sábado, 2 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 33



Capítulo 33

         Sinto atração pelo defeito. Mulher toda perfeitinha não é atraente. Cunegundes era bem dotada nesse quesito, tinha a qualidade defeituosa a contento. Uma de suas apetitosidades, além do joelho de porco, era o hiato entre seus dois primeiros dentes incisivos da arcada dentária superior. Outra apetitosidade sua era ter o mesmo defeito na arcada dentária inferior. Tinha as pernas tortas também, a bunda faltando um pedaço, sardas na testa, e olheiras roxas. Um piteuzinho.
         Minha cara-metade, meu outro lado da laranja, tinha domínio intelectual sobre o próprio peido; controlava-o ao extremo, não apenas retendo-o, mas dando o tom que quisesse a ele. Cunegundes assobiava com o cu. Eu muito me admirava desse talento nato do meu amorzinho, eu que consegui ser peidorreiro de ofício.
         Mas Cunegundes nunca ganhou a vida com o cu. E não foi por falta de incentivo. Cheguei a inscrevê-la num concurso público para primeiro trompete da Banda dos Fuzileiros Navais; ela, porém, em sua humildade, preferiu ser dona de casa. Mulher admirável, mulher à frente de seu tempo.
         Quem me lê, talvez esteja se perguntando por que tanto louvo as qualidades de Cunegundes, se ela, por racismo infame, preferiu ter todos os nossos filhos com outros homens. Ora, mas isso é só um detalhe, pai é quem cria, diz o ditado popular. E tem mais: Sara, esposa de Abraão, ordenou que sua escrava Agar se deitasse com ele a fim de poderem ter uma descendência. Eu, consentindo que minha senhora concebesse nossa prole com outros homens, livrei-a de qualquer culpa adulterina. É ou não é?
         O importante é participar. Necessário é o amor. Só o amor constrói. “O amor vem por princípio, a ordem por base, o progresso é que deve vir por fim.”. Não sou eu que o digo, mas Noel Rosa, que nunca foi corno.
         A cornologia, porém, é uma área do conhecimento humano fundada na Antiguidade junto com a cosmologia, a cosmogonia e a cornogonia. Filha da agonia, a sabedoria de todo corno é questionada e posta em xeque por uma frase indubitavelmente duvidosa, que vem a ser esta: “Todo castigo, para corno, é pouco.”. Eu nunca vi castigo algum, mesmo porque, corno não sou. Pelo contrário, sou é ovacionado por onde passo: “É ele! Lá vai ele!”.
         Debruçando-me sobre questões cornológicas, reparei, entre outras coisas pitorescas, que há corno que se gaba de o ser. Normalmente são as mulheres as mais orgulhosas pela galhada que ostentam, achando virtude no costume do marido de passar o rodo geral.
         No pertinente a sexo, existe de um tudo. Minervino, por exemplo. Minervino broxou, broxou de vez, e nem por um Viagra via o palhacinho envergar o paletó. Até que sua senhora lhe mandou a guampa. Minervino, quando a viu galopando sobre a pica de aço do mestre de obras como se fosse uma obra do mestre Picasso, ficou tesudo, e não pincelou mais, desde que a coisa fosse feita a três.
         O remédio de Minervino era o veneno da traição.

continua sábado...


"Cagar lo espiritual hasta hacerlo palpable, espiritualizar la mierda hasta hacerla invisible, en eso consiste el arte."
(Glauco Mattoso - Jornal Dobrabil)



Um comentário :

Meri Pellens disse...

Estou deslumbrada com a beleza de Cunegundes. Que musa! Kkkkkkk...
Bjo, amigo! 💋