quarta-feira, 23 de julho de 2014

Memorial do Convento - Comboio Noturno Para Lisboa

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note bem: No filme, discordo do discurso ateu que um dos personagens faz na capela.



MEMORIAL DO CONVENTO

Tenho tanto sentimento,
que, mesmo cagando ao vento,
peido em tom sentimental...
E, ao lado do meu assento,
as noviças do convento
acham que é o bestial
treinamento do arsenal.

Porém, Madre Dulce diz
que aquilo fui eu que fiz,
e começa o carnaval.
Bianca fica feliz,
dizendo que sempre quis
poder me meter o pau...

Sobressalto tenho eu,
pois aqui ninguém meteu,
e a Bianca angelical
que tantos flatos rendeu
ao castiço sonho meu
decretou-lhe a pá de cal.

Mas meu sentimento é tanto
por Bianca, que levanto
o meu gládio triunfal,
e eu que nunca serei santo
entro em baixo do seu manto
pra provar do bacalhau.

E só nesse tal momento
tenho tanto sentimento
que acho ser sentimental.
Mas o luso condimento
que é servido no convento
só senti em Portugal.


Depois, palitando dente,
ela, displicentemente,
diz que é muito natural
uma irmã boa e temente
derramar o que é semente
do carinho fraternal...


Nhandeara, 23 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

O Enigma de Kaspar Hauser (1974) - um filme de Werner Herzog - elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Willy Semmelrogge, Michael Kroecher, Hans Musaeus, Marcus Weller, Gloria Doer, Volker Prechtel, Herbert Achternbusch.

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POLTERGEIST
ao Dr. Osmar de Oliveira

Visões repetitivas noite afora
feito um replay em modo sistemático
fariam-me tossir, se eu fosse asmático,
mas suo de cagaço a toda hora...

Eu vi, o fim dos tempos não demora;
os saques no Recife são didáticos
mostrando como é ser ladrão simpático,
que é aquele que devolve e depois chora.

Fantasmas velozmente botam medo
num bando de zumbis que ali se acanha
no quadro pra onde agora aponto o dedo.

Visões que se repetem de tamanha
sequela contumaz daquele enredo
no qual tanto escutei: Gol da Alemanha...



Nhandeara, 22 de julho de 2014
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Book of Days (1988) - a film by Meredith Monk - cast: Meredith Monk, Karen Levitas, Toby Newman, Lanny Harrison, Wayne Hankin, Lucas Hoving, Robert Een, Donna M. Fields, Rob McBrien.

ALBERGUE

Eu vi, e, quando vi, eu vi bem cego;
não vendo, foi que eu vi melhor meu ser,
o cego que era cego por não crer
que quem se nega a ver é o pior cego.

Eu era magricelo feito um prego,
e tinha uma cabeça pra bater
martelo, que era dura, hoje ao meu ver
de quem enxerga bem que fora cego.

Enxergo, por exemplo, que ora enxergo,
ora não, e ora tudo é embaçado
no mundo em que não quebro, mas envergo.

Se tudo se apresenta embaralhado,
procuro a ordem, sob a qual me albergo,
e que me albergará, enfim, quebrado.



Nhandeara, 13 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 14 de julho de 2014

corrente

1994 - Eu na Parada dos Guimaraens
em Santa Teresa, é um lugar de pas-
sagem para o Largo das Neves, onde eu
costumava assistir à missa.

CORRENTE

Aplique-se em trabalho virtuoso,
na luz da primavera, o tosco Marcos
zanzando pela Lapa, aos pés dos arcos,
recebe por conselho de um idoso.

Cagou para o conselho valoroso,
beijou a vida de um viver anarco,
remou contra a maré, furado barco
achou de o recrutar, desventuroso.

De déu em déu esteve sem paragem,
a cada porto foi mais tosco sendo,
e o porto calendário na contagem.

Mas, no inverno, de frio estremecendo,
falou “busque a virtude” o néscio Marcos
vendo um rapaz aos pés dos mesmos arcos.



Nhandeara, 14 de julho de 2014
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 3 de julho de 2014

A COPA DO MUNDO É NOSSA


A COPA DO MUNDO É NOSSA

        Como diria Wilson Batista, eu não nasci ontem, meu mundo é hoje, e não existe amanhã pra mim. Nem dou ouvido a bravatas, porque não sei o que é bravata, e não sei mesmo. O que é bravata? Ninguém responde, acham e se agacham pensando que eu só faço pergunta retórica, mas não. Rabanete, por exemplo, rabanete é ou não é diminutivo de raba? Alguém tem uma raba para me mostrar?
        Por outro lado, analisando a outra banda da questão, como não diria Wilson Batista, eu eu eu, na Arena de Itaquera, só não vai quem já morreu! O passaporte corintiano mostrou seu valor, viva o bilhete único!!! Se a gente não podia ir à Copa, o Lula trouxe a Copa para nós! Custou mais caro, mas trouxe. Tem cupa ele? Ninguém responde. Richarlyson, tem cupa ele? Agora, quem nunca tem culpa é a Dilma, que, mesmo se cair de bunda do oitavo andar na cabeça do José Dirceu, não será acusada de morte. Será acusada de ouro!
        Acusada está sendo é a singela moça da foto acima, só porque expressou seu patriotismo arreganhado, de maneira explícita e sem pudor, pacificamente, e deixando bem clara suas intensões passivas. E se ela for uma cadeirante? Já pensaram nisso? Pois está sendo carregada nos ombros por um homem que também expressa seu amor à bunda, digo, à pátria, carregando a bundeira do Brasil nas costas. Cadê o direito também do cadeirante de mostrar a própria peida uma vez na vida? Mas o Brasil é um país pródigo em artistas, e bem pode ser que a singela moça da foto acima seja mais uma alma inspirada tentando desfazer as opiniões malvadas que acham que daqui só sai cocô.
         Uma é a certeza, alguém vai ser campeão. Das 32 seleções que entraram, classificaram-se 16, restaram 8, passarão 4, e sobrarão 2 que irão pra final, e a final será no Maracanã, alguém duvida? E ainda digo mais, a Copa do Mundo é nossa!

Nhandeara, 3 de julho de 2014
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 21 de junho de 2014

O Grande Mentecapto - filme de Oswaldo Caldeira - elenco: Diogo Vilela, Osmar Prado, Luiz Fernando Guimarães, Emiliano Queiroz, Débora Bloch, Cláudio Correia e Castro, Regina Casé, Imara Reis, Jofre Soares, Álvaro Freire, Antônio Naddeo, Maurício do Valle, Geraldo Carrato, Drica Lopes e Duse Nacarati.

http://tocadoscinefilos.net.br/o-grande-mentecapto-1989/
Link

AS FLORES RÚCULAS
à poeta Rafaela Gomes Figueiredo

Poeta tenho sido, assim, escrevo
conforme, um dia, rúculas plantei
e, à moça do meu zelo, as dediquei
— as flores rúculas do meu enlevo.

Agora, flores versos eu me atrevo
a no papel plantar igual não sei
plantar os girassóis que não plantei,
vivendo mais a vida do que devo(?).

Efeito cuja causa está bem nisso
de haver na Poesia o que me atiça
o siso dos sentidos por seu viço.

Poeta é Rafaela, que enfeitiça
o meu olhar atento de mestiço
com seu olhar atento de mestiça.




Nhandeara, 22 de maio de 2014
Marcos Satoru Kawanami
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P.S.:
Eu plantei as rúculas na Ilha do Governador (RJ), e as entreguei a Élida Nazaré Tavares da Silva, que estudava comigo no Colégio Cenecista Capitão Lemos Cunha C.N.E.C. - RJ em 1989, tínhamos 13 anos de idade.
A terra do quintal era de entulho, então, trouxe terra boa de outro lugar.
Plantei também rabanetes, mas nasceram enrolados uns nos outros, e morreram.
Ela não deve ter entendido nada, mas rúcula foi o que eu soube produzir naquela época.
Passei por mentecapto.

sábado, 17 de maio de 2014

a rima feminina

tipos de rima

A RIMA FEMININA
à poeta Rafaela Gomes Figueiredo

Rimar é coisa à toa, entanto é bela,
e, à toa, é que podemos contemplar
a bela coisa à toa de um luar,
que, junto ao mar, motiva uma aquarela.

A rima feminina, a rima é ela:
mulher, moça, menina, o ocular
colírio sem razão do meu trovar
a rima feminina Rafaela.

E, achando-me de estar agora à toa,
achei que só rimava bem por ela,
e rima em ela é rima assim tão boa

que tive de deitar esta singela
porção de tinta no papel que ecoa
as rimas que trovei por Rafaela.




Nhandeara, 17 de maio de 2014
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 13 de maio de 2014

plenilúnio

Lua no céu do Brasil
em 13 de maio de 2014

PLENILÚNIO
à poeta Rafaela Gomes Figueiredo

Sorriso juvenil de Rafaela,
na noite plenilúnia do meu zelo,
nenhum mal haverá por desfazê-lo
na foto em que ela ri tão sempre, e bela.

Sorrindo é que eu escrevo por aquela
de quem a sintonia está no belo
vibrante timbre audaz do violoncelo,
que o nome angelical disfarça e vela.

Retrato fotográfico tão dela
incide sobre minha identidade,
vertendo copo d’água em aquarela.

E fulge em mim solar felicidade
sabendo que, esta noite, Rafaela
a Lua vê com mesma intensidade.



Nhandeara, 30 de abril de 2014, Lua Nova
Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Atos dos Apóstolos, capítulo 1

Ascensão de Jesus Cristo

ATOS 1

Passado o tempo hostil das hostes mortas
deixadas para trás do que se esquece,
assim como subiu, agora desce
rompendo, em Seu descer, celestes portas.

O verso escrito certo em linhas tortas
foi posto no papel, foi posto em prece,
sem pressa, e a seu tempo, e apetece
a ti que podes ver, e o vento exortas.

Exortas hostes mortas vento vão,
passado hostil do tempo alheio ao todo
bem-vindo nestes versos de oração.

Por mais que se haja feito verso a rodo,
um verso torto escreve perfeição
se tem em Jesus Cristo o seu denodo.



Nhandeara, 7 de maio de 2014
Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 25 de abril de 2014

isso, ninguém viu...



ISSO, NINGUÉM VIU...

Fritaram o pastel em óleo frio;
isso, ninguém viu...
Jogaram o pastel em óleo frio,
só fui eu quem viu!

Quem não é de reclamar,
ao comer aquela massa,
não parava de agachar;
e, quem viu, achava graça.

Eu fiquei no fim da fila;
ao chegar a minha vez,
teve até quem, pela axila,
da bagagem se desfez.

Evitei constrangimento:
recusar, não recusei;
eu guardei o provimento,
mas, depois, o desguardei.

Corajoso foi o Empada,
trombonista de primeira,
levou tudo para a amada,
que passou por corneteira.

Quem tem pressa, come cru;
com o Empada, foi assim;
se, na pressa, foste tu,
este mundo não tem fim.


Nhandeara, 25 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami