulher quanto homem cheira bacalhau na peixaria, onde mais? É cheirando o bacalhau que se escolhe melhor o que se vai comer. Quem nunca cheirou um bacalhau talvez o tenha comido ignorando suas especificações: se era bacalhau nacional, norueguês ou português p.o. — pura origem. A melhor contribuição trazida de Portugal para nossa cultura foi a piada de português, e o bacalhau da Maria.
         Já, lá na terrinha, as piadas são de brasileiro. E é bem provável que eu tenha sido o precursor de tão requintada tradição. Cunegundes veio disfarçada de padre, mas eu vim disfarçado de travesti de Copacabana. Enganei a portuguesada toda, acreditaram que eu fosse veado, e vieram me comendo a viajem inteira! Se durex é fita adesiva aqui no Brasil, lá é marca de preservativo. Falamos o mesmo idioma, mas cuidado para não ficar com cara de idiota. Algumas coisas têm nomes diversos. Gare, por exemplo, significa estação de trem na terra do Eça de Queiroz. Precavido quanto a esse particular, tomei o cuidado de perguntar a um português como se chama filho da puta em Portugal, ao que ele me respondeu: “Não chamamos, eles é que vêm de Varig do Brasil.”. Foi ainda no tempo em que existia a Varig — Vias Aéreas Rio-grandenses, uma espécie de caravela voadora.
         Ao embarcar de lá para cá, vi um bom portuga dando uma moedinha a um mendigo no cais do porto. O mesmo cidadão, ao chegar no Brasil, deu três moedonas para outro mendigo. Ao que lhe perguntei o porquê da diferença, recebendo uma bonita resposta: “É que este, além de mendigo, é brasileiro, ó pá!”. Quanto a tudo entre nós, o carinho é recíproco.
         Eu, que sou caboclo, reconheço a pluralidade de nossas origens; somos um povo forte, porque mestiço. A nossa parte índia planta a mandioca. A nossa parte negra descasca a mandioca. A nossa parte lusitana come a mandioca.
         Outrossim, acredito que cada homem tenha a sua porção mulher, e cada mulher tenha a sua porção homem. Minha porção mulher era Cunegundes.
         Ignoro o que será daqui para frente, o mundo está muito mudado. Outra frase de velho. Sempre os velhos disseram coisas assim, desde que o mundo existe. Contudo, dizem que antigamente era melhor, ressalvando porém que a vida era mais difícil. Não é por falar mal, mas acho que falam isso só para valorizar. Alguns companheiros meus velhinhos já estão no fim do pito, no cu do Saci, mas ainda arrumam jeito de oprimir quem está podendo.
         Velhacaria?

continua sábado...


P.S.: O besouro é o filhote de um tipo de tartaruga, que é voadora, e que é invisível na fase adulta.

sábado, 10 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 21 - ENEM: na Matemática nós se ferremo, mas no Português nós se garantemo.



