sábado, 1 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 24



Capítulo 24

         Enfim, o capítulo 24, no jogo do bicho: veado.
         Vejo-me na contingência de defender a causa veadista, combatendo com unhas e dentes, giletes e navalhas, a malévola homofobia.
         O veado está lá quietinho; de repente vem a homofobia, e créu. Assim não pode, assim não dá. Temos de respeitar o veado, bem como os demais integrantes do jogo do bicho, senão onde vai parar nosso folclore? Respeitem a cultura. Já pensou se um dia desses sai veado no milhar? Bem feito ao puto homofóbico que não joga no 24 nem por um caralho!
         Chinedo, bebum e veado acontece nas melhores famílias. Na minha, não. Talvez porque não seja das melhores famílias. O que importa é o amor.
         Uma das coisas mais melancólicas deste mundo deve ser veado com hemorroida. Isso é só um supositório. No campo especulativo, a Antropologia sugere que o homem seja o centro de tudo, antropocentrismo. Antropocêntrico é quem olha para o próprio umbigo, veado é quem olha para o próprio, não. Nem contorcionista. Quem sabe se não vem dessa limitação a sua curiosidade, seu hábito de ficar futricando lá...
         Se pudibunda não é uma palavra pudibunda, gay é uma palavra gay ao extremo; já viu um gay falando gay? Agora, todos hão de concordar que, para aguentar o que veado aguenta, tem que ser muito macho. Foi Millôr Fernandes que disse, na orelha do livro Jornal Dobrabil, que Glauco Mattoso não é gay, é homossexual, coisa pra macho. Realmente, o grande poeta de nosso tempo não dá a menor pinta, é sisudo e fala grosso. Mas lambeu meu pé. Foi a situação mais homossexual em que me vi metido desde a viagem de caravela. Senti-me praticamente enrabado. Mas decepcionei o amigo quando ele me perguntou se eu tinha experimentado naquela ocasião uma sensação de poder sobre ele. Eu disse que não, que só estava querendo agradá-lo. Foi o oposto do que ele queria.
         Uma coisa carece ser dita: homem é homem, mulher é mulher, sapatão é sapatão, veado é veado, e travesti é travesti. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
         Essa última frase, propiciou-me a conhecê-la Cunegundes, ao me apresentar à cultura futebolística. Joguei muito futebol quando moleque, mas só assistia a jogo da seleção. Depois do casamento, eu queria ver a novela, mas Cunegundes, com o controle-remoto na mão, punha no futebol e nos programas acerca de futebol. Hoje assisto ao futebol pela TV, pela Internet, e, quando não tem outro jeito, sintonizo meu radinho de pilha.
         Radinho de pilha lembra-me Júnior, figura cômica. Carioca de Madureira, com o qual tive o privilégio de trabalhar. Ele torcia para o Flamengo, eu torcia para o Vasco, da Gama e de minha senhora. Chegava segunda-feira, e era Juninho me sacaneando se o Vasco perdia do Flamengo, ou eu o sacaneando quando do contrário. Mas, um dia, o Flamengo perdeu não sei de que time, mas perdeu de lavada; como diz uma amiga portuguesa: foi uma cabazada de gols. Cheguei no serviço zoando muito o colega flamenguista, ao que ele ponderou na maior naturalidade: “É, pelo menos eu não fico grudado num radinho de pilha, ouvindo jogo dos outros...”.

continua sábado...


P.S.: Já andei de Mercedes, quando era caminhoneiro.

