sexta-feira, 1 de março de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 3



CAPÍTULO 3

        Isolaram-me nesta cela, porque, no primeiro dia de prisão, eu matei, só com as mãos, três detentos. Então, a direção da cadeia achou que eu fosse de alta periculosidade. Mas eu sou inocente.
        Agora, parece que ficarei aqui até o meu dia do Juízo Final, em que espero ser absolvido de tudo quanto me acusam. Entrei aqui por engano da justiça humana, e aqui matei por legítima defesa. Ora, queriam comer meu cu. Tu o darias?
        Tudo bem que não era para tanto, mandar três almas para o inferno só por causa de uma coisinha fedorenta foi exagero. Foi exagero porque pimenta no cu dos outros é refresco, ou tu liberavas numa boa? Não sei não, tu és esquisitão. Quem cala consente.
        E tu terás de calar por enquanto. Se este escrito não for nunca lido, o todo o mundo retórico representado por ti calará para sempre, liberando o franzido cósmico de todos para todos indefinidamente. Tem culpa eu? Não.
        Ora, defende a Humanidade desse malefício! Mas nem eu sei como. Cá do passado, posso convencer alguém no futuro; mas alguém no futuro não pode me convencer de nada. Viagem no tempo me parece inviável, senão alguém do futuro já teria visitado o passado, e disso não há registro.
        Preso, estou me sentindo bem. Lá fora, era mau. E eu me sentia mal por eu mesmo ser mau, sem saber disso. Era a necessidade de sobrevivência, expressa nos gestos, nas palavras, nas relações com os outros. O inferno não são os outros, o inferno é nossa atitude para com os outros. Aqui na cadeia, pude sentir a diferença. A minha ruindade de lá fora ficou evidente, mas não sei se melhorei, pois sozinho não posso comparar.
        Um fato que leva muita gente ao ateísmo é a existência do mal e do sofrimento. Mas sem mal e sofrimento a coisa funcionaria? Sim, funcionaria. Funcionou até Adão. Então, não funcionou por muito tempo. Após a perda é que se dá valor. Porém, mesmo sem crer no pecado original, o mal tem seu lugar no mundo, e o sofrimento tem sua função. Só podemos saber se alguém nos ama, se esse alguém já sofreu por nós, diria um pensamento um tanto egoísta. Mas, como o egoísmo é inerente ao ser vivo, Cristo veio e sofreu por nós.
        Se é errando que se aprende, é sofrendo que se melhora. Que outro fator pode levar alguém de um estado de maldade para um estado de bondade? Poder levar não significa que leva. Há quem piore com o sofrimento, e quer me parecer que quem assim procede é revoltado. Ora, revoltar-se contra a ordem das coisas foi o que o diabo fez.
        Se, porém, o sofrimento tem finalidade boa, bom é sofrer e fazer os outros sofrerem? Nem uma coisa nem outra. A humildade em aceitar o sofrimento sem revolta sim é que é sinal de elevação. Mesmo assim não é meritória, como muito menos o é a expectativa de um prêmio. Por isso Cristo sofreu por remissão de nossos pecados, pois não teríamos como nos redimir por mais que sofrêssemos ou praticássemos o bem.
        É fácil não se sentir egoísta quando se está sozinho como estou, nada melhorei apesar de me sentir melhor. O convívio me proporcionaria uma melhora real. Tu és com quem achei de conviver.
        Se bem que há um camundongo que frequenta aqui os meus domínios. Se fosse uma ratazana ou mesmo um rato, eu já teria providenciado seu funeral com toda pompa e ocasião. Mas camundongo é inofensivo, o bichinho conquistou minha simpatia. Às vezes, o inofensivo leva vantagem sobre o agressivo, eu que o diga, não deveria ter matado aqueles três tarados, o que teria custado eu dar o cu para eles? Teria custado o meu cu, ora! Tu achas pouco porque o cu não é teu. Ou gostas da coisa?... Vai, confessa, quantas vezes mesmo foi que deste essa rabeta?
