sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 1

Forte de Monsanto, que, em 1914, deu origem à única prisão
portuguesa de segurança máxima: a Cadeia de Monsanto.

CAPÍTULO 1

        Eu. Essencialmente, é isso. Só posso falar por mim. O assunto sou eu mesmo. Outrem não me diz respeito; a não ser na medida em que interfira em mim; especular sobre impressões alheias então fica basicamente no achismo, mas, o que eu acho, eu digo, e duvidar é direito de qualquer um, inclusive eu de mim mesmo.
        Vai este relato geral e impreciso escrito a mão nas paredes de uma cela de cadeia, por necessidade de comunicação de um preso isolado dos demais, e sem outra alternativa natural ou artificial de receber ou enviar notícia. Se tu estás lendo isso, azar o teu.
        Ou sorte minha. Pensando bem, não. Pensando um pouco melhor, sim. Na verdade, tanto faz. No fim das contas, sou eu comigo mesmo, e tu contigo mesmo desde o debutar da consciência a fazer registros na memória até o encontro com Deus ou com o diabo, sem pai nem mãe nem advogado.
        Prestarei contas no além. Por isso, presto contas a mim mesmo agora e a todo momento. Mas o que estou falando? Estou preso! Já estou prestando contas aos milhões de cidadãos que estão lá fora, mas me sustentando aqui dentro... É. É..., preso deveria trabalhar, né? Bando de vagabundo! Escória da espécie humana! Eu.
        Eu, não. Sou inocente. Quero dizer: Eu não sou inocente, não. Eu sou inocente!
        Essa é só minha opinião, e a respeito de mim mesmo, fato que endossa a outra minha opinião que vem a ser a opinião de que minha opinião não interessa a mais ninguém a não ser a mim, na minha opinião. Tua opinião difere disso? Como poderei saber? No além, tu me diz, se formos para o mesmo destino. Agora, eu estou numa cela; e tu também estás, mas no teu agora, não no meu.
        No teu agora, eu não sei, mas, no meu agora, todos os planetas do sistema solar têm aparecido simultaneamente bem grandes no céu diurno, durante meus sonhos noturnos. Não sei o que isso significa, só sei que sou inocente, e uma coisa não tem nada a ver com a outra senão eu.
        Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. E, quem tiver olhos para ver, não apalpe. Apalpar dá processo... Eu, que nem apalpei, estou preso.
        Hoje, tudo dá processo. A sociedade atual colocou todos os seus sócios uns contra os outros conforme previsto em leis que usurpam qualquer mérito ou ensejo ao bom-senso ou apelo à bondade. Astúcia e malícia respaldadas pela legislação negam qualquer brecha à pureza volitiva e inocência. E eu sou inocente.
        Sou inocente na medida do possível; só posso responder por mim, a maldade na cabeça das pessoas não depende de mim. Se dependesse de mim, eu não estaria preso, nem teu rabo. Por que tu não soltas o rabo? Eu jamais seguraria o rabo, nem o meu nem o de ninguém. Por isso não preciso soltar o rabo. Concordas comigo? Então, solta logo esse rabo!
        Nesse ponto temos de definir os parâmetros que diferenciam um rabo de uma raba, embasados teoricamente na diferenciação entre nabo e naba, que lhes é análoga. Análoga, etimologicamente, de analogia, foneticamente de anal logia, estudo do que é próprio do cu.
        A propósito, quantas vezes mesmo foi que deste o cu? Se não lembras, o franzido já laceou. Se negas tê-lo dado, é porque a negação compõe um dos estágios primários da esquizofrenia sodomita. É, os anos passam, mas o ânus continua o mesmo, guardião da memória pré-consciente da bunda, análoga à do rabo, que se expande consideravelmente na raba, feita para a naba, assim como dogmatiza a anal logia ao estabelecer o rabo para o nabo.
        Isso posto, bunda de cadeia fica passiva de ser passiva. Mas a minha não. Sou inocente.
        Porém, do supra exposto, indaga-se que, se minha bunda não foi passiva, foi ativa?
        Mudar de assunto é uma virtude, afinal obsessão é um vício, e este é mania feia. Mania feia semelhante a dar o cu. Então, quantas vezes mesmo foi que deste o cu?
