quinta-feira, 8 de março de 2018

FORMIGA TATEANTE



formiga tateante

— o valor absoluto dos objetos
depende, e, ao depender, não vale nada. —,
pensava uma formiga ensimesmada,
vasculhando no mato alguns dejetos.

a formiga notou que, nos afetos
pelas coisas, a gente — que piada! —
parece mesmo achar que eternizadas
serão as nossas coisas e projetos.

notou também, o inseto, que eu notava
seu solilóquio anônimo pensante,
então falou mais alto, um tanto brava:

— até uma formiga tateante
conhece o que ao humano humanizava,
que é pensar no absoluto a cada instante. —.


marcos satoru kawanami

terça-feira, 6 de março de 2018

ESTOICO



estoico

jejum, divina conexão da fome,
estranha afirmação que ao corpo nega
o estado natural de besta cega
que em ânsias dos instintos se consome.

difícil conseguir que a alma dome
as coisas da matéria, à qual se apega
por costume do corpo, seu colega,
seu amigo e rival de mesmo nome.

buscar o que é do alto é alpinismo
com muito pé no chão, esforço heroico
que vê, ao mais subir, maior abismo.

vertigem de inalar vapor benzoico
impõe-me a disciplina quando cismo
que bom é me ferrar, mas ser estoico.


marcos satoru kawanami

domingo, 4 de março de 2018

ENGRENAGEM HOROLÓGICA



engrenagem horológica

o mundo oscila entre matéria e luz
conforme pelo tempo vai andando
ao modo de engrenagem, que vibrando
na mínima amplitude se conduz.

matéria-não-matéria a qual produz
a passagem do tempo agora e quando
permite o movimento, compassando
tudo que à cinemática seduz.

o belo vem do belo desde a essência,
a vida vem da vida, e vêm os atos
de um ato que aos demais tem precedência.

a escrita guarda a história em seus relatos
seguindo pelo tempo uma sequência
que oscila, vão e vêm também seus fatos.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 2 de março de 2018

ATUAL CONJUNTURA

link: o samba do crioulo doido

atual conjuntura

propenso a não pensar na conjuntura
do mundo, para a qual não há potência
nem ato em minha reles contingência
que possa transcender a razão pura,

eu acho que é melhor, à essa altura,
ficar sem achar nada, e, com prudência,
cagar para os arautos da ciência,
talvez nem mais fazer literatura.

porém, se o mundo inteiro der-se as mãos,
ninguém conseguirá puxar gatilho,
a força do indivíduo é a união.

só que não. decadência é nosso trilho
traçado na tragédia desde Adão
até que volte o Pai que se fez Filho.


marcos satoru kawanami



ilustração: pintura de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

TEQUILA!


tequila!

infância, pirilampo que cintila:
acende, apaga, acende, apaga, avoa,
um rastro luminoso à noite à toa,
um astro refletido nas pupilas.

cachaça, quando a cana se destila:
apaga, apaga, apaga, apaga, entoa
um samba que dos bêbados caçoa
num verso que gargalha e diz: tequila!

palavras desconexas embaralham
o nexo do que vai supra versado
a fim de que estes versos nada valham.

mas, “se saiu de dentro...”, foi cagado!,
e é cada cagalhão que agora encalham
enquanto já me sento ali veado.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

LEDO LÍRIO


ledo lírio

há dias tenho febre e nada como,
guardado no meu claustro de abandono,
e penso que morri durante o sono,
sonhando entre o cipreste e o cinamomo.

deliro, delirando provo o pomo
dulcíssimo da morte, e a morte entrono
flertando com o mal, porém meu dono
restaura-me no bem, pois ecce homo.

não faz sentido algum morrer assim,
pecando mesmo até num vão delírio,
findando em desrazão ao ter um fim.

então, a Cristo entrego o ledo lírio
da vida que não mais pertence a mim,
querendo o abraço amigo do martírio.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

VAI NÃO INDO


vai não indo

é claramente obscuro, à luz do contra,
o trato airado com a coisa púbica
que paira desairoso na república
conforme uma cartilha que vem pronta.

quem não a encomendou, pagando a conta,
na seca em que soçobra deixa lúbrica
a mão que afana sempre a coisa pública,
e as coisas não coisas ficaram tontas.

pra bom entendedor, um ponto basta;
mas toda explicação não vale nada
pra quem tapou a mente, e entanto pasta.

pastando, vai não indo pela estrada
também a rês tapada que se afasta
sem ter um bom destino na jornada.


marcos satoru kawanami


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ENTRE A CRUZ E A ESPADA - verso alexandrino



entre a cruz e a espada

a parte mais tocante é quando alguém se toca
que, mesmo semelhante, a parte que lhe cabe
está bem mais adiante, em partes do quem sabe,
além, no altissonante além que o povo evoca.

aqui, bem mais aquém, o cisma se provoca
estrábico demais, ainda que se gabe
da racionalidade, ainda que se babe
ao modo de um bebê diante da pipoca.

o cisma da razão em nome da verdade,
e o cisma da verdade em nome da razão,
têm muito divertido a louca humanidade.

por pouco gente morre a bala de canhão,
e por contrariamente, em tal calamidade,
por pouco gente morre a bem da salvação.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

BOBAGEM


bobagem

bobagem pode ser ou acontece
ou é pensada ou mesmo acaba escrita,
é má ou boa, às vezes é bendita
se algum dano maior ela amortece.

bobagem, malha que o destino tece
fazendo nossa vida mais bonita,
ou não, a depender de quem a fita,
porém, se a recebeu, a bem merece.

carregue sempre um pouco de bobagem,
não em excesso, assim não lhe convém,
mas uma ou duas dentro da bagagem.

porque muito pior é quando alguém
ostenta tanta fleuma na embalagem
que acaba apodrecendo o que contém.


marcos satoru kawanami


domingo, 4 de fevereiro de 2018

rei momo



rei momo

estando a sacudir de forma obesa,
o rei do carnaval se sacudia,
e, em vias de cumprir a profecia,
o momo era o plebeu na realeza.

o momo, assim, talvez ou com certeza
é o bobo que venceu a picardia,
e agora despotiza na folia,
e agora tem de tudo sobre a mesa.

contudo, cá no claustro, nada vejo
do rei saculejante e untuoso,
mas sacudo, sacudo de desejo.

o desejo é castigo rigoroso;
por isso, em penitencia, mais almejo
estar à mesa com o rei guloso.


marcos satoru kawanami



Conversa maluca extraída do filme Sonho de valsa, de Ana Carolina:

mulher: Se você fosse mulher, você namorava meu irmão?
homem: Na hora.
mulher: Sabe que, se eu fosse homem, também comia tua mãe?