quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ESPARSAMENTE


ESPARSAMENTE

Na treva ensolarada em que partiste,
portavas radiante formosura
e um cinismo mais puro que a mais pura
persona das personas que vestiste.

A rima dos meus versos ficou triste,
e a morte me assoprava com ternura
na direção de entrar na sepultura,
sorrindo como tu jamais sorriste.

Porém, não sei por que, fui eu ficando
mais jovem, jovial, e até contente,
conforme os anos foram se passando.

Agora, apenas sofro esparsamente,
e apenas ao te ver de vez em quando,
já velha, sem o ser, sem nenhum dente.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ALOIS ALZHEIMER


ALOIS ALZHEIMER

Alzheimer, esclerose, estar gagá,
o nome não importa, a caduquice,
se pega alguém bem antes da velhice,
é boa brincadeira, sendo má.

É alguém se embriagar com guaraná,
é a gente estar num mundo que sumisse
em neurofibrilar esquisitice,
secagem de neurônios, diz Alois.

E agora bebo é pinga, não por quê?,
fumando meu cachimbo de tabaco,
que é careta, faz mal, e é démodé.

Morrerei, mas feliz igual macaco
rindo abestado até do que não vê,
conforme as normas do balacobaco!


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

FORMICULAR


FORMICULAR

Andando pelo chão, sagaz formiga
parece a maioral, superlativa
eficácia da fauna automotiva,
um bicho musculoso e sem barriga.

Se avista uma parede, ela nem liga,
mantém a marcha avante e intensiva,
até que um dedo humano vem e esquiva,
da rota em que seguia, a nossa amiga.

O que é o ser humano para ela
transcende suas forças cerebrais,
retoma seu caminho sem dar trela.

E aos anjos das moradas surreais
parece o ser humano como aquela
formiga de motores ideais.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 15 de janeiro de 2017

BOQUEJAR


BOQUEJAR

— Eu acho que é mentira que é verdade,
ou, pior, que é verdade que é mentira
a prosa da comadre Arminda Elvira,
que é só quem te defende na cidade! —

Mulher, quando boqueja, põe vontade,
e eu sempre da patroa estou na mira
ouvindo tudo quanto ela delira
no doce lar da nossa intimidade.

Mas me ofende de modo tão mimoso,
que eu acho que é com gosto que ela o faz,
expressão de um amor mais caloroso:

Exaltada epopeia de Luís Vaz,
esbraveja em estilo grandioso,
enquanto um tácito soneto jaz.



Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GOOGLE IMAGES

Dercy Gonçalves *1907+2008

GOOGLE IMAGES

Em fotos velhas, vejo gente nova,
gente que agora é velha ou já morreu
(e, nisso, o Imagens Google é museu),
o tempo passa, e nos escracha a prova.

A primeira impressão fica na trova,
o amor, ao procriar-nos, leva o seu,
e, a foder-se, é que sempre se fodeu,
pois primeira impressão é uma ova!

Não há verdade em uma bela estampa,
há uma ilusão com toques de magia,
é caixa de bombom que se destampa.

E a caixa de bombom fica vazia,
e aquela bombonzada vira trampa,
por conta do que foi fotografia.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 7 de janeiro de 2017

PRISÃO DE VENTO


PRISÃO DE VENTO

Em meio ao meu barulho interior,
lá fora nada, nada, nada, nada,
e escuridão, que até alma penada
omite-se, o vazio lhe dá pavor.

Não tarda a morte, chego eu a supor
em ânsia derradeira; a madrugada
ergue sanguíneos dedos de alvorada
alcançando o meu último estupor.

Porém, golfando, espirro uma aspirina
nos olhos do doutor já sonolento,
que acorda dando viva à Medicina.

Por pouco vou-me à cova, e não aguento
lembrar que até um padre de batina
via eu morrer só de prisão de vento!



Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

AOS ANJOS


Cândido Portinari - chorinho - 1942

AOS ANJOS

Quem me dera escrever desta maneira
e todos entendendo o que ora escrevo,
acima das fronteiras, do relevo
linguístico que impõe tosca barreira.

Porém é tão canora a brasileira
linguagem portuguesa, que me atrevo
a procurar mover tamanho enlevo
que ler em português o mundo queira.

E, quando céus e terra enfim passarem,
pereça com o mundo o que é tristeza
de modo a nem de leve a recordarem.

Pereçam a feiura e a beleza,
só reste a perfeição, mas, ao cantarem,
cantem, anjos, em língua portuguesa!


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de dezembro de 2016

MERCHANDISE - CONTRA AZIA E MÁ DIGESTÃO


MERCHANDISE

Coisas coisais, nenhuma coisa vária
além do que é coisal, terreno e plano,
indicam sem querer e sem engano
engrenagens do tipo a planetária.

Bastasse a vida ser protozoária
a fim de um milagroso e sobre-humano
teatro descerrar do palco o pano,
mas isso vai conforme a faixa etária.

O muito especular convém de menos,
o muito contemplar convém demais,
mas quem sai sem chapéu toma sereno.

E às vezes um terceto é merchandise:
contra azia, só sal de fruta Eno,
que é mais sal e mais fruta que outros sais.


Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tia Kinóris

Tia Kinóris: tem cabelo no peito, fuma charuto,
bebe chumbo derretido, e cospe bala de canhão.



TIA KINÓRIS

O sol da meia-noite não é nada
se comparado ao breu do meio-dia,
declara sobriamente minha tia,
a qual voltou do norte sequelada.

Tia Kinóris foi muito agitada
no tempo em que primeiro aqui vivia,
agora não, pois fez lobotomia,
ficou boba, mas deu uma centrada.

E sol à meia-noite é mesmo chato,
mas breu ao meio-dia é uma morte,
o provérbio parece bem sensato.

Até que minha tia teve sorte,
pois vê-la prosear é o mor barato,
porém tenho evitado o rumo norte...


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 11 de dezembro de 2016

ZEITGEIST


ZEITGEIST

Entre cifras, cifrinhas e cifrões
a contabilidade vai contando,
a vida desencanta descantando,
e, num vazio, transbordam os chavões.

Agora contam anos aos bilhões,
mas, em verdade, o tempo, escasseando,
mais célere a correr vai olvidando
Petrarca, Homero, Dante, até Camões.

E, se a tecnologia se incrementa,
coloca a Humanidade em contramão
a estar de humanidade ela sedenta.

À beira da provável extinção,
se a humana evolução não se sustenta,
mais exubera em Cristo a salvação.


Marcos Satoru Kawanami