FRANCISCO CONVENCIONA
Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo
cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, José, menino,
encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo
Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência.
Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo
do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
Apesar de
ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era
feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas
condições subiam os dois primos
pelas escadas rolantes da estação Tiradentes, e já desciam
a avenida onde
dobrados e marchas
insinuavam anunciar a passagem de um grande circo. A certa distância,
uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. José quis saber das
arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades, em destaque,
e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes anos
de idade, respondeu Francisco com ares de
presunçosa superioridade de dezesseis, dizendo que o outro estava a
confundir a metralhadora do soldado
com o reco-reco do passista, e os
dourados do almirante de
fragata com os da porta-bandeira
e mestre-sala; misturando pelotão de
artilharia com escola de samba, e desfile da pátria com carnaval. Pois
arquibancada na rua, só no
carnaval, e cara. Sim, vamos
assistir em pé.
José pareceu não gostar muito desse
negócio de não haver onde acomodar as pequenas nádegas,
mas aguentou-se calado por alguns
minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava
ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as
mesmas intenções suas: ir embora!
—Chato essa chuva, não é? Olha,
pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai
continuar. E a
gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e
varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na
nobreza deste dia —começou a dizer—
imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e
verás quão insignificante é este nosso incômodo.
—Ora pois sim,—
José buscava argumentos que favorecessem seu lado (ir embora) e
depreciassem a importância do desfile
—que sacrifícios? que heróis?
Você delira. "Independência ou
morte!" e acabou-se. A colônia do pai virou império do filho; tudo
em família, tudo na santa paz.
—Disse pouco, mas disse bem, tudo na santa
paz. Assim foi nossa independência, o que não é vergonha alguma. Antes, é fato
que vem a distingui-la mais ainda, posto
que maior proeza que valer-se da espada por um agravo qualquer é guardá-la precavidamente na bainha, e tê-la
segura à mão quando de uma emboscada.
—Espada? bainha? emboscada? quiii...
Pondo de lado sua vontade de ir embora, José começava a
se preocupar com o raro comportamento do primo.
Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho tão ardoroso da pátria. Pelo contrário,
sempre se mostrava indiferente e
quase cético ante as paixões da
coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes.
Sobre essa disfunção de comportamento, José
ponderava em sua mente infantil
que Francisco só poderia estar ensandecendo.
Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com
febre; o outro
respondeu cantando: "Amor febril...pelo Brasil".
Não passaria isso
de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores? Acometido por esta ideia, José franziu a
testa e fez brincando:
—Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu
lado!
Vendo ele que o primo
não atentara às
suas palavras, proferidas em meio
ao zumbido da multidão e ao
repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém
um tanto ainda desconfiado.
Francisco não lhe pareceu estar agindo muito conforme
o ordinário de sua personalidade; também, por outro lado,
sinal nenhum de representação ou disfarce deixava-se transparecer sob seu
semblante.
Francisco era
outro. Símbolos nacionais, armas e generais, motivos seus de indiferença, ojeriza
e mofa de outrora, mais pareciam
nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
—Ei, acorda Fran-cis-co!
—Eu.
—Que aconteceu contigo?
Donde veio essa ideia de heróis
com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio de patriotismo é esse que menos deve ter
caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira. Olha, não tem graça nenhuma: você está todo
molhado, eu também, e a pátria nem aí
conosco. Sua mãe eu não sei, mas a
minha vai ficar fula da vida quando me
ver nesse estado de roupa no varal.
Está me escutando, sim?
Francisco escutava muito bem. Na
verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu
patriotismo. Buscava tão
somente ilustrar um assunto sobre
o qual discorreria ao término do desfile.
—Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
—Correto —replicou
José ironicamente —e por isso, concordo, havemos de ficar na chuva.
—Não, ali.
Afastando-se da multidão,
encontraram abrigo sob um ponto de ônibus que se achava deserto devido à interdição da avenida aos veículos. Da mesma
forma como esteve
até agora, com a fronte voltada
para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
—A questão é simples: convencionar.
—Eu —prosseguiu Francisco em tom mais grave e voltando-se para o outro —falo
do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas
acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a
você. Vejo a vida ser traçada por
convenções, e dessas dependem nosso estado geral de
ânimo, idéias, reações; são como bússolas internas a nortear
nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que esteja
previamente convencionado, e que
seja respeitada integralmente a convenção.
José, atordoado,
mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido
algum que viessem a ter. Francisco, falando.
—O desequilíbrio não é
necessariamente a loucura; são
coisas distintas. Fique claro: o louco, pela própria loucura, já chegou ao
equilíbrio. Porque o louco é coerente.
Prova é que, depois de conhecido, suas ações são previsíveis, ou
previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o
desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como
benefício. De modo que nada do que digo faz menção à loucura, abordo a questão do desequilíbrio.
Algo vinha, de forma crescente, a preocupar-lhe já há algum tempo; inicialmente uma
intuição desagradável. Cada vez
mais a vida ia como que esvaindo-se das pessoas. Os ponteiros
dos relógios, os carros nas ruas, a agitação usual da
cidade, e tudo que provinha
desta Humanidade, parecia mover-se por inércia, existir pelo
hábito de existir, tudo assim parecia
ficção, depois sonho, ao fim, farsa!
Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a
civilização prestes a parar. Sim, parar porque não encontrava motivo
concreto a explicar o sentido das coisas
humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
—Chegava primeiro de setembro. Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia
estar parando perante a indiferença agonizante com que tudo
se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando
Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estaria eu vendo a realidade pelos
enganosos prismas do —foi então que me
ocorreu— desequilíbrio? Ou desequilibrada era essa gente que vivia a
sustentar a farsa?
Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese. Porém, as
divagações recusavam-se
perniciosamente a seguir o traçado prescrito,
conduzindo-me o mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrem. Não raro, o
encontrei.
Francisco com ademanes fez uma pausa. O outro, que permanecia calado, aproveitou
para se pronunciar:
—Então você não era desequilibrado? Mas
todo o mundo também não poderia
ser. Quem ficaria sendo finalmente?
—Priminho, vamos mais devagar. O desequilíbrio é
muito comum e suas causas
diversas. A princípio, um exemplo,
o que nos dá meu tio, seu pai.
—Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns
anos para cá ele tenha ficado estranho, meio triste,
fala menos... mas para lá de ser
louco!
—Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa
causa. Não era seu pai que, quando moço,
imaginava o homem a dobrar por completo a natureza a sua vontade? que
acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento
e prestígio?
—Sim.
—Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde, hoje, vê aquele homem retroceder perante a
revolta da natureza, e vê
seu país vinte anos mais moderno e endividado? Não é ele
mesmo que projetava ser através de seu esforço reconhecido, e que trabalhou com
afinco pra que
dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e
ferro?
—Estou entendendo...
—Os antigos valores —concluía Francisco —sobre
os quais seu pai edificou a vida extinguiram-se, e ele
quedou desequilibrado. Veja, esses
valores extintos nada mais são que
convenções quebradas. Apesar de
se apresentarem de formas distintas, a
causa régia do desequilíbrio
de seu pai é a aflição que se instalou na mente dele por ocasião da
dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
—Agora atropelei as idéias, confundi...
—Você entenderá. Conhece Hurtado?
—É, por acaso,
aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi
preso quando se confessava na igreja!?
—Ele mesmo, o
lendário Hurtado de Santa Cruz De La Sierra, o demônio branco; que foi preso no
confessionário. Era desequilibrado.
—Os malfeitores
—retrucou José absoluto —são desequilibrados. O desequilíbrio leva à prática do insensato,
ao mal caminho.
—Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom
caminho. Ele era bandido e portava-se
como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo
ruim; sua vida, pecado; sua consciência,
limpa; ele, feliz. Naquele
momento da confissão, suas convenções
dissolveram-se. A fé, equilíbrio
de outros, foi, no caso de Hurtado,
refúgio do desequilíbrio. De maneira que o problema reside primeiro
nas convenções, segundo na quebra das
mesmas; e ainda depende da personalidade.
—Quer dizer que todos estamos sujeitos?
—Desde que
deixemos de crer
nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas.
Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os
motivos não têm mais resposta, seu peso
faz pender a haste,
eis que se estabelece o desequilíbrio.
O resultado imediato é aparentado
pelo profundo desgosto,
desânimo, tristeza; o que
hodiernamente recebeu na terminologia psiquiátrica a designação de depressão.
—A amargura, a
tristeza —deduzia José alumiado —a tristeza
do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
—Policarpo? —Francisco fez surpreso —Vejamos o sonhador major Policarpo
Quaresma: não, desequilibrado não,
triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
—Sim.
—Bem, as
convenções dele nunca se quebraram. O
seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a
pátria, a pátria seu maior afeto, e pela pátria
viveria. No cárcere, anos depois, uma lágrima despontava em sua
face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de
um pobre bastardo do mundo, que sempre
fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver, que até o
último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto
dos dezoito anos, e que uma vida depois diante do pelotão de
fuzilamento não reconheceria a pátria na farda verde-oliva do
soldado cujo pau-de-fogo viria a deferir-lhe o projétil letal; pois nos dias de prisão em Villegagnon, era também
a pátria carcereiro; ele não via.
Pode ser que as
convenções de Quaresma
tenham sido firmadas no
sonho, mas importante é não ter ele sido
desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias,
pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir; elas são as regras. Não há verdade única que indique as
convenções, absolutamente.
Meu caso foi, na
ocasião em que desacreditei da importância da
civilização existir da forma que existe, ter negado a todas as
convenções possíveis. O desequilíbrio
foi completo. Acredite,
é um estado entre afogante e afogado.
Francisco calou esperando a reação do primo, ao que este lhe perguntou admirado:
—E você ainda está assim?
—Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje
pela manhã, pouco antes de ligar para
você e convidá-lo a
acompanhar-me no assistir o desfile das armas, foi aí,
ideias que vinham
fermentando em minha mente quase
no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e
expandiram-se para o campo saudável da ação:
Convencionei-me! E para tal fazer
é de mister a humildade de adotar valores que a
Humanidade criou, ainda que careçam de razão plausível. E o que
resta é viver, ter aspirações,
decepções, pelejar pelas esquinas da vida,
ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva), momentos
de prantina e consolo, tristeza e alegria; é ter mais a
arrepender-se do que fez que do que
deixou por fazer, é não
ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos sentimentos da coletividade, sim; de seus anseios e lutas. É viver
também... —e a música sobressai-se à voz dele.
Nesse instante a banda
executa a Canção do Soldado. Ele corre para ver. Marcha o último destacamento
de infantaria.
Alguns aplaudiam,
outros cantavam, todos em manifestação.
Acercando-se da multidão que
começava a se dispersar,
Francisco, endireitando o corpo,
pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:
“Como é sublime
saber amar;
com a alma adorar
a terra onde se nasce!
Amor febril...”
A manhã estava por
terminar. O nosso
raquítico sol do meio-dia da
independência, com toda deferência
reservada ao dia, despontava por entre as sombras da
senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para
reclamar em outras freguesias, pois terça-feira,
por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura
agradabilíssima, um domingo fantástico,
e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de
setembro. Como de costume, o pessoal do
palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado
o maçante compromisso. Os militares a
ponto de chorar de emoção (embaixo da armadura de ferro: coração
de manteiga). Os demais,
cada um a sua maneira: muitos,
pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com
a máscara do cidadão exemplar; outros,
típicos foliões (finados, carnaval, tanto faz); a maioria
alegre sem saber por quê.
Os dois meninos
nossos conhecidos, igualmente, plenos de
contentamento seguiram atrás marchando logo
que a derradeira fileira de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças, sobrancelhas cerradas,
o sangue à cadência do
bumbo, áurea radiante. Os sentidos
vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
Tomados de benévola
ingenuidade, brilhavam seus bons olhos,
seus olhos sãos.
Marcos
Satoru Kawanami