sábado, 8 de agosto de 2015

crítica da razão pura - a Immanuel Kant


CRÍTICA DA RAZÃO PURA - a Immanuel Kant

Verdade, imperativo categórico,
necessidade física e mental,
a lei de uma constante universal,
empírica evidência do teórico.

Um bem em si, um bem assaz eufórico,
apego ao metafísico e real
princípio da filia da moral,
recado contundente do folclórico.

Assim é toda ação escatológica,
pois nada de imediato lhe interessa:
a lógica da lógica da lógica.

Mas, para defecar, eu vou com pressa
— e com categoria mitológica —,
porque sei que cagar é bom à beça.


Nhandeara, 8 de agosto de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 25 de julho de 2015

porta-voz


PORTA-VOZ

O verso decassílabo consome
banana com cebola com limão,
mas quem escreve aqui é minha mão,
pois verso não irá matar-me a fome.

Então, a mão tal suco tosco tome
com alho, quer alhinho, quer alhão,
e a boca pronuncie o palavrão,
enquanto só o cacófato é quem come.

Jejum faz bem à alma, pois, lá vai!
— o cérebro quer dar consentimento,
e empenho para tanto não subtrai. —

O estômago, porém, cheio de vento,
de súbito, com força, se contrai,
e o cu, por todos, faz pronunciamento.


Nhandeara, 25 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 21 de julho de 2015

sedento

Santa Teresa Benedita da Cruz

SEDENTO

Você, que, no aconchego do seu lar,
tem um cafofo, está de boa, espera
ficar de boa sempre, mas tolera
um íntimo desejo a segredar.

Segredo pra si mesmo, que, no altar
do peito, com frequência, o dilacera
sem nunca revelar-se essa tal fera
que a sua alma teima em cativar.

Não é assim à toa, saiba disto,
a fera põe você em movimento
domando o domador, que lhe é bem quisto.

E, quando, no cabal contentamento,
você vir face a face Jesus Cristo,
saberá do que agora está sedento.


Nhandeara, 21 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 17 de julho de 2015

tão comuns


TÃO COMUNS

Ainda que nós fôssemos nós dois,
ainda que o planeta fosse chato,
ainda que cachorro fosse gato,
ainda que se desse nome aos bois:

Eu gosto de comer feijão e arroz,
farinha de mandioca é no meu prato,
e, pra mais aumentar o nosso hiato,
não deixo nem um pouco a ver depois.

Mas eis que os dois de nós não são mais um,
porém somos mais uns na multidão
dos séculos perdidos, tão comuns...

E, enquanto tu és gata, eu sou um cão
caindo do planeta sem nenhum
receio de marchar na contramão.


Nhandeara, 17 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 12 de julho de 2015

FORVM - ficção total


FORVM

Com tanta merda pra dizer, calei-me
diante do juiz de vara e toga;
sentença de juiz, quem sabe, joga
e ganha em loteria sem que teime.

Calei-me pra evitar que alguém me queime
na cadeia o franzido, amado boga,
e, pena tal, mais nunca se revoga,
por isso, de falar, foi que esquivei-me.

Quem fala vira escravo do que fala,
quem cala senhor é do que calou,
vontade de falar, pois, não me abala.

Mas, quando o julgamento terminou,
o promotor eu baleei sem bala,
com versos, que o juiz inocentou!


Nhandeara, 12 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crônica de Nárnia

LINK

CRÔNICA DE NÁRNIA

Prezado senhor Bosta, cordiais
saudações do colega Caganeira,
esta primeira carta derradeira
contém relatos mais do que fecais.

Conforme informativos sazonais,
o povo está cagando até madeira,
pois come celulose, sem que queira,
mesclada ao alimento, os mais banais.

Cagando paus, por outro lado, empenho
tem feito em defecar quem é político,
e um cocô é o cenário que desenho.

Se falam em jargão mais apodítico,
inane, nesta crônica, só tenho
é de cagar um áscaris raquítico!


