domingo, 31 de maio de 2015

Corpus Christi - Suma Teológica: provas da existência de Deus - Gregório de Matos Guerra


À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA

“No princípio, era o Verbo”, e o Verbo amava,
e, para amar, deu vida à criatura.
Porque ser Deus, ser Deus não Lhe bastava,
determinou a Redenção futura.

Javé, que sempre o povo Seu guiava,
sendo Senhor, desceu de tal postura
de fria impavidez que o amargurava,
pois Deus quis ser PAI, e pai de ternura.

Mas só ser pai não Lhe bastou, ainda
quis ser IRMÃO, e Se entregar exangue
nas mãos sem nexo de sinédria gangue.

E, para ser irmão, na Sua vinda,
o bom Deus recorreu à poesia:
foi FILHO de uma virgem mãe, Maria.

Marcos Satoru Kawanami



Trecho da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino:

Art. 3 — Se Deus Existe.

O terceiro discute-se assim — Parece que Deus não existe.

1. Pois, um dos contrários, sendo infinito, destrói o outro totalmente. E como, pelo nome de Deus, se intelige um bem infinito, se existisse Deus, o mal não existiria. O mal, porém, existe no mundo. Logo, Deus não existe.

2. Demais — O que se pode fazer com menos não se deve fazer com mais. Ora, tudo o que no mundo aparece pode ser feito por outros princípios, suposto que Deus não exista; pois, o natural se reduz ao princípio, que é a natureza; e o proposital, à razão humana ou à vontade. Logo, nenhuma necessidade há de se supor a existência de Deus.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Ex 3, 14), da pessoa de Deus: Eu sou quem sou.

SOLUÇÃO. — Por cinco vias pode-se provar a existência de Deus. A primeira e mais manifesta é a procedente do movimento; pois, é certo e verificado pelos sentidos, que alguns seres são movidos neste mundo. Ora, todo o movido por outro o é. Porque nada é movido senão enquanto potencial, relativamente àquilo a que é movido, e um ser move enquanto em ato. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao ato; assim, o cálido atual, como o fogo, torna a madeira, cálido potencial, em cálido atual e dessa maneira, a move e altera. Ora, não é possível uma coisa estar em ato e potência, no mesmo ponto de vista, mas só em pontos de vista diversos; pois, o cálido atual não pode ser simultaneamente cálido potencial, mas, é frio em potência. Logo, é impossível uma coisa ser motora e movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois, tudo o que é movido há-de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se move, é necessário seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por conseqüência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.

A segunda via procede da natureza da causa eficiente. Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos seres sensíveis; porém, não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser. Mas, é impossível, nas causas eficientes, proceder-se até o infinito; pois, em todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da média e esta, da última, sejam as médias muitas ou uma só; e como, removida a causa, removido fica o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá média nem última. Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus.

A terceira via, procedente do possível e do necessário, é a seguinte — Vemos que certas coisas podem ser e não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre todos os seres de tal natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi. Se, portanto, todas as coisas podem não ser, algum tempo nenhuma existia. Mas, se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que não é só pode começar a existir por uma coisa já existente; ora, nenhum ente existindo, é impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que, evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são possíveis, mas é forçoso que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de fora a causa de sua necessidade ou não a tem. Mas não é possível proceder ao infinito, nos seres necessários, que têm a causa da própria necessidade, como também o não é nas causas eficientes, como já se provou. Por onde, é forçoso admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa da sua necessidade, antes, sendo a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus.

A quarta via procede dos graus que se encontram nas coisas. — Assim, nelas se encontram em proporção maior e menor o bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Ora, o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se aproximam de um máximo, diversamente; assim, o mais cálido é o que mais se aproxima do maximamente cálido. Há, portanto, algo verdadeiríssimo, ótimo e nobilíssimo e, por conseqüente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo. Ora, o que é maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende; assim o fogo, maximamente cálido, é causa de todos os cálidos, como no mesmo lugar se diz. Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe, e chama-se Deus.

A quinta procede do governo das coisas — Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou freqüentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é ótimo; donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a seta, pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente, pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Como diz Agostinho, Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse onipotente e bom para, mesmo do mal, tirar o bem. Logo, pertence à infinita bondade de Deus permitir o mal para deste fazer jorrar o bem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A natureza, operando para um fim determinado, sob a direção de um agente superior, é necessário que as coisas feitas por ela ainda se reduzam a Deus, como à causa primeira. E, semelhantemente, as coisas propositadamente feitas devem-se reduzir a alguma causa mais alta, que não a razão e a vontade humanas, mutáveis e defectíveis; é, logo, necessário que todas as coisas móveis e suscetíveis de defeito se reduzam a algum primeiro princípio imóvel e por si necessário, como se demonstrou.
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Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Apareceu

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

Gregório de Matos Guerra



Outro trecho da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, é o trecho que motivou Gregório de Matos a escrever o soneto acima:

Art. 7 — Se Deus é absolutamente simples.

