CAPÍTULO VII
(DA SERVIDÃO
HUMANA)
Sobre
a linha do trem, a solitária esperança do partir e as —mais numerosas— objetividades da pedra,
do pau e do aço. Sobre a linha do
trem, o caminhar do engenho pelos tempos,
a segurança de civilidade,
um rumo a entreter a existência,
a possibilidade do suicídio...
Ele toca a
flautinha de bambu andando na carreira do trem. Cabelo pixaim caído de
lado, ainda possuía a centelha que, com a idade,
das pupilas vai sumindo. Queria
ser artista! artista! e militar por algo que entendesse justo! e isso! e aquilo!
e fazer aquilo outro... que
acabou nem fazendo o mínimo para seu próprio bem-estar.
Havendo
sido ele cagado —é da mitologia brasileira crer que pessoas muito feias não são
nascidas, porém cagadas; certamente por isso o povo do sul prefira dizer obrar em vez de cagar ou
defecar. Então, por caridoso
eufemismo, havendo ele
sido obrado no Planalto Central, quis ser artista, desceu às
Gerais, e se acabou num entorpecente anonimato a esculpir
pedra-sabão em Ouro Preto, a antiga e decadente capital. Arranjava-se com menos
do que mendiga a subsistência, às
vezes até envergava o
dólmã encurvado da indigência, e
se o mal cheiro e a compleição física lhe sentenciassem a condição de
desvalido, a cabeça mantinha-se dura e a altivez era a
altivez surreal dos idealistas. Ingênuos idealistas, são bons na proporção
direta em que tentam ir além do que exige
o trato social, e na medida
inversa da ojeriza que
inspiram por suas ações insociáveis. Mas envelhecido, despojado de idealismo,
restou o humano orgulho e vaidade, ainda que a arrogância já era banida pelo
mesmo malho que ensina as vantagens do ferro doce sobre a rigidez do
aço. Idem, jamais veio a tentar-lhe a
malícia, que é navalha para cortar os outros, mas entre os demais não distingue
a carne de quem a manipula.
Assim,
intrometendo-se nas repúblicas estudantis e freqüentando as rodas da boêmia,
rejeitava enturmar-se com a "ralé da feira de artesanato" --nem por
isso deixou de ser mais miserável que o mais miserável deles.
Julgava-se discípulo de uma arte
superior, preferindo vender suas obras apenas para amigos. E haja
mecenas que o sustentassem!
Breve
foi vetado, pela desconfiança ancestral dos que crêem ter muito a perder, na quase totalidade das
repúblicas, inclusive na dita em
que duma feita teve a certeza de
amizades sinceras, e na cuja que deve aos
seus préstimos artísticos a
tabuleta de entrada mais vistosa da cidade.
Naquela noite clara de lua cheia, ele passava em frente à tabuleta:
—Vocês
envernizaram ela? —pergunta com a voz trêmula de costume.
—Não.
—responde secamente o republicano.
—É
que de repente vi um certo brilho,
assim... —persiste, com ademanes, suplicando diálogo. —Sabe quem fez esta
placa? Fui eu.
Era
de se esperar que fosse convidado para beber algo, como mandava o costume. Mas...
—Parabéns! —exclama o estudante em tom de burla, ante ao
maltrapilho.
As
experiências de vida são as mais
custosas; a cada geração têm de ser ratificadas, e são pagas com a própria carne. E aquele que
tendo vivenciado equivalente humilhação,
foi tratar seu reumatismo crônico numa aldeia campesina
ao norte da Sibéria e absteve-se de alguma
vez amaldiçoar o dia em que
nasceu, aquele nunca existiu.
(Trecho do livro Enredo do Mundo. Esta
passagem foi escrita por mim em 1995, quando presenciei meu amigo Ismael
Marcelino sofrer tal humilhação. Eu estava à janela do sobrado da esquina entre a Rua
dos Paulistas e a Rua Camilo de Brito, no qual funcionava a pensão de Dona Arlete, em Ouro Preto. Percebendo a
hostilidade com que ele fora tratado, saí da janela para que ele não me visse,
e sua tristeza não fosse ainda maior devido à presença de uma testemunha.)
J'AI FAIM!
Quando eu era
estudante secundário (ensino médio, rapeize) na grande capital paulista, eu
tinha a ingenuidade de não saber nada e pensar que sabia tudo, ou quase tudo.
Eu sabia que,
sabendo ler e sabendo as quatro operações matemáticas, eu poderia aprender
qualquer coisa por conta própria, sendo auto-didata: então o essencial eu já
sabia. Ah, e sabia também que Isaac Newton criara o Céu e a Terra.
Eu cabulava aula no
Sebo do Messias, uma enorme loja de livros usados do centro velho paulistano.
Apesar de os livros serem muito baratos, só às vezes eu comprava algum; via de
regra, eu ficava a manhã inteira lendo lá mesmo até dar a hora de volver a
casa, onde minha avó esperava o estudante exemplar que acordava às 5:30h da
alvorada, e ia a pé da Rua Frei Rolim, na Saúde, até a Estação Santa Cruz em
Vila Mariana, todos os dias sem falta. Eu respeitava a velha. Quando meu pai
foi aprovado na 4ªsérie, minha avó lhe fez um exame com toda a matéria do ano,
no qual ele não passou; aí, ela matriculou o coitado de novo na 4ªsérie; foi
escutando essa história que eu tive a primeira noção do conceito de: FODER-SE.
Não sei como é
hoje, mas, naquela década de 90, os professores apenas regorgitavam o que
estava nos livros didáticos; já disse que sabia ler, então, lia em casa, e ia
ao sebo ler outras coisas: ora, eu só tinha 16 anos e queria saber como era o
Mundo antes de ter a idade suficiente para tal propósito.
Um dos livros que
manusiei intitulava-se "J'ai faim!" - "Eu tenho fome!" -
não tive vontade de ler, comia bem em casa de vovó, mas isso nunca mais me saiu
da cabeça.
Em 1994, ingressei
no curso de Astronomia da UFRJ, e logo em seguida parti para Ouro Preto, a fim
de estudar Engenharia de Minas, por sugestão de minha sábia irmã.
Passei 45 dias numa
república federal da UFOP comendo somente pão-com-manteiga e café puro, até
conseguir emprego nos refeitórios da universidade, onde o salário era a
refeição.
Em geral, a fauna republicana
gastava o dinheiro que seus responsáveis lhes mandavam com coisas fúteis e
pouco estudo.
Freqüentava a
república um escultor de nome Frank: mulato de olho azul e magérrimo, cheirava
mal por falta de banho. Logo descobri que seu nome verdadeiro era Ismael Marcelino, natural
de Anápolis, uma cidade de Goiás, e que tinha olhos azuis porque sua mãe também
os tinha, sendo alvíssima, enquanto seu pai era um afro-descendente do tipo
creoullo tição. Chamavam-no de Frank porque o achavam deveras feio.
Desde que soube seu
verdadeiro nome, eu só chamava-o por Ismael, e ele sempre queria conversar
comigo porque eu tenho a pachorra de ouvir as pessoas - que nem puta de cabaré
-, ao passo que os republicanos já tinham começado a menosprezar o Ismael
depois que se cansaram de sua figura cadavérica.
Até que, numa
noite, eu fiquei trancado para fora da república, e ninguém quis abrir a porta.
Ismael estava comigo, e me ofereceu abrigo na sua casa. Chegando lá, não havia
móveis na casa, só um sofá, um fogão e um guarda-comida, em que encontramos um
pouco de farinha de mandioca e um único ovo. Como nós não tínhamos jantado, ele
fez o ovo mexido com a farinha e colocou em dois pratos rasos, pouquíssima
comida. Para minha surpresa, Ismael ainda me deu o prato com mais comida.
Passados alguns
meses, eu voltava da aula quando encontrei o Ismael sentadinho todo encolhido
na soleira duma farmácia. Nós conversamos amenidades, disse-me que estava
tomando um pouco de sol...
Só hoje eu percebo.
Careceram se passar 15 anos de ingenuidade para eu perceber: Ismael estava
doente, na porta da farmácia em postura mendicante, mas sua hombridade lhe
embargava a voz para dizer: "Amigo, me ajude com a conta do remédio?" ou talvez
"J'ai faim!".
Nhandeara, 10 de março de 2010
Marcos Satoru Kawanami
5 comentários :
Puxa que bacana adorei te ler.
Prazer em conhecer.
Janicce.
Isto é o que se chama grande escrita! Muita categoria bem doseada de ironia. A ironia da vida, no fundo.
Fogo! Essa insensibilidade de que "as pessoas feias não são nascidas mas cagadas" é bem dura! :-)
E a malícia é uma característica dos que não são idealistas, mas que se acham superiormente inteligentes.
Aaah o estudante exemplar que acordava tão cedo mas que se baldava à escola por mais altos valores. E a tua avó não era para brincadeiras; teu pai que o diga, ao ter que ser matriculado novamente na 4ª série!
"J'ai Faim "..."a fauna republicana"...Tudo muito bom!
E esse teu amigo, Ismael, que embora pudesse cheirar mal, era um amor de pessoa.
Gostei muito, Marcos.
xx
há uns anos, fiz uma viagem a essa região de cidades históricas de MG.
Fiquei maravilhada com a arte até no céu daquelas cidades, amei!
parabéns pelo post muito informativo!!!!
Bjus
http://www.elianedelacerda.com
Ótimos, deliciosos textos! Vou baixar o filme e assistir sobre a vida de Aleijadinho. Abraços, Marcos.
✿⊱·.
Ótimo fim de semana!
Beijinhos..·°هჱ
❤ه° ·.
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