segunda-feira, 18 de abril de 2016

DAS TRIPAS INTESTINO


DAS TRIPAS INTESTINO

Haja o que hajar, mas aja, o agiota
ensina-te que agir é teu destino;
eu mesmo fiz das tripas intestino
a fim de nunca mais dizer lorota.

Aprende, cada qual tem sua quota
de insensatez, de sonho e desatino;
porém não vás criar um rato albino
igual faz cientista, ou idiota.

Procura sempre agir de tal maneira
que pareça acidente a boa ação,
senão parecerá mesmo é asneira...

Mantém a fleuma, tem educação;
agora, se racharem a madeira,
racha também, libera o palavrão!


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 14 de abril de 2016

SE O SONETO PERMITISSE

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SE O SONETO PERMITISSE

A frívola canção do cancioneiro,
na qual se inscreve agora a minha vida,
retrata o que não sou, mas, quando ouvida,
revelará que nela estou inteiro.

O mundo roda em volta de um braseiro,
em volta de um brasil, só de partida,
e apenas no futuro tem guarida,
parece que Deus quis ser brasileiro.

Não creia no que digo porque digo,
nem creia no contrário do que eu disse,
é frívola a canção na qual me abrigo.

Pois posso bem sorver da maluquice
até arrebentar o próprio umbigo,
e inda mais, se o soneto permitisse.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 8 de abril de 2016

VELÓRIO DE ANÃO

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VELÓRIO DE ANÃO

No velório de um anão,
a pomba-gira desceu
no meu papagaio ateu,
que já era falastrão.

Mas desceu na contramão,
pois com cachaça benzeu
o defunto e o padre Alceu,
e ainda disse um sermão:

— Este defunto morreu
de hemorroida no pulmão,
e pau no cu de quem creu.

Não se fecha este caixão:
Levanta, compadre meu,
não há velório de anão!


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 2 de abril de 2016

QUANDO O SAMBA ACABOU


QUANDO O SAMBA ACABOU

O começo apenas começou,
tem gente indo embora;
quem ficou sobrou,
enquanto o sol nasce lá fora.

Foi o tempo que passou,
estava tão bom, não vi as horas,
quem sorria agora chora,
quem ficou sobrou.

Sobrou copo descartável,
sobrou lixo pelo chão;
a tristeza é inestimável,
quem quebrou meu violão?

Abortou-se a alegria,
foi o fim no começo;
quem conheci outro dia,
hoje já não reconheço.

Enquanto o sol nasce lá fora,
quem ficou sobrou;
se nos sorri esta aurora,
um novo fim começou.

Mas, nesse momento ameno,
a tristeza inestimável
foi gentil ao me encontrar:
deu-me alcoólico veneno
em um copo descartável
que do chão a vi pegar.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 28 de março de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 3

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OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 3

— Por que a coca-cola da garrafa de vidro é mais gostosa do que a da garrafa de plástico e a da que vem na latinha?
— É que tradição faz toda a diferença...

.............

         Segunda-feira de manhã, o chefe encosta na porta da repartição, contempla os funcionários trabalhando, e diz:
         — Oh sexta-feira que não chega nunca!
         Depois, entra cumprimentando todos um por um:
         — Bum dinha, bum dinha, bum dinha...

.............


BIOTÔNICO

Descarga biliar alheia ao nexo
exaure minha tripa cerebral,
e o oco craniano é que é o real
sonhar de um neo-símio assaz perplexo.

De tanto o que me aparta é o genuflexo
entregue ao devaneio surreal
retido no capacitor mental,
gerando o espectro de um prisma convexo.

Orgânica matéria se confunde,
por meio de entre-laços eletrônicos,
ao sonho surreal que a bem fecunde.

E o símio, em seus versos nada harmônicos,
havendo terminado, que desbunde,
fazendo embriaguez com Biotônico!

Marcos Satoru Kawanami


sábado, 26 de março de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 2

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OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 2

ministério da casa civil:
— E o Lula, assumiu?
— Ué, eu nem sabia que ele era...
— Se ele assumir, vai tá passando recibo.

.............

— Professor, o livro ainda está no Xerox?
— Não. Vocês já tinham de tê-lo xerocado.
— Então, galera, quem não xerecou não xereca mais!

.............

— Quer comer um cu?
— Não gosto de cu.
— Não gosta? Então me dá o seu.
— Porra, do meu eu... gosto(?)

.............

cantada de domínio púbico:
— Moça, teu pai é mecânico?
— Não, por quê?
— Porque você é uma graxinha.

.............

         Na sala de aula estava o maior barulho. O professor, revoltado, escreveu na lousa com letras garrafais: VAGINA.
         Silêncio imediato...
         — Que é isso, professor?
         — Tema da redação que vocês vão escrever agora! E eu quero no mínimo 125 linhas só falando de vagina!
         Lurdinha, a única menina da turma, encostou a testa na mesa de tanta vergonha. O professor viu, e avisou:
         — E, você, dona Lurdinha, não cole! Não cole!

