À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA
“No princípio, era o Verbo”, e o Verbo amava,
e, para amar, deu vida à criatura.
Porque ser Deus, ser Deus não Lhe bastava,
determinou a Redenção futura.
Javé, que sempre o povo Seu guiava,
sendo Senhor, desceu de tal postura
de fria impavidez que o amargurava,
pois Deus quis ser PAI, e pai de ternura.
Mas só ser pai não Lhe bastou, ainda
quis ser IRMÃO, e Se entregar exangue
nas mãos sem nexo de sinédria gangue.
E, para ser irmão, na Sua vinda,
o bom Deus recorreu à poesia:
foi FILHO de uma virgem mãe, Maria.
Marcos Satoru Kawanami
Trecho da Suma Teológica de Santo
Tomás de Aquino:
Art. 3 — Se Deus Existe.
O terceiro discute-se assim — Parece
que Deus não existe.
1. Pois, um dos contrários, sendo
infinito, destrói o outro totalmente. E como, pelo nome de Deus, se intelige um
bem infinito, se existisse Deus, o mal não existiria. O mal, porém, existe no
mundo. Logo, Deus não existe.
2. Demais — O que se pode fazer com
menos não se deve fazer com mais. Ora, tudo o que no mundo aparece pode ser
feito por outros princípios, suposto que Deus não exista; pois, o natural se
reduz ao princípio, que é a natureza; e o proposital, à razão humana ou à
vontade. Logo, nenhuma necessidade há de se supor a existência de Deus.
Mas, em contrário, diz a
Escritura (Ex 3, 14), da pessoa de Deus: Eu sou quem sou.
SOLUÇÃO. — Por cinco vias pode-se
provar a existência de Deus. A primeira e mais manifesta é a procedente do
movimento; pois, é certo e verificado pelos sentidos, que alguns seres são
movidos neste mundo. Ora, todo o movido por outro o é. Porque nada é movido
senão enquanto potencial, relativamente àquilo a que é movido, e um ser move
enquanto em ato. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao ato;
assim, o cálido atual, como o fogo, torna a madeira, cálido potencial, em
cálido atual e dessa maneira, a move e altera. Ora, não é possível uma coisa
estar em ato e potência, no mesmo ponto de vista, mas só em pontos de
vista diversos; pois, o cálido atual não pode ser simultaneamente cálido
potencial, mas, é frio em potência. Logo, é impossível uma coisa ser motora e
movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois,
tudo o que é movido há-de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se
move, é necessário seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode
assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por
conseqüência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão
movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é
necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos
dão o nome de Deus.
A segunda via procede da natureza da
causa eficiente. Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos
seres sensíveis; porém, não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa
eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser.
Mas, é impossível, nas causas eficientes, proceder-se até o infinito; pois, em
todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da média e esta, da
última, sejam as médias muitas ou uma só; e como, removida a causa, removido
fica o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá média
nem última. Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem
efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso. Logo,
é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de
Deus.
A terceira via, procedente do
possível e do necessário, é a seguinte — Vemos que certas coisas podem ser e
não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre
todos os seres de tal natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi.
Se, portanto, todas as coisas podem não ser, algum tempo nenhuma existia. Mas,
se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que não é só pode
começar a existir por uma coisa já existente; ora, nenhum ente existindo, é
impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que,
evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são possíveis, mas é forçoso
que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de
fora a causa de sua necessidade ou não a tem. Mas não é possível proceder ao
infinito, nos seres necessários, que têm a causa da própria necessidade, como
também o não é nas causas eficientes, como já se provou. Por onde, é forçoso
admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa da sua necessidade,
antes, sendo a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus.
A quarta via procede dos graus que se
encontram nas coisas. — Assim, nelas se encontram em proporção maior e menor o
bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Ora,
o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se
aproximam de um máximo, diversamente; assim, o mais cálido é o que mais se
aproxima do maximamente cálido. Há, portanto, algo verdadeiríssimo, ótimo e
nobilíssimo e, por conseqüente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente
verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo. Ora, o que é
maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende;
assim o fogo, maximamente cálido, é causa de todos os cálidos, como no mesmo
lugar se diz.
Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo
quanto existe, e chama-se Deus.
