FUNERAL DA FILOSOFIA (começo do livro)
A Filosofia é pretensiosa e inútil.
É pretensiosa porque tenta explicar o Universo do qual o filósofo é reles criatura; e mais: tem a intensão de aperfeiçoar o mesmo Universo, o que implica em um absurdo: a criatura aperfeiçoar o criador.
Afirmo que a Filosofia é inútil: em que o ser humano hodierno é mais feliz que "Adão e Eva", alegoria da Humanidade pré-histórica? Vivíamos no Paraíso. Violou-se a "árvore da sabedoria", ou seja, passamos do raciocínio prático para a especulação científica. Vivemos a Civilização. E basta observar a troca de palavras para lamentarmos quão descomunal foi nosso prejuízo: antes Paraíso, agora Civilização. Antes tínhamos um Deus (ou divindades), agora queremos ser Deus e, sendo que nunca o seremos, perdemos o caminho e o guia.
Paradoxalmente, a Filosofia prova sua perversidade: deu-nos a Civilização para depois apontar toda a miséria das relações civilizadas. Todo o conforto da Ciência não vale o Paraíso perdido. Tínhamos a suprema sabedoria de não pensar para além da nossa fome; hoje nossa estultícia criou uma fome insaciável: a vaidade da Transcendência.
Ao mesmo tempo que a Transcendência parece libertadora ao rejeitar qualquer dogmatismo e ao considerar o ser humano como um "projeto infinito", este ideal de seguir sempre o "além-do-homem" não tem fundamento. Teria fundamento se o mundo fosse eterno, mas nem nosso planeta nem o Universo são eternos; a Ciência mesma o diz: por mais que a tecnologia consiga aproveitar a energia do Universo a favor da vida, esta energia se esgotará em um equilíbrio estagnado e estéril. De modo que considerar o raciocínio como instrumento de "perpetuação da espécie" não faz sentido, pois não há o que se perpetuar, não há eternidade para a matéria viva. O raciocínio só é proveitoso quando promove a felicidade, ou seja, quando é usado para resolver problemas imediatos ao bem-estar fisiológico e afetivo. Assim, a Filosofia poderia satisfatoriamente limitar-se a pregar: achemos o que comer, e brinquemos igual crianças. Pensar além disso é buscar complicações artificiais e construir torres de Babel a embargar o caminho singelo da alegria. O ser humano tem o dom da consciência que o permite saber se é feliz; contemplar a felicidade é o melhor uso da consciência. Mas o fato é que a Civilização aí está com a dinâmica social de produção. E produz o quê? Produz inúmeras coisas, mas jamais produziu felicidade natural. Com certeza produz o vazio existencial, cada pessoa sendo transformada em peça da máquina econômica. Restou à conciêcia corromper-se: deixou de contemplar a felicidade que a Natureza lhe dava de graça, para lamentar a angústia que a Civilização lhe vende cobrando caro.
Contudo, só resta remediar o mal imperante; tentar reverter o processo civilizatório seria utopia: quem, por exemplo, se dispusesse a viver numa comunidade indígena autêntica, estaria à mercê da civilização predatória. No mais, onde quer que ele vá, o civilizado já vai contaminado por sua cultura. Como disse, resta remediar o mal; escarnecedoramente, um remédio é a Filosofia: do veneno se faz o antídoto. O outro remédio, mais forte e eficaz, ainda que compatível apenas com os privilegiados da Fé, são as religiões.
Mas, sem considerar o aspecto religioso, tenho fé na benfazeja indiferença à Civilização e seus problemas. Serei um pré-histórico. Convivendo com a Civilização por necessidade, usarei do raciocínio apenas para o gozo imediato da existência. Aqui eu preparo um funeral, e os pensamentos que seguem arquivados neste livro são as flores murchas do passado que ofereço neste funeral: o Funeral da Filosofia.
Monções,6 de dezembro de 2001
Marcos Satoru Kawanami
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SÓ A RAZÃO NÃO É SUFICIENTE
Só a Razão não é suficiente.
Uma pessoa passa por vivências usando a Razão, e não crê em Cristo.
A mesma pessoa passa por vivências diferentes usando a Razão, e crê em Cristo.
Disso, percebe-se que a Razão é apenas uma ferramenta, a qual pode levar a conclusões diametralmente opostas, dependendo das experiências de vida de cada pessoa, dependendo do acaso.
Com a Fé, a pessoa deixa de depender do acaso, pois as experiências de vida são apreciadas pela Razão sob uma perspectiva ampliada de discernimento.
Nhandeara, 4 de dezembro de 2013
Marcos Satoru Kawanami
No princípio, era o Verbo...
O ato é convencional, a vontade é absoluta. A mesma vontade pode se manifestar diferentemente em atos diversos. Pois todo ato depende da matéria, e resulta de uma vontade. E, se todo ato resulta de uma vontade, no encadeamento de atos e vontades fisiológicas cerebrais, a Origem é uma Vontade sem ato precedente (vontade alheia a qualquer convenção material), que desencadeou todos os atos e vontades fisiológicas cerebrais; portanto, essa Vontade não pode ter origem fisiológica cerebral: a alma do índio botocudo.
Do contrário, o funcionamento cerebral seria algo sem começo, que sempre existiu materialmente? Mas a Matéria existe a partir de quê? Mesmo que a Matéria sempre tenha existido, os atos da Matéria, à semelhança da fisiologia cerebral, têm origem numa Vontade; senão o Universo seria um moto-perpétuo, que é um conceito do Mundo Ideal já exaustivamente descartado do Mundo Material.
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito de tudo o que existe.”, diz o capítulo 1 do evangelho de São João.
Marcos Satoru Kawanami