terça-feira, 30 de junho de 2015

GRILO


GRILO

O mesmo grilo que atormenta tanto
a tantos noite adentro é companheiro
do puto que ora dorme no celeiro,
e, em tal castigo, vai deitar seu pranto.

O grilo, sobre o teto de amianto,
estorvaria um quarteirão inteiro,
porém, pro puto, agora, é seresteiro
que com um verso só canta seu canto.

O grilo, que é o poeta do poema,
consola quem escreve sem destino
uns versos que têm grilo como tema.

Mas, quem jamais apreciou um hino
de grilo, não entende este dilema,
e manda-me ao produto do intestino!


Nhandeara, 30 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami
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obs: puto = menino
Escrevi no sentido que puto tem em Portugal, parece que no Rio Grande do Sul tem significado pejorativo.
Conforme o comentário 3, eu também acho que puto tem significado pejorativo em todo o Brasil, mas lá no Rio Grande do Sul é que usam puto com frequência no mau sentido. Usei puto porque menino não dava na métrica, e guri ou piá não respeitaria a prosódia do verso.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quando Ismália enlouqueceu


ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens



QUANDO ISMÁLIA ENLOUQUECEU
ao poeta Alphonsus de Guimaraens

Que porra é essa?! — perguntou-me Ismália
olhando aquela porra que eu não via
a pleno sol, em plena luz do dia:
às vezes, luz demais é que atrapalha...

E sempre foi de lua aquela Ismália,
então, notei que o sol a confundia,
mas ela, com mais ímpeto, insistia:
— Será que tu não vês essa caralha?!

Achei que discordar não me convinha
perante tal macheza feminina;
portanto, concordei: — A porra é minha!

Aí, olhou-me Ismália assim de quina,
dizendo: — Então, tu guarda essa sombrinha,
pois estiou, e a lua está divina...


Nhandeara, 24 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.
(fonte: Itaú Cultural)


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: este poema, integrante da série "As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma seleção de Ítalo Moriconi.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sorria, você está sendo filmado!


SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!

De tudo que foi feito à luz divina,
foi tudo muito bom e natural;
foi antes do pecado original
que a vida se vivia sem prantina.

Então, uma serpente mui ladina
achou que era bonito, ainda que mau,
guiar-nos ao processo industrial,
e dar-nos um trabalho que amofina.

A civilização nos prometia
de um tudo, e parecia a perfeição,
o ser humano a ser seu próprio guia(?).

Agora, a encruzilhada é contramão
pra todo lado, e com ebó... Sorria,
estou lhe vendo na televisão!



Nhandeara, 17 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 7 de junho de 2015

Fogo No Rabo - uma novela do mano Elcarlos

Parte do elenco de Fogo No Rabo, da TV PIRATA.
Da direita para a esquerda: Cristina Pereira, Pedro Paulo Rangel,
Louise Cardoso, Diogo Vilela, Ney Latorraca e Débora Bloch.

FOGO NO RABO – uma novela do mano Elcarlos

         A reprise da novela Fogo no rabo tem aguçado a imaginação da minha cachorrinha, que passou a perseguir o próprio rabo e lamber a própria periquita. A senhora já lambeu a própria periquita? E o senhor, já lambeu o próprio pau? Minha cachorrinha é mais esperta que nóis tudo...
         Falando em periquita, é esse mesmo o tema da novela, cuja trama está centrada no desequilíbrio ecológico entre duas periquitas sapatonas dubladas por um papagaio tarado, que fazia as duas vozes, e ainda cantava Conceição nos intervalos.
         Conceição não atuou na novela, mas era modelo e atriz, e não tem nada a ver ficar falando da moça aqui, mesmo porque ela levou pau no teste de solfejo, dó ré mi sol fá... É, devia ter cantado fá sol.
         Voltando ao assunto. Uma das periquitas é segurança de uma boate em que só dá galinha, a Boate Galinheiro. Daí vem o ciúme doentio da outra periquita, e ciúme de sapatão... é rola! Tudo por causa do galo do galinheiro, ainda que ele foda com o cu, e durma em cima de um pau. Enfim, o mamão é macho, mas é fruta, e esse galo bota ovo.
         Típico ciúme sem fundamento, o problema é da periquita, que anda murchinha pelos cantos, mas é fértil, principalmente de imaginação. Então, você já viu, ela começa a fazer uma merda atrás da outra até terem de trocar o piso da gaiola.
         Nessa fase de mudanças, a periquita da Boate Galinheiro sofre uma crise de identidade psicofuricular, e resolve dar para o galo. Aí, fudeu, ou muito pelo contrário. A bichice do galo é justamente o que atrai a periquita, que é espada, e se vê mais confusa que corintiano em fla-flu, ou grenal, sei lá, fiquei confuso agora.
         A trama segue enovelada com sucessivos novelos novelísticos, até que Barbosa entra para resolver a parada. Ney Latorraca, que já viu a novela, sabe que Barbosa é o cara, fala feito um retardado, e vai passando o rodo.
         E, já que é reprise, posso contar o final da estória. Barbosa acaba ficando com a Boate Galinheiro, come todas as galinhas, e solta a franga, digo, o galo.
         O galo faz cirurgia de mudança de sexo, e descobre quem realmente ele é: uma franga sapatão! Assim, a periquita segurança consegue seduzir o galo franga sapatão, e o leva para casa, onde passam a viver um ménage-à-trois com a outra periquita.
         O papagaio tarado, inconformado com o desenrolar dos trabalhos, manda eu parar de escrever.
         Eu não o obedeço, afinal, minha patroa é Conceição, que voltou para o morro a sonhar, depois da pacificação e da UPP.
         Falando nisso, cadê a Conceição?
         E o papagaio filho da puta diz: “Conceição tá na UPP, seu corno! Maria UPP, Maria UPP... Canta comigo, veado!”.

Nhandeara, 7 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 5 de junho de 2015

ficar na mão


FICAR NA MÃO

Sete anos, por Jacó, Raquel sofria,
sofria a todo instante, o ano inteiro,
sentindo que queimava num braseiro
a doce mocidade, a qual partia...

Labão, ainda por cima, deu foi Lia
a fim de desposar Jacó primeiro;
e, pobre de Raquel, que pai fuleiro!,
tramava, assim, deixá-la pra titia?

E nunca se viu tanta carestia
de rola, que estampava, no trigueiro
semblante de Raquel, branca apatia.

Conforto traz às moças tal roteiro,
se, às vezes, encontrarem agonia,
tocando siririca no banheiro.



Nhandeara, 5 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami


domingo, 31 de maio de 2015

Corpus Christi - Suma Teológica: provas da existência de Deus - Gregório de Matos Guerra


À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA

“No princípio, era o Verbo”, e o Verbo amava,
e, para amar, deu vida à criatura.
Porque ser Deus, ser Deus não Lhe bastava,
determinou a Redenção futura.

Javé, que sempre o povo Seu guiava,
sendo Senhor, desceu de tal postura
de fria impavidez que o amargurava,
pois Deus quis ser PAI, e pai de ternura.

Mas só ser pai não Lhe bastou, ainda
quis ser IRMÃO, e Se entregar exangue
nas mãos sem nexo de sinédria gangue.

E, para ser irmão, na Sua vinda,
o bom Deus recorreu à poesia:
foi FILHO de uma virgem mãe, Maria.

Marcos Satoru Kawanami



Trecho da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino:

Art. 3 — Se Deus Existe.

O terceiro discute-se assim — Parece que Deus não existe.

1. Pois, um dos contrários, sendo infinito, destrói o outro totalmente. E como, pelo nome de Deus, se intelige um bem infinito, se existisse Deus, o mal não existiria. O mal, porém, existe no mundo. Logo, Deus não existe.

2. Demais — O que se pode fazer com menos não se deve fazer com mais. Ora, tudo o que no mundo aparece pode ser feito por outros princípios, suposto que Deus não exista; pois, o natural se reduz ao princípio, que é a natureza; e o proposital, à razão humana ou à vontade. Logo, nenhuma necessidade há de se supor a existência de Deus.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Ex 3, 14), da pessoa de Deus: Eu sou quem sou.

SOLUÇÃO. — Por cinco vias pode-se provar a existência de Deus. A primeira e mais manifesta é a procedente do movimento; pois, é certo e verificado pelos sentidos, que alguns seres são movidos neste mundo. Ora, todo o movido por outro o é. Porque nada é movido senão enquanto potencial, relativamente àquilo a que é movido, e um ser move enquanto em ato. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao ato; assim, o cálido atual, como o fogo, torna a madeira, cálido potencial, em cálido atual e dessa maneira, a move e altera. Ora, não é possível uma coisa estar em ato e potência, no mesmo ponto de vista, mas só em pontos de vista diversos; pois, o cálido atual não pode ser simultaneamente cálido potencial, mas, é frio em potência. Logo, é impossível uma coisa ser motora e movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois, tudo o que é movido há-de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se move, é necessário seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por conseqüência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.

A segunda via procede da natureza da causa eficiente. Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos seres sensíveis; porém, não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser. Mas, é impossível, nas causas eficientes, proceder-se até o infinito; pois, em todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da média e esta, da última, sejam as médias muitas ou uma só; e como, removida a causa, removido fica o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá média nem última. Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus.

A terceira via, procedente do possível e do necessário, é a seguinte — Vemos que certas coisas podem ser e não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre todos os seres de tal natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi. Se, portanto, todas as coisas podem não ser, algum tempo nenhuma existia. Mas, se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que não é só pode começar a existir por uma coisa já existente; ora, nenhum ente existindo, é impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que, evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são possíveis, mas é forçoso que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de fora a causa de sua necessidade ou não a tem. Mas não é possível proceder ao infinito, nos seres necessários, que têm a causa da própria necessidade, como também o não é nas causas eficientes, como já se provou. Por onde, é forçoso admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa da sua necessidade, antes, sendo a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus.

A quarta via procede dos graus que se encontram nas coisas. — Assim, nelas se encontram em proporção maior e menor o bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Ora, o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se aproximam de um máximo, diversamente; assim, o mais cálido é o que mais se aproxima do maximamente cálido. Há, portanto, algo verdadeiríssimo, ótimo e nobilíssimo e, por conseqüente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo. Ora, o que é maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende; assim o fogo, maximamente cálido, é causa de todos os cálidos, como no mesmo lugar se diz. Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe, e chama-se Deus.

A quinta procede do governo das coisas — Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou freqüentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é ótimo; donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a seta, pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente, pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Como diz Agostinho, Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse onipotente e bom para, mesmo do mal, tirar o bem. Logo, pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer jorrar o bem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A natureza, operando para um fim determinado, sob a direção de um agente superior, é necessário que as coisas feitas por ela ainda se reduzam a Deus, como à causa primeira. E, semelhantemente, as coisas propositadamente feitas devem-se reduzir a alguma causa mais alta, que não a razão e a vontade humanas, mutáveis e defectíveis; é, logo, necessário que todas as coisas móveis e suscetíveis de defeito se reduzam a algum primeiro princípio imóvel e por si necessário, como se demonstrou.
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Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Apareceu

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

Gregório de Matos Guerra



Outro trecho da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, é o trecho que motivou Gregório de Matos a escrever o soneto acima:

Art. 7 — Se Deus é absolutamente simples.

O sétimo discute-se assim. — Parece que Deus não é absolutamente simples.

1. — Pois, como o que provém de Deus o imita, do ser primeiro procedem todos os outros e, do bem primeiro, todos os bens. Ora, dos seres provenientes de Deus nenhum é absolutamente simples. Logo, também não o é Deus.

2. Demais. — Tudo o que há de melhor deve ser atribuído a Deus. Ora, para nós, o composto é melhor que o simples; assim, os corpos mistos são melhores que os elementos e estes, que as suas partes. Logo, não devemos dizer que Deus é absolutamente simples.

Mas, em contrário, como diz Agostinho, Deus é verdadeira e sumamente simples.

SOLUÇÃO. — De muitos modos podemos provar que Deus é absolutamente simples. Primeiro, pelo que já dissemos. Pois, não havendo em Deus composição de partes quantitativas, por não ser corpo, nem de forma e matéria; nem havendo nele, diferença entre a natureza e o suposto; nem composição de gêneros e diferenças; nem de sujeito e acidentes, é claro que Deus de nenhum modo é composto, mas absolutamente simples. Segundo, porque todo composto é posterior aos seus componentes, dos quais depende. Ora, Deus é o ser primeiro, como já demonstramos. Terceiro, porque todo composto terá causa; pois, coisas entre si diversas não se reduzem à unidade, senão por um princípio que as unifique. Ora, Deus não tem causa, como já demonstramos, por ser a causa eficiente primeira. Quarto, em todo composto deve haver potência e ato, que não existem em Deus; pois das partes, uma haveria de ser ato da outra, ou, pelo menos, todas seriam como que potências em relação ao todo. Quinto, porque nenhum composto se identifica com qualquer das suas partes, como manifestamente se dá num todo de partes dessemelhantes. Assim, nenhuma das suas partes é o homem, como não é o pé nenhuma das partes deste. Quanto a um todo de partes dessemelhantes, embora algumas atribuições do todo também o sejam das partes — p. ex., qualquer parte do ar ou da água é ar ou água — contudo há atribuições do todo que não convêm às partes — p. ex., por ter uma quantidade de água dois côvados, não há de tê-los também cada uma das suas partes. Logo, todo composto tem alguma coisa que dele difere. E embora se possa dizer que também no ser que tem forma há algo que dele difere, p. ex., no branco há algo que lhe não pertence à essência — contudo nada há na forma mesma que lhe seja alheio. Por onde, sendo Deus a forma pura, ou antes o ser em si mesmo, de nenhum modo pode ser composto. E a esta razão alude Hilário quando diz: Deus, sendo o poder, não tem fraquezas; nem sendo luz, consta de trevas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Os seres provenientes de Deus o imitam, como os seres causados imitam a causa primeira. Pois, da natureza do causado é, de certo modo, ser composto, porque o seu ser é, pelo menos, diverso da sua quididade, como a seguir se verá.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Para nós, os seres compostos são melhores que os simples, porque a perfeição da bondade da criatura não se encontra no simples, mas no múltiplo. Ao contrário, a perfeição da divina bondade está na simplicidade, como a seguir se verá.
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terça-feira, 26 de maio de 2015

pregão do alho


PREGÃO DO ALHO

alho, alho!
quem quer alho? quer alho?
quem quer alho? alho?
quem quer alho? quer alho?

prepara
o alho
naquela frigideira
de teflon zoeira.
mistura com pimenta
que esquenta, incrementa.
e o óleo é a pura ardência
fervendo, aquecendo
a nossa impaciência!
quer alho?
quer alho?

e, agora,
clemência!
sentindo a iminência,
parei na intermitência,
pirei na desse alho.
quer alho?



Nhandeara, 26 de maio de 2015
Marcos Satoru Kawanami




obs: "teflon zoeira" é aquele teflon em que tudo gruda, e há que se usar óleo do mesmo jeito.

sábado, 2 de maio de 2015

Poema Novo


POEMA NOVO

Prometo te escrever poema novo
contando as novidades, bossa nova...
aqui do meu país da bosta nova,
que está cagando paus para o seu povo.

Se eu fosse uma galinha, eu dava um ovo
por nosso ledo amor a toda prova;
dispondo só de dois, é uma ova
que dou a ti, galinha, e me comovo...

Assim, vai esperando sentadinha
no teu poleiro novo a beira-mar:
repete aquela mesma ladainha...

Mas nem por um caralho vou te dar
poema novo, posto que galinha,
tentando ler, só vai cacarejar!



