sábado, 9 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 34 e epílogo



Capítulo 34

         Cunegundes está entre os vivos.
         Vi em outro filme de Ana Carolina uma personagem confessar que tinha vergonha de desejar homem. Não sei por que, mas, realmente, mulher que sai desejando adoidado, expressando e concretizando seus desejos sexuais, acaba se dando mal ou se fodendo mesmo.
         Minha senhora, nesse ponto, foi mais venturosa. Desejava, apontava, e pronto. Era uma mulher muito viva.
            Cunegundes está entre os vivos.
         Eu estava assistindo ao telejornal da meia-noite, quando o presidente Temer apareceu numa reportagem. Senti um calafrio, e fui fechar a janela. Soltei um puta peido!, com caldinho e tudo. Era Temer na janela, mostrando os dentes caninos; tinha se transformado em vampiro. Percebendo meu cagaço, disse ele: “Minha vingança sará malígrina!”, e deu uma cuspidela para o lado. Era um vampiro brasileiro.
         Estando eu paralisado de horror, Vampiro Temer atravessou a parede, e créu, mordeu meu pescoço.
         Minha porção mulher veio à tona com tal mordida tão bem dada.
         Senti enjoo e cólica menstrual, mas senti fúria de TPM, eram os hormônios se rebelando. Pelos enormes nasceram em todo o meu corpo, minhas unhas viraram garras, meus dentes viraram presas. Eu virei lobisomem.
         Comi a minha vizinha.
         Mas, quando a caguei, ela se transformou num zumbi. O ciclo se completara. Zumbis mordiam gente, que viravam vampiros, que mordiam gente, que viravam lobisomens, que comiam gente, que eram cagadas zumbis!
         Juntei-me à horda de monstros, e saí comendo gente até encontrar Cunegundes, que foi a zumbi mãe de tudo aquilo.
         Soube então que Afrodite roubara uma retroescavadeira, e, cavocando no cemitério, libertara Cunegundes dos ínferos.
         Agora eu posso dizer: Sou feio, mas tô na moda.
         E nossa vingança será maligna! Você aí que me lê, tome esses escritos como advertência. Na próxima lua-cheia ou na próxima lua-nova, quando você sentir um calafrio no espinhaço, é nóis na fita. E créu.
         Sinal dos tempos, nossa horda disforme invadirá cada buraquinho deste mundo decrépito a fim de dar aos viventes a própria feição da desgraça em que têm vivido sua libertinagem. E créu.
         Vai vendo, vai vendo.
         Isto posto, ponho o ponto final.

   





Epílogo

         A propósito da Literatura Sanitarista referida nos anteriormentes deste livro, segue abaixo um soneto escrito nos conformes dessa estética, para livre divulgação latrinas do mundo afora:



FLATO VERÍDICO

O peido sai da peida, e é um gás
translúcido, odorífico, butano
mesclado com partículas do humano
cocô, e vem daí o seu cartaz.

O peido é igual a filho, só quem faz
aguenta. Digo bem e sem engano,
pois peido é sobre a gente soberano,
e, às vezes, é questão de guerra e paz.

Falar como se a boca fosse o cu
apraz quem reconhece, na humildade,
a leda condição de ser jacu.

Mas, tendo o erudito a tal vontade,
irá peidar, e, aí, o deixo nu,
despido de qualquer vã veleidade.



Nhandeara, 9 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


não continua sábado

Um comentário :

Meri Pellens disse...

Acabou bem no fim. Que coisa! Rs...