terça-feira, 21 de abril de 2015

Guilherme de Almeida, livro Messidor, parte Nós, soneto IX

Guilherme de Almeida entrevistado
por Maria Tereza Cavalheiro.

IX

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo o mundo pensará que eu canto.

Guilherme de Almeida


terça-feira, 7 de abril de 2015

a infinita dor por nada

O ser humano pode, pela força do intelecto,
superar a condição primitiva apresentada
por Arthur Schopenhauer nesta obra.

A INFINITA DOR POR NADA

Mas como explicarei a ter deixado?,
se nunca mais encontro a minha amada,
tão cedo deste mundo desterrada,
por quem, vivendo aqui, sou desterrado.

Fui réu, e meu juiz era togado
na lei mais de viés enviesada
da pena da infinita dor por nada,
a lei de alguém querer ser condenado.

Eu era bem menino, feito Dante
naquele seu amor por Beatrice,
volvi à minha pátria, tão distante...

Foi súbita a partida, e nada disse
a ela, na prisão de ser infante;
depois..., ela partiu, sem que eu a visse.



Nhandeara, 7 de abril de 2015
Marcos Satoru Kawanami




OBSERVAÇÃO: Neste soneto, imaginei um eu-lírico adepto de Arthur Schopenhauer, que afirmava que "O amor é ilusão a favor da espécie.". Eu, pessoalmente, acho que a afirmação de Schopenhauer é correta em um primeiro momento, mas a razão pode superá-la a fim de um amor mais elevado e mais completamente humano.

domingo, 5 de abril de 2015

A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.


1 No princípio existia o Verbo;
o Verbo estava em Deus;
e o Verbo era Deus.
2 No princípio Ele estava em Deus.
3 Por Ele é que tudo começou a existir;
e sem Ele nada veio à existência.
4 Nele é que estava a Vida
de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.
5 A Luz brilhou nas trevas,
mas as trevas não a receberam.
6 Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8 Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
9 O Verbo era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
10 Ele estava no mundo
e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
11 Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
12 Mas, a quantos o receberam,
aos que nele creem,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
13 Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.


(Evangelho segundo São João 1, 1-13)

sexta-feira, 6 de março de 2015

PAPEL HIGIÊNICO



PAPEL HIGIÊNICO

Invenção mais mimosa é o papel
higiênico, que limpa nossa peida
devido àquela justa e linda lei da
bosta, que é do juiz e que é do réu.

Seu inventor merece é um troféu,
um arco do triunfo pela Eneida
de engenho e arte que nos deixa a peida
garbosa, altiva, feito a Torre Eiffel.

E aquele que jamais cagou dispense
o papel, a descarga, a porta, o vaso
sanitário, e, depois, morra enfezado.

Mas, lendo este poema agora, pense
em que papel, achado por acaso,
foi ele escrito, e em peido sublimado.


Nhandeara, 6 de março de 2015
Marcos Satoru Kawanami





"O sabugo tem três qualidades: limpa, coça, e penteia."
(O Analista de Bagé)

"Pacu, baiacu, curimbatá, tucunaré, pirarucu; ô gente pra gostar de peixe!"
(Matheus Ceará)

UEFA COROTE LEAGUE - fábula do futebol

Um dos comentários: "Durante o período em que Júlio Cocielo & Amigos estiveram em quadra, Osasco teve redução de 100% nas taxas de criminalidade e nunca esteve tão segura pra se andar pelas ruas.".


FÁBULA DO FUTEBOL

A bola vai rolar em campo aberto
sem linhas demarcando esta partida
de futebol sem árbitro e torcida,
mas eu, só de bobeira, estou por perto.

E vejo que rolou a bola, certo
da alegre apoteose sem medida
que o gol ensejará em minha vida,
mantendo a vista atenta, fico esperto.

Jogadas de espetáculo circense
empolgam-me no início, estou contente,
com ânimo de time que só vence.

Depois, eu torço feito um penitente,
mas que jogada heroica há que compense
um campo de traçado e gols ausentes?



Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 5 de março de 2015

Irmã Dulce - soneto: caravana



CARAVANA

Eu sei que não saber não dá ciência,
a mim, do que não sei, sabendo ou não,
de tudo que, com lógica e razão,
conheço e sei que sei, por evidência.

