quarta-feira, 18 de maio de 2016

ACERCA DE UM POETA PRÉ-HISTÓRICO


ACERCA DE UM POETA PRÉ-HISTÓRICO

Eu era um pré-histórico e selvagem
menino analfabeto quando, um dia,
passei a converter em poesia
ideias que carecem de linguagem.

Alheias ao vernáculo, as imagens
pocavam em solares melodias,
instantes perfumados de alegria,
virtude imaculada e vadiagem.

Hoje, longe de mim fazer poema
igual aos que eu fazia analfabeto
no tempo em que não ler era meu lema.

Troquei aquele ar livre por um teto,
e vejo-me a escrever sobre este tema
que diz que, ao poetar, não mais poeto!


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 17 de maio de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS 4: uma crônica corintiana


UMA CRÔNICA CORINTIANA

         Perdeu a graça torcer para o Corinthians Paulista: agora, todo começo de campeonato, o Corinthians é favorito ao título. O bom de ser corintiano era ter um time ruim, ou ter um time bom e perder do mesmo jeito.
         Pelé nos deu tanta alegria no Santos, ou melhor, nos deu tanto gosto em sofrer com o Timão a cada derrota diante do glorioso alvinegro praiano... Eu não era nascido, mas ouvia com devoção as lamentações da velha guarda. Sofrer por tabela era uma das virtudes do corintiano.
         Mazzaropi estampou nossa sofrência nas telas do cinema. Aquele barbeiro que não cobrava de corintiano era coisa bem nossa — mas não cobrava desde que o freguês apresentasse a carteirinha de Parque São Jorge!
         Hoje, o nosso parque é a melhor arena do mundo intergalático. Eu tenho até medo de entrar lá e me perder no meio dos mármores. Talvez seja um medo semelhante ao que aniquilava minha curiosidade de ver por dentro o Copacabana Palace, quando vivi no Rio; um medo inconsciente, nunca entrei naquele hotel nas vezes em que passei à sua porta, ficava curioso, mas sabia que aquilo era um cenário pintado em madeira, uma obra de ficção nas chanchadas da Atlântida.
         É, foi-se o tempo em que vencer um campeonato era questão de pé de anjo, diria Basílio (não o da Gama, nem o primo, refiro-me ao pé de anjo propriamente dito). Em 1977, eu não via televisão, só via o móbile sobre o berço. Fui ver o Corinthians campeão somente após a derrota na Copa de 86 diante de “la mano de Diós” e la água benta, quando o Viola se consagrou no Brasileirão de 1990. Antes, pude entender um pouco o que significava a expressão aritolediana “mais apertado que cu de corintiano em final de campeonato” — nosso time não parava de levar, levar na bunda mesmo. Falando nisso, devia existir muito veado corintiano, mas não assumiam, que eram corintianos. E eu, como corintiano, devo esclarecer que não como corintiano. Nem santista, nem sãopaulino, nem palmeirense, nem...
         Bons tempos eram quando o presidente do Corinthians era o Vicente Matheus, aquele presidente sim era corintiano. O meu orgulho era ter um confrade integrante do folclore nacional, ao lado do Mané Garrincha, do Curupira e da Mula sem cabeça.
         Enfim, saudade de ouvir jogo do Corinthians no radinho a pilha com a minha bisavó, cuja alma já era corintiana desde antes de nascer, pois foi educada no budismo, mas ia à missa, era devota de São Judas Tadeu (das causas impossíveis!), e ainda acreditava em macumba.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 15 de maio de 2016

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Madre Teresa de Calcutá aos 18 anos de idade.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

O bom combate, desde a juventude,
a santa das sarjetas combatia
levando uma palavra de alforria
em seu afã de zelo e de virtude.

Conforme convertia em atitude
a fé que destramente a conduzia,
também à fé a muitos convertia,
e quem se converteu não mais se ilude.

Teresa, em Calcutá, anunciou,
com as trombetas do silêncio orante,
o Cristo que, sofrendo, nos salvou.

Posto que sempre que encontrou-se diante
de alguém que, feito Cristo, a encontrou,
foi cristã de maneira radiante.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 12 de maio de 2016

SONETO À MANDIOCA


SONETO À MANDIOCA

Aipim ou pão-da-terra ou macaxeira,
a casa de Mani, raiz, mandioca,
a Manihot utilissima pipoca
em toda a ilustre terra brasileira.