        Obviamente ficarei sem resposta, estando eu na arqueologia de tua leitura. Mas espero ter aberto tua mente, expandindo teu raio de consciência durante a retração cósmica do teu terceiro olho, em analogia ao fenômeno onírico dos planetas gigantes no céu diurno durante uma apocalíptica retração do próprio sistema solar, se a Terra não for plana e centro da Criação...
        Mas tudo é uma questão de ponto de vista. Eu só posso responder por mim, tenho dito. Na óptica de Isaac Newton, no que a gente vê branco, ele via um arco-íris. Na minha perspectiva, porém, a gravitação celeste dele ficou avacalhada. E, o que eu chamo de azul, tu também o chamas, ainda que possas estar vendo o que eu vejo como amarelo. Daí, concluo novamente que eu só posso falar de mim mesmo. Mesmo que a mistura de azul com amarelo acabe sendo verde para nós dois. Mas verde é a palavra, o que tu vês como verde não é uma certeza absoluta para mim.
        Do que posso ter certeza afinal? Nem da existência dos outros e do Universo posso ter certeza. Tu existes? Pergunta inútil.
        É, mudar de assunto evita a paranoia, entre outros males. E olha que estou falando com uma parede de cadeia. Nem tanto, estou a escrevinhar nela. Mas, se tu não estás lendo, eu estou falando contigo sem que tu jamais o saibas, e tu acabas sendo todos retoricamente, na pessoa de ninguém objetivamente. Chegou a comida.
        Cagando estava a dama mais formosa, escreveu Bocage: Incultas produções da mocidade. Essa livre-associação vem a calhar na minha atual conjuntura. O fato é que a dama mais formosa cagava mesmo, consolo para as feias. Não sou feio, na verdade sou muito bem apessoado, mas minha modéstia me impede de dizer que sou o cavalheiro mais formoso, ainda que o seja. Outrossim, beleza não põe mesa. Logo, pau grande seria melhor. Mesmo porque pau grande ajuda até a pôr a mesa, é o pé de mesa, pois pau é feito de madeira. Se há uma constante universal é pau grande, tanto homem quanto mulher quer ter um.
        Se bem que uma das contradições da catilogência dialética, à luz de Lacan, numa abortagem freudiana, é que o Homem quer uma buceta, e a Mulher quer um caralho. Só siririca e punheta pra dar uma mãozinha nesse problema. Ou não, o que é muito melhor.
        Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Se tu estás lendo isso, é sinal que eu não estou mais aqui. Mas tu estás. Dizer o óbvio é melhor do que mentir. Não minto, sou inocente.
        A mentira pôs tudo a perder no mundo, junto com crer na mentira, por descrer da verdade. Às vezes a coisa é tão óbvia, que neguinho duvida. A dúvida e a curiosidade são duas gêmeas siamesas unidas pelo útero que pariram a Ciência.
        Ciência é sabença, não é sabedoria. Eu mesmo não duvido que tu podes estar duvidando da palavra de um condenado, nisso sou sábio, e tenho ciência. Mas apenas nisso, e pressupondo que estejas lendo o que escrevo. Nada palpável, e é bom não apalpar. Dá processo.
        Dá processo se alguém não gostar. Se gostar, não dá. Ou melhor, aí é que pode dar. Bem antigamente não havia esse problema; ninguém apalpava, era tudo na castidade muita, e funcionava pelo menos melhor que hoje. Contudo, dizer isso é implorar pela pecha de reacionário. Reacionário é palavrão, conservador é melhor. Aliás, conservador evita a gênese do reacionário, pois vai conservando de modo a não haver a necessidade de se reacionar.

continua sexta-feira...

LIVRO: aqui

4 comentários :

Meri Pellens disse...

Começando a leitura dessa nova história, ou melhor, uma espécie de diário escrito na parde, haja parede rs... Me fez lembrar O conde de Monte Cristo.
Bjo 💋 e abençoado fim de semana!

Meri Pellens disse...

Parede*

Elyane Lacerdda disse...

Achei super interessante, meu amigo!
Vc é muito criativo e gosto demais de sua escrita!
Bjos e bom fds
www.elianedelacerda.com


Rapha Barreto disse...

Sempre me surpreendendo com as palavras Marcos.
Parabéns Marcos!

Abraço e ótima semana
http://mylife-rapha.blogspot.com