sábado, 29 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 28



Capítulo 28

         Movimento é insatisfação. Calor é movimento, mas não é insatisfação. Vento é movimento, mas não é insatisfação.
         Contudo, se no frio ligamos o aquecedor, o calor resultante é consequência da insatisfação. E se no calor ligamos o ventilador, o vento por ele produzido é resultado da nossa insatisfação.
         Para que o movimento seja causado pela insatisfação, é necessário haver um eu, ainda que seja o eu de um inseto. O inseto mexendo a perninha, está lá a insatisfação.
         Sogra é insatisfação. Dizem. Tive a sorte de não ter sogra, minha senhora nasceu de uma ostra gigante. Isso já dá ideia para muita gente querer ensaiar um movimento de transformar a sogra em ostra. Porém, como disse Dicró, eu amo a sogra da minha mulher.
         Justiça seja feita. Há sogras que vêm para bem. Tenho visto sogras criando os netos, e tenho visto noras que parecem... E genros que seriam...
         Será que minha insatisfação está me movendo a escrever? Então estaria eu agora transmitindo insatisfação? Fui satisfeito no casamento, mas a insatisfação da viuvez causa este movimento. E você que me lê, está insatisfeito?
         A idade pesa. Gera insatisfação. E até mover-se na velhice é insatisfatório. Resulta que estou no cu do Saci, por estar no fim do pito.
         Terei uma boa morte, estou tranquilo quanto a isso. O que me instiga a escrever é a vontade de transmitir a outra criatura um pouco do que vivi, o que é bem diferente de transmitir a outra criatura o legado de nossa miséria. Mesmo porque tive vinte e cinco filhos, teria transmitido o legado de nossa miséria adoidado. Só que sou otimista.
         O otimismo tende a ser bastante procriativo. Não. Obviamente não. Padres e freiras são excelentes no otimismo, escatologicamente falando. E olha que eu falo como se a boca fosse o cu. Se tem tanta gente falando merda e sendo ouvida, por que não posso também?
         Não insinuo que esteja eu fazendo teu ouvido de penico, mesmo porque tu estás lendo. Mas, se fores cego e estejas ouvindo tudo isso, o que te move é a severa insatisfação do legado de nossa miséria. Mas, se estiveres lendo, a mesma insatisfação vale para ti. Ou não?
         Nunca se sabe, dizia um amigo meu, mas o dizia em qualquer situação, o que induzia-me a crer que ele fosse retardado. Acontece que ele tinha razão, nunca se sabe. Levei anos para verificar a sabença do meu amigo, sua agudeza de discernimento sapiencial em tão incipiente idade, pois ele já falava isso aos doze anos de idade. Na Física, o nunca se sabe é o princípio da incerteza; e, na Filosofia, Descartes também duvidava sempre. É ou não é?
         Não sei. Nunca se sabe.
         O que dizer então do que não se sabe mesmo? Tem coisa no conhecimento que a gente nem supõe que desconhece. A bem da verdade, em geral, é melhor desconhecer. O necessário já nos foi revelado desde Adão e Eva. Mas resolveram ter curiosidade..., olha no que deu.

continua sábado...



4 comentários :

Meri Pellens disse...

Kkkk.. Nem Adão e Eva escaparam da tua história kkkk.. "olha no que deu", adorei kkkk...
Feliz ano novo!
Bjo 💋

Ulisses de Carvalho disse...

curioso, estava lendo o teu texto aqui sentado bem em frente ao ventilador (nessas horas de calores da porra eu sempre penso que essa foi a melhor invenção do homi, o ventilador!, tão bom pra refrescar as partes, néam?). há boas perguntas aí no teu texto, fiquei imaginando quais seriam as respostas que tu mesmo te darias - tipo tu na frente de um espelho falando contigo mesmo. português sempre afiadinho, dá gosto! :) abraço.

Raphaela Barreto disse...

Adorei o capítulo e o bem de verdade é que nós estamos sempre insatisfeitos com alguma coisa, seja o tempo, as nuvens, o sapato, ou até mesmo o ar. Eeeeh natureza humana.

Raphaela Barreto disse...

Feliz 2019,

Ótima semana
http://mylife-rapha.blogspot.com