Nhandeara, 2 de maiô em 2015, ai que frio!
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Aleijadinho - filme



CAPÍTULO VII
(DA SERVIDÃO HUMANA)

        Sobre a linha do trem, a solitária esperança do partir e as —mais numerosas—  objetividades da  pedra,  do pau e do aço.  Sobre a linha do trem,  o caminhar do engenho pelos  tempos,  a segurança  de  civilidade,  um rumo  a entreter  a existência,  a possibilidade  do  suicídio...  Ele  toca  a  flautinha de bambu andando na carreira do trem. Cabelo pixaim caído de lado, ainda possuía  a centelha que,  com a idade,  das pupilas vai sumindo.  Queria ser artista! artista! e militar por algo que entendesse justo! e isso!  e aquilo!  e fazer aquilo outro...  que acabou nem  fazendo o mínimo  para seu próprio bem-estar.
        Havendo sido ele cagado —é da mitologia brasileira crer que pessoas muito feias não são nascidas, porém cagadas; certamente por isso o povo do sul  prefira dizer obrar em vez de cagar ou defecar. Então, por caridoso  eufemismo,  havendo  ele  sido obrado no Planalto Central, quis ser artista, desceu às Gerais,  e se  acabou num entorpecente anonimato a esculpir pedra-sabão em Ouro Preto, a antiga e decadente capital. Arranjava-se com menos do que mendiga a subsistência,  às vezes  até envergava  o  dólmã  encurvado da indigência, e se o mal cheiro e a compleição física lhe sentenciassem a condição  de  desvalido,  a cabeça  mantinha-se dura e a altivez era a altivez  surreal dos idealistas.  Ingênuos idealistas, são bons na proporção direta em que tentam ir além do  que  exige  o trato social, e na medida  inversa  da  ojeriza que   inspiram por  suas  ações insociáveis.  Mas envelhecido, despojado de idealismo, restou o humano orgulho e vaidade, ainda que a arrogância já era banida pelo mesmo malho que  ensina  as vantagens do ferro doce sobre a rigidez do aço.  Idem, jamais veio a tentar-lhe a malícia, que é navalha para cortar os outros, mas entre os demais não distingue a carne de quem a manipula.
        Assim, intrometendo-se nas repúblicas estudantis e freqüentando as rodas da boêmia, rejeitava enturmar-se com a "ralé da feira de artesanato" --nem por isso deixou de ser mais miserável que o mais miserável  deles.  Julgava-se discípulo de uma arte  superior,  preferindo  vender suas obras apenas para amigos. E haja mecenas que o sustentassem!
        Breve foi vetado, pela desconfiança ancestral dos que crêem ter  muito a perder, na quase totalidade das repúblicas, inclusive  na dita  em  que  duma feita teve a certeza de amizades sinceras,  e na cuja que deve  aos  seus  préstimos artísticos a tabuleta de entrada mais vistosa da cidade.  Naquela noite clara de lua cheia, ele passava em frente à tabuleta:
        —Vocês envernizaram ela? —pergunta com a voz trêmula de costume.
        —Não. —responde secamente o republicano.
        —É que  de repente vi um certo brilho, assim... —persiste, com ademanes, suplicando diálogo. —Sabe quem fez esta placa? Fui eu.
        Era de se esperar que fosse convidado para beber algo,  como mandava o costume. Mas...
        —Parabéns!  —exclama o estudante em tom de burla, ante ao maltrapilho.
        As experiências de  vida são as mais custosas; a cada geração têm de ser ratificadas,  e são pagas com a própria carne. E aquele que tendo vivenciado  equivalente  humilhação,  foi  tratar  seu reumatismo crônico numa aldeia campesina ao norte da  Sibéria e absteve-se  de alguma  vez  amaldiçoar o dia em que nasceu, aquele nunca existiu.

(Trecho do livro Enredo do Mundo. Esta passagem foi escrita por mim em 1995, quando presenciei meu amigo Ismael Marcelino sofrer tal humilhação. Eu estava à janela do sobrado da esquina entre a Rua dos Paulistas e a Rua Camilo de Brito, no qual funcionava a pensão de Dona Arlete, em Ouro Preto. Percebendo a hostilidade com que ele fora tratado, saí da janela para que ele não me visse, e sua tristeza não fosse ainda maior devido à presença de uma testemunha.)



J'AI FAIM!

