Capítulo
19
Quanto tempo ainda terei de ir morrendo
até ser cagado deste mundo junto com o peido cósmico do meu alívio? Morri a
infância, a adolescência, a juventude; morri meu futuro, que já está no
passado. Mas este meu corpo peidorreiro insiste em sobreviver a mim mesmo, que,
de certa maneira, de muita maneira! morri com minha cônjuge.
Ué, suicide-se em vez de reclamar.
Quando pela primeira vez me disseram
que é morrendo que se vive para a vida eterna, morrendo a gente vai para o Céu,
encontra Deus e os parentes defuntos, achei que a morte era tudo de bom. Logo,
o suicídio seria o próximo passo. Mas, e o cagaço? O medo colaborou
positivamente na construção do conhecimento do menino que fui eu, ao segurar
minha mão de Abraão degoladora junto ao meu próprio pescoço de Isaac; o anjo
veio, e disse: “Pensa, desgraçado, pensa!”. Então, espaireci as ideias, e
saquei a parada. O negócio é o seguinte, suicídio é assassinato. Não matarás,
diz o mandamento. No suicídio o sujeito mata alguém, no caso, ele mesmo. Logo,
suicídio não é o próximo passo, é pecado. O cagaço deu pulos de alegria; meu
franzido, que estava trancado, soltou uma saraivada de peidos.
A gente passa a infância querendo ser
adulto, incentivam-nos a isso, e é necessário. De repente, pá! pá! pá!,
fuzila-nos a adolescência. O que é a adolescência? Não quero me lembrar, nem
consigo; amnésia traumática. A infância, porém, possui uma intensidade que
perde-se no tempo; o tempo inclusive parece passar mais devagar porque tudo é
novidade; depois, a memória vai descartando o que se repete, e o tempo voa. Na
infância estamos mais antenados, sabemos de um tudo na nossa ignorância da
própria ignorância. Mas é lá que vivemos a vida mais viva, adquirindo a
quantidade de movimento para prosseguir vida a fora, por inércia.
Contudo, não tenha a infância sobre nós
domínio. Um adulto infantilizado é mais ridículo que uma criança se passando
por adulta. Outrossim, temos de orientar as crianças, e não o contrário.
Padre José de Anchieta foi um homem com
H maiúsculo. Tantos padres sucederam-se na vida rigorosa a fim de cristianizar
o Brasil, e agora vem gente bater em nossas portas dizendo que têm de nos
cristianizar, com a maior cara-de-pau. Aqui é fácil chegar com uma bíblia, por
que não tentam fazer isso no Irã? O fato é que o espírito do tempo se
encarregou de descristianizar esta Terra de Vera Cruz, mas os terrenos bravios
já foram desbastados.
José de Anchieta provou sua fé por suas
obras. Vexo-me diante de tão excelente homem. Eu, que tenho deixado apenas
versos de lavabo. Cada um dá o que tem; se não tem, dar como? Homem de pouca fé
que sou, tento deixar uma obra, e vexo-me também nisso com a culpa de buscar a
nomeada, o que sei que não vem ao caso, pois seria um estorvo. Almejo como que
confidenciar a amigos desconhecidos, por meio da Literatura, um pouco de minha
jornada.
continua sábado...










