sexta-feira, 19 de abril de 2019

RACIONALIDADES NATURAIS - para Leônidas Pellegrini, o católico



RACIONALIDADES NATURAIS - para Leônidas Pellegrini, o católico

Análoga ao triângulo, a Trindade
existe em três pessoas divinais
assim como três lados desiguais
compõem em tal figura uma unidade.

Um lado do triângulo, em verdade,
triângulo não é sem os demais,
porém as unidades laterais
triângulo serão na integridade.

Assim, diversamente sendo iguais,
pessoas de um só Deus nós encontramos
até nas estruturas triviais.

E pela Sacra História comprovamos
as racionalidades naturais
de toda a Criação que contemplamos...


Nhandeara, 19 de abril de 2019, sexta-feira santa
Marcos Satoru Kawanami

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 10




Alphonsus de Guimaraens teve 15 filhos porque era o solitário de Mariana, imagine se não fosse.

História não tem se, só tem foi.

Uns doam rim, outros doam coração, mas ele quis doar mesmo foi o cu.

É o cão porque é "Maria do Rosário", imagine se não fosse...


CAPÍTULO 10

        Monarquia. Falaria sobre a monarquia, mas um insólito e inusitado vivente nos visitou hoje, a mim e ao Puto, o camundongo e mentor intelectual desta parede. Tive dó e carinho, pois, se se atreveu a entrar aqui, tinha severas razões, do tipo fome. Foi logo após o almoço, um passarinho. Ruflou as asas por entre as grades da janela, freando na aterrisagem junto ao prato que estava no chão entretendo o Puto, que deu no pé assustado, e se aninhou onde não tive tempo de ver. Bicou um mínimo, até que cruzou olhares comigo. Talvez se meus olhos estivessem fechados, não espantariam o amigo recém chegado, mas espantaram. Senti-me feito um espantalho, triste sina a do espantalho.
        Lembrei-me de São Francisco de Assis conversando com o lobo e falando aos peixes. Num rompante de ingenuidade, fui à janela gritando ao bichinho que voltasse. Na ausência de santidade, e ainda que eu falasse a língua dos homens e a língua dos anjos, favor não obtive dele. É, mal-entendidos e desencontros ocorrem nas mais variadas interações sociais. Deixei o prato na janela a tarde inteira. O carcereiro compreendeu, gente boa ele, até causa espécie na cadeia um funcionário tão giro.
        Mas o passarinho não retornou. Eu teria carreira promissora como espantalho... Na atual conjuntura do estado democrático de direito no pertinente a mim, o emprego de espantalho não é de se jogar fora.
        Quanto à monarquia, viva! Dou total apoio. Só a Dinamarca e a Noruega já são bons exemplos a favor, mas o nível de bem-estar social nas vinte e oito monarquias mundo afora ainda depõe em defesa do regime monárquico.
        Tudo bem que aqui em Portugal houve o vexame de 1808, mas este acarretou uma série de acontecimentos favoráveis ao Brasil, que teria se esfacelado em republiquetas caso lá a Monarquia não tivesse reinado durante o século XIX. Aliás, a Constituição do Império do Brasil foi a carta magna mais longeva naquele país. País cuja história republicana foi marcada pela instabilidade política e corrupção endêmica.
        Quanto bem fez o Poder Moderador àquela nação, que homem destemido na hora exata foi Dom Pedro I, que sábio e liberal foi Dom Pedro II, buscando a inovação tecnológica no exterior, construindo a infraestrutura calcada nas estradas de ferro como carro-chefe do desenvolvimento pós-colonial, e incentivando o empreendedorismo que teve seu expoente na figura do Barão de Mauá. Sofrendo oposição interna, sempre posicionou-se contrário à escravidão, não medindo esforços para reorganizar a mão-de-obra brasileira, esforços que culminaram na Lei Áurea, assinada pela Princesa Izabel em 1888.
        Monarquia, longe de ser panaceia para todos os males da nação, constitui-se, pela própria natureza do regime, no modo mais eficaz de manter a continuidade de políticas públicas que pensem no país a longo prazo e como uma civilização dotada de cultura e tradições regionais e nacionais. O monarca, incumbido do Poder Moderador, não teria motivo escuso para favorecer algo contrário ao bem-estar da nação, pois, sendo o dono do país, de nada lhe interessaria a corrupção. Muito pelo contrário, deteria o monarca régios poderes para depor quem lesasse a pátria em qualquer uma das esferas dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo.
