sábado, 19 de setembro de 2015

CONFORME RELATADO


CONFORME RELATADO

— Ascaris lumbricoides, rapariga,
foi isso que saiu da tua orelha. —
informou-me o Dr. Florindo Abelha
nos dias em que eu era só barriga.

— Gravidez? — suspeitou a minha amiga,
porquanto o biotipo se assemelha,
e, em termos de barriga, era eu parelha,
mas minha gestação foi de lombriga!

Pari uma ninhada invertebrada
do Abelha, que é doutor... e invertebrado,
num parto desumano — uma cagada!

E, após a verminose eu ter gestado,
pretendo morrer virgem, deflorada
só na orelha, conforme relatado.


Nhandeara, 19 de setembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

PARUSIA


PARUSIA

Talvez jamais fará sentido eu ser
a escrita do dissenso para o triste
num mundo em contrassenso, que inexiste
aos olhos de uma pena de escrever.

A pena caligrafa sem saber
dos olhos desta mão que a tem em riste,
e o coração é órgão que persiste
até o final, porque mais pode ver.

Mas tenho no sentido de existir
sentido para a escrita, da qual sou
o senso e não a pena a redigir.

E existo para e por quem me criou
rumo ao subido mundo que há de vir
com Cristo, que do mal nos resgatou.


Nhandeara, 10 de setembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 29 de agosto de 2015

VÉU


VÉU

Se até os anjos caem, que faremos
a fim de não cairmos em pecado?,
sabendo que está tudo encaminhado
em nossa natureza pra que erremos.

O mal que nos espreita — percebemos —
parece por nós mesmos ser gerado,
e, a cada geração, é renovado
devido ao fruto que nós não comemos.

Mas tal miséria move piedade
no mundo, o qual anseia pelo Céu,
e o drama, assim, possui finalidade.

Porquanto, se o pecado borra o véu
de nossa original humanidade,
lavá-lo que bom é de déu em déu.


Nhandeara, 29 de agosto de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 8 de agosto de 2015

crítica da razão pura - a Immanuel Kant


CRÍTICA DA RAZÃO PURA - a Immanuel Kant

Verdade, imperativo categórico,
necessidade física e mental,
a lei de uma constante universal,
empírica evidência do teórico.

Um bem em si, um bem assaz eufórico,
apego ao metafísico e real
princípio da filia da moral,
recado contundente do folclórico.

Assim é toda ação escatológica,
pois nada de imediato lhe interessa:
a lógica da lógica da lógica.

Mas, para defecar, eu vou com pressa
— e com categoria mitológica —,
porque sei que cagar é bom à beça.


Nhandeara, 8 de agosto de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 25 de julho de 2015

porta-voz


PORTA-VOZ

O verso decassílabo consome
banana com cebola com limão,
mas quem escreve aqui é minha mão,
pois verso não irá matar-me a fome.

Então, a mão tal suco tosco tome
com alho, quer alhinho, quer alhão,
e a boca pronuncie o palavrão,
enquanto só o cacófato é quem come.

Jejum faz bem à alma, pois, lá vai!
— o cérebro quer dar consentimento,
e empenho para tanto não subtrai. —

O estômago, porém, cheio de vento,
de súbito, com força, se contrai,
e o cu, por todos, faz pronunciamento.


Nhandeara, 25 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 21 de julho de 2015

sedento

Santa Teresa Benedita da Cruz

SEDENTO

Você, que, no aconchego do seu lar,
tem um cafofo, está de boa, espera
ficar de boa sempre, mas tolera
um íntimo desejo a segredar.

Segredo pra si mesmo, que, no altar
do peito, com frequência, o dilacera
sem nunca revelar-se essa tal fera
que a sua alma teima em cativar.

Não é assim à toa, saiba disto,
a fera põe você em movimento
domando o domador, que lhe é bem quisto.

E, quando, no cabal contentamento,
você vir face a face Jesus Cristo,
saberá do que agora está sedento.


Nhandeara, 21 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 17 de julho de 2015

tão comuns


TÃO COMUNS

Ainda que nós fôssemos nós dois,
ainda que o planeta fosse chato,
ainda que cachorro fosse gato,
ainda que se desse nome aos bois:

Eu gosto de comer feijão e arroz,
farinha de mandioca é no meu prato,
e, pra mais aumentar o nosso hiato,
não deixo nem um pouco a ver depois.

Mas eis que os dois de nós não são mais um,
porém somos mais uns na multidão
dos séculos perdidos, tão comuns...

E, enquanto tu és gata, eu sou um cão
caindo do planeta sem nenhum
receio de marchar na contramão.


Nhandeara, 17 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 12 de julho de 2015

FORVM - ficção total


FORVM

Com tanta merda pra dizer, calei-me
diante do juiz de vara e toga;
sentença de juiz, quem sabe, joga
e ganha em loteria sem que teime.

Calei-me pra evitar que alguém me queime
na cadeia o franzido, amado boga,
e, pena tal, mais nunca se revoga,
por isso, de falar, foi que esquivei-me.

Quem fala vira escravo do que fala,
quem cala senhor é do que calou,
vontade de falar, pois, não me abala.

Mas, quando o julgamento terminou,
o promotor eu baleei sem bala,
com versos, que o juiz inocentou!


Nhandeara, 12 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crônica de Nárnia

LINK

CRÔNICA DE NÁRNIA

Prezado senhor Bosta, cordiais
saudações do colega Caganeira,
esta primeira carta derradeira
contém relatos mais do que fecais.

Conforme informativos sazonais,
o povo está cagando até madeira,
pois come celulose, sem que queira,
mesclada ao alimento, os mais banais.

Cagando paus, por outro lado, empenho
tem feito em defecar quem é político,
e um cocô é o cenário que desenho.

Se falam em jargão mais apodítico,
inane, nesta crônica, só tenho
é de cagar um áscaris raquítico!


Nhandeara, 9 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 5 de julho de 2015

MERCHAN - cartuns da Revista Bundas

Revista Bundas
Ano 1 - Número 32 - 25 a 31 de janeiro de 2000

MERCHAN

Aquilo que no Rio é apenas merda,
em Sampa, continua sendo bosta,
mas disso é que o paulista muito gosta,
e é paladar que o carioca herda...

Sorri, subindo o Elevador Lacerda,
baiano, se está lendo esta proposta,
mas, antes da parada, logo encosta,
e dorme sem que leia aquele herda.

Contudo, não entendo essa disputa,
se vou à Paraíba, e um paraíba
apita contra o Vasco — fidaputa!

(Merchan para a cachaça Sagatiba),
o Milton bebe uma aqui para o Edmundo,
e o verso derradeiro deito ao fundo.


Nhandeara, 5 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami
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Desenhos da Revista Bundas, ano 1, número 32