UMA CRÔNICA
CORINTIANA
Perdeu a graça torcer para o
Corinthians Paulista: agora, todo começo de campeonato, o Corinthians é
favorito ao título. O bom de ser corintiano era ter um time ruim, ou ter um time
bom e perder do mesmo jeito.
Pelé nos deu tanta alegria no Santos,
ou melhor, nos deu tanto gosto em sofrer com o Timão a cada derrota diante do
glorioso alvinegro praiano... Eu não era nascido, mas ouvia com devoção as
lamentações da velha guarda. Sofrer por tabela era uma das virtudes do
corintiano.
Mazzaropi estampou nossa sofrência nas
telas do cinema. Aquele barbeiro que não cobrava de corintiano era coisa bem
nossa — mas não cobrava desde que o freguês apresentasse a carteirinha de
Parque São Jorge!
Hoje, o nosso parque é a melhor arena
do mundo intergalático. Eu tenho até medo de entrar lá e me perder no meio dos
mármores. Talvez seja um medo semelhante ao que aniquilava minha curiosidade de
ver por dentro o Copacabana Palace, quando vivi no Rio; um medo inconsciente,
nunca entrei naquele hotel nas vezes em que passei à sua porta, ficava curioso,
mas sabia que aquilo era um cenário pintado em madeira, uma obra de ficção nas
chanchadas da Atlântida.
É, foi-se o tempo em que vencer um
campeonato era questão de pé de anjo, diria Basílio (não o da Gama, nem o
primo, refiro-me ao pé de anjo propriamente dito). Em 1977, eu não via
televisão, só via o móbile sobre o berço. Fui ver o Corinthians campeão somente após a derrota na Copa de 86 diante de “la mano de Diós” e la água
benta, quando o Viola se consagrou no Brasileirão de 1990. Antes, pude entender
um pouco o que significava a expressão aritolediana “mais apertado que cu de
corintiano em final de campeonato” — nosso time não parava de levar, levar na bunda mesmo. Falando nisso, devia existir muito veado
corintiano, mas não assumiam, que eram corintianos. E eu, como corintiano, devo
esclarecer que não como corintiano. Nem santista, nem sãopaulino, nem
palmeirense, nem...
Bons tempos eram quando o presidente do
Corinthians era o Vicente Matheus, aquele presidente sim era corintiano. O meu
orgulho era ter um confrade integrante do folclore nacional, ao lado do Mané
Garrincha, do Curupira e da Mula sem cabeça.
Enfim, saudade de ouvir jogo do
Corinthians no radinho a pilha com a minha bisavó, cuja alma já era corintiana
desde antes de nascer, pois foi educada no budismo, mas ia à missa, era devota
de São Judas Tadeu (das causas impossíveis!), e ainda acreditava em macumba.
Marcos Satoru Kawanami