O sétimo discute-se assim. — Parece que Deus não é absolutamente simples.

1. — Pois, como o que provém de Deus o imita, do ser primeiro procedem todos os outros e, do bem primeiro, todos os bens. Ora, dos seres provenientes de Deus nenhum é absolutamente simples. Logo, também não o é Deus.

2. Demais. — Tudo o que há de melhor deve ser atribuído a Deus. Ora, para nós, o composto é melhor que o simples; assim, os corpos mistos são melhores que os elementos e estes, que as suas partes. Logo, não devemos dizer que Deus é absolutamente simples.

Mas, em contrário, como diz Agostinho, Deus é verdadeira e sumamente simples.

SOLUÇÃO. — De muitos modos podemos provar que Deus é absolutamente simples. Primeiro, pelo que já dissemos. Pois, não havendo em Deus composição de partes quantitativas, por não ser corpo, nem de forma e matéria; nem havendo nele, diferença entre a natureza e o suposto; nem composição de gêneros e diferenças; nem de sujeito e acidentes, é claro que Deus de nenhum modo é composto, mas absolutamente simples. Segundo, porque todo composto é posterior aos seus componentes, dos quais depende. Ora, Deus é o ser primeiro, como já demonstramos. Terceiro, porque todo composto terá causa; pois, coisas entre si diversas não se reduzem à unidade, senão por um princípio que as unifique. Ora, Deus não tem causa, como já demonstramos, por ser a causa eficiente primeira. Quarto, em todo composto deve haver potência e ato, que não existem em Deus; pois das partes, uma haveria de ser ato da outra, ou, pelo menos, todas seriam como que potências em relação ao todo. Quinto, porque nenhum composto se identifica com qualquer das suas partes, como manifestamente se dá num todo de partes dessemelhantes. Assim, nenhuma das suas partes é o homem, como não é o pé nenhuma das partes deste. Quanto a um todo de partes dessemelhantes, embora algumas atribuições do todo também o sejam das partes — p. ex., qualquer parte do ar ou da água é ar ou água — contudo há atribuições do todo que não convêm às partes — p. ex., por ter uma quantidade de água dois côvados, não há de tê-los também cada uma das suas partes. Logo, todo composto tem alguma coisa que dele difere. E embora se possa dizer que também no ser que tem forma há algo que dele difere, p. ex., no branco há algo que lhe não pertence à essência — contudo nada há na forma mesma que lhe seja alheio. Por onde, sendo Deus a forma pura, ou antes o ser em si mesmo, de nenhum modo pode ser composto. E a esta razão alude Hilário quando diz: Deus, sendo o poder, não tem fraquezas; nem sendo luz, consta de trevas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Os seres provenientes de Deus o imitam, como os seres causados imitam a causa primeira. Pois, da natureza do causado é, de certo modo, ser composto, porque o seu ser é, pelo menos, diverso da sua quididade, como a seguir se verá.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Para nós, os seres compostos são melhores que os simples, porque a perfeição da bondade da criatura não se encontra no simples, mas no múltiplo. Ao contrário, a perfeição da divina bondade está na simplicidade, como a seguir se verá.
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terça-feira, 26 de maio de 2015

pregão do alho


PREGÃO DO ALHO

alho, alho!
quem quer alho? quer alho?
quem quer alho? alho?
quem quer alho? quer alho?

prepara
o alho
naquela frigideira
de teflon zoeira.
mistura com pimenta
que esquenta, incrementa.
e o óleo é a pura ardência
fervendo, aquecendo
a nossa impaciência!
quer alho?
quer alho?

e, agora,
clemência!
sentindo a iminência,
parei na intermitência,
pirei na desse alho.
quer alho?



Nhandeara, 26 de maio de 2015
Marcos Satoru Kawanami




obs: "teflon zoeira" é aquele teflon em que tudo gruda, e há que se usar óleo do mesmo jeito.

sábado, 2 de maio de 2015

Poema Novo


POEMA NOVO

Prometo te escrever poema novo
contando as novidades, bossa nova...
aqui do meu país da bosta nova,
que está cagando paus para o seu povo.