.............

— Estás ficando barrigudo. Por que não frequentas uma academia?
— Pagar para fazer força? É contra os meus princípios, é uma inversão de valores. E tem mais, depois que o Ronaldo Fenômeno foi campeão paulista com aquela barriga, eu virei atleta de alto rendimento!


Nhandeara, 26 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 24 de março de 2016

ELOGIATIVO E NAMORISTA

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SONETO DA DAMA CAGANDO

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d'amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

Manuel Maria Barbosa du Bocage



SONETO ESCATOLÓGICO

"Cagando estava a dama mais formosa...",
assim falou Bocage num soneto
do mesmo naipe deste que cometo
sobre a reputação que a merda goza.

A crítica a compara à rara rosa
se obrada na miséria dalgum gueto.
Políticos proferem-na: "Eu prometo..."
e a mídia a tematiza em verso e prosa.

É tanto incompetente apadrinhado
fazendo merda e sendo promovido
que, quando comecei o aprendizado,

pensei: "Que seja próprio o seu sentido,
porque já me enojei do figurado!",
e então fui rei da merda com que agrido.

Glauco Mattoso



ELOGIATIVO E NAMORISTA

Cagando pela boca, e sem ser vista,
a dama mais formosa faleceu,
e quem a põe formosa não sou eu
senão Bocage, o luso beletrista.

Porque, no tempo do árcade humorista,
valia mesmo a lira de um Orfeu
a dama que limpou o cu com seu
escrito elogiativo e namorista.

Mas, tendo a visto velha, não perdera
poeta algum seu tempo em tal frescura
— cagando pela boca ela morrera.

Por reles cupidez, a formosura
recebe graças mil, demãos de cera,
porém só lhe é sincera a sepultura.

Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 18 de março de 2016

FILME DE CURTA METRAGEM


filme de curta metragem

“o mundo ensina ao homem com mais facilidade aquilo que ele não quer aprender.”
(noel rosa)

na manhã rosa bebê
em que ana maria magalhães me comeu,
deram com o tacape na minha cuca,
uma nuvem atômica pocou sobre o monte sião,
era o Cristo que voltava.

vesti terno xadrez,
e me casei com maria gladys na igrejinha da glória,
ela tinha 14 anos, e eu 15.
entramos para o convento de santo antônio,
fizemos voto de celibato,
e tivemos muitos filhos,
tivemos um time de futebol completo
com os reservas e os gandulas, árbitro e bandeirinhas.

e nossa descendência povoou a terra...
uma descendenciazinha tarada, mestiça e precária,
a humanidade feliz.

ana maria magalhães ficou com meu retrato,
me canibalizando com os olhos por toda a eternidade,
filmou filmes de curta metragem infinitos,
e fez o filme de curta metragem desta história sem fim
lucrativo.
o roteiro é este.


nhandeara, 18 de março de 2016
marcos satoru kawanami

quinta-feira, 17 de março de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 1



OS PRÉ-SOCRÁTICOS - 1

— Será que porra no olho dá câncer?
— Por quê? Te esporraram na cara?
— Não. É que eu tava tocando punheta, gozei, me limpei, mas fui coçar o olho, e vi que tinha sobrado porra no dedo.
— Tu é porco mesmo!
— Daí tô preocupado. Será que porra dá câncer no olho?
— Eita ferro... Se porra não dá câncer nem no olho do cu, você acha que vai dar câncer no olho da cara?!
— É... Acho que não.

............

— Maninha, acho que estou grávida...
— Por quê?
— Eu tava tocando uma siririca muito boa, daí, de repente, acho que ovulei!
— Por que ovulou?
— Intuição. Senti uma enxurrada quente descendo deste lado daqui... E gozei forte, duma vez. Me tremi toda por dentro.
— É, é caso grave. Você tem namorado?
— Não.
— É caso grave mesmo. E agora, quem é o pai?
— Não sei.
— Tá vendo, é isso que dá. Vocês ficam por aí se siriricando adoidado, depois nasce um monte de criança sem pai!


Nhandeara, 17 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 16 de março de 2016

MARIA GLADYS

https://www.youtube.com/watch?v=dxjtWD8mI4U
Maria Gladys - filme: Cuidado Madame - diretor: Julio Bressane
músicas de Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo
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MARIA GLADYS

O tempo nos dispõe aqui e ali,
distância além do espaço mais distante,
prisão aberta, o mais intolerante
carcereiro, que aparta-me de ti.

Estou, alheio ao tempo, em Cachambi;
na encolha, disfarcei-me de estudante,
a fim de ver passar entre os passantes
a tua mocidade que não vi.

Não devo dizer nada, estou calado,
e choro ao teu sorriso matinal,
porque morar não posso no passado.

Regresso da viagem temporal,
e escrevo ainda um tanto atordoado
à musa do cinema marginal.


Nhandeara, 16 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami