SONETO DA DAMA CAGANDO
Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!
Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:
Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d'amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:
Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa
habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!
Manuel Maria Barbosa du Bocage
SONETO ESCATOLÓGICO
"Cagando estava a
dama mais formosa...",
assim falou Bocage num
soneto
do mesmo naipe deste que
cometo
sobre a reputação que a
merda goza.
A crítica a compara à
rara rosa
se obrada na miséria
dalgum gueto.
Políticos proferem-na:
"Eu prometo..."
e a mídia a tematiza em
verso e prosa.
É tanto incompetente
apadrinhado
fazendo merda e sendo
promovido
que, quando comecei o
aprendizado,
pensei: "Que seja
próprio o seu sentido,
porque já me enojei do
figurado!",
e então fui rei da merda
com que agrido.
Glauco Mattoso
ELOGIATIVO E
NAMORISTA
Cagando pela boca, e
sem ser vista,
a dama mais formosa
faleceu,
e quem a põe formosa
não sou eu
senão Bocage, o luso
beletrista.
Porque, no tempo do
árcade humorista,
valia mesmo a lira
de um Orfeu
a dama que limpou o
cu com seu
escrito elogiativo e
namorista.
Mas, tendo a visto velha, não perdera
poeta algum seu
tempo em tal frescura
— cagando pela boca
ela morrera.
Por reles cupidez, a
formosura
recebe graças mil,
demãos de cera,
porém só lhe é
sincera a sepultura.
Marcos Satoru
Kawanami