sábado, 24 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 23



Capítulo 23

         The pursuit of happyness, gostei desse filme. Sou um sujeito de pouca fala, e nunca choro; apenas choro vendo filme muito triste, tem de ser muito triste para eu chorar; drama não serve, tem de ser tragédia. O referido filme é apenas um drama, mas não apenas triste, é triste de fazer chorar; mas tem sua graça, por isso gostei dele. Sou assim, um retrato cubista.
         Eu era um sujeito baixo na infância, brigava na escola todo santo dia, e da minha boca só saía baixaria; de cada dez palavras articulas pelo meu aparelho fonador, onze eram de baixo calão; a propósito, a palavra calão, eu a aprendi num bilhete que a professora enviou para minha mãe. Depois fui ficando alto, e me tornei adulto. Agora sou meio velho, meio jovem; meio magro, meio barrigudo; meio careca, meio cabeludo...
         Sou um sujeito de poucas palavras, quando não estou tagarelando. É que eu fico bêbado sem beber nada; de repente, desce o espírito do sagui em mim, e começo a fazer a maior farra, falo adoidado. É fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente, é um faniquito a sós ou no meio desse povinho fuleiro que não conhece donaire.
         Meu lema é adiantar o meu sem atrasar o de ninguém, a não ser que esse ninguém venha a atravessar o meu caminho; pode estar na faixa de pedestre, atropelo mesmo. Ah, tem gente que não se enxerga! Por isso faço questão de usar óculos. O apelido mosca é por causa dos óculos.
         Sim, tenho um apelido. Mas quem não tem um apelido? Quem? Quem? Agora quero saber. Cunegundes não tinha. Fora o apelido sargentona, mandachuva, e pezão, não tinha mesmo não. Mas eu sou a mosca que pousei na sua sopa, e ela teve que me engolir.
         Mas desaforo ela não levava pra casa. Uma vez, a encontrei atracada a um brigadista do corpo de bombeiros num beco perto de nossa residência. Cheguei, e disse: Qual é a da parada aí? O bombeiro, sufocado, disse que a sargentona o tinha agarrado à força só porque ele se negara a apagar o fogo que lhe saía do beco. Não entendi direito; vistoriei o beco; tudo normal, padrão beco; disse: Vamos embora, querida, já está tudo bem. E voltamos para o nosso lar doce lar, de cabeça erguida.
         Minha cabeça começou a coçar. Cocei, cocei, cocei até dar no osso. Cresceu um galo enorme na minha testa, como se fosse uma galhada de rena. Fiz sucesso no Natal, puxando o trenó do Papai Noel, foi outro emprego que tive na vida, temporário como os demais.
         Ainda bem que não tive de puxar o saco do Papai Noel, pois nunca fui puxa saco. Via o povo puxando saco pra subir na vida, e cada vez se rebaixando mais nessa sina de puxar o saco, mania feia.
         Mania feia existe bastante no mundo. Quem nunca teve aquela mania feia de chupar o dedo? E a de enfiar o dedo no nariz para limpar o salão? Quem nunca teve manias de enfiar e de chupar de um modo geral?
         Vai vendo, meu povo, vai vendo. Atualmente, o que era feio está ficando bonito, e o que era bom costume está sendo visto com maus olhos. Oh, povinho fuleiro que não conhece donaire!

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P.S.: Não confunda cagar com a arte de fazer merda.

P.S.2: Otimismo amplo deriva do conjunto de pessimismos equivocados. E vice-versa.


