sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 2



CAPÍTULO 2

        Tu ainda estás aí, ou te escandalizaste comigo?
        É claro que estás aí! Tu e eu somos a mesma pessoa, ou ainda não percebeste? Eu sou um delírio da tua loucura. Isto aqui nunca foi escrito, tu és que o escreves agora, louco que és.
        Não, isso foi só uma possibilidade. Eu sou eu, tu és tu, e jacaré é um bicho. Faço é chamar atenção para essa apologia da loucura que volta e meia a gente ouve por aí. Fazem vista cega para o evidente: loucura é doença, o que não pode ser algo bom. A loucura é dolorosa, inclusive com dor corporal.
        Loucura só é boa para a farmácia e para o médico, que vive da desgraça alheia, como o advogado. Pronto, aí já comprei briga à toa! Tomara que tu não sejas médico nem advogado, povinho fuleiro esse.
        O cara vai ser médico ou advogado para enricar e ter status. Pode até se iludir envergando o dólmã do idealismo altruísta, mas isso é só vergonha de si mesmo. Salvo raríssimas exceções. Que não é o teu caso, sejas ou não dessas referidas profissões.
        Já profissão que não dá status nem muito dinheiro, mas ajuda nos bastidores é a de engenheiro. Cursei até o terceiro ano de Engenharia, sem reprovar nenhuma cadeira, mas então fui acometido pela loucura, que desgraçou-me por dez anos, até que a dúvida em mim mesmo e um esforço de vontade contínuo e incessante orientado pelo sentido da vida derivado de um raciocínio lógico estabilizou minha suscetibilidade emocional deveras aflorada desde a infância. E o raciocínio lógico está na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.
        Deus existe. Essa é a única certeza absoluta que tenho.
        E eu, existo? Sim, eu existo porque me sinto, e por enquanto. Contudo, minha existência não é uma necessidade lógica do Universo.
        Mas, para ti, eu sou uma necessidade lógica do que estás lendo. Enquanto tu és apenas uma hipótese para mim. Mesmo assim, essa necessidade de haver um autor para o que lês não implica que esse autor tenha de ser eu. Então, o que sou eu? Para tu, que me lês, sou o autor, o autor da hipótese que tu és.
        Então, me diz, como é ser uma hipótese? A hipótese está para o teorema assim como a esperança está para quem espera. De maneira que eu espero. Vida de condenado é esperar. Coisa estranha é o crente ser condenado a esperar, ao passo que o ateu é livre para desesperar.
        Hipótese e teorema têm a ver com escola, pois é: Quem sabe faz, quem não sabe vai dar aula. Lecionei em escola pública, é, pois é. Quem leciona em escola pública deve ter o pudor básico de não reclamar do baixo salário, isso é óbvio, mas o cinismo dos professores e políticos impõe um acordo tácito. Salários altos atrairiam profissionais mais qualificados para o serviço público, mas não dá para pagar bem tanto professor, porque é muita escola, e ainda tem a porcentagem de praxe reservada para os políticos roubarem.
        Ainda tem a degeneração da família para aumentar o problema escolar, e quem está falando isso é um condenado preso. Acontece que, sendo eu inocente, estou preso no lugar de alguém, e esse alguém deve estar por aí todo soltinho feito a Dagmar em seu vestido saco, e arrumando confusão com piston de gafieira.
        Hipótese, gostaste do afresco que pintei do panorama atual? No futuro melhorou? Não, né? Nunca melhora. A Humanidade é ladeira abaixo desde Adão, o by means of natural selection tem algum pé quebrado; não é porque algo acontece que seja a única coisa que aconteça. Se bem que, quanto a nós, ocorrem ciclos de melhora e piora moral, e incremento tecnológico não parece totalmente relacionado a isso. O fato é que hoje está uma merda. Está parecendo o Livro das Lamentações numa interpretação inspirada pelo Apocalipse.
        Pensei em escapar daqui, mas para esse mundinho aí de fora vale a pena? E dessa cadeia aqui ninguém escapa, ninguém nunca escapou pelo menos. É como a vida, só morrendo. Tem preso que se suicida aqui também, como lá fora.
        Tu reparaste que minha letra é muito bem legível mas não é bonita, meu esforço é que seja legível, pois há letras bonitas pouco legíveis. Estou diminuindo ao máximo a letra porque não sei o quanto ainda escreverei nestas paredes.