Nhandeara, 9 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 5 de julho de 2015

MERCHAN - cartuns da Revista Bundas

Revista Bundas
Ano 1 - Número 32 - 25 a 31 de janeiro de 2000

MERCHAN

Aquilo que no Rio é apenas merda,
em Sampa, continua sendo bosta,
mas disso é que o paulista muito gosta,
e é paladar que o carioca herda...

Sorri, subindo o Elevador Lacerda,
baiano, se está lendo esta proposta,
mas, antes da parada, logo encosta,
e dorme sem que leia aquele herda.

Contudo, não entendo essa disputa,
se vou à Paraíba, e um paraíba
apita contra o Vasco — fidaputa!

(Merchan para a cachaça Sagatiba),
o Milton bebe uma aqui para o Edmundo,
e o verso derradeiro deito ao fundo.


Nhandeara, 5 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami
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Desenhos da Revista Bundas, ano 1, número 32

sexta-feira, 3 de julho de 2015

putos porros - gíria lusitana

Jovem, se tu completaste 18 anos,
ingresses na Marinha de Portugal,
e conheças um novo mundo.

PUTOS PORROS

Aqueles putos porros são gozados,
transformam esta escola num hospício,
e são do professor riso e suplício
por mares nunca de antes navegados!

Mas eu jamais serei um conformado,
o ter um ideal seja meu vício,
ainda que com fogos de artifício,
de novo, seja o Vasco rebaixado...

E vós, Tágides minhas, dai-me ajuda
nas horas em que o barco vai a pique,
dizendo, em coro, aos putos, pois: caluda!

Silêncio, então, daqui a Moçambique,
possa haver, pra eu tocar a frauta ruda
que toco, sem um puto que a critique!


Nhandeara, 3 de julho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



1ª obs: putos porros = moleques porretas ou crianças divertidas

2ª obs: O time de futebol Vasco da Gama está mal no campeonato brasileiro.

terça-feira, 30 de junho de 2015

GRILO


GRILO

O mesmo grilo que atormenta tanto
a tantos noite adentro é companheiro
do puto que ora dorme no celeiro,
e, em tal castigo, vai deitar seu pranto.

O grilo, sobre o teto de amianto,
estorvaria um quarteirão inteiro,
porém, pro puto, agora, é seresteiro
que com um verso só canta seu canto.

O grilo, que é o poeta do poema,
consola quem escreve sem destino
uns versos que têm grilo como tema.

Mas, quem jamais apreciou um hino
de grilo, não entende este dilema,
e manda-me ao produto do intestino!


Nhandeara, 30 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami
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obs: puto = menino
Escrevi no sentido que puto tem em Portugal, parece que no Rio Grande do Sul tem significado pejorativo.
Conforme o comentário 3, eu também acho que puto tem significado pejorativo em todo o Brasil, mas lá no Rio Grande do Sul é que usam puto com frequência no mau sentido. Usei puto porque menino não dava na métrica, e guri ou piá não respeitaria a prosódia do verso.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quando Ismália enlouqueceu


ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens



QUANDO ISMÁLIA ENLOUQUECEU
ao poeta Alphonsus de Guimaraens

Que porra é essa?! — perguntou-me Ismália
olhando aquela porra que eu não via
a pleno sol, em plena luz do dia:
às vezes, luz demais é que atrapalha...

E sempre foi de lua aquela Ismália,
então, notei que o sol a confundia,
mas ela, com mais ímpeto, insistia:
— Será que tu não vês essa caralha?!

Achei que discordar não me convinha
perante tal macheza feminina;
portanto, concordei: — A porra é minha!

Aí, olhou-me Ismália assim de quina,
dizendo: — Então, tu guarda essa sombrinha,
pois estiou, e a lua está divina...


Nhandeara, 24 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.
(fonte: Itaú Cultural)


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: este poema, integrante da série "As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma seleção de Ítalo Moriconi.