quarta-feira, 26 de novembro de 2014

luzes da ribalta - poesia ultrarromântica - Charles Chaplin - Limelight

LUZES DA RIBALTA

O amor só pode ser se for oculto,
senão é ter, quem ama, aquele zelo
de o ente amado, após reconhecê-lo,
corresponder-lhe o culto com seu culto.

A carne poderá causar tumulto,
querendo ter razão e convencê-lo
do facto que a razão produz cabelo
no amor que, cabeludo, sobe em vulto.

Assim, o amor divino estranhamente
conduz-nos desde a pia batismal,
e, entanto, não parece estar presente.

Pois quer o amor divino um ideal,
sentir na intensidade equivalente
a mais completa peça teatral.



Nhandeara, 26 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

movimento fragmentado e universos paralelos


MOVIMENTO FRAGMENTADO E UNIVERSOS PARALELOS

O tempo, uma abstração, está na moda
ser tido como intrínseco à matéria,
e o ledo engano vira coisa séria
na tosca prática que o mundo roda.

O tempo não existe, o que se açoda
é massa contra massa na pilhéria
da massa estar mais chã ou mais etérea
na relatividade que as engoda.

Mas, bem dentro de um átomo qualquer,
espia tu que podes mais do que eu
que só faço espiar mesmo é mulher.

A coisa sempre assim se sucedeu,
em vibrações como um relógio quer,
havendo paralelos a esse teu.



Nhandeara, 19 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami




P.S.: Segundo o trabalho que fiz, intitulado "O movimento", que está neste blogue, o movimento de qualquer coisa não é fluido, mas dá-se como uma engrenagem de relógio, em intervalos mínimos de espaço e de tempo em que a matéria se transforma em energia pura até tornar a ser massa estática e transformar-se novamente em energia em movimento. Disso, pode ocorrer que, conforme a vibração dessa engrenagem na qual estejamos, habitamos um Universo, coabitado por universos paralelos em outras frequências. Ou seja, dois corpos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.


quaresma


QUARESMA

Cortei os pulsos, não queria a morte,
queria só saber como é que era
a morte, sem morrer, numa atmosfera
à parte até cicatrizar-se o corte.

Assim aconteceu, pois tenho sorte;
caí de supetão numa cratera,
matei, por ser cristão, a Besta fera,
e, agora, só em Cristo tenho um norte.

Escrevi, não queria ser poeta,
queria só saber se dava certo,
já que Camões também fora um atleta.

Atleta eu era, amava o campo aberto,
e vocação não tinha para esteta,
mas flores plantou Cristo em meu deserto.



Nhandeara, 19 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami



Note Bem: Nunca cortei os pulsos. Quase tudo o que escrevo é ficção, mas na blogosfera cabe esse tipo de explicação, porque é um ambiente em que se costuma ser autobiográfico.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

o pica das galáxias - gíria de humor que merece registro - petrobras: operação lava jato da polícia federal

Frase do ator Milhem Cortaz no filme Tropa de Elite.

O PICA DAS GALÁXIAS - gíria de humor que merece registro

No plano de poder, traçam rosáceas
bandidos do PT, estranhamente
devotos de um ateu que, impunemente,
está se achando O Pica Das Galáxias!

O Lula, mais vermelho que uma hemácia,
rubor é que não tem, nem ama a gente
de quem se gaba ser proveniente,
mas álcool, gosta até do da farmácia...

Seu filho está mais rico que o califa
Maluf, seu companheiro proletário(?)
— na cara é que nos dão mais essa bifa!

E, enquanto o povo se faz sócio otário,
a Petrobrás é prenda numa rifa,
e o voto compra-se de modo vário.



Nhandeara, 14 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami



Pablo Picasso
O Pica Das Galáxias



“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”
(Ruy Barbosa)


PORTANTO - para Ruy Barbosa

De tanto ver vencer a nulidade
sobre o real esforço e competência;
de tanto vicejar a pestilência
num estéril jardim de humanidade;

quando mais nada vale a probidade,
e a malícia suplanta a inocência;
de tanto padecer a dura ausência
da crença no poder da honestidade;

verificando, já sem esperança,
que a única certeza é a morte rude,
e que zombam da sua confiança;

de tanto ver a ignóbil atitude,
louvada, prosperar com abastança:
o homem vai se afastando da virtude.

Marcos Satoru Kawanami


Essa aí está se achando Pica das Galáxias.

PARA QUEM?

Se cresce a Economia, o vulgo pensa
que tem mais moradia e mais emprego,
que pode ter mais filhos com sossego,
tendo escola e saúde em recompensa.

Mas vive o povo sempre numa prensa,
e a cada geração parece cego,
barganha o voto em troca dum emprego
que gera mais emprego, voto e a crença

dum econômico crescer do bem,
na constante esperança dum porvir
com mais casa, saúde, escola..., amém.

