sábado, 1 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 24



Capítulo 24

         Enfim, o capítulo 24, no jogo do bicho: veado.
         Vejo-me na contingência de defender a causa veadista, combatendo com unhas e dentes, giletes e navalhas, a malévola homofobia.
         O veado está lá quietinho; de repente vem a homofobia, e créu. Assim não pode, assim não dá. Temos de respeitar o veado, bem como os demais integrantes do jogo do bicho, senão onde vai parar nosso folclore? Respeitem a cultura. Já pensou se um dia desses sai veado no milhar? Bem feito ao puto homofóbico que não joga no 24 nem por um caralho!
         Chinedo, bebum e veado acontece nas melhores famílias. Na minha, não. Talvez porque não seja das melhores famílias. O que importa é o amor.
         Uma das coisas mais melancólicas deste mundo deve ser veado com hemorroida. Isso é só um supositório. No campo especulativo, a Antropologia sugere que o homem seja o centro de tudo, antropocentrismo. Antropocêntrico é quem olha para o próprio umbigo, veado é quem olha para o próprio, não. Nem contorcionista. Quem sabe se não vem dessa limitação a sua curiosidade, seu hábito de ficar futricando lá...
         Se pudibunda não é uma palavra pudibunda, gay é uma palavra gay ao extremo; já viu um gay falando gay? Agora, todos hão de concordar que, para aguentar o que veado aguenta, tem que ser muito macho. Foi Millôr Fernandes que disse, na orelha do livro Jornal Dobrabil, que Glauco Mattoso não é gay, é homossexual, coisa pra macho. Realmente, o grande poeta de nosso tempo não dá a menor pinta, é sisudo e fala grosso. Mas lambeu meu pé. Foi a situação mais homossexual em que me vi metido desde a viagem de caravela. Senti-me praticamente enrabado. Mas decepcionei o amigo quando ele me perguntou se eu tinha experimentado naquela ocasião uma sensação de poder sobre ele. Eu disse que não, que só estava querendo agradá-lo. Foi o oposto do que ele queria.
         Uma coisa carece ser dita: homem é homem, mulher é mulher, sapatão é sapatão, veado é veado, e travesti é travesti. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
         Essa última frase, propiciou-me a conhecê-la Cunegundes, ao me apresentar à cultura futebolística. Joguei muito futebol quando moleque, mas só assistia a jogo da seleção. Depois do casamento, eu queria ver a novela, mas Cunegundes, com o controle-remoto na mão, punha no futebol e nos programas acerca de futebol. Hoje assisto ao futebol pela TV, pela Internet, e, quando não tem outro jeito, sintonizo meu radinho de pilha.
         Radinho de pilha lembra-me Júnior, figura cômica. Carioca de Madureira, com o qual tive o privilégio de trabalhar. Ele torcia para o Flamengo, eu torcia para o Vasco, da Gama e de minha senhora. Chegava segunda-feira, e era Juninho me sacaneando se o Vasco perdia do Flamengo, ou eu o sacaneando quando do contrário. Mas, um dia, o Flamengo perdeu não sei de que time, mas perdeu de lavada; como diz uma amiga portuguesa: foi uma cabazada de gols. Cheguei no serviço zoando muito o colega flamenguista, ao que ele ponderou na maior naturalidade: “É, pelo menos eu não fico grudado num radinho de pilha, ouvindo jogo dos outros...”.

continua sábado...


P.S.: Já andei de Mercedes, quando era caminhoneiro.

4 comentários :

Elyane Lacerdda disse...

Amei esse conto,amigo escritor!
Vc me mata de rir....
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
eu tbm não tenho esse dom,
gostaria de tê-lo!!!!!!!!
bjos no coração!
http://www.elianedelacerda.com

Rapha Barreto disse...

Sempre me deixa sem palavras com seus textos.

Adorei a parte do veado e olha que o gay tem que ser macho mesmo kkkkk.

Abraço e ótima semana
http://mylife-rapha.blogspot.com

Ulisses de Carvalho disse...

Gosto desse teu humor, essa tua ironia, essa acidez. Eu poderia comentar algumas coisas sobre várias das coisas ditas aí, mas nesse momento vou me ater ao Glauco, já que ele foi citado aí no teu texto e eu gosto muito dele (inclusive eu já havia percebido, em uma outra vez em que eu havia passado aqui no teu blog, uma influência dele nos teus escritos). Não costumo ler sonetos, prefiro o verso livre (inclusive o próprio Glauco disse algo que eu gosto muito: "a poesia atual incorpora diversas conquistas: uma delas é a liberdade de escolha entre o verso livre e o molde fixo, rimado, como o soneto, antigamente não havia escolha, 'sonetava-se' por obrigação"). Mas dos sonetos do Glauco eu gosto muito. E sim, ele "não dá pinta e fala grosso", escreveu aquelas coisas todas, entretanto é um cara delicado e muito generoso (ele mesmo me deu vários dos livros escritos por ele e isso é algo que eu nunca vou esquecer, afinal, que outro grande poeta/escritor faz esse tipo de coisa?). Grande Glauco! Um abraço, Marcos.

Meri Pellens disse...

Vendo aqui uns capítulos passados, aos poucos vou vendo tudo. Mas cá fiquei intrigada mesmo foi com o título da história Kkkkk... Pobre veado, até no jogo do bicho sofre com a homofobia rs..
Bjo, amigo! 💋