VEREDITO AO DISCURSO
Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu
De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?
E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.
Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;
Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!
Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!
—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido
Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?
Marcos Satoru Kawanami
.
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sábado, 3 de outubro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009

UMA LENDA QUÍMICA
Nos manuais químicos dum laboratório
um Cloreto de Hidrogênio apaixonou-se
um dia
exotermicamente
por uma base.
Vislumbrou-a com seu olhar abrasivo
de uma reação reversível:
uma figura iônica;
olhos 2 molar, boca dativa,
corpo isobárico, seios em suspensão aquosa.
Fez da sua uma vida
à dela eletropositiva,
até que se encontraram
numa solução.
“Quem és tu?” —indagou ele
em precipitado.
“Sou filha de um Alcalino, e neta do Oxigênio.
Mas pode me chamar Hidroxila, de Sódio”.
E de falarem descobriram que eram
altamente reagentes.
E assim se amaram
num ciclo de oxi-redução
oxidando
ao léu da temperatura
e da pressão
metais, não-metais, semi-metais
por entre as colunas da Tabela Periódica.
Escandalizaram os ortodoxos
e desbancaram Lavoisier;
desmoralizaram Clayperon
e a relação de PVT.
Enfim resolveram atingir um equilíbrio,
constituir uma família,
uma família de gases nobres!
De nobreza nada tinham;
nem um tio Xenônio,
nem um primo Hélio...
Mas o produto que tiveram
foi mais venturoso
e providencial:
no bojo dum erlenmeyer
com rendimento cem por cento
nasceram
Água e Sal.
Marcos Satoru Kawanami
.
domingo, 27 de setembro de 2009

PÉ FRIO
(ficção total)
Os sapatos vou pôr na geladeira;
explico: sempre fui muito azarado,
pois logo que nasci me foi cortado,
além do umbigo, um membro por cegueira
ou descuido ou maldade da parteira,
sei lá!; só sei que agora, mutilado,
avexo-me de só mijar sentado,
pois do contrário encharco a calça inteira...
Por conta desse corte fui cortado
de fazer na Marinha uma carreira,
nem ganhei a patente de soldado.
De Vênus não desfruto nem que queira
um beijo. Sou pé frio, e, conformado,
os sapatos vou pôr na geladeira!
Marcos Satoru Kawanami
.
| VOX POPULI: |
sábado, 26 de setembro de 2009

ENQUETE
Inteligência é importante?
Quando queres um amigo, este deve ser inteligente?
Eu tive um cachorrinho chamado Noel, que foi o cão mais burro que conheci, mas foi quem me amou com mais sem-amor-à-própria-vida, entende?
É um cachorrinho chamado Noel ou são pessoas inteligentes que projetam artefatos de guerra?
Os benefício da Ciência compensam o Paraíso perdido?
Marcos Satoru Kawanami
.
terça-feira, 22 de setembro de 2009

ARTE METAFÍSICA
Estranha arte é esta de escrever...
Sem pincel, sem cinzel a obra cresce
e toma forma, e nem forma carece
para que a outrem venha a entreter!
Um papel sujo basta ao seu mister,
um papel que no lixo alguém esquece...
Na folha rota que o desdém merece,
é nela que o poema vai nascer.
Poesia, prima-irmã da Matemática
que no papel também faz teorema,
tem ela sempre musa mais simpática.
Seguem Música e Dança o mesmo esquema,
brotando da sublime e etérea prática
qual do nada também brota um poema.
Marcos Satoru Kawanami
.........
Teorema da impressão que se tem de um ângulo quando visto sob determinada inclinação: http://memoriasdaliravelha.blogspot.com/2011/08/corintiano-maloqueiro-e-sofredor.html
sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DESPOETIZANDO
a Bocage
Quem pensa que o Poeta é diferente
só porque faz do Verso a sua saga,
esquece que o Poeta peida e caga,
e assim a rima estraga, inconseqüente!
Mentira que o Poeta sempre mente
e, em brancas nuvens, vive e só divaga…
Poeta, se tem renda, o Imposto paga;
e é da Urbe, da Roça e do Presente.
O ofício de escrever é dom mesquinho,
mais vale um Albert Einstein que um Cervantes;
junto a Newton, Pessoa é tão tolinho…
Nos dias atuais ou mesmo antes,
não transcende o Poeta o seu vizinho:
ou é inócuo, ou irrelevante…
Marcos Satoru Kawanami
.
| VOX POPULI: |
quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ORAÇÃO
Serena alegria é ouvir Vosso eloqüente
e impassível silêncio,
que ensinou-me na primeira infância
a conversar com os seres mudos do milagre
da Criação.
Por meio deles, meu Deus, Vós me ensinastes
a constante oração que nada pede,
a qual o Cristo pôs em palavras
dando “a César o que é de César,
e a Deus o que é de Deus”.
Só faz sentido pedir a boaventura
da Fé,
razão de ser Humano.
Marcos Satoru Kawanami
.
terça-feira, 15 de setembro de 2009

NAVIO
a Camões
Este que os mares singra com pujança,
vaga de continente a continente
a levar para sempre um bem ausente,
a trazer o imigrante e a esperança.
Com coragem viril ao léu se lança
da fortuna até mesmo imprevidente
que, por vezes, não sai impunemente,
a soçobrar qual sonhos de criança...
Navio ou belonave, embarcação
que rasga com o peito despojado
o líquido da vida ou perdição,
carregou, no seu ventre, do passado
os astronautas sem hesitação
"em perigos e guerras esforçados".
Marcos Satoru Kawanami
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ATAVISMO
Não se incomode, Euclides, por ser corno;
predicados havia na tal Ana
raros em toda a fauna americana:
mais que a vaca, era boa de contorno.
Qual ninguém, pilotava bem um forno;
podia ser gazela da savana,
contudo, se ao chifrar-lhe, foi sacana:
o chifre ela lhe deu foi por adorno.
Veja bem, você foi da Academia;
pois, isso basta, vale mais que tudo!,
não vá se ater com reles ninharia.
Se seu filho também sucumbiu mudo
tentando a vil vingança, a pontaria
demonstra o atavismo em ser cornudo.
Marcos Satoru Kawanami
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| VOX POPULI: |
sábado, 5 de setembro de 2009

FRACTAL
- soneto em alexandrinos -
A forma está presente em toda a natureza…;
inútil refutar tamanha onipresença,
meu caro modernista afeito à desavença,
que empunha o gládio em vez da lira (com certeza).
Poeta, no pós-tudo, até sem ter destreza
na rima amor com flor, e ninguém há que vença
ensinar-lhe o valor da antiga e firme crença
que o esmero, ao divinal fitar, propõe beleza.
A prova aí está, desponta na ciência
vitaminada, além ultra, que é chic e tal
— o zelo da razão é paz, sem penitência…
Em um minério ou bem em plantas de quintal,
em um soneto ou bem na gênese da essência:
a forma lá está, na equação de um Fractal.
Marcos Satoru Kawanami
ACCORDO ORTHOGRAPHICO
Cu não tem acento, mas o meu cu tem assento.
Marcos Satoru Kawanami
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