Contudo, não se diz que é regredir
a Vida do planeta que se tem,
crescendo a Economia, e para quem?

Marcos Satoru Kawanami



Acha que é Pica das Galáxias...

PARAR A DESMONTAGEM

Um oco terapêutico é aberto
no glóbulo ocular pernicioso
em ver no mundo só o que é formoso
igual às tais miragens de deserto.

E, sob a nova óptica desperto,
perambula um sujeito desairoso
por ver o humano afã, que desastroso
milagre torto opera, achando certo.

Desmonta-se o planeta lindamente
criado tão perfeito que bastava
contemplá-lo ao usarmos nossa mente.

Se o oco nos seus olhos não cegava
aquele que assim viu mui cegamente,
um oco bem maior cá nos agrava.

Marcos Satoru Kawanami



"Mas eu é que sou a Pica das Galáxias!"

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

bolhas de sabão

Os astronautas do passado.

BOLHAS DE SABÃO

Muito legal tem sido a faina antiga
de fazer bolhas de sabão no Paço
Imperial com cetros que do espaço
extraterrestre trouxe a rapariga

lisboeta, escondidos na barriga(?),
quando a Escola de Sagres fez um traço
intergalático, e deu um abraço
no índio espacial que, gente amiga,

indicou o caminho do Brasil,
nação de onde eu escrevo agora, alheio
àquele peito ilustre e varonil

da rapariga lisboeta, esteio
do que de melhor o homem produziu:
as bolhas de sabão e seu recheio.




Nhandeara, 10 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

PURGANTE



PURGANTE

Cagar é nossa norma, cague bem
e sem vergonha, cague todo dia;
cagar é coisa mais do que sadia,
cague cá, cague lá, e cague além.

Cagada, quem já fez aprova, e tem
apreço na cagada à revelia;
se aquele que não caga a repudia,
está só no despeito seu desdém.

Contudo, a ser cagão não seja afeito,
nem queira ser seu cu intrometido
em demandar, em ir pro pau em pleito.

E creia que a cagada mor tem sido
o não cagar conforme é de direito,
e assim morrer de fezes entupido!



Nhandeara, 25 de setembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Spiral on the Sphere - Espiral na Esfera

Em graus, mas o gráfico fica melhor em radianos.



Uz = unidade do eixo Z
explicação para a folha 2




ESPIRAL

Como el clavel sobre su vara,
como el clavel, es el cohete:
es un clavel que se dispara.

Como el cohete el torbellino:
sube hasta el cielo y se desgrana,
canto de pájaro en un pino.

Como el clavel y como el viento
el caracol es un cohete:
petrificado movimiento.

Y la espiral en cada cosa
su vibración difunde en giros:
el movimiento no reposa.

Octavio Paz


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O IDIOTA - filme feito a partir da novela de Fiódor Dostoiévski

LINK

Soneto ao Idiota

Tudo de bom já foi escrito; e eu:
que poderei somar à arte escrita?,
pois, hoje em dia, quem escreve, imita
as ideias de alguém que já morreu.

Infeliz todo aquele que nasceu
na era Huxley, época maldita:
com pena não se escreve, se digita
o grito! que é da máquina, ou meu?

Não termino o soneto, e já se esgota
a lástima que eu tinha a esparramar,
e, quem lê, faz a vez de um idiota

que quer ver onde é que isto vai dar:
vai dar no céu, no mar, na flor que brota...
de todos os clichês da dor de amar.



Dumont, 1 de abril de 2005
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 9 de setembro de 2014

LÍRIOS DO CAMPO

LINK

"O melhor filme que já vi foi Casablanca."
(Chico Anysio)

Eu finalmente vi o filme Casablanca, e, apesar de preferir outros, achei-o bom.



LÍRIOS DO CAMPO

hebreia,
dei-te um lírio
por amor.
por amor,
deite um lírio
no chão frio do meu delírio:
campo gris,
quando eu não-for...

Marcos Satoru Kawanami



AS TIME GOES BY - canção do filme

You must remember this

A kiss is still a kiss
A sigh is just a sigh

The fundamental things apply
As time goes by
And when two lovers woo
They still say ,"I love you"
On that you can rely

No matter what the future brings

As time goes by
Moonlight and love songs
Never out of date
Hearts full of passion
Jealousy and hate
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by

Herman Hupfeld



AS TIME GOES BY...

The initial movement moves on
until today, in many
verbs and things; it’s only one
single Word all words and any;
like a row of dominos
striken by ones naughty toe.

But, unlike a foolish game,
has a purpose there above’s
naughty toe without a name,
that is struggle become love
in a row of many times
as time goes by through folks lives.

So, in beauty seek your trouble,
and delight yourself the double!


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 7 de setembro de 2014

Francisco Convenciona

Estação da Luz e Avenida Tiradentes em 1900.


SONETO NACIONAL

Nasceu lá no Ipiranga a pátria amada
de um povo bonachão e sempre plácido,
mas de brio resistente ao próprio ácido
gástrico a digerir a feijoada!

Fulguras, ó Brasil da caçoada,
qual um tendão-de-Aquiles cá da América;
porque, se primas na tragédia homérica,
tua comédia é a mais esculhambada!

Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
verás que um filho teu, se foge à luta,
o faz somente em nome da labuta;

e, ao fugir do batente até a morte,
canta mais alto seu canto guerreiro
na cadência a sambar, bem brasileiro...


Marcos Satoru Kawanami




Escrevi este conto com 16 anos de idade, foram 11 páginas manuscritas em 7 de setembro de 1992:


FRANCISCO CONVENCIONA
  
            Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, José, menino, encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
            Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos  pelas  escadas  rolantes da estação Tiradentes,  e já desciam  a  avenida  onde  dobrados  e  marchas  insinuavam anunciar a passagem de um grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. José quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades,  em destaque,  e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes  anos  de  idade,  respondeu Francisco com ares de presunçosa  superioridade  de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora  do  soldado  com o  reco-reco do passista, e os dourados do  almirante  de  fragata  com os da porta-bandeira e mestre-sala;  misturando pelotão de artilharia com  escola de samba,  e desfile da pátria com carnaval.   Pois  arquibancada  na rua,  só no  carnaval,  e cara. Sim, vamos assistir em pé.
            José pareceu não gostar muito  desse  negócio  de  não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas aguentou-se calado por  alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
            —Chato essa chuva, não é?   Olha,  pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar.   E  a  gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
            Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer—  imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este nosso incômodo.
            —Ora pois sim,—  José buscava argumentos  que  favorecessem seu lado (ir embora) e depreciassem a  importância  do desfile  —que sacrifícios?  que heróis? Você delira.   "Independência ou morte!"  e acabou-se.  A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
            —Disse pouco, mas disse bem, tudo na  santa  paz.   Assim  foi nossa independência,  o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda,  posto que maior proeza que  valer-se da  espada por um agravo qualquer  é guardá-la precavidamente na bainha,  e tê-la  segura  à  mão quando de uma emboscada.
            —Espada? bainha? emboscada? quiii...
            Pondo de lado sua vontade de ir embora, José começava a se preocupar com o raro comportamento do primo.  Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho  tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente  e quase  cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, José  ponderava  em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo.   Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre;   o  outro  respondeu  cantando:   "Amor febril...pelo Brasil".
            Não passaria isso  de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores?   Acometido por esta ideia, José franziu a testa e fez brincando:
            —Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
            Vendo ele que o primo  não  atentara  às  suas palavras,  proferidas em meio ao zumbido da multidão  e  ao  repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto  ainda  desconfiado.   Francisco não lhe pareceu estar agindo muito  conforme  o  ordinário  de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de  representação  ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
            Francisco  era outro.   Símbolos nacionais,  armas e generais,  motivos seus de indiferença,  ojeriza  e  mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
            —Ei, acorda Fran-cis-co!
            —Eu.
            —Que aconteceu contigo?   Donde  veio essa ideia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio  de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira.  Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado,  eu também, e a pátria nem aí conosco.   Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar fula da vida quando me  ver nesse estado de roupa no varal.   Está me escutando, sim?
            Francisco escutava muito bem.   Na  verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo.   Buscava  tão  somente  ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
            —Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
            —Correto  —replicou José ironicamente  —e por isso,  concordo, havemos de ficar na chuva.
            —Não, ali.
            Afastando-se da multidão,  encontraram  abrigo  sob um ponto de ônibus que se achava  deserto devido à interdição  da avenida aos veículos.   Da mesma  forma  como  esteve  até agora,  com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
            —A questão é simples: convencionar.
            —Eu —prosseguiu Francisco em tom  mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você.   Vejo a vida ser traçada  por  convenções,  e  dessas dependem nosso estado geral de ânimo,  idéias,  reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que  esteja  previamente convencionado,  e que seja respeitada integralmente a convenção.
            José, atordoado,  mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
            —O desequilíbrio não é  necessariamente  a loucura; são coisas distintas.   Fique claro:  o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente.   Prova é que,  depois  de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício.   De modo que nada  do que digo faz menção à loucura,  abordo a questão do desequilíbrio.
            Algo vinha, de forma crescente,  a preocupar-lhe  já há algum tempo; inicialmente uma intuição  desagradável.   Cada vez  mais  a vida  ia como que esvaindo-se das pessoas.   Os ponteiros  dos relógios,  os  carros nas ruas, a agitação usual da cidade,   e tudo  que provinha  desta  Humanidade,  parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir,  tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa!   Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização  prestes a parar.   Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido  das  coisas  humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
            —Chegava primeiro de setembro.  Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar  parando  perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estaria eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do  —foi então que me ocorreu— desequilíbrio? Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar  a  farsa?   Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese.   Porém, as  divagações  recusavam-se perniciosamente a seguir o traçado prescrito,  conduzindo-me  o  mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrem. Não raro, o encontrei.
            Francisco com ademanes fez uma pausa.  O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
            —Então você não era desequilibrado?   Mas  todo o mundo  também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
            —Priminho, vamos mais devagar.  O desequilíbrio  é  muito  comum e suas causas diversas.   A princípio,  um exemplo,  o que nos dá meu tio,  seu pai.
            —Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele  tenha ficado estranho,  meio triste,  fala menos...  mas para lá de ser louco!
            —Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que,  quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza a sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
            —Sim.
            —Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde,  hoje, vê aquele homem retroceder perante  a  revolta da natureza,  e vê seu  país vinte anos mais moderno e endividado?   Não  é ele  mesmo que  projetava ser  através de seu esforço reconhecido,  e que trabalhou  com  afinco  pra  que  dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
            —Estou entendendo...
            —Os antigos valores —concluía Francisco  —sobre  os quais  seu  pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado.  Veja, esses valores extintos nada mais  são  que  convenções quebradas.  Apesar de se apresentarem de formas distintas,  a causa  régia do  desequilíbrio  de  seu pai é a aflição  que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
            —Agora atropelei as idéias, confundi...
            —Você entenderá. Conhece Hurtado?
            —É,  por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
            —Ele mesmo,  o lendário  Hurtado  de Santa Cruz De La Sierra,  o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
            —Os malfeitores   —retrucou José absoluto  —são  desequilibrados.   O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
            —Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho.  Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência,  limpa;  ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções  dissolveram-se.  A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado,  refúgio  do desequilíbrio.   De maneira que o problema reside primeiro nas convenções,  segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
            —Quer dizer que todos estamos sujeitos?
            —Desde que  deixemos  de  crer  nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos  não têm mais resposta, seu peso faz pender  a  haste,  eis que se estabelece o desequilíbrio.   O resultado imediato  é  aparentado  pelo  profundo  desgosto,  desânimo,  tristeza; o que hodiernamente  recebeu na  terminologia psiquiátrica a designação de  depressão.
            —A amargura,  a tristeza  —deduzia José alumiado  —a tristeza  do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
            —Policarpo? —Francisco fez surpreso   —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma:  não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
            —Sim.
            —Bem,  as convenções dele nunca se quebraram.   O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria,  a  pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria.   No cárcere,  anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo,  que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver,  que  até  o  último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos  dezoito anos,  e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento  não  reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo  pau-de-fogo  viria a deferir-lhe  o projétil letal;  pois nos dias de prisão em Villegagnon,  era também  a  pátria carcereiro;   ele não via.
            Pode ser que as  convenções  de  Quaresma  tenham  sido firmadas no sonho,  mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir;  elas são as regras.  Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
            Meu caso  foi, na ocasião em  que  desacreditei da importância da civilização  existir  da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio  foi  completo.   Acredite,  é um estado entre afogante e afogado.
            Francisco calou esperando a reação do primo,  ao que este lhe perguntou admirado:
            —E você ainda está assim?
            —Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para  você e  convidá-lo  a  acompanhar-me no assistir o desfile das armas,  foi aí,  ideias  que  vinham  fermentando  em minha  mente quase  no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação:   Convencionei-me!  E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a  Humanidade  criou,  ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver,  ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida,  ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva),  momentos  de  prantina e consolo,  tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que  deixou por fazer,  é  não  ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos  sentimentos da coletividade,  sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele.
            Nesse instante a banda  executa a  Canção do Soldado.  Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
            Alguns aplaudiam,  outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que  começava  a se  dispersar,  Francisco,  endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:

           “Como é sublime
             saber amar;
             com a alma adorar
             a terra onde se nasce!
           Amor febril...”

            A manhã  estava por terminar.  O  nosso  raquítico  sol do meio-dia da independência, com toda deferência  reservada  ao dia,  despontava por entre as sombras  da  senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias,  pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico,  e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro.  Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso.  Os militares a ponto de chorar  de  emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga).  Os  demais,  cada  um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão  exemplar;  outros,  típicos  foliões  (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
            Os dois  meninos nossos conhecidos,  igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo  que  a  derradeira  fileira de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças,  sobrancelhas  cerradas,  o  sangue à cadência do bumbo,  áurea radiante.  Os sentidos  vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
            Tomados de benévola  ingenuidade,  brilhavam seus  bons olhos,  seus olhos sãos.


Marcos Satoru Kawanami