terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

TEQUILA!


tequila!

infância, pirilampo que cintila:
acende, apaga, acende, apaga, avoa,
um rastro luminoso à noite à toa,
um astro refletido nas pupilas.

cachaça, quando a cana se destila:
apaga, apaga, apaga, apaga, entoa
um samba que dos bêbados caçoa
num verso que gargalha e diz: tequila!

palavras desconexas embaralham
o nexo do que vai supra versado
a fim de que estes versos nada valham.

mas, “se saiu de dentro...”, foi cagado!,
e é cada cagalhão que agora encalham
enquanto já me sento ali veado.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

LEDO LÍRIO


ledo lírio

há dias tenho febre e nada como,
guardado no meu claustro de abandono,
e penso que morri durante o sono,
sonhando entre o cipreste e o cinamomo.

deliro, delirando provo o pomo
dulcíssimo da morte, e a morte entrono
flertando com o mal, porém meu dono
restaura-me no bem, pois ecce homo.

não faz sentido algum morrer assim,
pecando mesmo até num vão delírio,
findando em desrazão ao ter um fim.

então, a Cristo entrego o ledo lírio
da vida que não mais pertence a mim,
querendo o abraço amigo do martírio.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

VAI NÃO INDO


vai não indo

é claramente obscuro, à luz do contra,
o trato airado com a coisa púbica
que paira desairoso na república
conforme uma cartilha que vem pronta.

quem não a encomendou, pagando a conta,
na seca em que soçobra deixa lúbrica
a mão que afana sempre a coisa pública,
e as coisas não coisas ficaram tontas.

pra bom entendedor, um ponto basta;
mas toda explicação não vale nada
pra quem tapou a mente, e entanto pasta.

pastando, vai não indo pela estrada
também a rês tapada que se afasta
sem ter um bom destino na jornada.


marcos satoru kawanami


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ENTRE A CRUZ E A ESPADA - verso alexandrino



entre a cruz e a espada

a parte mais tocante é quando alguém se toca
que, mesmo semelhante, a parte que lhe cabe
está bem mais adiante, em partes do quem sabe,
além, no altissonante além que o povo evoca.

aqui, bem mais aquém, o cisma se provoca
estrábico demais, ainda que se gabe
da racionalidade, ainda que se babe
ao modo de um bebê diante da pipoca.

o cisma da razão em nome da verdade,
e o cisma da verdade em nome da razão,
têm muito divertido a louca humanidade.

por pouco gente morre a bala de canhão,
e por contrariamente, em tal calamidade,
por pouco gente morre a bem da salvação.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

BOBAGEM


bobagem

bobagem pode ser ou acontece
ou é pensada ou mesmo acaba escrita,
é má ou boa, às vezes é bendita
se algum dano maior ela amortece.

bobagem, malha que o destino tece
fazendo nossa vida mais bonita,
ou não, a depender de quem a fita,
porém, se a recebeu, a bem merece.

carregue sempre um pouco de bobagem,
não em excesso, assim não lhe convém,
mas uma ou duas dentro da bagagem.

porque muito pior é quando alguém
ostenta tanta fleuma na embalagem
que acaba apodrecendo o que contém.


marcos satoru kawanami


domingo, 4 de fevereiro de 2018

rei momo



rei momo

estando a sacudir de forma obesa,
o rei do carnaval se sacudia,
e, em vias de cumprir a profecia,
o momo era o plebeu na realeza.

o momo, assim, talvez ou com certeza
é o bobo que venceu a picardia,
e agora despotiza na folia,
e agora tem de tudo sobre a mesa.

contudo, cá no claustro, nada vejo
do rei saculejante e untuoso,
mas sacudo, sacudo de desejo.

o desejo é castigo rigoroso;
por isso, em penitencia, mais almejo
estar à mesa com o rei guloso.


marcos satoru kawanami



Conversa maluca extraída do filme Sonho de valsa, de Ana Carolina:

mulher: Se você fosse mulher, você namorava meu irmão?
homem: Na hora.
mulher: Sabe que, se eu fosse homem, também comia tua mãe?


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FLATOS FATUAIS



FLATOS FATUAIS

Em fino acabamento o mármore da História
conclui que concluir... demora pra caramba!,
e toda conclusão paira na corda bamba,
por mais que cabalmente oclusa e meritória.

Contudo, vasculhando as teias da memória,
alguém há de dizer que já dizia o samba...
que esse disse-me-disse, algum dia, descamba
como a lua do céu, como a ilusão da glória.

Um outro alguém ainda há de dizer: “Não disse?”,
dizendo sem dizer, com sopros do intestino
referendando o arbítrio à vista da mesmice.

E o mármore da História encerra o que é destino
numa vala comum, como quem concluísse
com flatos fatuais um verso alexandrino.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CRÉDITO É DÍVIDA



CRÉDITO É DÍVIDA

O que será da Zeferina um dia?,
do jeito que está indo, um dia, acaba
perdendo para o fisco a própria raba
gastando tudo ou mais do que devia.

E deve, no armazém, na drogaria,
em lojas deve tanto que se gaba
do crédito que tem em toda a taba,
vertendo muita fé na loteria...

O povo tem se rido pela naba,
a naba a qual avoa e tudo sonda,
e pega alguém dormindo enquanto baba.

Pois ela está fazendo a sua ronda,
e, além da Zeferina, um dia, enraba
aqueles que também vão nessa onda.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

alheio ao cérebro

Catedral - Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


alheio ao cérebro

de tudo quanto guardo na memória,
alheia-me do cérebro a mais viva
vivência, transcorrida na instintiva
idade de uma mente extracorpórea.

depois, em profusão de copa arbórea,
neurais sinapses, tino que nos criva
na cruz da nossa humana e purgativa
jornada até que venha o fim da história.

por isso tenho apreço a fase dantes,
a fase do ideal que permanece,
a fase consistente e mais constante.

e, após a copa arbórea que perece,
revele-se ela tão dessemelhante
na vida que de crivos não padece.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PARDAL



pardal

talvez alguma ideia positiva
conduza minha lira velha, um dia,
aos dias da pretérita alegria
que agora, a relembrá-los, me incentiva.

porém, ao ver cantar a patativa,
notei o quão pardal que pouco pia
tem sido minha estranha poesia,
jogada no papel de forma esquiva.

calando, pois, escrevo meu presente,
presente positivo e bem empírico
conforme o dia-a-dia, comumente.

e, à noite, dou vazão ao estro lírico,
o qual, à luz do sol, calou latente
seu canto de pardal, seu canto onírico.


marcos satoru kawanami