sábado, 17 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 22



Capítulo 22

         Não é para me gabar, mas fiz uma descoberta científica no campo da ginecologia. O lugar onde a mulher tem o couro mais grosso é o calcanhar. Eu achava que seria o joelho, mas é o calcanhar. Trata-se de ginecologia pois, além do grelo, vulgo clitóris para os acadêmicos, a mulher tem pontos erógenos diversos, inclusive o calcanhar. Mas, se tem o couro grosso, pode ser ponto de excitamento trepatório? Sim, basta dar uma suave mordida no calcanhar feminino para desencadear o furacão que existe em sua genitália, ou receber um chute na cara, nunca se sabe em se tratando de mulher. Mulher é outro bicho.
         Mas todos já sabem que tanto mulher quanto homem cheira bacalhau na peixaria, onde mais? É cheirando o bacalhau que se escolhe melhor o que se vai comer. Quem nunca cheirou um bacalhau talvez o tenha comido ignorando suas especificações: se era bacalhau nacional, norueguês ou português p.o. — pura origem. A melhor contribuição trazida de Portugal para nossa cultura foi a piada de português, e o bacalhau da Maria.
         Já, lá na terrinha, as piadas são de brasileiro. E é bem provável que eu tenha sido o precursor de tão requintada tradição. Cunegundes veio disfarçada de padre, mas eu vim disfarçado de travesti de Copacabana. Enganei a portuguesada toda, acreditaram que eu fosse veado, e vieram me comendo a viajem inteira! Se durex é fita adesiva aqui no Brasil, lá é marca de preservativo. Falamos o mesmo idioma, mas cuidado para não ficar com cara de idiota. Algumas coisas têm nomes diversos. Gare, por exemplo, significa estação de trem na terra do Eça de Queiroz. Precavido quanto a esse particular, tomei o cuidado de perguntar a um português como se chama filho da puta em Portugal, ao que ele me respondeu: “Não chamamos, eles é que vêm de Varig do Brasil.”. Foi ainda no tempo em que existia a Varig — Vias Aéreas Rio-grandenses, uma espécie de caravela voadora.
         Ao embarcar de lá para cá, vi um bom portuga dando uma moedinha a um mendigo no cais do porto. O mesmo cidadão, ao chegar no Brasil, deu três moedonas para outro mendigo. Ao que lhe perguntei o porquê da diferença, recebendo uma bonita resposta: “É que este, além de mendigo, é brasileiro, ó pá!”. Quanto a tudo entre nós, o carinho é recíproco.
         Eu, que sou caboclo, reconheço a pluralidade de nossas origens; somos um povo forte, porque mestiço. A nossa parte índia planta a mandioca. A nossa parte negra descasca a mandioca. A nossa parte lusitana come a mandioca.
         Outrossim, acredito que cada homem tenha a sua porção mulher, e cada mulher tenha a sua porção homem. Minha porção mulher era Cunegundes.
         Ignoro o que será daqui para frente, o mundo está muito mudado. Outra frase de velho. Sempre os velhos disseram coisas assim, desde que o mundo existe. Contudo, dizem que antigamente era melhor, ressalvando porém que a vida era mais difícil. Não é por falar mal, mas acho que falam isso só para valorizar. Alguns companheiros meus velhinhos já estão no fim do pito, no cu do Saci, mas ainda arrumam jeito de oprimir quem está podendo.
         Velhacaria?

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P.S.: O besouro é o filhote de um tipo de tartaruga, que é voadora, e que é invisível na fase adulta.

sábado, 10 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 21 - ENEM: na Matemática nós se ferremo, mas no Português nós se garantemo.



Capítulo 21

              Escrever é um ofício, disse Joaquim Maria Machado de Assis.
         No pertinente a mim, peidar... é um ofício? Quanta diferença. Quinzinho sempre tão elegante, e eu nesta miséria. Parece que vejo-o aqui na minha frente dizendo “Não vá em frente.”, e guardando o pince-nez. Mas Quinzinho também peidava, nisso estamos parelhos. Que bom se sêsse, que bom se foice. Mas foice não é com cedilha? Com dois esses?
         A fome é positiva, não se nega. Tenho fome, logo existo. Farei uma pausa para comer, senão continuaria escrevendo indefinidamente até inexistir.
         Comido, cagado e mijado, prossigo.
         Já repararam que comer é mania que as pessoas têm? Volta e meia vejo gente comendo por aí. Para não morrerem obviamente. Pois não comer é outra mania, e mata. Ambas essas manias, em exagero, matam. Se a gente só se alimentasse de comprimidos, não precisaria cozinhar, nem cagar. É possível? Se fosse, já estaríamos nessa dieta.
         Cunegundes, mulher à frente de seu tempo, cozinhava para mim. Tenho saudade; no fundo, sou um romântico. Escrevo agora em memória dela, e do seu joelho de porco com repolho, ovo e feijão.
         Nem por isso eu deixava de queimar lata. Inclusive, só fui cozinhar depois de casado, quando Cunegundes estava em trabalho de parto, sou um romântico. Eu aprendera a cozinhar, porém, bem antes, observando os outros cozinharem. Quando chegou minha vez, não foi difícil.
         Mas Cunegundes era muito mais que um joelho de porco, era a matriarca entorno da qual foi crescendo a nossa brava descendência, a quem Neptuno e Marte obedeceram. E nossa gente povoou terra Brasilis para honra do ilustre peito lusitano, de el-rei e da cristandade.
         Não é à toa que há tanto protestante hoje em dia. Fazem bem, instigam os católicos a tomarem vergonha na cara. O que é o Brasil para um gringo? É a terra dos 2Ps: peão e puta. Se pelo menos achassem que aqui só existe índio, floresta e cachaça, tudo bem.
         Falando nisso, essa casa tem goteira, pinga ni mim. Já pedi que subissem no telhado várias vezes para consertar o problema, mas nada, pinga ni mim, pinga ni mim, pinga ni mim. Toda vez que chove.
         Melhor assim, é sinal que chove. Enquanto chover, está bom. Viva São José!, por quem acalento estranha devoção.
         São José, aliás... Deixa pra lá.
         Fernando de Bulhões, taumaturgo da Igreja, poderia bem realizar um milagrezinho que para ele seria pinto: desenvolver essa goteira numa enorme infiltração, a fim de que eu morresse feito Bocage, doente do pulmão. E daí eu fosse enterrado numa vala comum, feito Camões. Chique.
         Mas meu fôlego é incansável, apesar da idade. Quando jovem, corria a maratona inteira como se não tivesse três colhões gigantes para atrapalhar. Diziam que eu corria como se tivesse dois pulmões.