Se eu fosse uma galinha, eu dava um ovo
por nosso ledo amor a toda prova;
dispondo só de dois, é uma ova
que dou a ti, galinha, e me comovo...

Assim, vai esperando sentadinha
no teu poleiro novo a beira-mar:
repete aquela mesma ladainha...

Mas nem por um caralho vou te dar
poema novo, posto que galinha,
tentando ler, só vai cacarejar!



Nhandeara, 2 de maiô em 2015, ai que frio!
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Aleijadinho - filme



CAPÍTULO VII
(DA SERVIDÃO HUMANA)

        Sobre a linha do trem, a solitária esperança do partir e as —mais numerosas—  objetividades da  pedra,  do pau e do aço.  Sobre a linha do trem,  o caminhar do engenho pelos  tempos,  a segurança  de  civilidade,  um rumo  a entreter  a existência,  a possibilidade  do  suicídio...  Ele  toca  a  flautinha de bambu andando na carreira do trem. Cabelo pixaim caído de lado, ainda possuía  a centelha que,  com a idade,  das pupilas vai sumindo.  Queria ser artista! artista! e militar por algo que entendesse justo! e isso!  e aquilo!  e fazer aquilo outro...  que acabou nem  fazendo o mínimo  para seu próprio bem-estar.
        Havendo sido ele cagado —é da mitologia brasileira crer que pessoas muito feias não são nascidas, porém cagadas; certamente por isso o povo do sul  prefira dizer obrar em vez de cagar ou defecar. Então, por caridoso  eufemismo,  havendo  ele  sido obrado no Planalto Central, quis ser artista, desceu às Gerais,  e se  acabou num entorpecente anonimato a esculpir pedra-sabão em Ouro Preto, a antiga e decadente capital. Arranjava-se com menos do que mendiga a subsistência,  às vezes  até envergava  o  dólmã  encurvado da indigência, e se o mal cheiro e a compleição física lhe sentenciassem a condição  de  desvalido,  a cabeça  mantinha-se dura e a altivez era a altivez  surreal dos idealistas.  Ingênuos idealistas, são bons na proporção direta em que tentam ir além do  que  exige  o trato social, e na medida  inversa  da  ojeriza que   inspiram por  suas  ações insociáveis.  Mas envelhecido, despojado de idealismo, restou o humano orgulho e vaidade, ainda que a arrogância já era banida pelo mesmo malho que  ensina  as vantagens do ferro doce sobre a rigidez do aço.  Idem, jamais veio a tentar-lhe a malícia, que é navalha para cortar os outros, mas entre os demais não distingue a carne de quem a manipula.
        Assim, intrometendo-se nas repúblicas estudantis e freqüentando as rodas da boêmia, rejeitava enturmar-se com a "ralé da feira de artesanato" --nem por isso deixou de ser mais miserável que o mais miserável  deles.  Julgava-se discípulo de uma arte  superior,  preferindo  vender suas obras apenas para amigos. E haja mecenas que o sustentassem!
        Breve foi vetado, pela desconfiança ancestral dos que crêem ter  muito a perder, na quase totalidade das repúblicas, inclusive  na dita  em  que  duma feita teve a certeza de amizades sinceras,  e na cuja que deve  aos  seus  préstimos artísticos a tabuleta de entrada mais vistosa da cidade.  Naquela noite clara de lua cheia, ele passava em frente à tabuleta:
        —Vocês envernizaram ela? —pergunta com a voz trêmula de costume.
        —Não. —responde secamente o republicano.
        —É que  de repente vi um certo brilho, assim... —persiste, com ademanes, suplicando diálogo. —Sabe quem fez esta placa? Fui eu.
        Era de se esperar que fosse convidado para beber algo,  como mandava o costume. Mas...
        —Parabéns!  —exclama o estudante em tom de burla, ante ao maltrapilho.
        As experiências de  vida são as mais custosas; a cada geração têm de ser ratificadas,  e são pagas com a própria carne. E aquele que tendo vivenciado  equivalente  humilhação,  foi  tratar  seu reumatismo crônico numa aldeia campesina ao norte da  Sibéria e absteve-se  de alguma  vez  amaldiçoar o dia em que nasceu, aquele nunca existiu.

(Trecho do livro Enredo do Mundo. Esta passagem foi escrita por mim em 1995, quando presenciei meu amigo Ismael Marcelino sofrer tal humilhação. Eu estava à janela do sobrado da esquina entre a Rua dos Paulistas e a Rua Camilo de Brito, no qual funcionava a pensão de Dona Arlete, em Ouro Preto. Percebendo a hostilidade com que ele fora tratado, saí da janela para que ele não me visse, e sua tristeza não fosse ainda maior devido à presença de uma testemunha.)



