quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010



RÉPLICA A CAMÕES


Alma minha gentil, qual hei deixado,
quiçá mesmo em favor da Humanidade
que hora ganha a lusa celebridade
das armas e barões assinalados;

se cá pra onde subi contrariada
memória da outra vida se consente
nunca me esquecerei do ódio ardente
às rimas pelas quais fui eu trocada.

E se vires que pode merecer-te
qualquer migalha de ira —que sobrou—
cuida que obrando estou por socorrer-te

rogando ao que meus anos encurtou
que tão cedo Amor venha a abater-te
quão cedo em meu soçobro soçobrou.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração do blog: http://poemasaflordapele.ning.com

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Eh, Tosquera!

A unha é coisa tosca, casco humano
que as mulheres ocultam sob o esmalte;
mas ai de quem a unha se lhe falte
nos afazeres do quotidiano.

Joelho, tosco vinco soberano
até nas damas de subido malte
cujo donaire à vista sempre salte
nas fotos peladonas, ou... sem pano.

Pênis, pois é, aquela coisa ali;
há quem “caia de anel” por ele e tudo;
mas, ao pinto, eu prefiro o bem-te-vi...

Encerro no coisico mais toscudo:
prezado por quem tem cabeça oca,
franzido, fedorento, fim da boca?

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010



SONETO DE NASALIDADE

a Vinicius de Moraes

De tudo ao meu nariz serei atento;
e tanto e pouco e no jamais e antes,
que mesmo em face de dois elefantes
mais cause minha tromba alumbramento.

Por ele hei de viver sempre asmático
de assoar minha alma, e escarrar sua escória;
enamorado e não menos pneumático...
da sublime função respiratória.

E assim, quando mais tarde me procure
quiçá o vexame, angústia de quem vive,
quiçá a rinite, conforme Deus mande;

possa eu me dizer do nariz (que tive):
que não seja imoral, inda que grande,
mas que seja aquilino, e não pendure.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração do site: http://portaldoprofessor.mec.gov.br

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

NONSENSE 4
Aconteceu comigo (3)

Eu nao tinha o que comer. Fui na venda da esquina e comprei uma lata de ervilhas. Resolvi fazer uma bela 'salada' com champignon, porém era muito caro, entao decidi que iria em algum pasto procurar alguns, pois ouvi uma conversa aí que cogumelos de pasto eram melhores que
champignon. Andei por cerca de meia hora, até encontrar um belo pasto. Pulei a cerca, escolhi alguns, fui pra floresta e lá preparei meu almoço, ervilhas com cogumelo. Nao foi uma refeiçao tao saborosa, eu admito, mas depois de um tempo comecei a me sentir muito bem. Reparei entao, que a luz do sol que passava pelas arvores era muito brilhante, o verde das folhas era muito verde, e uns tocos de arvore pareciam se mexer. Espere, eles se mexiam sim. Vinham na minha direçao e sabiam o meu nome. E tinham gorros, gorros muito coloridos. Ficavam falando em uma lingua estranha e gesticulando sem parar com suas pequenas maozinhas rechonchudas. Depois de um tempo notei que nao eram tocos de arvore, e sim esquilos. Fiquei parado por muito tempo, provavelmente de boca aberta, observando os esquilos de gorrinho discutirem. Um deles olhou pra mim e chamou pelo meu nome. Voltei do meu estado nirvanico e respondi.
Segui os esquilos por um tempo, até eles pararem diante de uma arvore enorme. Me deram uma semente , falando em uma lingua que eu nao entendia e gesticulando sem parar. Comi a tal semente e fiquei um pouco tonto. Entao, nao sei bem como, eles me enfiaram dentro da arvore e de repente eu estava em um novo mundo de cores vivas. Segui os esquilos , que pararam em frente a uma porta e chamaram alguem. Outro esquilo surgiu, e eles começaram a conversar. Notei entao que nao eram esquilos, e sim gnomos.
Comecei a compreender o que eles falavam, e logo estava conversando tambem. Fomos a um campo, onde muitos gnomos convers
avam e admiravam a natureza. Havia rios com agua fresca, e cogumelos brotavam do chao como flores. Sentamos, começamos a conversar.
Compreendi o sentido de tudo, senti que a natureza me amava, assim como um cão ama cheirar a bunda de outro cao. Jogamos futebol, eu fui no gol. Bebemos chás e chopp, comemos miliopã e frango empanado. Eu adoro frango empanado. Minha vida estava tao boa, que me acostumei à vida gnomatizada e fiquei lá por meses, anos, seila. Um dia, como bom cidadão gnomatiense, fui enviado
à minha dimensao antiga para pregar tudo que aprendi, vivi e senti nesse longo tempo de gnomo-aprendizagem. Eu trago uma semente, a semente do amor. Meu nome é Barack Obama, e eu sou o ganhador do Premio Nobel da Paz.



