VEREDITO AO DISCURSO
Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu
De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?
E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.
Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;
Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!
Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!
—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido
Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?
Marcos Satoru Kawanami
.
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sábado, 3 de outubro de 2009
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14 comentários :
Adorei esses versos!
Palavras, enfim, de nada servem. Por isso, nos servem tanto...
Marcos, o moço da redondilha.
"De que me és de proveito
Folha chata de papel?"
Vc não imagina como isso me fez refletir!
Escreves mto bem!
ps: se era serenata? Talvez... uma serenata para corações que necessitavam de um toque (:
Para mim, as palavras ao léu na folha chata de papel têm todo o direito de serem o que quiserem. Por isso, fazem todo sentido de qualquer efeito, hehe =)!
Gostei, Marcos. Abraços!
as palavras me redimem. ah, e me entregam. os inquisidores são cruéis, mas eu não ligo: tenho olhos furta-cor que quando jogados ao mar, absorvem toda sua cor e fúria.
um beijo.
p.s.: por que será que o blogger não atualiza as memórias da lira velha?
A folha chata de papel me faz querer ser maior!
Tem tantos proveitos....folha chata de papel...como é bom brincar com os diversos significados de uma palavra. Vc faz isso bem. beijo.
A folha chata de papel
ajuda a organizar (parte do) caos
(que, organizado,
deixa de ser caos, não?).
(Blá blá blá...)
Muito bom, Marcos! Parabéns pelo texto.
Bjo, e paz.
Afinal é de palvras que vive o homem, e é no papel que elas ficam..
Um beijo.
Não é Falcão, mas é bom, também! rs.
"Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra"
Chico Buarque.
Eu amooo minha folha de papeel...
Só que ás vezes a escrita não acompanha o pensamento, ai eu empaco... è uma coisa tão estranha que eu me identifico, estranha como sou.
99% do discurso escrito nimguém presta verdadeiramente atenção, melhor é o improviso, é mais vivo é sincero.
Inté
sou uma escritora com medo das palavras, sério. Nós brigamos o tempo todo e quando elas não ganham, fogem. Luta injusta essa.
beijas
Sun,
e eu não tenho vocação pra escrever, sempre fui lacônico; exemplo: este Veredito ao Discurso, eu o escrevi em 1994, ao 18 anos de idade, propondo que escrever não valia nada, mas já tô com 33 e escrevo até hoje.
daí se conclui o quê? que eu escrevo é por teimosia.
paz e bem
marcos
Olá, passei aqui para solicitar autorização pra usar a imagem do martelo, em um texto no m eu blog. Grata, Claudia
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