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segunda-feira, 30 de março de 2009

GREGÓRIO DE MATOS







GREGÓRIO DE MATOS


“O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.”
(Gregório de Matos Guerra)



A bosta sem a merda não é bosta;
A merda sem a bosta não é merda;
Mas se a merda é uma bosta, sendo merda,
Não se diga que é merda, sendo bosta.

Em qualquer excremento está a bosta,
E bosta assiste inteira em qualquer merda,
E feita em merda a bosta, ou bosta a merda,
Em qualquer merda sempre existe bosta.

O rio Tietê não seja merda,
Pois feito o Tietê de merda e bosta,
Não é apenas merda a sua merda.

Não se sabendo merda desta bosta,
Um troço que lhe acharam, sendo merda,
Nos diz que é merda mesmo toda bosta.

Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

DESOCUPADO LEITOR

DESOCUPADO LEITOR
(à moda de Miguel de Cervantes Saavedra)

Antes do mais nada, e para melhor compreensão do mais nada, faz-se mister esclarecer-vos, e, ainda que limitado dentro dos limites da limitação, uma coisa que, em verdade, não chega a ser uma coisa, estando, portanto, em um nível, num plano superior ao das coisas que, por reversão, encontram-se em um nível inferior e consequentemente abaixo de o que anseio esclarecer-vos, aproveitando o ensejo desta, antes do mais nada, para melhor compreensão deste, por ser essencial que tenhais conhecimento de algo que, como já vem referido e conhecido, estando vós dessa maneira a par do que seja, ou ainda, do que não o é, não vos escandalizareis com a ideia de que esta não passa de algo por demais simplório e que, de uma coisa podeis estar seguros: não é uma coisa, sendo, pois, qualquer outra coisa que não uma coisa; porque é um fato, e fato tão pertinente quanto o conteúdo informativo indispensável desta pela qual aproveito o ensejo para, antes do mais nada, esclarecer-vos, por meio desta e para melhor compreensão daquele, o fato de a tinta desta caneta não ser de cor alguma; pois escrevo a lápis.
E... mais nada.

Brasília, DF, 19 de dezembro de 1992, em carta à minha irmã
Marcos Satoru Kawanami
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