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P.S.: Bolsonaro é contra kit gay, mas, em 2019, ele pretende assumir.

sábado, 3 de novembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 20 - ENEM, minha esperança é vc; pois, no exame de fezes, já fui reprovado.



Capítulo 20

         No dia do meu casamento estive preocupado com o futuro que nos aguardava, o futuro que hoje é passado. Dentre os assuntos averiguados estava a possibilidade de esgotarem-se os assuntos para as conversas que teria com Cunegundes. Não se esgotaram. Casamento é que nem culinária, só que sem receita. O necessário é começar, e aí vai vendo no que dá. Sempre cozinhei sem receita; eu via alguém fazer uma receita, memorizava, e depois fazia o mesmo. Casamento é rotina, mas varia muito. É ir metendo os peitos, encarando as dificuldades, e fazendo ajustes. “Navegar é preciso, viver não é preciso.”.
         Na dúvida, foda-se. Rusdete, por exemplo. Rusdete, irmã de Rusite. Cada filho, um pai. Quem não conhece alguém assim? Cunegundes sempre procurava um pai bonito para nossos filhos, e deu certo. Na cartilha de Rusdete, minha senhora aprendeu a escrever nossa história de amor, dando sempre certo.
         Quem dá certo na vida é quem escolhe bem para quem dar. Eu não tive esse privilégio. Não dei certo, mas nem por isso dei errado. Simplesmente não dei. Peidei.
         Trocadilhos à parte: Em buraco de cobra, tatu caminha dentro? Tatu caminha dentro é a resposta correta, não vacile. Jacaré no seco anda? No seco anda. Em conformidade com a norma, em seu parágrafo D.
         Já pensou o parágrafo supra citado acima? Não pense, conselho daquele meu patrão. Quem casa não pensa, quem pensa não casa. Na dúvida, foda-se. É por aí, ué. E o buraco é mais embaixo. Esto vir, seja homem! A família é a célula máter da sociedade. O dever em primeiro lugar. O serviço militar é obrigatório. Ou não. Japonês tem quatro filhos. Laranja da China, laranja da China, laranja da China! Abacate, limão doce e tangerina...
         Hoje não caguei. Mas estas palavras estão saindo de dentro, e isso é o mais importante. Pois merda nenhuma vai me fazer tirar a bunda deste acento agudo, ainda se circunflexo fosse. Atitude é fundamental. E, após o Fundamental, o Ensino Médio. E, após o Ensino Médio, escrever no banheiro da Faculdade de Filosofia que o futuro do Brasil está saindo de dentro de você.
         Jamais escrevi isso, sou patriota. Não me concebo a semear titica pelas latrinas que frequento. Se Castro Alves queria semear livros, junto-me a ele, semeando não o sêmen da libido, mas a libido da Literatura.
         Na baixa da libido, o Viagra do inconformismo! Na Baixa do Sapateiro, a graxa pra dar no couro! Na baixa estação, aumente o volume! Nunca a abstinência no uso de suas atribulações, nunca a abstinência do senso de dever, nunca a abstinência do espírito de sacrifício, nunca a abstinência!
         Sinto o mundo rodar... como se houvesse um requeijão dentro do crânio. Dizem que aquela porra sobe pra cabeça. Aquela porra, no caso, a porra.
         Então, que venham as invasões bárbaras para o meu cérebro! Não hei de me abster da abstinência obstinada por my true love.
         Amor, I love you. Amor, I love you.

continua sábado...


P.S.: ENEM, minha esperança é vc; pois, no exame de fezes, já fui reprovado.

P.S.2: Quero fazer bonito no ENEM, porque, no exame de fezes, só fiz merda.

sábado, 27 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 19




Capítulo 19

         Quanto tempo ainda terei de ir morrendo até ser cagado deste mundo junto com o peido cósmico do meu alívio? Morri a infância, a adolescência, a juventude; morri meu futuro, que já está no passado. Mas este meu corpo peidorreiro insiste em sobreviver a mim mesmo, que, de certa maneira, de muita maneira! morri com minha cônjuge.
         Ué, suicide-se em vez de reclamar.
         Quando pela primeira vez me disseram que é morrendo que se vive para a vida eterna, morrendo a gente vai para o Céu, encontra Deus e os parentes defuntos, achei que a morte era tudo de bom. Logo, o suicídio seria o próximo passo. Mas, e o cagaço? O medo colaborou positivamente na construção do conhecimento do menino que fui eu, ao segurar minha mão de Abraão degoladora junto ao meu próprio pescoço de Isaac; o anjo veio, e disse: “Pensa, desgraçado, pensa!”. Então, espaireci as ideias, e saquei a parada. O negócio é o seguinte, suicídio é assassinato. Não matarás, diz o mandamento. No suicídio o sujeito mata alguém, no caso, ele mesmo. Logo, suicídio não é o próximo passo, é pecado. O cagaço deu pulos de alegria; meu franzido, que estava trancado, soltou uma saraivada de peidos.
         A gente passa a infância querendo ser adulto, incentivam-nos a isso, e é necessário. De repente, pá! pá! pá!, fuzila-nos a adolescência. O que é a adolescência? Não quero me lembrar, nem consigo; amnésia traumática. A infância, porém, possui uma intensidade que perde-se no tempo; o tempo inclusive parece passar mais devagar porque tudo é novidade; depois, a memória vai descartando o que se repete, e o tempo voa. Na infância estamos mais antenados, sabemos de um tudo na nossa ignorância da própria ignorância. Mas é lá que vivemos a vida mais viva, adquirindo a quantidade de movimento para prosseguir vida a fora, por inércia.
         Contudo, não tenha a infância sobre nós domínio. Um adulto infantilizado é mais ridículo que uma criança se passando por adulta. Outrossim, temos de orientar as crianças, e não o contrário.
         Padre José de Anchieta foi um homem com H maiúsculo. Tantos padres sucederam-se na vida rigorosa a fim de cristianizar o Brasil, e agora vem gente bater em nossas portas dizendo que têm de nos cristianizar, com a maior cara-de-pau. Aqui é fácil chegar com uma bíblia, por que não tentam fazer isso no Irã? O fato é que o espírito do tempo se encarregou de descristianizar esta Terra de Vera Cruz, mas os terrenos bravios já foram desbastados.
         José de Anchieta provou sua fé por suas obras. Vexo-me diante de tão excelente homem. Eu, que tenho deixado apenas versos de lavabo. Cada um dá o que tem; se não tem, dar como? Homem de pouca fé que sou, tento deixar uma obra, e vexo-me também nisso com a culpa de buscar a nomeada, o que sei que não vem ao caso, pois seria um estorvo. Almejo como que confidenciar a amigos desconhecidos, por meio da Literatura, um pouco de minha jornada.

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sábado, 20 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 18


Capítulo 18

         O prato não é de quem faz, é de quem come. Frase do movimento operário, ou meta do plágio?
         Certa vez encontrei plágio na parede dum banheiro, achei uma merda aquilo, um verdadeiro desperdício de tempo. Acha possível? Gastar o precioso tempo de descanso da classe operária com palavras de outrem? E assassinando como se fosse de sua lavra? E aí como é que fica? E o poeta, esse operário das ruínas? E o verme, esse operário dos poetas mortos? E a sociedade? E a sociedade dos poetas mortos? Carpe diem, seus filhos da puta. E a puta, essa operária de operários? Ninguém merece!, diria a puta obviamente.
         Nunca conheci puta intimamente a fundo. Mulher para mim foi apenas Cunegundes. Mas tive curiosidade. Curiosidade, a semente do mal. Tive curiosidade, e fui à zona do baixo meretrício para uma experiência antropológica. Disse que era repórter do Diário do Dia, e conversei com algumas profissionais do sexo. O que me espantou foi conferir que todas já eram mães, puta que o pariu!, com o perdão da palavra. A expressão, que me era indiferente até aquele momento, ganhou um sentido trágico. Olha, de modo algum sexo pode ser profissão, e, no entanto, está na boca do povo que prostituição seja a profissão mais antiga do mundo. Que mundinho fodido é esse?
         É o mundo da Civilização, processo irreversível até o fim dos tempos — frase escatológica feito um peido. Já o puto do Karl Marx, que, diga-se de passagem, nunca pegou no pesado, nem em foice, nem em martelo, esse cara achou que a sua obra causaria o fim da História por meio do comunismo. Bem intencionado demais, mais otimista do que eu. O ser humano não é bom o suficiente para a anarquia, se nem Cristo deu jeito. Vê se a voz do povo é a voz de Deus, não foi o povo que mandou crucificá-lo?
         Isto posto, ponha Barrabás em liberdade.
         É por isso que eu peido, já fizeram coisa pior.
         É por isso que sou favorável à democracia, mas com um governo forte. Senão, o que acontece? Os estrangeiros vêm aqui, corrompem políticos, e nos cagam na cabeça. Monarquia soa mal? Pois foram interesses alheios ao povo que depuseram Dom Pedro II, um sujeito de bom senso que, no mínimo, teve o mérito de manter o Brasil coeso, ao contrário do que ocorreu com a América Espanhola. O segundo país a ter telefone, qual foi?
         Monarquia não garante nada se o monarca for mau. Mas isso se resolve com bom senso também, um monarca não governa isolado. Além do que, quem governaria mesmo seria o primeiro-ministro. O monarca teria o papel fundamental de zelar pela probidade administrativa, com régios poderes para depor quem se revelasse nocivo à nação.
         Chega de Política, sempre dá em confusão.
         Peidar, às vezes, dá em confusão. O peido seria então objeto de preocupação das políticas púbicas do baixo-ventre?
         Ignoro.
         E passo adiante.

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sábado, 13 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 17