        Já ia me esquecendo. Quem ainda associa Monarquia com despotismo, muito se engana. Pois, desde o Brasil do Segundo Reinado, a imprensa criticava à vontade o imperador, chegando até a insultá-lo, causando espanto a observadores estrangeiros, em cujos reinos de origem um jornal seria fechado por muito menos. O vasto acervo de charges com a figura de Dom Pedro II preserva-se até os dias atuais, e lá estão que não me deixam mentir. Ainda assim, o referido monarca reinou quase cinquenta anos, respeitado nacionalmente e internacionalmente por sua autoridade moral.
        Mudando de ares... Já sentaste no trono hoje? Cagar é um excelente indício. Quem caga regularmente, também regularmente está comendo. Quem come regularmente não padece o mal da fome. O corpo nutrido mantém a saúde. De posse da saúde, gasta-se menos com remédio. Com tal economia, facilita-se o lazer, que ajuda igualmente a saúde... E assim por diante. Portanto, sente no trono! Mas vê lá se não faz muita merda!
        Fazer merda nem é o perigo. O pior é quando descobrem a merda, e a jogam no ventilador. Nobre ofício. Ofício do quarto poder na República, o jornalismo. Quando feito com lisura, é tão respeitável como o trabalho do farmacêutico especialista em análises clínicas, que futricam no cocô alheio a fim de ganharem a vida honestamente. A bem da verdade, se não fosse a Imprensa, as lombrigas da nação a consumiriam ocultamente sem diagnóstico prévio nem tratamento. Viva a Imprensa, e a liberdade de excreção! E viva a liberdade de impressão, em 2D e 3D! E, sobretudo, viva a liberdade de expressão! A qual exerço nessas paredes anarquicamente, mas sou monarquista! Monarquista até o talo...
        Até o talo dói muito, a depender do talo. Sem talo, ou sentá-lo? Com talo, ou contá-lo? Ser ou não ser? A priori, prefiro não ser. A posteriori, o estrago foi feito, e bem feito, e vai tomar água no gabinete do prefeito, que foi eleito cedendo o leito para trinta peões assíduos no eito.
        Tocando nesse assunto, já pegaste no cabo do guatambu? Dói, dá calo na mão, judia das costas. Porém, calo na mão impõe respeito, ao contrário de pelo na mão, que não existe. Pelo na mão provém da mitologia a que são submetidos os infantes adeptos da punheta, mania feia da qual voltei a ser adepto por repugnar a ideia de encaminhar pelo correio o que me repugna dizer explicitamente. E foda-se.
        Acontece que é justamente o foda-se que dá embasamento filosófico, fisiologia científica, e segurança jurídica para a punheta. Se o mundo vai mal, pior iria sem punheta e siririca, que às vezes é questão de guerra e paz.
        Ou a porra já subiu-me à cabeça, e lá formou um requeijão, ou me acabei na mão dormindo, e sou sonâmbulo esporrádico enquanto onanista onírico que sonha com os planetas agigantados no céu como meus tomates na cueca por ócio do ofício.
        Não, não pode ser, nunca, jamais, em tempo algum! Os planetas hão de merecer sua explicação, e tu podes te aplicar a isso. No teu agora, és ou não és mochileiro intergaláctico? No meu agora, a tua condição de hipótese abre um leque de opções para ti. Se és um padre, perdoes meus pecados. Se és pastor evangélico, estou no sal. Mas, se és mochileiro intergaláctico ou arqueólogo da Terra Plana, faz como aquele passarinho, que veio, viu, e foi contar aos entes alados, quer pássaros ou anjos, sobre o fátuo espantalho que come na prisão aos auspícios do governo, e limpa o cu com o papel-higiênico haurido dos impostos compulsórios que o povo paga para limpar cu de detento na Cadeia de Monsanto.
        Ou conte uma estória mais bonita, pois sou inocente, e não um espantalho. “E se vires que pode merecer-te alguma cousa da dor que me ficou”, lembra que em verso heroico, na cadeia também, o Pai da Língua celebrou a fibra sem igual de sua gente, que, em perigos e guerras esforçada, plantou a Cruz em cada continente.
        Contudo, o que mais honraria minha memória de detento com três defuntos nas costas seria tu finalmente decidires esse empasse crucial para a Humanidade, e dizer logo de uma vez o que tens a dizer. E aí, já liberaste essa rabeta?