J'AI FAIM!

Quando eu era estudante secundário (ensino médio, rapeize) na grande capital paulista, eu tinha a ingenuidade de não saber nada e pensar que sabia tudo, ou quase tudo.
Eu sabia que, sabendo ler e sabendo as quatro operações matemáticas, eu poderia aprender qualquer coisa por conta própria, sendo auto-didata: então o essencial eu já sabia. Ah, e sabia também que Isaac Newton criara o Céu e a Terra.
Eu cabulava aula no Sebo do Messias, uma enorme loja de livros usados do centro velho paulistano. Apesar de os livros serem muito baratos, só às vezes eu comprava algum; via de regra, eu ficava a manhã inteira lendo lá mesmo até dar a hora de volver a casa, onde minha avó esperava o estudante exemplar que acordava às 5:30h da alvorada, e ia a pé da Rua Frei Rolim, na Saúde, até a Estação Santa Cruz em Vila Mariana, todos os dias sem falta. Eu respeitava a velha. Quando meu pai foi aprovado na 4ªsérie, minha avó lhe fez um exame com toda a matéria do ano, no qual ele não passou; aí, ela matriculou o coitado de novo na 4ªsérie; foi escutando essa história que eu tive a primeira noção do conceito de: FODER-SE.
Não sei como é hoje, mas, naquela década de 90, os professores apenas regorgitavam o que estava nos livros didáticos; já disse que sabia ler, então, lia em casa, e ia ao sebo ler outras coisas: ora, eu só tinha 16 anos e queria saber como era o Mundo antes de ter a idade suficiente para tal propósito.
Um dos livros que manusiei intitulava-se "J'ai faim!" - "Eu tenho fome!" - não tive vontade de ler, comia bem em casa de vovó, mas isso nunca mais me saiu da cabeça.
Em 1994, ingressei no curso de Astronomia da UFRJ, e logo em seguida parti para Ouro Preto, a fim de estudar Engenharia de Minas, por sugestão de minha sábia irmã.
Passei 45 dias numa república federal da UFOP comendo somente pão-com-manteiga e café puro, até conseguir emprego nos refeitórios da universidade, onde o salário era a refeição.
Em geral, a fauna republicana gastava o dinheiro que seus responsáveis lhes mandavam com coisas fúteis e pouco estudo.
Freqüentava a república um escultor de nome Frank: mulato de olho azul e magérrimo, cheirava mal por falta de banho. Logo descobri que seu nome verdadeiro era Ismael Marcelino, natural de Anápolis, uma cidade de Goiás, e que tinha olhos azuis porque sua mãe também os tinha, sendo alvíssima, enquanto seu pai era um afro-descendente do tipo creoullo tição. Chamavam-no de Frank porque o achavam deveras feio.
Desde que soube seu verdadeiro nome, eu só chamava-o por Ismael, e ele sempre queria conversar comigo porque eu tenho a pachorra de ouvir as pessoas - que nem puta de cabaré -, ao passo que os republicanos já tinham começado a menosprezar o Ismael depois que se cansaram de sua figura cadavérica.
Até que, numa noite, eu fiquei trancado para fora da república, e ninguém quis abrir a porta. Ismael estava comigo, e me ofereceu abrigo na sua casa. Chegando lá, não havia móveis na casa, só um sofá, um fogão e um guarda-comida, em que encontramos um pouco de farinha de mandioca e um único ovo. Como nós não tínhamos jantado, ele fez o ovo mexido com a farinha e colocou em dois pratos rasos, pouquíssima comida. Para minha surpresa, Ismael ainda me deu o prato com mais comida.
Passados alguns meses, eu voltava da aula quando encontrei o Ismael sentadinho todo encolhido na soleira duma farmácia. Nós conversamos amenidades, disse-me que estava tomando um pouco de sol...
Só hoje eu percebo. Careceram se passar 15 anos de ingenuidade para eu perceber: Ismael estava doente, na porta da farmácia em postura mendicante, mas sua hombridade lhe embargava a voz para dizer: "Amigo, me ajude com a conta do remédio?" ou talvez "J'ai faim!".

Nhandeara, 10 de março de 2010
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 21 de abril de 2015

Guilherme de Almeida, livro Messidor, parte Nós, soneto IX

Guilherme de Almeida entrevistado
por Maria Tereza Cavalheiro.