Capítulo 21

              Escrever é um ofício, disse Joaquim Maria Machado de Assis.
         No pertinente a mim, peidar... é um ofício? Quanta diferença. Quinzinho sempre tão elegante, e eu nesta miséria. Parece que vejo-o aqui na minha frente dizendo “Não vá em frente.”, e guardando o pince-nez. Mas Quinzinho também peidava, nisso estamos parelhos. Que bom se sêsse, que bom se foice. Mas foice não é com cedilha? Com dois esses?
         A fome é positiva, não se nega. Tenho fome, logo existo. Farei uma pausa para comer, senão continuaria escrevendo indefinidamente até inexistir.
         Comido, cagado e mijado, prossigo.
         Já repararam que comer é mania que as pessoas têm? Volta e meia vejo gente comendo por aí. Para não morrerem obviamente. Pois não comer é outra mania, e mata. Ambas essas manias, em exagero, matam. Se a gente só se alimentasse de comprimidos, não precisaria cozinhar, nem cagar. É possível? Se fosse, já estaríamos nessa dieta.
         Cunegundes, mulher à frente de seu tempo, cozinhava para mim. Tenho saudade; no fundo, sou um romântico. Escrevo agora em memória dela, e do seu joelho de porco com repolho, ovo e feijão.
         Nem por isso eu deixava de queimar lata. Inclusive, só fui cozinhar depois de casado, quando Cunegundes estava em trabalho de parto, sou um romântico. Eu aprendera a cozinhar, porém, bem antes, observando os outros cozinharem. Quando chegou minha vez, não foi difícil.
         Mas Cunegundes era muito mais que um joelho de porco, era a matriarca entorno da qual foi crescendo a nossa brava descendência, a quem Neptuno e Marte obedeceram. E nossa gente povoou terra Brasilis para honra do ilustre peito lusitano, de el-rei e da cristandade.
         Não é à toa que há tanto protestante hoje em dia. Fazem bem, instigam os católicos a tomarem vergonha na cara. O que é o Brasil para um gringo? É a terra dos 2Ps: peão e puta. Se pelo menos achassem que aqui só existe índio, floresta e cachaça, tudo bem.
         Falando nisso, essa casa tem goteira, pinga ni mim. Já pedi que subissem no telhado várias vezes para consertar o problema, mas nada, pinga ni mim, pinga ni mim, pinga ni mim. Toda vez que chove.
         Melhor assim, é sinal que chove. Enquanto chover, está bom. Viva São José!, por quem acalento estranha devoção.
         São José, aliás... Deixa pra lá.
         Fernando de Bulhões, taumaturgo da Igreja, poderia bem realizar um milagrezinho que para ele seria pinto: desenvolver essa goteira numa enorme infiltração, a fim de que eu morresse feito Bocage, doente do pulmão. E daí eu fosse enterrado numa vala comum, feito Camões. Chique.
         Mas meu fôlego é incansável, apesar da idade. Quando jovem, corria a maratona inteira como se não tivesse três colhões gigantes para atrapalhar. Diziam que eu corria como se tivesse dois pulmões.

continua sábado...


P.S.: Bolsonaro é contra kit gay, mas, em 2019, ele pretende assumir.

sábado, 3 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 20 - ENEM, minha esperança é vc; pois, no exame de fezes, já fui reprovado.



Capítulo 20

         No dia do meu casamento estive preocupado com o futuro que nos aguardava, o futuro que hoje é passado. Dentre os assuntos averiguados estava a possibilidade de esgotarem-se os assuntos para as conversas que teria com Cunegundes. Não se esgotaram. Casamento é que nem culinária, só que sem receita. O necessário é começar, e aí vai vendo no que dá. Sempre cozinhei sem receita; eu via alguém fazer uma receita, memorizava, e depois fazia o mesmo. Casamento é rotina, mas varia muito. É ir metendo os peitos, encarando as dificuldades, e fazendo ajustes. “Navegar é preciso, viver não é preciso.”.
         Na dúvida, foda-se. Rusdete, por exemplo. Rusdete, irmã de Rusite. Cada filho, um pai. Quem não conhece alguém assim? Cunegundes sempre procurava um pai bonito para nossos filhos, e deu certo. Na cartilha de Rusdete, minha senhora aprendeu a escrever nossa história de amor, dando sempre certo.
         Quem dá certo na vida é quem escolhe bem para quem dar. Eu não tive esse privilégio. Não dei certo, mas nem por isso dei errado. Simplesmente não dei. Peidei.
         Trocadilhos à parte: Em buraco de cobra, tatu caminha dentro? Tatu caminha dentro é a resposta correta, não vacile. Jacaré no seco anda? No seco anda. Em conformidade com a norma, em seu parágrafo D.
         Já pensou o parágrafo supra citado acima? Não pense, conselho daquele meu patrão. Quem casa não pensa, quem pensa não casa. Na dúvida, foda-se. É por aí, ué. E o buraco é mais embaixo. Esto vir, seja homem! A família é a célula máter da sociedade. O dever em primeiro lugar. O serviço militar é obrigatório. Ou não. Japonês tem quatro filhos. Laranja da China, laranja da China, laranja da China! Abacate, limão doce e tangerina...
         Hoje não caguei. Mas estas palavras estão saindo de dentro, e isso é o mais importante. Pois merda nenhuma vai me fazer tirar a bunda deste acento agudo, ainda se circunflexo fosse. Atitude é fundamental. E, após o Fundamental, o Ensino Médio. E, após o Ensino Médio, escrever no banheiro da Faculdade de Filosofia que o futuro do Brasil está saindo de dentro de você.
         Jamais escrevi isso, sou patriota. Não me concebo a semear titica pelas latrinas que frequento. Se Castro Alves queria semear livros, junto-me a ele, semeando não o sêmen da libido, mas a libido da Literatura.
         Na baixa da libido, o Viagra do inconformismo! Na Baixa do Sapateiro, a graxa pra dar no couro! Na baixa estação, aumente o volume! Nunca a abstinência no uso de suas atribulações, nunca a abstinência do senso de dever, nunca a abstinência do espírito de sacrifício, nunca a abstinência!
         Sinto o mundo rodar... como se houvesse um requeijão dentro do crânio. Dizem que aquela porra sobe pra cabeça. Aquela porra, no caso, a porra.
         Então, que venham as invasões bárbaras para o meu cérebro! Não hei de me abster da abstinência obstinada por my true love.
         Amor, I love you. Amor, I love you.