Conduz-me tosca mão, rapaz prudência,
contudo, se é o saber a devoção
à qual, estulto, entrego o coração
no torpe turbilhão das aparências...

Pondero que não há que mais saber,
nem houve nunca, desde aquele pomo,
que vem se deglutindo sem querer.

A bem desses milênios, quê hoje somos
além de caravana a percorrer
o espaço numa busca do que fomos?



Marcos Satoru Kawanami

domingo, 1 de março de 2015

a lenda do peru - o peru da festa: Costinha


A LENDA DO PERU
ao Milton Coelho da Graça, que me enviou a lenda em prosa por e-mail há alguns anos

Contemplativo acerca da beleza
que lhe era própria, um dia, o Pavão
pensou: “Por que não alço os pés do chão,
e conquisto a cerúlea realeza?”.

Por ser ele incapaz de tal proeza,
lastimou do Destino a ingratidão
que ao Urubu, mais feio que um Dragão,
permitia voar por natureza.

Eis que então, num lampejo inteligente,
propôs ao Urubu, que voava à toa,
unir em matrimônio conveniente

seus filhos. Foi assim que da Pavoa
veio ao mundo o Peru, hibridamente;
que é feio pra dedéu… e ainda não voa!

Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

filme: Costinha, o libertino - soneto: falatório


FALATÓRIO

Falam que o que falo é pornografia,
pois falo falo falo falo falo,
e, em síntese, o que falo vai pro ralo,
parece até que sou mitologia...

Mas, se falo o que falo, quem diria
fi-lo, em meu lugar, não diria, e fá-lo
pois falo falo falo falo falo,
mas nunca fi-lo além da portaria!

Não disse putaria, que é abuso
de puto sem noção que sabe picas
das normas de boceta e seu bom uso.

Contudo, se ao caralho tu me indicas,
segura furibunda o meu obtuso
soneto, que é de bunda mais pudica!



Nhandeara, 25 de fevereiro de 2015
Marcos Satoru Kawanami




"Lavar latrinas por gosto é lazer; assistir a sessões de pornografia por obrigação é trabalho." (Glauco Mattoso)


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

20 anos de falecimento de Costinha - filme: Entrei de gaiato

https://www.youtube.com/watch?v=m5AO6EjqJhs
Costinha no filme Entrei de gaiato
LINK


Neste ano de 2015, lembramos os 20 anos de falecimento de Costinha (*25 de março de 1923 +15 de setembro de 1995).

Acabo de assistir agora a um dos filmes em que ele atua, o filme Entrei de gaiato, no qual ele interpreta um carregador de hotel.

O filme é interessante pela estória em si, mas também por seu elenco:

Zé Trindade
Francisco Anísio, o Chico Anysio, como ator e sendo também um dos redatores
Manuel de Nóbrega
Dercy Gonçalves, aos 52 anos mas com rosto de moleca
Moacyr Franco, cantando Me dá um dinheiro aí
Sylvio Caldas, cantando também
Elizeth Cardoso, cantando também
Grande Othelo
Procópio Filho
Dircinha Batista, cantando
Bando da Lua
e, entre vários artistas da época, Lírio Mário da Costa, o Costinha.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Matéria de Deus

Conheça antes de negar.

MATÉRIA DE DEUS

        O automóvel é criação humana. O automóvel não poderia criar-se a si mesmo a partir de sua não existência. O pensamento humano é detectado no automóvel, e o pensamento não é uma substância. A carne humana não está no automóvel, mas pode entrar no automóvel quando quer.
        O papel é criação humana. O papel não poderia criar-se a si mesmo a partir de sua não existência. O pensamento humano é detectado no papel, e o pensamento não é uma substância. A carne humana não está no papel, mas a escrita humana registra o que vem do humano no papel.
        O Universo é criação de Deus. O Universo não poderia criar-se a si mesmo a partir de sua não existência. O pensamento divino é detectado no Universo, e o pensamento não é uma substância. A matéria de Deus não está no Universo, mas pode entrar no Universo quando quer. E a consciência humana registra o que vem de Deus no Universo.

Nhandeara, 15 de janeiro de 2015
Marcos Satoru Kawanami