quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

FLATOS FATUAIS



FLATOS FATUAIS

Em fino acabamento o mármore da História
conclui que concluir... demora pra caramba!,
e toda conclusão paira na corda bamba,
por mais que cabalmente oclusa e meritória.

Contudo, vasculhando as teias da memória,
alguém há de dizer que já dizia o samba...
que esse disse-me-disse, algum dia, descamba
como a lua do céu, como a ilusão da glória.

Um outro alguém ainda há de dizer: “Não disse?”,
dizendo sem dizer, com sopros do intestino
referendando o arbítrio à vista da mesmice.

E o mármore da História encerra o que é destino
numa vala comum, como quem concluísse
com flatos fatuais um verso alexandrino.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CRÉDITO É DÍVIDA



CRÉDITO É DÍVIDA

O que será da Zeferina um dia?,
do jeito que está indo, um dia, acaba
perdendo para o fisco a própria raba
gastando tudo ou mais do que devia.

E deve, no armazém, na drogaria,
em lojas deve tanto que se gaba
do crédito que tem em toda a taba,
vertendo muita fé na loteria...

O povo tem se rido pela naba,
a naba a qual avoa e tudo sonda,
e pega alguém dormindo enquanto baba.

Pois ela está fazendo a sua ronda,
e, além da Zeferina, um dia, enraba
aqueles que também vão nessa onda.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

alheio ao cérebro

Catedral - Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


alheio ao cérebro

de tudo quanto guardo na memória,
alheia-me do cérebro a mais viva
vivência, transcorrida na instintiva
idade de uma mente extracorpórea.

depois, em profusão de copa arbórea,
neurais sinapses, tino que nos criva
na cruz da nossa humana e purgativa
jornada até que venha o fim da história.

por isso tenho apreço a fase dantes,
a fase do ideal que permanece,
a fase consistente e mais constante.

e, após a copa arbórea que perece,
revele-se ela tão dessemelhante
na vida que de crivos não padece.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PARDAL



pardal

talvez alguma ideia positiva
conduza minha lira velha, um dia,
aos dias da pretérita alegria
que agora, a relembrá-los, me incentiva.

porém, ao ver cantar a patativa,
notei o quão pardal que pouco pia
tem sido minha estranha poesia,
jogada no papel de forma esquiva.

calando, pois, escrevo meu presente,
presente positivo e bem empírico
conforme o dia-a-dia, comumente.

e, à noite, dou vazão ao estro lírico,
o qual, à luz do sol, calou latente
seu canto de pardal, seu canto onírico.


marcos satoru kawanami


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PURGATÓRIO - coordenadas geográficas: 37°10'34''N 8°12'7''O

Purgatório: aldeia da freguesia de Paderne,
concelho de Albufeira, província de Algarve, Portugal.


purgatório

na falta de uma ideia, resolvi
escrever sobre a falta de uma ideia,
porém a baranguíssima mocreia
das musas inspirou-me isto daqui:

o cão chupando manga, um dia, eu vi,
no dia de são joão da cananeia,
patrono do piri, da diarreia,
e é quase bem provável que sumi.

entornei-me do avesso na latrina,
cheguei a ter visões do purgatório,
visões da crueldade mais divina.

e foram tão sinceros responsórios,
que, mesmo me faltando a hemoglobina,
jamais tanto rezei num oratório.


marcos satoru kawanami


idade da pedra



idade da pedra

um puto joga pedras para cima,
brincando alienado e muito vivo:
a vida já lhe serve de incentivo,
bastando-se por ter a sua estima.

a infância a celebrar entanto prima,
sabendo que é feliz, sem pôr o crivo
racional sobre tempo tão festivo,
e move ocasião para esta rima.

estando tudo bem, uma pedrada
(que tem a sua gênese no puto)
contempla uma vizinha malfadada.

infância..., quanto pranto, quanto luto,
quanta vez a mamãe dá chinelada,
oh, mundo lazarento, oh, mundo bruto!


marcos satoru kawanami


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

sirenes



sirenes

distante, bem distante das distâncias;
acerca, bem acerca do que é vago;
fluente, mais fluente do que um gago
abunda em relutantes redundâncias.

sirenes retumbantes de ambulâncias,
perene mal, perene e sem afago
afogo em destilado neste trago,
soleira do sapé das mendicâncias.

eu cago, cagas tu e o mundo todo
na porta vicinal, que coisa linda!:
afaga-nos um mar de merda e lodo.

a detergente luz será bem-vinda,
limpando com vassoura, escova e rodo
o perecível mal, perene ainda.


marcos satoru kawanami



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

porque consegue

Sarau (1880) - Columbano Bordalo Pinheiro


porque consegue

maria ferveu água para o chá.
jacob, não encontrando o bandolim,
pegou o cavaquinho, e fez plim-plim
na sala da casinha de sinhá.

foi quando lá cheguei, e cheguei lá
porque não vim de lá, de lá não vim;
a paz não tem começo nem tem fim
nesta terra onde canta o sabiá.

onde a cantar também assaz me obrigo,
torrando a caçoleta feito um jegue
trotando no sol quente, sem abrigo.

se a paz daquela casa é flor que eu regue,
degusto a alheia paz porque consigo,
cachorro lambe o cu porque consegue.


marcos satoru kawanami



domingo, 10 de dezembro de 2017

sempre inexistido



sempre inexistido

amor, felicidade, a peremptória
vontade derradeira dos viventes,
o medo de supor estar-se ausente
transita pelas mentes transitórias.

derrotas contumazes, vãs vitórias
parecem nunca ser suficientes,
e morre a humanidade descontente,
fazendo vista cega à sacra história.

mas não façamos nós ouvidos moucos,
se somos da razão favorecidos,
se ainda não estamos todos loucos.

notemos neste mundo decaído
que o que eterno não é é sempre pouco,
é a nulidade, o sempre inexistido.


marcos satoru kawanami


sábado, 9 de dezembro de 2017

O PARTO



O PARTO

De que poema vi nascer, um dia,
a musa que abstraiu-me para si?,
de que poema que eu não escrevi?,
mas no qual a escrevê-lo ela me urgia.

Dizendo assim, parece poesia
— acaso é mesmo o que se assenta aqui —,
mas o efeito de muita parati
resulta em fato que eu desprevenia.

Resulta num poema à musa antiga
que dele vem nascendo até agora,
e, a fim de o escrever, foi minha amiga.

No próprio nascimento colabora
a musa, que, ao nascer, inda me obriga
a um derradeiro verso, e vai embora.


Marcos Satoru Kawanami



obs: parati é sinônimo de cachaça; a cidade de Parati é um importante polo produtor da bebida desde o tempo do Brasil colônia.