quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Musa Feia - Ordinário


MUSA FEIA

O que te escreverei?, oh, musa feia,
se nada me afeiçoo a ser Balzac,
se há musas mais jeitosas no Projac
que vejo na TV, de estrelas cheia.

Ainda que em jornais eu pegue e leia
notícias pelas quais tomam Prozac
ou também se embebedam com cognac,
somente a musa bela é quem me enleia.

Porquanto não vou eu fazer justiça
consertando este mundo em desconserto,
musa balzaquiana não me atiça.

É de Cupido a pena por que verto
a tinta que de ingênua nunca enguiça,
mas sei que, na razão, me falta acerto.


Nhandeara, 25 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami



ORDINÁRIO

Não devo duvidar do bem eterno,
todavia, o ignoro com frequência
a fim de não viver em reticência,
contemplativamente em mundo interno.

É triste quando esqueço o tom fraterno,
partindo para a gana, a eloquência
sanguínea da profana permanência
no estado de desgraça, agudo inverno.

A minha salvação não vem de mim,
estou neste dramático cenário
porque, a cada ação, cumpro meu fim.

De modo que ser bom não é fadário
humano, pois só Deus é bom, e assim
exerço meu papel sendo ordinário.


Nhandeara, 27 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de outubro de 2015

À Mão


À MÃO

Escrevo à mão, artesanato escrito
com escassa ou nenhuma pretensão
por parte deste anônimo artesão
que escreve à própria mão, como foi dito.

E diz a mão: “Será o Benedito?!”,
pois ela não carece reflexão,
mas piedosamente dá atenção
às musas do cerrado quando as fito.

Escrevo à mão, que é cega, quão bonita
é a ingênua musa do meu casto olhar
caipira bem feliz que o mato habita.

E a mão, que é surda, então, faço escutar
a musa sibilante que nos fita,
estando eu este verso a recitar.


Nhandeara, 17 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pira Olímpica


PIRA OLÍMPICA

Em prol da Cristandade, transgressora
na laica sociedade em que morremos
bebendo da loucura, em que não cremos,
esgrime a minha pena defensora.

A pálida lembrança do que fora
a escola do martírio em que vivemos
outrora é o hoje em dia por que temos
de regressar à Igreja precursora.

A cada geração, o bom combate
é pira olímpica na qual persiste
a caridade, imune ao disparate.

Mas, Cristo, desde aonde tu subiste,
verte o Espírito Santo no resgate
também da pena vil que tenho em riste.


Nhandeara, 16 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 13 de outubro de 2015

SOFRÊNCIA


SOFRÊNCIA

Eu via, à beira do riacho fundo,
o quanto nada vejo do que sou,
o quanto apenas vejo o que passou,
o quanto é cego meu andar no mundo.

Estranho enlevo de um meditabundo
enleva o estranho ritmo no qual vou
chegando no lugar que não chegou,
estando à beira do riacho fundo.

Porquanto um tal riacho não existe
naquela profundeza que eu sentia
a tarde enluarada em que partiste.

E é tarde enluarada todo dia
que nasce desde quando um mundo triste,
à beira do riacho fundo, eu via.


Nhandeara, 13 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Quarta Dimensão

Quem está na 1ª dimensão não percebe a 2ª dimensão, a não ser
por um ponto que por ventura cruze seu caminho.

Quem está na 2ª dimensão não percebe a 3ª dimensão, a não ser
por um segmento de reta que intercepte seu caminho.

Nós, da 3ª dimensão, não percebemos a 4ª dimensão, a não ser
por uma imagem que apareça no tempo em
que estamos.

ADORA

conciliando razão e fé,
pois a fé é um raciocínio.

ADORA

Além do tempo, ou tudo ou nada, a sorte
ou vai ou racha, ou nada de mais nada
sem sorte e sem azar, sem mais estrada
de dor ou de prazer, o fim, a morte?

Aquém do tempo, alguém há que reporte
notícia senão Deus? lá na sagrada
escritura, hoje em dia desprezada
a troco da mentira em grande porte.

Além do tempo, aquém do tempo, fora
do cosmo que conhece o telescópio,
verdade mui singela sempre mora.

E a verdade jamais está no ópio,
mas na razão, que entende a fé, e adora
a Deus, que nos irmana nEle próprio.


Nhandeara, 8 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 19 de setembro de 2015

CONFORME RELATADO


CONFORME RELATADO

— Ascaris lumbricoides, rapariga,
foi isso que saiu da tua orelha. —
informou-me o Dr. Florindo Abelha
nos dias em que eu era só barriga.

— Gravidez? — suspeitou a minha amiga,
porquanto o biotipo se assemelha,
e, em termos de barriga, era eu parelha,
mas minha gestação foi de lombriga!

Pari uma ninhada invertebrada
do Abelha, que é doutor... e invertebrado,
num parto desumano — uma cagada!

E, após a verminose eu ter gestado,
pretendo morrer virgem, deflorada
só na orelha, conforme relatado.


Nhandeara, 19 de setembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

PARUSIA


PARUSIA

Talvez jamais fará sentido eu ser
a escrita do dissenso para o triste
num mundo em contrassenso, que inexiste
aos olhos de uma pena de escrever.

A pena caligrafa sem saber
dos olhos desta mão que a tem em riste,
e o coração é órgão que persiste
até o final, porque mais pode ver.

Mas tenho no sentido de existir
sentido para a escrita, da qual sou
o senso e não a pena a redigir.

E existo para e por quem me criou
rumo ao subido mundo que há de vir
com Cristo, que do mal nos resgatou.


Nhandeara, 10 de setembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 29 de agosto de 2015

VÉU


VÉU

Se até os anjos caem, que faremos
a fim de não cairmos em pecado?,
sabendo que está tudo encaminhado
em nossa natureza pra que erremos.

O mal que nos espreita — percebemos —
parece por nós mesmos ser gerado,
e, a cada geração, é renovado
devido ao fruto que nós não comemos.

Mas tal miséria move piedade
no mundo, o qual anseia pelo Céu,
e o drama, assim, possui finalidade.

Porquanto, se o pecado borra o véu
de nossa original humanidade,
lavá-lo que bom é de déu em déu.


Nhandeara, 29 de agosto de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 8 de agosto de 2015

crítica da razão pura - a Immanuel Kant


CRÍTICA DA RAZÃO PURA - a Immanuel Kant

Verdade, imperativo categórico,
necessidade física e mental,
a lei de uma constante universal,
empírica evidência do teórico.

Um bem em si, um bem assaz eufórico,
apego ao metafísico e real
princípio da filia da moral,
recado contundente do folclórico.

Assim é toda ação escatológica,
pois nada de imediato lhe interessa:
a lógica da lógica da lógica.

Mas, para defecar, eu vou com pressa
— e com categoria mitológica —,
porque sei que cagar é bom à beça.


Nhandeara, 8 de agosto de 2015
Marcos Satoru Kawanami