Capítulo
24
Enfim, o capítulo 24, no jogo do bicho:
veado.
Vejo-me na contingência de defender a
causa veadista, combatendo com unhas e dentes, giletes e navalhas, a malévola
homofobia.
O veado está lá quietinho; de repente
vem a homofobia, e créu. Assim não pode, assim não dá. Temos de respeitar o
veado, bem como os demais integrantes do jogo do bicho, senão onde vai parar
nosso folclore? Respeitem a cultura. Já pensou se um dia desses sai veado no
milhar? Bem feito ao puto homofóbico que não joga no 24 nem por um caralho!
Chinedo, bebum e veado acontece nas
melhores famílias. Na minha, não. Talvez porque não seja das melhores famílias.
O que importa é o amor.
Uma das coisas mais melancólicas deste
mundo deve ser veado com hemorroida. Isso é só um supositório. No campo
especulativo, a Antropologia sugere que o homem seja o centro de tudo,
antropocentrismo. Antropocêntrico é quem olha para o próprio umbigo, veado é
quem olha para o próprio, não. Nem contorcionista. Quem sabe se não vem dessa
limitação a sua curiosidade, seu hábito de ficar futricando lá...
Se pudibunda não é uma palavra
pudibunda, gay é uma palavra gay ao extremo; já viu um gay falando gay? Agora,
todos hão de concordar que, para aguentar o que veado aguenta, tem que ser
muito macho. Foi Millôr Fernandes que disse, na orelha do livro Jornal Dobrabil, que Glauco Mattoso não
é gay, é homossexual, coisa pra macho. Realmente, o grande poeta de nosso tempo
não dá a menor pinta, é sisudo e fala grosso. Mas lambeu meu pé. Foi a situação
mais homossexual em que me vi metido desde a viagem de caravela. Senti-me
praticamente enrabado. Mas decepcionei o amigo quando ele me perguntou se eu
tinha experimentado naquela ocasião uma sensação de poder sobre ele. Eu disse
que não, que só estava querendo agradá-lo. Foi o oposto do que ele queria.
Uma coisa carece ser dita: homem é
homem, mulher é mulher, sapatão é sapatão, veado é veado, e travesti é
travesti. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Essa última frase, propiciou-me a
conhecê-la Cunegundes, ao me apresentar à cultura futebolística. Joguei muito
futebol quando moleque, mas só assistia a jogo da seleção. Depois do casamento,
eu queria ver a novela, mas Cunegundes, com o controle-remoto na mão, punha no
futebol e nos programas acerca de futebol. Hoje assisto ao futebol pela TV,
pela Internet, e, quando não tem outro jeito, sintonizo meu radinho de pilha.
Radinho de pilha lembra-me Júnior, figura
cômica. Carioca de Madureira, com o qual tive o privilégio de trabalhar. Ele
torcia para o Flamengo, eu torcia para o Vasco, da Gama e de minha senhora.
Chegava segunda-feira, e era Juninho me sacaneando se o Vasco perdia do
Flamengo, ou eu o sacaneando quando do contrário. Mas, um dia, o Flamengo
perdeu não sei de que time, mas perdeu de lavada; como diz uma amiga portuguesa:
foi uma cabazada de gols. Cheguei no serviço zoando muito o colega
flamenguista, ao que ele ponderou na maior naturalidade: “É, pelo menos eu não
fico grudado num radinho de pilha, ouvindo jogo dos outros...”.
continua sábado...
P.S.: Já andei de Mercedes, quando era caminhoneiro.
P.S.: Já andei de Mercedes, quando era caminhoneiro.









