quarta-feira, 16 de março de 2016

MARIA GLADYS

https://www.youtube.com/watch?v=dxjtWD8mI4U
Maria Gladys - filme: Cuidado Madame - diretor: Julio Bressane
músicas de Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo
LINK

MARIA GLADYS

O tempo nos dispõe aqui e ali,
distância além do espaço mais distante,
prisão aberta, o mais intolerante
carcereiro, que aparta-me de ti.

Estou, alheio ao tempo, em Cachambi;
na encolha, disfarcei-me de estudante,
a fim de ver passar entre os passantes
a tua mocidade que não vi.

Não devo dizer nada, estou calado,
e choro ao teu sorriso matinal,
porque morar não posso no passado.

Regresso da viagem temporal,
e escrevo ainda um tanto atordoado
à musa do cinema marginal.


Nhandeara, 16 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami


domingo, 13 de março de 2016

Nelson Rodrigues - Depoimento de Thelma Reston - Cinema Nacional - soneto: SIRIRICA


SIRIRICA

A siririca é fato recorrente
nas telas do cinema brasileiro,
eu digo com anel de punheteiro
e bacharel em artes de indigente.

Nanda Costa a tocou teatralmente,
e assim pecou um pouco no exagero;
Thelma Reston tocou com verdadeiro
respaldo de quem faz frequentemente.

Ana Maria Magalhães não goza
uma vez que a interrompe a campainha
no seu Real Desejo desairosa.

Mas foi Letícia Colin bonitinha,
ainda que ordinária, a mais mimosa
siririca que vi na vida minha.


Nhandeara, 13 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami



Índice Catalográfico das Siriricas Cinematográficas Nacionais:
(a ser completado por quem interessar possa)

Ana Maria Magalhães: siririca em Real Desejo - 1990
Letícia Colin: siririca em Bonitinha, Mas Ordinária. - 2008
Nanda Costa: siririca em Febre do Rato - 2012
Thelma Reston: siririca em Os Sete Gatinhos - 1980

sábado, 5 de março de 2016

AOS MÁRTIRES

fuzilamento do padre Pro

AOS MÁRTIRES

Com mártires começa a Cristandade
nos tempos da romana decadência,
a fé, que é mais coragem que prudência,
prudente em ter coragem, não se evade.

Parece que a atual realidade
também se apura em crise de existência,
sofrendo de seus órgãos a falência,
roída pelo câncer da maldade.

Teremos muitos mártires cristãos
até que sobrevenha o fim da História
num mundo que se empenha em ser pagão.

E é sempre no martírio mais notória
a cruz que alguém abraça, a convicção
de encontrar Jesus Cristo em sua glória.


Nhandeara, 5 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 1 de março de 2016

TEMPORAL


TEMPORAL

No tempo quando tempo não havia,
de sobra havia tempo para tudo
no nada inexistente e sempre mudo
em que a divina ideia se expandia.

Silêncio para ideias tem valia,
e um mundo floresceu forte e rombudo
até que o tosco mal de um abelhudo
montou aqui o palco da anarquia.

O tempo rareou, ficou escasso;
o tempo se apressou, ficou ligeiro;
o tempo é variável de equação.

O tempo agora é coisa, é calhamaço
em cifras de papel, tempo é dinheiro,
mas dinheiro, igualmente, é convenção.


Nhandeara, 1 de março de 2016
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

RECORREMOS


RECORREMOS

Trajando trajes andrajosos, ou
na estica dos salões da sociedade,
ninguém consegue achar felicidade
perene neste mundo onde ora estou.

Aqui, tudo é centelha que passou
diante da divina eternidade,
um nada inexistiu, a veleidade
de achar que sou mais eu, quando não sou.

Tragando ultrajes pedregosos, vamos
em busca do que fomos e seremos
após o tempo humano que datamos.

A quem nos há criado recorremos;
por Deus, nós somos, fomos, e voltamos
à tal felicidade, que perdemos.


Nhandeara, 25 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


domingo, 21 de fevereiro de 2016

NO VACILAR DO CÉREBRO

LINK: samba anatômico

NO VACILAR DO CÉREBRO

Sentindo a inapetência da razão
em termos de sentir e coisa e tal,
fez digitalizar o irracional,
para entender a mente do culhão.

Foi obra de um modesto cidadão
chamado Armando Pinto de Cabral,
que, apesar de não ser sentimental,
também deu crânio a todo coração.

Por uma ligação neurossimpática,
culhões e coração se relacionam
com mais razão que a própria matemática.

No vacilar do cérebro, funcionam
de forma impertinente e sistemática,
e os homens, nesse enredo, se apaixonam.


Nhandeara, 21 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

NARCISO

Eco e Narciso

NARCISO

Na selfie, alguém selfish se retrata,
e, a caminho de língua neoinglesa,
eu vejo a exuberante e sã beleza
ser vã naquela foto de primata.

A selfie, em que Narciso se desata,
revela deste tempo a natureza
humana, que evolui para a torpeza,
e a Charles Darwin muito desacata.

Beleza é pertinente, e nos ajuda
no bem-estar, nas artes, no ideal,
e na procriação, pois é tesuda.

Mas não façamos dela festival
pueril da vaidade mais aguda,
desnaturando um bem, vertido em mal.


Nhandeara, 15 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SOBRE O AMOR - Luís Vaz de Camões, o filme.

LINK: recitando o soneto.

SOBRE O AMOR - a Luís Vaz de Camões, pai da língua portuguesa.

Amor é o próprio Deus, o criador;
é Nele desfrutar toda amizade,
empenhando por Ele seu favor.

É ter, com quem nos ama, lealdade;
é servir a quem vence: o Redentor;
é fazer de um segundo eternidade.

É saber que se ganha em se perder;
é nunca se render ao aparente;
é um andar solidário entre a gente;
é um bem querer acima do querer.

É ideal mui subido pra se ver,
é ideal muito à mão pra quem o sente;
e, estando de tal forma onipresente,
o Amor inda se faz contradizer?


Nhandeara, 12 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami




A CAMÕES

Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

Manuel Bandeira




Soneto 5 da Lírica

Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões




Link do filme completo: CAMÕES

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

HUMANIDADE PRESSENTIDA


HUMANIDADE PRESSENTIDA

Alguém, que nas vontades é profano,
vontades muitas tem sem alegria;
na escravidão, padece a tirania
do próprio eu querendo o próprio engano.

Já quem combate o tosco mal, tirano
que exerce da ilusão a vilania,
conhece nas virtudes alforria,
conhece em Jesus Cristo o soberano.

Porque dele é o caminho da verdade,
da vida verdadeira a ser vivida,
a vida na real humanidade.

Humanidade, às vezes, pressentida
na coragem, na fé, na lealdade,
na beleza fugaz, mas incontida.


Nhandeara, 9 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

BESTEIROL


BESTEIROL

Calor vira energia, vira vida,
vira pressão, que vira movimento,
vira pasto pro burro e pro jumento,
e assunto pra comadre intrometida:

— A moça parecia derretida
de amores, só pensando em casamento,
mas no calor estava o fundamento
do quebranto de que era acometida. —

Com calor, há mais pausas no trabalho
para se beber água e descansar,
e de uma dessas pausas cá me valho.

Mas, sendo besta, ponho-me a bestar:
conjuntura pior é a do caralho,
no escuro e no calor sem respirar.


Nhandeara, 3 de fevereiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami