Deus e
o Diabo no Itaquerão
Eu desci do Metrô, e
comecei a subir a escada quando brotaram luzes das minhas calças; devia ser
coisa do Metrô, sempre tem luz percorrendo a gente em São Paulo; mas daí passei
a caminhar na passarela aberta, e as luzes das calças eram mais fortes que a
claridade solar. Raciocinei profundamente: Fodeu.
Uma nuvem adamastórica se
formou ao longe, e veio célere parar juntinho da passarela. Jesus Cristo
caminhou em cima da nuvem até o corrimão da passarela, saltou-o feito um
atleta, e veio me encarar:
— É hoje, misinfio! —
disse-me o Filho de Deus.
— Ecco, agora entendi
estas luzes saindo por tudo quanto é buraco de mim: será que eu sou o diabo? Mas tu
viste bem que, nascendo de mulher e sendo homem como tu o fizeste, eu fui muito
obediente a Deus...
— Né isso não, seu Zé
Mané! — exclamou o Cristo, abraçando-me num arroxo forte, e me dando aquele
beijo, reportando-me à história antiga que me deixou cabreiro...
Falou para a gente pegar
o Metrô, que estava tendo jogo no Itaquerão: Corinthians e Palmeiras.
Chegando em Itaquera,
estava tudo lindo, as pessoas eram anjos:
— É o Paraíso...
— Ô, meu, Paraíso é outra
estação; entra logo que vai fechar. — advertiu-me Jesus.
Começou a partida, jogo
normal, mas Jesus falou displicente:
— Ó, tá vendo isso aí, é
tua Teologia das Probabilidades; cê não disse que o mal é sempre intencional, e
que o aleatório é divino? Um jogo de futebol é um evento aleatório com inúmeras
variáveis e que dura 90 minutos, ponha aleatório nisso! Se o Corinthians
vencer, estabeleço já o Reino de Deus; se o Palmeiras vencer, o quebra-pau vai
ser tamanho, que a Teoria do Caos entra em cena, e, numa onda de violência
efeito dominó, começa a Guerra Nuclear.
— Vai, Corinthians, vai!
— torci.
— Agora é vai? Você é
palmeirense desde pequenininho. Lembra do Evangelho?, diabo é porco. Deus é
Fiel...
— Corinthians!
Corinthians! Corinthians! — continuou torcendo o diabo com o cu na mão, e muito
amigo de Deus por fim.