Da terra para a feira e prateleira
da urbe: pão-de-pobre na maloca;
com pouco sua roça bem se toca,
e utilidade tem a planta inteira:

A folha para sopa foi eleita;
para ração, o caule se habilita,
e a casca da raiz não se rejeita.

Enfim, a polpa é toda na marmita,
pois da mandioca tudo se aproveita,
inclusive a metáfora bendita.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 11 de maio de 2016

ASCESE


ASCESE

Pecado, malefício cuja tese
é a si mesmo negar em verso e prosa,
mostrando a face bela e mentirosa
da escara verdadeira que lhe pese.

Eu sei, porém, por mais que eu sempre reze,
parece-me a verdade desairosa,
inodora, incolor e murcha rosa,
já a mentira liberta-me da ascese...

Verdade cristalina inatingível,
verdade tão distante do que vejo,
mas em toda a matéria aqui tangível.

Pecado da mentira e do desejo,
de tudo quanto é fácil e aprazível,
iguala-me a um verme, e assim rastejo!


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 9 de maio de 2016

AUTO DA BARCA FURADA


AUTO DA BARCA FURADA

Aviso aos navegantes, coisa à toa:
vós todos morrereis nesta viagem;
parece que isso seja sacanagem,
mas digo mesmo em tom de quem caçoa.

Se reclamais que a vida vos enjoa,
reclamais do calor e da friagem,
do trabalho e também da vadiagem,
a morte até parece coisa boa...

Aguardo a minha morte bem na proa,
cantando na maior vitalidade
a fúnebre alegria que destoa.

Só que a morte terá dificuldade;
se bobear, afundo-lhe a canoa,
e morra a morte, e viva a eternidade!


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 18 de abril de 2016

DAS TRIPAS INTESTINO


DAS TRIPAS INTESTINO

Haja o que hajar, mas aja, o agiota
ensina-te que agir é teu destino;
eu mesmo fiz das tripas intestino
a fim de nunca mais dizer lorota.

Aprende, cada qual tem sua quota
de insensatez, de sonho e desatino;
porém não vás criar um rato albino
igual faz cientista, ou idiota.

Procura sempre agir de tal maneira
que pareça acidente a boa ação,
senão parecerá mesmo é asneira...

Mantém a fleuma, tem educação;
agora, se racharem a madeira,
racha também, libera o palavrão!


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 14 de abril de 2016

SE O SONETO PERMITISSE

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SE O SONETO PERMITISSE

A frívola canção do cancioneiro,
na qual se inscreve agora a minha vida,
retrata o que não sou, mas, quando ouvida,
revelará que nela estou inteiro.

O mundo roda em volta de um braseiro,
em volta de um brasil, só de partida,
e apenas no futuro tem guarida,
parece que Deus quis ser brasileiro.

Não creia no que digo porque digo,
nem creia no contrário do que eu disse,
é frívola a canção na qual me abrigo.

Pois posso bem sorver da maluquice
até arrebentar o próprio umbigo,
e inda mais, se o soneto permitisse.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 8 de abril de 2016

VELÓRIO DE ANÃO

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VELÓRIO DE ANÃO

No velório de um anão,
a pomba-gira desceu
no meu papagaio ateu,
que já era falastrão.

Mas desceu na contramão,
pois com cachaça benzeu
o defunto e o padre Alceu,
e ainda disse um sermão:

— Este defunto morreu
de hemorroida no pulmão,
e pau no cu de quem creu.

Não se fecha este caixão:
Levanta, compadre meu,
não há velório de anão!


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 2 de abril de 2016

QUANDO O SAMBA ACABOU


QUANDO O SAMBA ACABOU

O começo apenas começou,
tem gente indo embora;
quem ficou sobrou,
enquanto o sol nasce lá fora.

Foi o tempo que passou,
estava tão bom, não vi as horas,
quem sorria agora chora,
quem ficou sobrou.

Sobrou copo descartável,
sobrou lixo pelo chão;
a tristeza é inestimável,
quem quebrou meu violão?

Abortou-se a alegria,
foi o fim no começo;
quem conheci outro dia,
hoje já não reconheço.

Enquanto o sol nasce lá fora,
quem ficou sobrou;
se nos sorri esta aurora,
um novo fim começou.

Mas, nesse momento ameno,
a tristeza inestimável
foi gentil ao me encontrar:
deu-me alcoólico veneno
em um copo descartável
que do chão a vi pegar.


Marcos Satoru Kawanami