até sexta-feira...

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 9




Macho raiz é aquele que tem uma raiz dentro de si?

Eu cri, tu creste, mas ele créu.

Fiz das tripas intestino...

Todos roncando no quarto, daí eu não consigo roncar, oporra!


CAPÍTULO 9

        Na Rússia de Stálin, e na China de Mao, operou-se uma revolução cultural após a tomada de poder pelos comunistas. Lá no Brasil, foi o inverso.
        Além de a imprensa e as obras de ficção bombardearem o cidadão com ideologia de esquerda, muitas escolas entraram nessa também. Naquela minha escola dos estudos secundaristas, tive uma nova matéria chamada Religião.
        Pois bem, durante os três anos de curso, jamais sequer mencionaram qualquer assunto relacionado a Deus, era um ateísmo total na verdade, porquanto muito se fez propaganda comunista: mais-valia, luta de classes, relativismo moral, e assim por diante. O mais repugnante é que faziam isso na aula de religião. Nós, alunos, nem cogitamos reclamar, nem estranhamos, tão bitolados que estávamos por influência da mídia.
        Isso conflitou ainda mais minha mente naquela idade, mesmo porque a escola onde estudara anteriormente, sendo laica, sem capela nem ensino religioso, ensinava os bons valores morais de nossa cultura.
        Na escola secundarista, busquei a religião que faltava da aula fazendo o quê? Lecionando o Catecismo aos sábados. Mais uma falha, alunos adolescentes e sob doutrinação marxista ensinando a fé para crianças. Total falta de zelo da direção escolar. Lembro de o colega encarregado pela mesma turma que eu ensinar aos catecúmenos que o Mar Vermelho não se abrira por milagre divino, mas que o fenômeno fora uma maré baixa.
        Maré baixa é o caminho cá na cadeia. Maré baixa, moral baixa, tudo em baixa. Mas tesão em alta, o que... atrapalha(?). Nunca cogitei dizer tal coisa, falei por falar. Se bem que o que sai sem querer costuma ser verdade, o peido está aí que não me deixa mentir. Já ouviste peido mentiroso? Peido costuma vir acompanhado de seu cúmplice, o cheiro, que confirma tudo o que o peido diz, ainda que este o diga por onomatopeia.
        Em algumas fases da vida, a libido atrapalha mesmo, ainda mais puxando cadeia com uma sentença de celibato crônico. Às vezes sonho acordado com a possibilidade da prostatectomia total levando de lambuja os testículos e o pênis. Isso resolveria o desassossego do tesão, o pecado da punheta, e a possibilidade de três tipos de câncer.
        Acalmáte, mar! Que, se no fuera por la navegación, te tomaba en un trago! Falar merda é uma coisa; agora, quase imaginar a mudança de sexo, o que é? Qual mistério psicofuricular o meu terceiro olho está escondendo? Ora, nenhum, só estou sendo racional. Ah, mas a razão tem mistérios que até o cu desconhece... Falando nisso, já liberaste o franzido?
        Esse negócio de ser racional demais..., é aí que mora o inimigo. Quando o sujeito começa a pensar muito na vida, nas causas primeiras e nas razões últimas, daí só pode tomar dois caminhos: a catilogência hospiciana ou a mania feia. Isso se não acabar tomando no cu mesmo. O que seria irracional e deselegante para a lógica sintética e analítica, conforme os paradigmas consagrados do cálculo renal das equações integrais, o que ampliaria, porém, a visão do terceiro olho, esse operário das ruínas. E, com o terceiro olho ampliado, o sujeito teoricamente transcenderia as limitações do córtex subliminar do peritônio policárpico da poliana engajada por roldanas na metafísica do peido. E, a partir daí, dê no que der, ou não é?
        Tudo leva a crer que não. O racionalismo fica com o pincel na mão, se furtam-lhe a escada dos axiomas fundamentais do fundamentalismo islâmico xiita, sunita e criptonita da razão pura aplicada à prática furicular contrária à antimatéria saideira, uma vez que a teoria, na prática, é diferente.
        Mas chega de Ciência, atenhamo-nos à realidade. A realidade é a ilusão que tua consciência aceita como menos irreal, e, dependendo da escolha, a tua realidade é boa ou má ou nem tanto assim, muito pelo contrário.
        Se tu és bom, percebes uma realidade boa, pois tua consciência é tranquila. Se tu és mau, percebes uma realidade má, pois tua consciência é perturbada. E se nem tanto assim, muito pelo contrário, tu ficas que nem eu no saco do meu pai, pulado de um culhão pro outro pra não nascer filho da puta.
        Daí vem a história que dá destino final à nossa história. Se és bom, vais para o Paraíso. Se és mau, vais para o Inferno. Se és nem tanto assim, muito pelo contrário, e segues como eu no escroto, amargaremos juntos um estágio não-remunerado no Purgatório.
        Mas chega de Teologia também, atenhamo-nos à realidade. Os planetas têm aparecido gigantes no céu diurno durante meus sonhos noturnos, isso é um fato real que não posso negar, pois sou eu mesmo que o afirmo. Uma afirmação, quando proferida, ou é ou não é, mais ou menos é medida de cu. Porém, essa outra afirmação toca no ponto nevrálgico do busílis filosofal, não confundir com pedra filosofal que é lorota de somenos importância.
        Se planetas fogem de suas órbitas durante meu sono, como poderei verificar sua fuga estando eu a dormir? Simples: outras pessoas o farão. Mas elas negam tal fenômeno, que, portanto, deixa de ser fenômeno, e passa a ser considerado mais ou menos, que é medida de cu. Ou seja, busílis filosofal condicionado à expansão anal acoplada à possibilidade de expansão cósmica observada pelo terceiro olho no momento da acoplagem. Ou não.
        Problemas astronômico não podem ser resolvidos com Astrologia, de modo que o terceiro olho deve ser preservado inclusive do preservativo e objetos roliços do entorno. Mas, por estes olhos que a terra há de comer, afirmo que planetas agigantados no céu são um sinal celeste que, apesar de contrariar a mecânica celeste, continua sendo celeste. Portanto, o erro não está no celeste, senão na mecânica.
        Suprima-se a mecânica, sobreabunde o celeste e o onírico, anjos tocam trombetas apocalípticas, mas o calor infernal da realidade me obriga a ver esse povo doido mijar na rua durante o Carnaval. Tudo bem, a rua é púbica, e a latrina é privada, eu comi cocô na infância e até hoje como pão do lixo. O que não mata, engorda. O que engorda, faz mal. O que não mata, faz mal? O que mata faz bem? Depende da dose. O que depende, vai cantado pela voz da dependência, e escrito pela mão do fingimento, se Bocage encontrou festival contentamento.
        Porém, reclamar da vida nunca adiantou. Necessária é a carapaça de tartaruga nas costas e a delicadeza de bebê no tato, entendes? Se não formarmos uma armadura para a sensibilidade, corremos o risco de estarmos sempre irritadiços, faltando-nos assim a delicadeza no tato. Se as pessoas não tiverem uma armadura para a própria sensibilidade, contraditoriamente poderão ser insensíveis para com os outros, causando uma reação em cadeia de sensibilidades feridas ferindo outras sensibilidades. O que são as brigas senão isso? Já dizia o velho ditado: Quando um não quer, dois não brigam. Discutir divergências com boas maneiras não é brigar. É possuir vigor mental. Quase sempre uma briga pressupõe fraqueza, e esta descamba para a violência quer verbal ou nas vias de fato. Falta da armadura. Armadura com a qual o cavaleiro pode ser cavalheiro. Reclamar da vida só expõe uma ferida a céu aberto, não gera a armadura.
        Gerar a armadura requer um esforço diário, se a índole não ajuda, se a sensibilidade é aflorada, se acaso és como eu, que fui me educando a fazer ouvidos de mercador diante de no geral em termos de gente à toa falando merda. Evitar a tentativa de adivinhar o pensamento alheio também passou a ser de alguma valia para mim. Que te parece? Faz sentido?

