SARAPATEL
Vai-se a primeira
pomba despertada,
sai do pombal ao meu
encontro, certa
que o seu cocô me
acertará, e acerta
a bomba de cocô
teleguiada.
Direis então: —
Coitado camarada,
ama para entender, cloaca aberta,
cagada na camisa, é um
alerta,
melhor nem trabalhar nesta jornada... —.
E quanta gente,
usando uma camisa
limpa, engomada e
nova, sai vaidosa
sem temer o que pelo
céu desliza.
Porém, feito uma
chaga cancerosa,
um mal secreto cai e
lhe matiza
a roupa, que antes
era tão vistosa!
Marcos Satoru
Kawanami
AS POMBAS
Vai-se a primeira pomba
despertada...
Vai-se outra mais... mais
outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos
pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a
madrugada...
E à tarde, quando a
rígida nortada
Sopra, aos pombais de
novo elas, serenas,
Ruflando as asas,
sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e
em revoada...
Também dos corações onde
abotoam,
Os sonhos, um por um,
céleres voam,
Como voam as pombas dos
pombais;
No azul da adolescência
as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais
as pombas voltam,
E eles aos corações não
voltam mais...
Raimundo Correia
OUVIR ESTRELAS
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
Olavo Bilac
MAL SECRETO
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
Raimundo Correia