continua sábado...


P.S.: ENEM, minha esperança é vc; pois, no exame de fezes, já fui reprovado.

P.S.2: Quero fazer bonito no ENEM, porque, no exame de fezes, só fiz merda.

sábado, 27 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 19




Capítulo 19

         Quanto tempo ainda terei de ir morrendo até ser cagado deste mundo junto com o peido cósmico do meu alívio? Morri a infância, a adolescência, a juventude; morri meu futuro, que já está no passado. Mas este meu corpo peidorreiro insiste em sobreviver a mim mesmo, que, de certa maneira, de muita maneira! morri com minha cônjuge.
         Ué, suicide-se em vez de reclamar.
         Quando pela primeira vez me disseram que é morrendo que se vive para a vida eterna, morrendo a gente vai para o Céu, encontra Deus e os parentes defuntos, achei que a morte era tudo de bom. Logo, o suicídio seria o próximo passo. Mas, e o cagaço? O medo colaborou positivamente na construção do conhecimento do menino que fui eu, ao segurar minha mão de Abraão degoladora junto ao meu próprio pescoço de Isaac; o anjo veio, e disse: “Pensa, desgraçado, pensa!”. Então, espaireci as ideias, e saquei a parada. O negócio é o seguinte, suicídio é assassinato. Não matarás, diz o mandamento. No suicídio o sujeito mata alguém, no caso, ele mesmo. Logo, suicídio não é o próximo passo, é pecado. O cagaço deu pulos de alegria; meu franzido, que estava trancado, soltou uma saraivada de peidos.
         A gente passa a infância querendo ser adulto, incentivam-nos a isso, e é necessário. De repente, pá! pá! pá!, fuzila-nos a adolescência. O que é a adolescência? Não quero me lembrar, nem consigo; amnésia traumática. A infância, porém, possui uma intensidade que perde-se no tempo; o tempo inclusive parece passar mais devagar porque tudo é novidade; depois, a memória vai descartando o que se repete, e o tempo voa. Na infância estamos mais antenados, sabemos de um tudo na nossa ignorância da própria ignorância. Mas é lá que vivemos a vida mais viva, adquirindo a quantidade de movimento para prosseguir vida a fora, por inércia.
         Contudo, não tenha a infância sobre nós domínio. Um adulto infantilizado é mais ridículo que uma criança se passando por adulta. Outrossim, temos de orientar as crianças, e não o contrário.
         Padre José de Anchieta foi um homem com H maiúsculo. Tantos padres sucederam-se na vida rigorosa a fim de cristianizar o Brasil, e agora vem gente bater em nossas portas dizendo que têm de nos cristianizar, com a maior cara-de-pau. Aqui é fácil chegar com uma bíblia, por que não tentam fazer isso no Irã? O fato é que o espírito do tempo se encarregou de descristianizar esta Terra de Vera Cruz, mas os terrenos bravios já foram desbastados.
         José de Anchieta provou sua fé por suas obras. Vexo-me diante de tão excelente homem. Eu, que tenho deixado apenas versos de lavabo. Cada um dá o que tem; se não tem, dar como? Homem de pouca fé que sou, tento deixar uma obra, e vexo-me também nisso com a culpa de buscar a nomeada, o que sei que não vem ao caso, pois seria um estorvo. Almejo como que confidenciar a amigos desconhecidos, por meio da Literatura, um pouco de minha jornada.

continua sábado...