IX

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo o mundo pensará que eu canto.

Guilherme de Almeida


terça-feira, 7 de abril de 2015

a infinita dor por nada

O ser humano pode, pela força do intelecto,
superar a condição primitiva apresentada
por Arthur Schopenhauer nesta obra.

A INFINITA DOR POR NADA

Mas como explicarei a ter deixado?,
se nunca mais encontro a minha amada,
tão cedo deste mundo desterrada,
por quem, vivendo aqui, sou desterrado.

Fui réu, e meu juiz era togado
na lei mais de viés enviesada
da pena da infinita dor por nada,
a lei de alguém querer ser condenado.

Eu era bem menino, feito Dante
naquele seu amor por Beatrice,
volvi à minha pátria, tão distante...

Foi súbita a partida, e nada disse
a ela, na prisão de ser infante;
depois..., ela partiu, sem que eu a visse.



Nhandeara, 7 de abril de 2015
Marcos Satoru Kawanami




OBSERVAÇÃO: Neste soneto, imaginei um eu-lírico adepto de Arthur Schopenhauer, que afirmava que "O amor é ilusão a favor da espécie.". Eu, pessoalmente, acho que a afirmação de Schopenhauer é correta em um primeiro momento, mas a razão pode superá-la a fim de um amor mais elevado e mais completamente humano.

domingo, 5 de abril de 2015

A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.


1 No princípio existia o Verbo;
o Verbo estava em Deus;
e o Verbo era Deus.
2 No princípio Ele estava em Deus.
3 Por Ele é que tudo começou a existir;
e sem Ele nada veio à existência.
4 Nele é que estava a Vida
de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.
5 A Luz brilhou nas trevas,
mas as trevas não a receberam.
6 Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8 Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
9 O Verbo era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
10 Ele estava no mundo
e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
11 Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
12 Mas, a quantos o receberam,
aos que nele creem,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
13 Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.


(Evangelho segundo São João 1, 1-13)

sexta-feira, 6 de março de 2015

PAPEL HIGIÊNICO



PAPEL HIGIÊNICO

Invenção mais mimosa é o papel
higiênico, que limpa nossa peida
devido àquela justa e linda lei da
bosta, que é do juiz e que é do réu.

Seu inventor merece é um troféu,
um arco do triunfo pela Eneida
de engenho e arte que nos deixa a peida
garbosa, altiva, feito a Torre Eiffel.

E aquele que jamais cagou dispense
o papel, a descarga, a porta, o vaso
sanitário, e, depois, morra enfezado.

Mas, lendo este poema agora, pense
em que papel, achado por acaso,
foi ele escrito, e em peido sublimado.


Nhandeara, 6 de março de 2015
Marcos Satoru Kawanami





"O sabugo tem três qualidades: limpa, coça, e penteia."
(O Analista de Bagé)

"Pacu, baiacu, curimbatá, tucunaré, pirarucu; ô gente pra gostar de peixe!"
(Matheus Ceará)

UEFA COROTE LEAGUE - fábula do futebol

Um dos comentários: "Durante o período em que Júlio Cocielo & Amigos estiveram em quadra, Osasco teve redução de 100% nas taxas de criminalidade e nunca esteve tão segura pra se andar pelas ruas.".


FÁBULA DO FUTEBOL

A bola vai rolar em campo aberto
sem linhas demarcando esta partida
de futebol sem árbitro e torcida,
mas eu, só de bobeira, estou por perto.

E vejo que rolou a bola, certo
da alegre apoteose sem medida
que o gol ensejará em minha vida,
mantendo a vista atenta, fico esperto.

Jogadas de espetáculo circense
empolgam-me no início, estou contente,
com ânimo de time que só vence.

Depois, eu torço feito um penitente,
mas que jogada heroica há que compense
um campo de traçado e gols ausentes?



Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 5 de março de 2015

Irmã Dulce - soneto: caravana



CARAVANA

Eu sei que não saber não dá ciência,
a mim, do que não sei, sabendo ou não,
de tudo que, com lógica e razão,
conheço e sei que sei, por evidência.

Conduz-me tosca mão, rapaz prudência,
contudo, se é o saber a devoção
à qual, estulto, entrego o coração
no torpe turbilhão das aparências...

Pondero que não há que mais saber,
nem houve nunca, desde aquele pomo,
que vem se deglutindo sem querer.

A bem desses milênios, quê hoje somos
além de caravana a percorrer
o espaço numa busca do que fomos?



Marcos Satoru Kawanami