postado por VERO, no blog: http://naumdigo.blogspot.com
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010



SONETO AO LUAR

para Ludwig van Beethoven

Eu lembro..., a tarde já desfalecia
quando a graça invadiu-me toda a mente,
e eu fiz-me mais dorido, mais carente
ao saber que pra sempre amá-la-ia.

Em chão sagrado tu me aparecias
deixando-me mais triste, mas contente,
numa estranha prantina sorridente
entre um Pai-Nosso e dez Ave-Marias.

Menina, parecias um menino?,
o que eu via era um anjo interior,
o qual timbrado está em teu destino.

E desse tão singelo modo foi-te
dado gratuitamente o meu amor
ao nascer da Lua, ao cair da noite.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração do blog: http://infinitoparticulardalva.blogspot.com

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



A COISA

à noiva morta de Alphonsus de Guimaraens

Coisa coisal, coisinha casual...
Coisona, que coisa mortal, que morte!
Enxoval de mortalha sepulcral
Ao léu, na Penumbra, da vida a Sorte...

Em brancas nuvens agora eternal,
Suspensa nos adocicados sons
Sem o peso das coisas do coisal...
Na harmonia veludosa dos bons.

Coisa angélica, gélida coisinha...
Absoluta coisona de um rapaz,
Meu choro cinza, triste Coisa minha...

Coisal esperança, aliança, paz!
Pertinentemente complementar,
Coisinha essencial ao pé do altar.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração: The Somnambulist, óleo sobre tela de John Everett Millais (1871)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



HAIKAIS CELESTES


Verão, sol a pino.
A nuvem repousa só
no torpor divino.

Mata escura, ao léu,
súbito um novo dilúvio.
Prantina do céu.

Em um céu só seu,
uma nuvem soberana
é rastro de Deus.

Marcos Satoru Kawanami


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Ontem à tarde, você viu aquele baita nuvão roxo?

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fonte da ilustração: http://eunaosoudaqui.wordpress.com

domingo, 17 de janeiro de 2010



LIRA I


Eu nasci banguelo e feio
Qual todo o mundo nasceu.
Logo logo a bossa veio,
Mas o resto se perdeu...

Deu-me ao tino escrevinhar
Para aliviar a dor
De faltar-me o verbo amar
Ou razão para o amor.

Deu-me ao tino escrevinhar
Sem cautela ou paciência
Para poder suportar
A minha insossa existência.

Deu-me ao tino escrevinhar
A fim de zombar do mundo;
Quanto mais eu fiz zombar,
Fui zombado: “vagabundo”!

Eu nasci banguelo e feio,
Já disse, é natural.
Mas muito canhestro, eu creio,
Foi meu vácuo cerebral.

Dessa carência neural
Veio talvez meu pendor
Que me faz escrever mal,
E fiz-me escrevinhador!

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010



PURITANO DOIDO

(ficção total)

Eu sonho com o dia radiante
em que do amor teremos amizade
bastante por nos dar a liberdade
do feminil grilhão, vulgar bacante.

Porque nosso tormento lanscinante
é penar nas mãos da sexualidade,
coisa nojenta e suja, que em verdade
só embaralha do macho seu talante.

Confio no progresso da Ciência,
a qual in vitro já nos dá seleto
modo de procriar com abstinência.

Contudo, ainda do pênis ereto
sofremos a lascívia com freqüência
até que o bem broxemos por completo!

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010


LENDA DO PERU

Contemplativo acerca da beleza
que lhe era própria, um dia, o Pavão
pensou: “Por que não alço os pés do chão,
e conquisto a cerúlea realeza?”.

Por ser ele incapaz de tal proeza,
lastimou do Destino a ingratidão
que ao Urubu, mais feio que um Dragão,
permitia voar por natureza.

Eis que então, num lampejo inteligente,
propôs ao Urubu, que voava à toa,
unir em matrimônio conveniente

seus filhos. Foi assim que da Pavoa
veio ao mundo o Peru, hibridamente;
que é feio pra dodói… e ainda não voa!

Marcos Satoru Kawanami
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