Quando eu era estudante secundário (ensino médio, rapeize) na grande capital paulista, eu tinha a ingenuidade de não saber nada e pensar que sabia tudo, ou quase tudo.
Eu sabia que, sabendo ler e sabendo as quatro operações matemáticas, eu poderia aprender qualquer coisa por conta própria, sendo auto-didata: então o essencial eu já sabia. Ah, e sabia também que Isaac Newton criara o Céu e a Terra.
Eu cabulava aula no Sebo do Messias, uma enorme loja de livros usados do centro velho paulistano. Apesar de os livros serem muito baratos, só às vezes eu comprava algum; via de regra, eu ficava a manhã inteira lendo lá mesmo até dar a hora de volver a casa, onde minha avó esperava o estudante exemplar que acordava às 5:30h da alvorada, e ia a pé da Rua Frei Rolim, na Saúde, até a Estação Santa Cruz em Vila Mariana, todos os dias sem falta. Eu respeitava a velha. Quando meu pai foi aprovado na 4ªsérie, minha avó lhe fez um exame com toda a matéria do ano, no qual ele não passou; aí, ela matriculou o coitado de novo na 4ªsérie; foi escutando essa história que eu tive a primeira noção do conceito de: FODER-SE.
Não sei como é hoje, mas, naquela década de 90, os professores apenas regorgitavam o que estava nos livros didáticos; já disse que sabia ler, então, lia em casa, e ia ao sebo ler outras coisas: ora, eu só tinha 16 anos e queria saber como era o Mundo antes de ter a idade suficiente para tal propósito.
Um dos livros que manusiei intitulava-se "J'ai faim!" - "Eu tenho fome!" - não tive vontade de ler, comia bem em casa de vovó, mas isso nunca mais me saiu da cabeça.
Em 1994, ingressei no curso de Astronomia da UFRJ, e logo em seguida parti para Ouro Preto, a fim de estudar Engenharia de Minas, por sugestão de minha sábia irmã.
Passei 45 dias numa república federal da UFOP comendo somente pão-com-manteiga e café puro, até conseguir emprego nos refeitórios da universidade, onde o salário era a refeição.
Em geral, a fauna republicana gastava o dinheiro que seus responsáveis lhes mandavam com coisas fúteis e pouco estudo.
Freqüentava a república um escultor de nome Frank: mulato de olho azul e magérrimo, cheirava mal por falta de banho. Logo descobri que seu nome verdadeiro era Ismael Marcelino, natural de Anápolis, uma cidade de Goiás, e que tinha olhos azuis porque sua mãe também os tinha, sendo alvíssima, enquanto seu pai era um afro-descendente do tipo creoullo tição. Chamavam-no de Frank porque o achavam deveras feio.
Desde que soube seu verdadeiro nome, eu só chamava-o por Ismael, e ele sempre queria conversar comigo porque eu tenho a pachorra de ouvir as pessoas - que nem puta de cabaré -, ao passo que os republicanos já tinham começado a menosprezar o Ismael depois que se cansaram de sua figura cadavérica.
Até que, numa noite, eu fiquei trancado para fora da república, e ninguém quis abrir a porta. Ismael estava comigo, e me ofereceu abrigo na sua casa. Chegando lá, não havia móveis na casa, só um sofá, um fogão e um guarda-comida, em que encontramos um pouco de farinha de mandioca e um único ovo. Como nós não tínhamos jantado, ele fez o ovo mexido com a farinha e colocou em dois pratos rasos, pouquíssima comida. Para minha surpresa, Ismael ainda me deu o prato com mais comida.
Passados alguns meses, eu voltava da aula quando encontrei o Ismael sentadinho todo encolhido na soleira duma farmácia. Nós conversamos amenidades, disse-me que estava tomando um pouco de sol...
Só hoje eu percebo. Careceram se passar 15 anos de ingenuidade para eu perceber: Ismael estava doente, na porta da farmácia em postura mendicante, mas sua hombridade lhe embargava a voz para dizer: "Amigo, me ajude com a conta do remédio?" ou talvez "J'ai faim!".

Nhandeara, 10 de março de 2010
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 21 de abril de 2015

Guilherme de Almeida, livro Messidor, parte Nós, soneto IX

Guilherme de Almeida entrevistado
por Maria Tereza Cavalheiro.

IX

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo o mundo pensará que eu canto.

Guilherme de Almeida