quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Talento e Formosura - Catulo da Paixão Cearense




Talento e Formosura – poema de Catulo da Paixão Cearense

Tu podes bem guardar os dons da formosura
Que o tempo, um dia, há de implacável trucidar
Tu podes bem viver ufana da ventura
Que a natureza, cegamente, quis te dar

Prossegue embora em flóreas sendas, sempre ovante
De glórias cheia no teu sólio triunfante
Que antes que a morte vibre em ti funéreo golpe seu
A natureza irá roubando o que te deu

E quanto a mim, irei cantando o meu ideal de amor
Que é sempre novo no viçor da primavera
Na lira austera em que o Senhor me fez tão destro
Será meu estro só do que for imortal

Terei mais glória em conquistar com sentimento
Pensantes almas de varões de alto saber
E com amor e com pujança de talento
Fazer um bardo ternas lágrimas verter

Isso é mais nobre, mais sublime e edificante
Do que vencer um coração ignorante
Porque a beleza é só matéria e nada mais traduz
Mas o talento é só espírito e só luz

Tu podes bem sorrir das minhas desventuras
Pertenço à dor e gosto até de assim penar
Eu tenho n'alma um grande cofre de amarguras
Que é o meu tesouro e que ninguém pode roubar

Pois quando a dor me vem pedir alguma esmola
Eu lhe descerro as portas d'alma, que a consola
E dou-lhe as lágrimas que vão lhe mitigar o ardor
Que a inspiração dos versos meus só devo à dor

Descantarei na minha lira as obras-primas do Criador
O mago olor da flor desabrochando à luz do luar
O incenso d'água que nos olhos faz a mágoa rutilar
Uns olhos onde o amor tem seu altar

E o verde mar que se debruça n'alva areia a espumejar
E a noite que soluça e faz a Lua soluçar
E a estrela d'alva, a estrela Vésper languescente
Bastam somente para os bardos inspirar

Mas quando a morte conduzir-te à sepultura
O teu supremo orgulho a pó reduzirá
E após a morte profanar-te a formosura
Dos teus encantos mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus fechar meus olhos sonhadores
Serei lembrado pelos bardos trovadores
Que os versos meus hão de, na lira, em magos tons, gemer
E eu, morto embora, nas canções hei de viver

autor: Catulo da Paixão Cearense



HIBISCUS

Eu tenho a minha dor, a dor é minha,
não é de mais ninguém, quem diz-me é ela,
cantante trovadora, Lira aquela
de quem a Flor do Lácio se avizinha

nas noites tais e quais o povo tinha
no tempo do Catulo e as tão singelas
canções favorecidas de aquarelas
plangentes ao orvalho com mantinha...

De um tempo, o que restou? A poesia,
e nunca a dor; porque não é a dor
dos que viram e nem dos que virão.

A dor é do poeta que sorria
e que sofria enquanto trovador
em um violão, balcão, porão... No chão.


Marcos Satoru Kawanami

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