A quinta procede do governo das
coisas — Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de
conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou
freqüentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é ótimo; donde resulta que
chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem
conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e
inteligente, como a seta, pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente, pelo qual
todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.
— Como diz Agostinho, Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria
existir algum mal nas suas obras, se não fosse onipotente e bom para, mesmo do
mal, tirar o bem.
Logo, pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer
jorrar o bem.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A natureza,
operando para um fim determinado, sob a direção de um agente superior, é
necessário que as coisas feitas por ela ainda se reduzam a Deus, como à causa
primeira. E, semelhantemente, as coisas propositadamente feitas devem-se
reduzir a alguma causa mais alta, que não a razão e a vontade humanas, mutáveis
e defectíveis; é, logo, necessário que todas as coisas móveis e suscetíveis de
defeito se reduzam a algum primeiro princípio imóvel e por si necessário, como
se demonstrou.
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Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Apareceu
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
Gregório de Matos Guerra
Outro trecho da Suma Teológica de
Santo Tomás de Aquino, é o trecho que motivou Gregório de Matos a escrever o soneto acima:
Art. 7 — Se Deus é absolutamente
simples.
O sétimo discute-se assim. — Parece
que Deus não é absolutamente simples.
1. — Pois, como o que provém de Deus
o imita, do ser primeiro procedem todos os outros e, do bem primeiro, todos os
bens. Ora, dos seres provenientes de Deus nenhum é absolutamente simples. Logo,
também não o é Deus.
2. Demais. — Tudo o que há de melhor
deve ser atribuído a Deus. Ora, para nós, o composto é melhor que o simples;
assim, os corpos mistos são melhores que os elementos e estes, que as suas
partes. Logo, não devemos dizer que Deus é absolutamente simples.
Mas, em contrário, como diz
Agostinho, Deus é verdadeira e sumamente simples.
SOLUÇÃO. — De muitos modos podemos
provar que Deus é absolutamente simples. Primeiro, pelo que já dissemos. Pois,
não havendo em Deus composição de partes quantitativas, por não ser corpo, nem
de forma e matéria; nem havendo nele, diferença entre a natureza e o suposto;
nem composição de gêneros e diferenças; nem de sujeito e acidentes, é claro que
Deus de nenhum modo é composto, mas absolutamente simples. Segundo, porque todo
composto é posterior aos seus componentes, dos quais depende. Ora, Deus é o ser
primeiro, como já demonstramos. Terceiro, porque todo
composto terá causa; pois, coisas entre si diversas não se reduzem à unidade,
senão por um princípio que as unifique. Ora, Deus não tem causa, como já
demonstramos, por
ser a causa eficiente primeira. Quarto, em todo composto deve haver potência e
ato, que não existem em Deus; pois das partes, uma haveria de ser ato da outra,
ou, pelo menos, todas seriam como que potências em relação ao todo. Quinto,
porque nenhum composto se identifica com qualquer das suas partes, como
manifestamente se dá num todo de partes dessemelhantes. Assim, nenhuma das suas
partes é o homem, como não é o pé nenhuma das partes deste. Quanto a um todo de
partes dessemelhantes, embora algumas atribuições do todo também o sejam das
partes — p. ex., qualquer parte do ar ou da água é ar ou água — contudo há
atribuições do todo que não convêm às partes — p. ex., por ter uma quantidade
de água dois côvados, não há de tê-los também cada uma das suas partes. Logo,
todo composto tem alguma coisa que dele difere. E embora se possa dizer que
também no ser que tem forma há algo que dele difere, p. ex., no branco há algo
que lhe não pertence à essência — contudo nada há na forma mesma que lhe seja
alheio. Por onde, sendo Deus a forma pura, ou antes o ser em si mesmo, de
nenhum modo pode ser composto. E a esta razão alude Hilário quando
diz: Deus, sendo o poder, não tem fraquezas; nem sendo luz,
consta de trevas.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.
Os seres provenientes de Deus o imitam, como os seres causados imitam a causa
primeira. Pois, da natureza do causado é, de certo modo, ser composto, porque o
seu ser é, pelo menos, diverso da sua quididade, como a seguir se verá.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Para nós, os
seres compostos são melhores que os simples, porque a perfeição da bondade da
criatura não se encontra no simples, mas no múltiplo. Ao contrário, a perfeição
da divina bondade está na simplicidade, como a seguir se verá.
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