sábado, 8 de agosto de 2009




O BEIJO


O meu amor é coisa indefinida:
existe dentro em mim um sentimento
que oscila entre o riso e o lamento
ao compasso do pêndulo da vida.

Em tudo quanto vejo ou invento,
sempre a ternura se me faz sentida;
assim, amo a chegada e a partida,
amo a carne e o casto pensamento.

Por tudo que acontece sem razão,
ou talvez pela extrema solidão
que me faz desviar do senso reto,

em uma noite quente de verão,
o cúmulo senti do meu afeto:
enterneceu-me o beijo de um inseto!

Nhandeara, 19 de outubro de 2001
Marcos Satoru Kawanami

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domingo, 2 de agosto de 2009



Minha Nora Vidente


Achei, de minha parte, coisa boa
os zelos e cuidados que agora
ao meu filho dispensa minha nora,
a qual varre, cozinha, e ensaboa.

Pois, antes, nem sequer mesquinha broa
degustava meu filho ao vir da aurora,
moído a sustentar a tal senhora
que ao banho não se dava, tão à toa...

Hoje em dia, meu filho passa bem:
a mulher tomou viço e se perfuma,
cuida do lar com ânimo também!

Mas a transformação se deu, em suma,
depois que um “anjo” lá chegou —de trem—
por benzer as mulheres, uma a uma!

Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 1 de agosto de 2009








SAUDADE


"Saudade é o sentimento que fica daquilo que não ficou."
(Luciane)




De todas que me beijaram,
de todas que me abraçaram
já não me lembro nem sei...
São tantas que me amaram,
são tantas que eu amei.
Mas tu, meu rude contraste,
tu, que jamais me beijaste,
tu, que jamais abracei,
só tu nesta alma ficaste
de todas que eu amei!

(autor desconhecido)

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quinta-feira, 30 de julho de 2009








POEMA NADA ORIGINAL





É o lápis que escreve?
Ou é minha mão que escreve?
Ou é o lápis e minha mão que escrevem?
Ou sou eu quem escrevo?
Ou são os que me geraram que escrevem por meio de mim?
Ou é a proteína primeira que escreve?
A poesia não é fruto meu.
E estes versos só têm de original o impulso original
do Movimento Primeiro;
o resto é conseqüência: tudo,
até os sentimentos.
Não existe o “Humano, Demasiado Humano”.
Mas, realmente, o Livre Arbítrio é uma pilhéria!


Nhandeara, 8 de maio de 2002
Marcos Satoru Kawanami
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terça-feira, 28 de julho de 2009

A pintura ao lado é de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho (Temito), que já seria O CARA de sua geração se conseguisse mover os dedos das mãos...; mas Temito é tetraplégico, e, mesmo contando só com o impreciso movimento dos braços, ele faz isto que os amigos podem ver.






Sites do Artêmio:
http://www.arte4fun.hpg.com.br/home.html
http://www.artemiodesign.hpg.ig.com.br/index.html


A VIDA NÃO É FILME
ao amigo de minha infância, o pintor Artêmio Fonseca de Carvalho Filho

Quitou-me o romantismo esta verdade:
—A vida não é filme nem romance!—
Incauto o adolescente que se lance
a dar vaza ao Amor em tenra idade…

Mais vale bem-querer Sobriedade,
casta lira impassível ao alcance
da cupidez mundana que lhe avance
no esplendor da virgínea mocidade.

Não à toa os antigos, por costume,
prezavam a senil opinião,
que vivência e razão enfim resume.

Amor? Existe. Longe da paixão,
do romantismo e do carnal betume:
—Conjugo o verbo amar, sem transição.

Marcos Satoru Kawanami
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segunda-feira, 13 de julho de 2009

À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA

“No princípio, era o Verbo”, e o Verbo amava,
e, para amar, deu vida à criatura.
Porque ser Deus, ser Deus não Lhe bastava,
determinou a Redenção futura.

Javé, que sempre o povo Seu guiava,
sendo Senhor, desceu de tal postura
de fria impavidez que o amargurava,
pois Deus quis ser PAI, e pai de ternura.

Mas só ser pai não Lhe bastou, ainda
quis ser IRMÃO, e Se entregar exangue
nas mãos sem nexo de sinédria gangue.

E, para ser irmão, na Sua vinda,
o bom Deus recorreu à poesia:
foi FILHO de uma virgem mãe, Maria.

Marcos Satoru Kawanami
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terça-feira, 7 de julho de 2009

i'm not dog no!



SONETO AO CACHORRO

É o Cão, do Homem, seu melhor amigo,
conforme reza o velho e bom ditado;
quem nunca nesta vida foi amado
dará valor a tudo quanto digo.

O Cão nem mesmo tem aquele umbigo
egoísta pra ser idolatrado,
enquanto o ser humano, do pecado
escravo, do egoísmo herda castigo.

Xingando uma mulher, dizem: “Cadela!”;
ofensa muito rude para ela,
a Cadela, mulher casta do Cão,

um bicho que, sem ter nem mesmo mão,
o asseio preza, nos deixando à míngua
quando se limpa com a própria língua!

Marcos Satoru Kawanami
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sexta-feira, 3 de julho de 2009









Soneto de Santos Dumont


No alegre turbilhão da juventude,
no esplendor do motor por explosão,
em meio de projetos a efusão,
criar o aeroplano então eu pude.

Crente no ser humano, na virtude,
tudo era festa!, tudo empolgação,
“belle époque”..., ninguém pensava não
que Marte conspirava oculto e rude.

Veio a guerra, o carrasco do progresso?;
talvez não, pois usou-se o aeroplano:
não o inventasse, agora triste eu peço!

Somente o ser humano é desumano...,
e, assim, por suicida eu quis ingresso
na morte-símbolo do ser humano.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 2 de julho de 2009



NONSENSE 2


Sim, nós podemos!... e de mãos dadas venceremos a crise teologicocosmogônica planetária do amor ventríloquo, pois, se todos os seres humanos da Terra se derem as mãos numa corrente orbital, será que algum vivente ainda vai dar conta de se patolar?


Hilda Hilst Érica

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quarta-feira, 1 de julho de 2009






WE?


Lonelyness is a so natural state
of any living matter you will find;
’cause when I was a child, now I remind
myself: I was alone, that was my hate!

I had a mother, a father, a faith,
and the true love of my sister, so kind...
come from the very equal flesh of mine,
and, yet, I was I behind the soul’s gate!

Now, where’s my faith, my sister, where am I?
in this spinning sphere which just says good bye
to teach us good bye, to teach us to pass...

As our life goes too fast, we’re lonely as
the fast spaceship that goes faster as far
it is from us, from the Origin we are!

Marcos Satoru Kawanami

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----------> ILUSTRAÇÃO: pintura de Edward Hopper
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