        Mudar de assunto não resolve questão nenhuma, mas pode preservar uma amizade. Sem ir muito longe, porém, o camundongo ingressou em minha vida na manhã em que acordei com ele tentando roer meu calcanhar. Com o susto, joguei o coitado longe. Eu deveria ter feito coisa semelhante com os tarados, poderia apenas tê-los posto fora de combate, mas o asco, o medo e a raiva do momento me levaram ao homicídio.
        Com o camundongo fui mais venturoso. Ele sumiu por uns tempos, findo os quais reapareceu mais respeitoso, quase reverente, pedindo permissão para vasculhar minha cela. Eu falei vem, e passei a deixar um pouquinho da minha comida para ele, ou ela, não tive ainda intimidade para averiguar. Macho ou fêmea, deve estar celibatário como eu, pois ainda não apareceu outro camundongo por aqui. Ou ele é macho, e a fêmea fica mais perto do ninho, já que nunca o vi grávido, digo, grávida(?). Quem sou eu para estudar a sociologia dos camundongos?
        A propósito, foi meu amiguinho quadrúpede quem me deu a ideia de monologar contigo. De tanto eu fazer seus ouvidos de penico, o bicho, um dia, resolveu roer a parede. Ora, o chão e as paredes da cela são de pedra, o roedor endoidara. Mas percebi nisso uma sugestão do além. Exarar em pedra era um costume da Antiguidade recorrente até hoje.
        Como minha mensagem é de somenos importância, ser exarada não merece, e viável para mim é escrevê-la a lápis. Ainda bem que só se lava o chão, já reparaste? E me puseram para lavar o chão e a latrina, o que me parece justo, apesar de minha inocência.
        De tanto reiterar a alegação de inocência, estou parecendo mais é político. Se bem que não, pois sou inocente de verdade.
        A classe política pode não ser a dominante, mas é privilegiada. Mesmo em situações em que, no faz de conta, as classes sociais tenham sido abolidas, os políticos se beneficiaram. Essa mentalidade vil foi superada pelo altruísmo em certas sociedades, pena que o vulgo goste de imitar o que seja feio.
        E coisa vulgar é Política; lá, os egoísmos particulares tomam vulto na briga de interesses entre grupos de indivíduos e de nações. Já a pessoa do político, até onde eu tenha visto, ou entra na Política para roubar ou entra nela por vaidade, sendo o povo governado pela escória.
        Mudar de assunto, de novo, parece-me boa ideia, ainda que Política seja uma responsabilidade geral, mas o camundongo é tão engraçadinho... Está ao meu lado, vistoriando a obra da qual se constituiu o mentor intelectual. Ser engraçado, pode ter conotação cômica, mas é sobre tudo ter graça, participar da Graça. Se até um camundongo pode participar da Graça, por que há tanto desgraçado no mundo? E olha que quem diz isso é um condenado preso. Eu.
        Tu me responderias, se pudesses, que é mais fácil ser desgraçado. E dar-te-ia toda a razão. Mas por que é assim? O tema é tão antigo quanto a Civilização. Sem querer te importunar aludindo novamente a ele, mas Cristo... diz para passarmos pela porta estreita. Contudo, se o fardo dele é leve, é porque alguém em desgraça acaba cansando, e procura a Graça, a não ser que ame o mal.
        Tu amas o mal? Tomara que não. Mas já flertaste com ele? Eu só posso responder por mim. Não há como dizer não, é o pecado original em nós. Adão e Eva foram iludidos pelo diabo, por isso descreram em Deus, desgraçaram-se. Eu descri também, por mais que não tenha sido uma descrença total, e talvez ainda esteja nesse estado morno até hoje, ou punheta não é pecado?

continua sexta-feira...

LIVRO: aqui

3 comentários :

Rapha Barreto disse...

Adorei a parte do funcionou até o Adão.
Depois daí as coisas saíram dos eixos mesmo.

Abraço e ótimo final de semana
http://mylife-rapha.blogspot.com

Elyane Lacerdda disse...

Realmente mudar de assunto é uma questão de sabedoria,
para não perdermos alguns amigos que gostamos!
Melhor fingir não entender e pular para outro papo.....
bjos amigo poeta!
Sempre arrasando...
www.elianedelacerda.com

Rapha Barreto disse...

Feliz Carnaval Marcos!

http://mylife-rapha.blogspot.com