Cronotransporte-se para 1933: Link


Capítulo 17

         Logo que chegamos à Terra de Santa Cruz só não fomos canibalizados porque mostramos covardia, e porque o Bispo Sardinha parecia mais gostoso. Cunegundes e eu saímos em excursão pelo Novo Mundo desprevenidos dos perigos que corríamos. Estávamos corados, o que nos aproximava um pouco da cor dos nativos, mas isso só fez aumentar-lhes a gula quando nos capturaram em Pernambuco.
         Comecei a peidar desesperadamente. Quase alcei voo, ao que mais me contorci a fim de escapar por via aérea. Cunegundes, porém, agarrou meu pênis, que foi esticando..., esticando... Achei bom até o ponto em que, feito um elástico, ele se contraiu e me estatelou no terreno. Borrei-me, esparramei bosta por todo canto. Os índios não gostaram. Cobri a cabeça esperando o pior. Quando elevei o olhar, tinham sumido. Cunegundes riu, e descobriu o valor da covardia.
         Corajoso foi o Bispo Sardinha, que acabou no espeto. Mas, dependendo da situação, há total prudência em ter coragem; no martírio, por exemplo. O que parece, mas não foi o caso do Bispo Sardinha, que enfrentou os índios com ameaças em causa própria. Sei lá se foi injustiça eu ter me livrado por peidar e cagar em causa própria, agi sem pensar, e, pensando nisso, chego à conclusão de que a Providência Divina foi generosa comigo, e meu patrão acertou na mosca ao dizer que não era para se pensar. Tem coisa que vai no automático.
         Rotina vai no automático, se você for parar para pensar, aí sífu. E bastante mífu durante minha vida de empregado, num desemprego intermitente de dar agonia em motorista de ambulância. Sentiu a perspicácia da colocação? Motorista de ambulância, que já viu tudo que é medonho. E o pisca-pisca da sirene. Não. Foi mal. Foi péssimo.
         Se eu soubesse que era fácil assim escapar da morte iminente... “Se eu soubesse que a saudade não se esquece nem querendo, não deixava essa amizade para não ficar sofrendo.” — Noel Rosa, às vezes é inevitável. Tá aí outra unanimidade: Noël de Medeiros Rosa. Unanimidade é boceta e Noel Rosa.
         Concentremo-nos na boceta. Quem tem uma, cuida. Quem não tem, vive correndo atrás. Ou não. O homem sai dali, e passa a vida querendo entrar numa de novo. Se bem que esse costume está saindo de moda.
         Eu, por exemplo. Depois que enviuvei... nunca mais vi a cor. Hambúrguer te lembra alguma coisa? Porra, o hambúrguer é tão favorecido pelo gosto e bom gosto popular por quê? Porque hambúrguer tem cheiro de xoxota! Ou não. Aí depende do asseio.
         Asseio, entretanto, é pressuposto para tudo. Se você não toma banho todos os dias, voltou para a Idade Média.
         Ah, Idade Média, pelo menos havia ordem naquele tempo... e mais fedor... e amputação sem anestesia, e cauterização a força de azeite fervendo.
         Concentremo-nos em Noel Rosa, melhor assim. O Poeta da Vila seria um vilão naquela época? O Filósofo do Samba talvez e muito certamente seria o autor de cantigas de escárnio e maldizer. Toca Noel...

Filme: como era gostoso o meu francês

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sábado, 6 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 16



Capítulo 16

         Aspirina faz um bem tremendo. Não é merchandising, o remédio genérico faz o mesmo efeito: ácido acetilsalicílico 500mg. No capítulo retrasado tive dor de cabeça, tomei o remédio, e, além de curar a dor, deu-me disposição física para continuar escrevendo; eu estava cansado.
         Reconheço que eu talvez não seja prolixo o suficiente para a prosa, nem por isso quem faz prosa o é. Concisão excessiva, sofro dessa patologia, a qual acomete quem costuma resumir tudo nos quatorze versos do soneto. Trova e haicai então, mas aí já acho exagero. Gosto de muitas trovas e haicais alheios, ainda que desenvolva melhor o soneto.
         Deveria existir aspirina para velório. É um respeito ao defunto, concordo; mas não chega a ser uma satisfação dada a quem veste o paletó envernizado, e cosido pelo marceneiro. Senão, veja, quem morre já foi desta para melhor, ou pior. Notará a minha presença? Ah, mas os familiares notarão minha ausência. Danem-se. Só fui ao velório de Cunegundes, e de Aquiles.
         Aquiles..., o dele foi o funeral. Velório é para os mortais. Quando um imortal morre, aí é funeral, com toda pompa e ocasião. Parece que foi ontem, Homero declamando em primeira audição o poema épico.
         Dizem os entendidos que a Literatura começou com a Poesia; então, por que atualmente o grande público quer Prosa? Eu pergunto e eu mesmo respondo: Tem culpa eu? Nunca! A culpa é do verso-livre, só não vê quem não quer, ou não consegue ver, ou não consegue no geral. Estou falando não de um Manuel Bandeira, que fazia verso-livre com maestria, mas também fazia com perfeição o verso tradicional; estou me referindo a quem deprecia o verso com rima, métrica e prosódia pelo fato de ser incapaz de uma trova em redondilha sequer. Pronto, falei. Tinha de falar, pois paira um cinismo quanto ao tema.
         Isto posto, vai vendo, vai vendo.
         Porém, ocorre que a prosa favorece a tradução, e o verso-livre também. Nesse ponto dou razão a quem não me deu razão quanto à estética que cultivo.
         Assisto ao velório da poesia? Jamais! Toda geração tem seus poetas sustentando o lábaro juvenil da inspiração. Literatura de Cordel, por exemplo; é tradicional e atual. Clássico é o que perdura.
         Ariano Suassuna, meu filho número não me lembro mais, fez jus ao nome. Na adolescência escreveu os cordéis "A ressurreição de Padre Cícero", "O Saci-Pererê e a Mula-sem-cabeça à procura do Mágico de Oz", e "Se não fosse seria – o duelo entre João Sem-Braço e o Vaqueiro Cego".
         Viva o Cordel, que preserva nossa tradição literária!
         Quero eu um dia escrever um cordel. Por enquanto falta-me a imaginação para tanto. Quem sabe este texto em prosa seja ensaio para o cordel.
         Inclusive acho que Homero foi o precursor do Cordel, e Aquiles o precursor de Virgulino Ferreira da Silva, o calcanhar-de-aquiles das volantes. Agora, o Cavalo de Troia... É, o Cavalo de Troia só pode ter sido precursor do J. J. Benítez e do vírus de software.

