sábado, 13 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 17

Cronotransporte-se para 1933: Link


Capítulo 17

         Logo que chegamos à Terra de Santa Cruz só não fomos canibalizados porque mostramos covardia, e porque o Bispo Sardinha parecia mais gostoso. Cunegundes e eu saímos em excursão pelo Novo Mundo desprevenidos dos perigos que corríamos. Estávamos corados, o que nos aproximava um pouco da cor dos nativos, mas isso só fez aumentar-lhes a gula quando nos capturaram em Pernambuco.
         Comecei a peidar desesperadamente. Quase alcei voo, ao que mais me contorci a fim de escapar por via aérea. Cunegundes, porém, agarrou meu pênis, que foi esticando..., esticando... Achei bom até o ponto em que, feito um elástico, ele se contraiu e me estatelou no terreno. Borrei-me, esparramei bosta por todo canto. Os índios não gostaram. Cobri a cabeça esperando o pior. Quando elevei o olhar, tinham sumido. Cunegundes riu, e descobriu o valor da covardia.
         Corajoso foi o Bispo Sardinha, que acabou no espeto. Mas, dependendo da situação, há total prudência em ter coragem; no martírio, por exemplo. O que parece, mas não foi o caso do Bispo Sardinha, que enfrentou os índios com ameaças em causa própria. Sei lá se foi injustiça eu ter me livrado por peidar e cagar em causa própria, agi sem pensar, e, pensando nisso, chego à conclusão de que a Providência Divina foi generosa comigo, e meu patrão acertou na mosca ao dizer que não era para se pensar. Tem coisa que vai no automático.
         Rotina vai no automático, se você for parar para pensar, aí sífu. E bastante mífu durante minha vida de empregado, num desemprego intermitente de dar agonia em motorista de ambulância. Sentiu a perspicácia da colocação? Motorista de ambulância, que já viu tudo que é medonho. E o pisca-pisca da sirene. Não. Foi mal. Foi péssimo.
         Se eu soubesse que era fácil assim escapar da morte iminente... “Se eu soubesse que a saudade não se esquece nem querendo, não deixava essa amizade para não ficar sofrendo.” — Noel Rosa, às vezes é inevitável. Tá aí outra unanimidade: Noël de Medeiros Rosa. Unanimidade é boceta e Noel Rosa.
         Concentremo-nos na boceta. Quem tem uma, cuida. Quem não tem, vive correndo atrás. Ou não. O homem sai dali, e passa a vida querendo entrar numa de novo. Se bem que esse costume está saindo de moda.
         Eu, por exemplo. Depois que enviuvei... nunca mais vi a cor. Hambúrguer te lembra alguma coisa? Porra, o hambúrguer é tão favorecido pelo gosto e bom gosto popular por quê? Porque hambúrguer tem cheiro de xoxota! Ou não. Aí depende do asseio.
         Asseio, entretanto, é pressuposto para tudo. Se você não toma banho todos os dias, voltou para a Idade Média.
         Ah, Idade Média, pelo menos havia ordem naquele tempo... e mais fedor... e amputação sem anestesia, e cauterização a força de azeite fervendo.
         Concentremo-nos em Noel Rosa, melhor assim. O Poeta da Vila seria um vilão naquela época? O Filósofo do Samba talvez e muito certamente seria o autor de cantigas de escárnio e maldizer. Toca Noel...

Filme: como era gostoso o meu francês

continua sábado...


3 comentários :

www.elianedelacerda.com disse...

Amei esse post!
"Ah, Idade Média, pelo menos havia ordem naquele tempo... e mais fedor... e amputação sem anestesia, e cauterização a força de azeite fervendo.
Concentremo-nos em Noel Rosa, melhor assim. O Poeta da Vila seria um vilão naquela época? O Filósofo do Samba talvez e muito certamente seria o autor de cantigas de escárnio e maldizer. Toca Noel..."
Show demais esse seu comentário!
A sociedade não tem piedade alguma!
Boa semana ,amigo poeta!
Que venham muitos "Noel"...
Onde estão?...
http://www.elianedelacerda.com

A.J. Cardiais disse...

Amei seu texto, Marcos. Ri bastante. Abraços

www.elianedelacerda.com disse...

Aguardando capítulo 18,amigo!
Avise´me qdo postar!
http://www.elianedelacerda.com