Quando
Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na
torre a sonhar...
Viu uma lua
no céu,
Viu outra lua
no mar.
No sonho em
que se perdeu,
Banhou-se
toda em luar...
Queria subir
ao céu,
Queria descer
ao mar...
E, no
desvario seu,
Na torre
pôs-se a cantar...
Estava perto
do céu,
Estava longe
do mar...
E como um
anjo pendeu
As asas para
voar...
Queria a lua
do céu,
Queria a lua
do mar...
As asas que
Deus lhe deu
Ruflaram de
par em par...
Sua alma
subiu ao céu,
Seu corpo
desceu ao mar...
Alphonsus de
Guimaraens
QUANDO ISMÁLIA
ENLOUQUECEU
ao poeta Alphonsus
de Guimaraens
Que porra é essa?! —
perguntou-me Ismália
olhando aquela porra
que eu não via
a pleno sol, em
plena luz do dia:
às vezes, luz demais
é que atrapalha...
E sempre foi de lua
aquela Ismália,
então, notei que o
sol a confundia,
mas ela, com mais
ímpeto, insistia:
— Será que tu não
vês essa caralha?!
Achei que discordar
não me convinha
perante tal macheza
feminina;
portanto, concordei:
— A porra é minha!
Aí, olhou-me Ismália
assim de quina,
dizendo: — Então, tu
guarda essa sombrinha,
pois estiou, e a lua
está divina...
Nhandeara, 24 de
junho de 2015
Marcos Satoru
Kawanami
Alphonsus de
Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG),
em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894,
em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais
“Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de
S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do
Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu
primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano
em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em
1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra
Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do
Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de
Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua
noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos,
melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens
mortas.
(fonte: Itaú
Cultural)
Publicado no
livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: este poema, integrante da série
"As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas
brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma
seleção de Ítalo Moriconi.