O meio do avesso – livro de Rafaela Figueiredo
Um dos predicados da Poesia é revelar o
que não é óbvio, um outro também é dizer o óbvio de maneira não óbvia. Rafaela
Gomes Figueiredo faz tanto um quanto outro com maestria, e ainda alcança dizer
o não óbvio de maneira não óbvia!
É
a raridade de uma inteligência que capta o sutil, e o transforma em sublime. E,
com essa impressão, foi que eu li todo o seu livro O meio do avesso.
Identifiquei-me com a estética pitoresca
e precisa, além da imaginação mas jesuiticamente racional e firme da autora: o
livro é denso e irretocável, sólido como o mármore, e fluente como o vinho!
Há muitos livros lidos que não sinto um
livro tão bom. Esta poeta é da elite dos poetas, garanto, e será reconhecida.
Eu li cada poema com enlevo idêntico com que li Estrela da vida inteira,
de Manuel Bandeira, nos idos de meus 16 anos de idade.
um
[o]caso [2009]
cultivei na pedra a sua flexibilidade.
esculpi em mármore, no escuro,
a efemeridade do sol, da solidificação;
dos astros em metafirmamento.
mas o mármore faliu...
e com ele todo o frio sentimento
derramado no céu branco da razão
como poça, como pó, como poção...
no palco da noite, somente a escuridão
a orquestrar o solo do sono inefável,
como plectro da mente a esmerilhar-se
no quando negro da emoção.
_ _
co _ _ leta [2009]
se não fosse a boca
[da palavra, a
sede]
se
não fosse o ócio
[balouçando
à rede]
se
não fosse a tinta
[na
tela ou parede]
se
não do amarelo
[derivasse
o verde]
se não redondilha
[de cinco, mas sete]
se
não fosse a rima
[colhida
na Net]
a
alcunha poética
seria:
COMPLETE!