terça-feira, 27 de dezembro de 2016

AOS ANJOS


Cândido Portinari - chorinho - 1942

AOS ANJOS

Quem me dera escrever desta maneira
e todos entendendo o que ora escrevo,
acima das fronteiras, do relevo
linguístico que impõe tosca barreira.

Porém é tão canora a brasileira
linguagem portuguesa, que me atrevo
a procurar mover tamanho enlevo
que ler em português o mundo queira.

E, quando céus e terra enfim passarem,
pereça com o mundo o que é tristeza
de modo a nem de leve a recordarem.

Pereçam a feiura e a beleza,
só reste a perfeição, mas, ao cantarem,
cantem, anjos, em língua portuguesa!


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de dezembro de 2016

MERCHANDISE - CONTRA AZIA E MÁ DIGESTÃO


MERCHANDISE

Coisas coisais, nenhuma coisa vária
além do que é coisal, terreno e plano,
indicam sem querer e sem engano
engrenagens do tipo a planetária.

Bastasse a vida ser protozoária
a fim de um milagroso e sobre-humano
teatro descerrar do palco o pano,
mas isso vai conforme a faixa etária.

O muito especular convém de menos,
o muito contemplar convém demais,
mas quem sai sem chapéu toma sereno.

E às vezes um terceto é merchandise:
contra azia, só sal de fruta Eno,
que é mais sal e mais fruta que outros sais.


Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tia Kinóris

Tia Kinóris: tem cabelo no peito, fuma charuto,
bebe chumbo derretido, e cospe bala de canhão.



TIA KINÓRIS

O sol da meia-noite não é nada
se comparado ao breu do meio-dia,
declara sobriamente minha tia,
a qual voltou do norte sequelada.

Tia Kinóris foi muito agitada
no tempo em que primeiro aqui vivia,
agora não, pois fez lobotomia,
ficou boba, mas deu uma centrada.

E sol à meia-noite é mesmo chato,
mas breu ao meio-dia é uma morte,
o provérbio parece bem sensato.

Até que minha tia teve sorte,
pois vê-la prosear é o mor barato,
porém tenho evitado o rumo norte...


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 11 de dezembro de 2016

ZEITGEIST


ZEITGEIST

Entre cifras, cifrinhas e cifrões
a contabilidade vai contando,
a vida desencanta descantando,
e, num vazio, transbordam os chavões.

Agora contam anos aos bilhões,
mas, em verdade, o tempo, escasseando,
mais célere a correr vai olvidando
Petrarca, Homero, Dante, até Camões.

E, se a tecnologia se incrementa,
coloca a Humanidade em contramão
a estar de humanidade ela sedenta.

À beira da provável extinção,
se a humana evolução não se sustenta,
mais exubera em Cristo a salvação.


Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRONOLOGIA


CRONOLOGIA

Memória de um passado sem futuro,
agora, no futuro, o meu passado
procura de si mesmo o olvidado
pretérito imperfeito tão obscuro.

A cada instante, eu mais não sou, mas juro:
jurar transgride em muito o combinado,
porém deixo de estar onde hei estado,
a cada instante, e entanto me procuro.

Procuro, procurei, e procurava,
o fluxo ininterrupto nos ilude
que o presente não passa nem passava.

E, estando no passado, eu amiúde
o presente futuro imaginava,
fazendo futurismo enquanto pude.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 25 de julho de 2016

MISTO QUENTE


MISTO QUENTE

Algum lugar pensado, inexistente,
existe na memória do que existo,
ainda que o lugar eu tenha visto
no tempo sem pensar de estar contente.

Sentido algum me diz que agora sente
aquele tal lugar que sinto, e, nisto,
o mundo quer mostrar-se como um misto
de hambúrguer e bauru, um misto quente.

Mas em qualquer lugar felicidade
constrói o pensamento quando pode,
e agora humor feliz é o que me invade.

Pois danço minha pena no pagode
escrito nestes versos à vontade,
enquanto um povo doido se sacode.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ALGUM SONETO


ALGUM SONETO

Até sisuda aurora revogando
razões da sem razão que abunda bela,
absteve-se não ele nem aquela
por quem estavam todos esperando.

Ao passo que relembra a noite quando
beijou das bocas dela a que é banguela
vertendo das ideias na tigela
um verso que não este, mas quejando.

Assim os dois estavam proseando
conforme o bom costume tagarela,
enquanto a dita aurora foi chegando.

E agora algum soneto nos revela,
com tintas carregadas estampando,
a noite sem bocejo e sem remela.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ESPECULAÇÕES DE UM EFEITO DOMINÓ

https://www.youtube.com/watch?v=S8j7ojLpZNI
LINK

ESPECULAÇÕES DE UM EFEITO DOMINÓ

Aranhas teias tecem sem pensar:
instinto?, mas o instinto pouco explica,
e, na verdade, tão somente indica
o muito que se tem a ignorar.

As bactérias desejam desvendar
se existe a humanidade, o vírus zica
sistema filosófico edifica
em que as bactérias possam se encaixar.

Dá cor e forma às flores instintivas
reações em cadeia, o DNA,
que é o cérebro na forma primitiva(?).

Então, você leitor(a) agora está
e sempre esteve sem alternativa
num destino que a química dará?


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 9 de julho de 2016

ORDEM E PROGRESSO


ORDEM E PROGRESSO

Partindo do princípio que não parte
do fim qualquer princípio que começa
sem antes começar o que encabeça,
mas da finalidade o estado da arte:

Ora senão aqui ou mesmo em Marte,
onde irão encenar também a peça
da Humanidade, a qual produz à beça
lixo por todo canto e toda parte:

Estou, e muito obstante a fuleiragem,
escrevendo um rascunho de existir,
sem querer retratar o que é paisagem.

E digo mais, costumo ou ir ou vir,
porém fico parado a dar passagem
se é lama o que me impede progredir.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 1 de julho de 2016

SE EU MORRER SEM GOZAR O SEU AMOR, MINHA ALMA LHE PERSEGUE DE PAU DURO - ao cantor e compositor cearense Falcão

https://www.youtube.com/watch?v=EUg1xF-HcZo
LINK

SE EU MORRER SEM GOZAR O SEU AMOR,
MINHA ALMA LHE PERSEGUE DE PAU DURO
(ao cantor e compositor cearense Falcão)

Virgolina, uma noite com você
foi só sonho, você nunca me deu;
se você prometeu e não meteu,
magoou quem lhe ama, quem lhe crê.

Por que não escrever?, se você lê,
e, o caderno, você diz que é só meu;
se na praça me chama de Romeu,
por que no baile só me dá pavê?

Mas, se agora você toca terror
com vã filosofia sobre o muro,
eu hei de seu sofisma decompor.

Morrerei de tesão, mas, eu lhe juro,
se eu morrer sem gozar o seu amor,
minha alma lhe persegue de pau duro!

Marcos Satoru Kawanami