Capítulo
33
Sinto atração pelo defeito. Mulher toda
perfeitinha não é atraente. Cunegundes era bem dotada nesse quesito, tinha a
qualidade defeituosa a contento. Uma de suas apetitosidades, além do joelho de
porco, era o hiato entre seus dois primeiros dentes incisivos da arcada
dentária superior. Outra apetitosidade sua era ter o mesmo defeito na arcada
dentária inferior. Tinha as pernas tortas também, a bunda faltando um pedaço,
sardas na testa, e olheiras roxas. Um piteuzinho.
Minha cara-metade, meu outro lado da
laranja, tinha domínio intelectual sobre o próprio peido; controlava-o ao extremo,
não apenas retendo-o, mas dando o tom que quisesse a ele. Cunegundes assobiava
com o cu. Eu muito me admirava desse talento nato do meu amorzinho, eu que
consegui ser peidorreiro de ofício.
Mas Cunegundes nunca ganhou a vida com
o cu. E não foi por falta de incentivo. Cheguei a inscrevê-la num concurso
público para primeiro trompete da Banda dos Fuzileiros Navais; ela, porém, em
sua humildade, preferiu ser dona de casa. Mulher admirável, mulher à frente de
seu tempo.
Quem me lê, talvez esteja se perguntando
por que tanto louvo as qualidades de Cunegundes, se ela, por racismo infame,
preferiu ter todos os nossos filhos com outros homens. Ora, mas isso é só um
detalhe, pai é quem cria, diz o ditado popular. E tem mais: Sara, esposa de
Abraão, ordenou que sua escrava Agar se deitasse com ele a fim de poderem ter
uma descendência. Eu, consentindo que minha senhora concebesse nossa prole com
outros homens, livrei-a de qualquer culpa adulterina. É ou não é?
O importante é participar. Necessário é
o amor. Só o amor constrói. “O amor vem por princípio, a ordem por base, o
progresso é que deve vir por fim.”. Não sou eu que o digo, mas Noel Rosa, que
nunca foi corno.
A cornologia, porém, é uma área do
conhecimento humano fundada na Antiguidade junto com a cosmologia, a cosmogonia
e a cornogonia. Filha da agonia, a sabedoria de todo corno é questionada e
posta em xeque por uma frase indubitavelmente duvidosa, que vem a ser esta: “Todo
castigo, para corno, é pouco.”. Eu nunca vi castigo algum, mesmo porque, corno
não sou. Pelo contrário, sou é ovacionado por onde passo: “É ele! Lá vai ele!”.
Debruçando-me sobre questões
cornológicas, reparei, entre outras coisas pitorescas, que há corno que se gaba
de o ser. Normalmente são as mulheres as mais orgulhosas pela galhada que
ostentam, achando virtude no costume do marido de passar o rodo geral.
No pertinente a sexo, existe de um
tudo. Minervino, por exemplo. Minervino broxou, broxou de vez, e nem por um
Viagra via o palhacinho envergar o paletó. Até que sua senhora lhe mandou a
guampa. Minervino, quando a viu galopando sobre a pica de aço do mestre de
obras como se fosse uma obra do mestre Picasso, ficou tesudo, e não pincelou
mais, desde que a coisa fosse feita a três.
O remédio de Minervino era o veneno da
traição.
continua sábado...
"Cagar lo espiritual hasta hacerlo palpable, espiritualizar la mierda hasta hacerla invisible, en eso consiste el arte."
(Glauco Mattoso - Jornal Dobrabil)
"Cagar lo espiritual hasta hacerlo palpable, espiritualizar la mierda hasta hacerla invisible, en eso consiste el arte."
(Glauco Mattoso - Jornal Dobrabil)
Livro: versão impressa

Um comentário :
Estou deslumbrada com a beleza de Cunegundes. Que musa! Kkkkkkk...
Bjo, amigo! 💋
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