continua sábado...


sábado, 29 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 15



Capítulo 15

         Quem não chora não mama, e cada um chora por onde tem saudade. Por exemplo minha antiga vizinha, a velhinha Perpétua.
         Perpétua, viúva desde quando eu não o era e morava em terras cariocas, chorava o falecido todas as noites no quintal de sua casa, fazendo xixi na terra, e dizendo: “Vai, minha filha, já que não come, chora!”.
         Até que, numa noite, meu filho Nelson, então com doze anos de idade, viu Perpétua chorando o falecido, e achou bonito na noite seguinte presentear a velha. Raciocinou: “Eu vou comer essa velha...”. Cavocou a terra, a bem da verdade praticamente fez uma sepultura para si mesmo em solidariedade ao falecido, e deixou o pinto duro para fora. Perpétua logo veio fazer xixi, mas, sentido algo diferente, teve um momento de solilóquio: “É..., acho que conheço isso. É..., faz tempo, mas com certeza é.”. E assim, Nelsinho foi comendo a velha. Até que, numa noite, resolveu espiar se a velha iria sentir falta de alguma coisa, e ficou de tocaia encima do muro. A velha veio, foi apalpando a terra, e sentenciou inconformada: “Ah, esses moleques filhos da puta! Já arrancaram o pezinho de caralho que estava nascendo aqui!”.
         Nelson Rodrigues, orgulho do papai. Essa anedota popular cairia como uma luva para ele. Mas faz de conta que foi. Não poderia é deixar de registrar tão pitoresca estória.
         Nem tudo é tão fácil quanto imaginamos, nem tão difícil quanto parece. No caso do ovo de Colombo, foi o inverso. No caso do meu filho Nelson, não foi nem uma coisa nem outra.
         Eu, porém, matutava o dia inteiro, e por conta disso mesmo perdi cada um dos empregos de que fui demitido. Certa feita, tive dúvida a respeito do funcionamento duma máquina, e disse ao patrão: “Eu pensei que...”. Ao que imediatamente ele respondeu: “Não é para pensar.”. Achei isso de uma sabedoria profunda, conforme o ditado popular: “De pensar morreu um burro.”.
         Durei mais uns tempos naquele emprego, graças a um novo lema que formulei para minha vida: “Sem pensar viveu um burro.”. Foi ótimo, guardo o lema com carinho até hoje. Perceberam?
         Ingressei no movimento artístico Sanitarismo por essa época, usando o lema da irracionalidade. Chegava no ateliê sanitário, e pá! pá! pá!, mandava a letra com a primeira merda que me vinha. A rapeize de hoje em dia não sabe dar valor a uma boa literatura de banheiro, acho que é culpa do Modernismo que avacalhou com a Poesia.
         Imagino o que um Olavo Bilac, um Gregório de Matos, mais ainda um Augusto dos Anjos, o que esses vates seletos fariam se conhecessem o sanitarismo literário. Imaginem Michelangelo esculpindo em cocô, Botticelli pintando sobre vaso, Sócrates pensando no reservado como O Pensador, de Rodin?
         História não se faz com suposições, reconheço, a História é e pronto. Aliás, a vida não se faz com “supunhetemos que de repentelho” nem com supositórios, exceto, em parte, a dos farmacêuticos. Como diria Tenório Cavalcante, homem de fino trato: “A vida é feita de fases. Ou tu fazes, ou tu não fazes.”.

continua sábado...