sábado, 28 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 6



Capítulo 6

         Sou católico, já disse. Não tenho pudor em professar minha fé; nesse ponto, cada um com seu cada um. Ainda mais hodiernamente falando.
         Por alguns anos, gostei de assistir à missa na Catedral de São Paulo; ia só, Cunegundes era luterana. A missa que eu gostava mais era a das seis horas da manhã de domingo, tinha um canto solene, diferente dessas canções toscas de igreja no geral, salvo Padre Zezinho e quejandos. Parece que era um seminarista ou diácono que cantava, voz grossa e empostada, mas não cantava em latim, era em português mesmo, só que de um jeito tão classudo que parecia latim. Diriam que era programa de índio, seis horas da manhã de domingo, fora a hora em que eu devia acordar para chegar à Sé, longe pra dedéu da Caixa-Prego onde eu morava. Mais programa de índio foi quando, num dos meus inúmeros períodos de desemprego, resolvi pernoitar na escadaria da Catedral a modo de experiência. Eu tinha de testar se minha verdadeira vocação era para mendigo. Mendigo é assim: tem o mendigo raiz, magro, barbudo, corintiano-maloqueiro-e-sofredor; já o mendigo magnata tem até conta no banco, só falta ganhar esmola passando cartão; dá para fazer carreira na profissão de mendigo, mas abdiquei do ofício por motivos de força maior. Uma noite na escadaria da Sé bastou para me convencer de que nem para mendigo eu prestava. Contudo, fui otimista e notei que um poeta sanitarista já é uma espécie de mendigo; sentiu a perspicácia da colocação? Nem eu.
         O mundo é uma bola, e seixo que não rola cria limo. Consequentemente, inconstitucionalissimamente ou não, tem gente que deita e rola nesse mundão aberto e sem porteira. Andando sempre em linha reta, e persistindo, resulta que não saímos do lugar nem andamos em linha reta, o mundo é uma bola. Pior notícia é que, se sairmos do planeta em ziguezague aleatório, não conseguiremos sair do universo em que estamos; e, se sairmos em linha reta, voltamos ao ponto de partida. O universo não tem saída! Por enquanto.
         A Ciência faz-me rir, uma hora diz isso, depois aquilo; vive a se desmentir. Dá para confiar na Ciência? Eu não dou.
         Farei uma pausa agora para ver o jogo do Corinthians, conto o resultado na linha de baixo.
         Olha, não é sacanagem minha. Meu televisor não capta o canal pago em que o jogo está passando, no meu televisor está passando Vasco x Cruzeiro. Até nisso a Cunegundes faz falta, fazia uma gambiarra como ninguém! Torço para o Vasco no Rio de Janeiro, onde morei; mas o campeonato Brasileirão 2018 está no início, então deixa pra lá.
         Agora lembrei-me de uma curiosidade, nunca enchi bola alguma com peido, lacuna em minha carreira; mas, quem já o fez, que se manifeste.

continua sábado...

Um comentário :

Raphaela Barreto disse...

Olha a Cunegundes ai novamente, adoro quando aparece.
Adorei esse capítulo também.
Já ouviu falar do Wattpad? É uma plataforma de publicação - estou publicando meu livro lá e adorando os resultados.


Abraço e ótimo final de semana
http://mylife-rapha.blogspot.com