        Tive calo no dedo médio da mão direita nos primeiros anos de escola por apertar muito o lápis na hora de escrever, minha mão treme. Meu cérebro funciona em conflito, os neurônios das diversas partes se embaralharam e trocaram de lugar. Isso acontece bastante no mundo.
        Mas meu anjo da guarda me ajudava até demais no começo da vida, eu ficava sabendo das coisas antes de as aprender, intuição forte. Logo vi que isso poderia ser perigoso, e passei a podar esse conhecimento prévio das coisas.
        Coisa semelhante ocorreu no ensino médio, mas sem anjo da guarda. Lendo livros em que a gramática e o vocabulário eram melhores que o coloquial de nosso tempo, tive de me corrigir para não falar assim com as pessoas, e escrever também. Em um trabalho de História, a professora perguntou de onde eu o havia copiado. Disse que eram minhas próprias palavras, e ela me orientou a não escrever daquela forma livresca. Ok, agora escrevo o mais coloquialmente possível, ainda que tendo em vista manter a precisão e a durabilidade da mensagem.
        Porém, coitado sou. Ora, estou preso ou não? Só que, após um hiato de tempo infernal, o anjo da guarda resolveu me ajudar de novo. Ele ausentou-se por culpa minha, de mais ninguém. Falo por mim, já disse, o assunto de que posso falar sou eu, mesmo porque não tenho a mínima cultura, e falar dos outros com propriedade é impossível para mim sem difamação ou elogio vão. Mas, quantas vezes mesmo foi que tu deste o cu? Desculpes perguntar; se pergunto, é por ignorância também.
        Sodomia deixou de ser vergonha, alguns até acham inconscientemente que isso seja sinal de refinamento. Mas não devo falar desses alguns, devo ater-me a mim, não é? Agora, tem uma coisa, acho que sodomia é pecado. Talvez porque ser sodomizado me pareça dolorido, e sodomizar me pareça nojento. Caso eu tivesse a mania feia, aí é que está o busílis da questão. Pecaria adoidado... Pois punheta é pecado, e não vivo sem. Que mal há na masturbação? Fumar faz mal, mas não está catalogado no livrão das penitências. Vício é pecado, fumar é vício, logo...
        O vício de rezar é virtude. Como é que ficamos? Cada passarinho conhece o cu que tem. Já vi passarinho comendo pimenta malagueta. Regrar sobre cada detalhe da existência cai no ridículo.
        Mas, religioso sodomita, eu não perdoo. Eles têm mais é que tomar no cu! Ué, o negócio deles não é regular a vida dos outros?
        Estou me apaixonando por mim mesmo. Lá fora, eu amava minha esposa; aqui, minha mão está ficando cada vez mais interessante. Mas não é ela minha paixão, nem paixão é o termo certo. Tenho adquirido intimidade comigo mesmo. Percebi que, mesmo inocente, eu mereço estar preso, e mereço no sentido meritório, não depreciativo. Sei que a prisão normalmente é uma escola do crime, isso para a mente criminosa. Como esse não é o meu caso, acho que até tenho melhorado. Estar isolado dos demais detentos, além de me preservar da contaminação moral, colabora na consciência do meu ser, que estranhamente vivia com menor intensidade livre do que preso. A sensação de liberdade que agora experimento é superior, e estar sendo injustiçado incrementa essa sensação, talvez por eu ser de fé católica, e um castigo sem crime psicologicamente me aproxime do Cristo, o cordeiro inocente que se oferece em holocausto.
        Não quero aqui cometer heresia, nem colher-me numa ideia megalômana, ao me comparar a Cristo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Só estou passando muito de longe pelo que se costuma chamar experiência da cruz. Cada um que pegue sua cruz, e siga-o.

continua sexta-feira...

LIVRO: aqui

3 comentários :

Elyane Lacerdda disse...

Amigo poeta,
entendo sua posição com relação à cruz de cada um...
não somos Cristo de forma alguma,
mas eu acredito que o que temos que passar, não podemos dividir com ninguém,
isso é mais que certo!
Gosto muito de suas ideias!
Bom fds
http://www.elianedelacerda.com

Rapha Barreto disse...

Sempre com belíssimas palavras, que nos prendem a atenção.
Parabéns Marcos!

Ótima semana,
http://mylife-rapha.blogspot.com

A Casa Madeira disse...

Lendo teu texto me veio no pensamento o jornal dessa semana
sobre a santa igreja:
Cada um conhece o c... que tem; mas o
pior é quando aqueles que se consideram santos
desejam o c... dos outros sem permissão.

Agradeço sua visita.
PAZ E BEM.