sábado, 8 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 12



Capítulo 12

         Se tu comes, tu cagas; se tu cagas, tu peidas; logo, se tu comes, tu peidas. Assim, todos peidam, pois todos comem. Esse raciocínio consolou-me antes de conhecer Cunegundes; eu peidava muito, como continuo peidando por força do ofício, mas nos meus primórdios eu achava que peidar era defeito.
         Dos lugares menos extravagantes em que vivi antes da Antiguidade, na minha pré-história, a Ilha do Governador foi o mais normal, lá fiz muitas amizades. Foi um amigo daquela ilha que induziu-me ao raciocínio supra citado acima no parágrafo anterior. Num momento de filosofias de recreio escolar, ele levou o dedo indicador ao queixo, semicerrou os olhos, e disse: “Quem caga mais emagrece; quem come mais caga mais; logo, quem come mais emagrece.”. Confesso que, não entendi meu amigo, mas no dia seguinte formulei o raciocínio do peido.
         Havia no Rio de Janeiro, onde fica a referida ilha, a Zona do Peido Livre, imaginem. Nas imediações do cais do porto, um lugar em que peido algum superava a brisa do mar. Ali eu me sentia à vontade.
         Mas sou contra o despejo de esgoto no mar e nos rios principalmente. A civilização é contraditória desde o começo, se formos levar em conta Adão e Eva, Caim e Abel, Sara e Agar... Já, sem levá-los em conta, a civilização também é contraditória à partir de certo ponto lá nas origens. Os índios viviam em harmonia com a Natureza, e no entanto faziam guerra e comiam-se uns aos outros.
         “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”. É bem melhor. E para se fazer isso o povo tem se matado há séculos, e compartilhado esgoto e lixo. Meu filho José tem razão?
         José é um vagabundo. Se a Humanidade fosse constituída só de seus semelhantes, iria ser um bando de Zé; iria implodir-se; viria a barbárie. Nessa altura do campeonato, se a gente negar o problema e cruzar os braços, aí fudeu.
         Viria a barbárie porque, se o Filho de Deus teve de dizer que nos amássemos, quer dizer que o amor é custoso aos viventes, homens de pouca fé.
         Até em nome da fé conseguimos nos odiar; em nome da fé ou da inexistência dela. Bom-senso nunca é demais, porém mesmo em congregações de mesma fé o ser humano consegue fazer maldade, querendo-me parecer que a teoria do pecado original é positiva, sendo negativa obviamente; é negativa porque o pecado é mau, mas é positiva no sentido positivista da coisa. Se, por Eva o pecado entrou no mundo, por Maria entrou o Redentor, que morreu por nossos pecados, o que indica que os pecados continuariam a fim de separar o joio do trigo, produzindo santidade até a volta de Cristo.
         Bom-senso nunca é demais, tenho dito. Fé é um fenômeno só encontrado no bicho homem, os outros bichos não têm fé; de modo que não podemos igualar o ser humano aos outros seres do planeta. Bitolar na fé, porém, prejudica como as outras bitolações. Muita penitência faz mal a si e aos outros, até aí o pecado entra, por meio do sadismo, do masoquismo, pela soberba em esquecer que Cristo já fez o sacrifício perfeito por remissão de nossos pecados.
         Enfim: fé de mais fede menos, fé de menos fede mais.

continua sábado...

Um comentário :

Raphaela Barreto disse...

Gostei do começo sobre o peido, tem muita gente bitolada nisso e é algo tão normal.

Ótimo final de semana e abraços,
http://mylife-rapha.blogspot.com