sábado, 7 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 3



Capítulo 3

         Tudo bem que a gente só não tem tempo de fazer o que não quer fazer, mas... Há sempre um mas em se tratando de justificativa. Ocorre que nenhuma escola ou faculdade iria esclarecer as idiotices fundamentais do conhecimento e da ignorância que tanto me motivavam a trocar de emprego por incompetência e desatenção no uso de minhas atribuições legais, mas que me pareciam um saco. Aliás, aprendi na escola que a Terra é uma bola; agora, o supositório da possibilidade estatística pertinente à suposição de a Terra ser duas bolas? A escola não atentou a isso, nem a Astronomia. Pensando bem, a Astronomia passou raspando na resposta, pois Terra e Lua são meio que duas bolas se gravitando mutuamente. Mas não. A resposta a esse enigma da cosmogonia quem me deu foi meu filho José, justo ele... Se a Terra fossem duas bolas, seria um saco. E pelo enfado, o grande saco da existência neste planeta água, acho que o dueto Terra e Lua cumpre bem o papel de duas bolas constituindo o saco cósmico e metafórico do existencialismo ateu.
         Porém, eu sou católico. É. Por quê? Não pode não? Tô fora de moda mas sou bonito. Pior é estar na moda mas ser feio. De maneira que uma inculcação que ocupa meu pensamento abissal é: E se eu peidar de susto quando Cristo voltar? Será que na volta do meu salvador todos os cus se fecharão automaticamente devido ao flato de que ninguém precisará cagar na Eternidade? Então não comeremos no Paraíso? Mas as bocas devem necessariamente permanecer abertas a fim de entoarmos hinos incessantes. Pode ser que seja chato assim. Contudo, diante da Graça só quereremos a própria Graça sem razão para outro movimento, pois, quando nos movemos, é sinal que precisamos, ao passo que na presença de Deus a felicidade total prescindirá de movimento. Um porre, não acha? Portanto, tomara que os cus permaneçam abertos. Essas coisas ocupam o pensamento abissal.
         Nota-se que São Tomás de Aquino mesmo não seria professor para mim, eu seria expulso na primeira aula. Mas gostei demais do que ele deixou escrito.
         Melhor encontrar a monotonia no Paraíso do que encontrar a animação do Inferno. Já vejo com bons olhos o Purgatório, talvez seja um meio termo. Especulações à parte, vem, Senhor Jesus!
         E tratemos de ir ficando pianinhos...
         Ir ficando? Isso também ocupa o pensamento abissal. Se é para ir, não é para ficar; se é para ficar, não é para ir. “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”. Quer saber, eu teria me casado com a Eugênia que Brás Cubas esqueceu na Tijuca.
         Mas não conheci Eugênia, nem Virgília, nem Eulália; conheci Cunegundes, o que foi superlativamente melhor. Olha eu puxando o saco de minha senhora mesmo depois de morta... Vai que ela volte, ou volte que ela vai puxar meu pé de noite? Nada disso; tudo se encaminha para o bem no melhor dos mundos possíveis. Voltaire estava errado, o Pangloss superou seu criador?
         Não sei, só sei que estou um pouco petulante no tom, e isso não é de bom tom. Outrossim, o trocadilho é retórica rasteira.

continua sábado

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