até sexta-feira...

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sexta-feira, 5 de abril de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 8



Na vida, ou se está vivo, ou se está morto. Na morte, só se pode estar vivo.

Na vida como no futebol: gol de mão só vale quando é contra.

Bom não é ser bonzinho. O homem bom defende seu povo, o bonzinho só o é para o inimigo.


CAPÍTULO 8

        A preguiça é um grande mal. Dos tipos de briga mais comuns que vi, o das brigas provocadas por preguiça ocupa lugar de destaque. Já reparaste? Na carência de alimento, a preguiça tem sua função. E também a preguiça pode evitar que o sujeito se acidente, ou muito pelo contrário...
        Aqui, a preguiça virou obrigação. Fico o dia inteiro coçando o saco, então nem consigo ter preguiça. Sinto uma falta daquela preguicinha gostosa na hora em que o despertador tocava. Não sou normal. As pessoas sentem é raiva nessa hora.
        A preguiça de duas ou mais pessoas, quando conflitam entre si, gera o estopim da briga, que é a raiva. Mas por acaso não é a agressividade contrária à preguiça? Sim, pois se a preguiça é tanta, as pessoas nem se dão ao trabalho de brigar por ela. Já, ao trabalho, as pessoas são movidas pela agressividade advinda da necessidade. A fome é mãe da agressividade.
        De modo que, na minha cela, a paz reina. O Puto não me deixa puto, e brigar com ele seria retornar à loucura. Se bem que travar amizade com um camundongo... Ué, o Puto foi o que apareceu, poderia ser um cão ou gato.
        Cão e gato juntos costumava ser sinônimo de briga, apesar da preguiça do gato. Mas o medo também gera agressividade. A agressividade está em tudo, até nos sonhos? Se a fome gera agressividade, é claro que até mamar é fruto da agressividade. Foi o que vi um dia entre cão e gato. Um filhote de gato a mamar numa cadela. Há bondade no mundo animal sem que haja maldade. A maldade é sempre intencional e desnecessária. A luta entre as espécies é por necessidade, não por maldade.
        Acho que, entre nós humanos, a maldade talvez tenha origem na necessidade. Mas há quem pegue gosto pela prática do mal, ô mania feia essa!
        Mania mesmo. Quando um predador ataca a presa, existe agressividade sem maldade. Quando dois animais da mesma espécie duelam, estão cumprido seu papel. Muitas vezes é neste sentido que humanos fazem mal uns aos outros, por necessidade. Mas muitas outras vezes também não. Por exemplo, uma criança travessa como eu fui. A travessura é desnecessária, devendo ser repreendida. Se a pessoa pega gosto pela coisa, vira mania, e passa a praticar o mal simplesmente por amar o mal. Pode ser isso uma compensação psicológica por agravos sofridos e irremediáveis, mas fazer o quê? Pobre coitado, cão danado que seja. Mas amar o mal é uma espécie de loucura também, a pior delas.
        Minha loucura foi de outra natureza, ainda que, na infância, eu tenha sido travesso ao extremo, agitado desde o berço. Desde o berço fica impreciso, pois nessa fase eu dormia em excesso e totalmente imóvel, ao que mamãe me cutucava para sanar sua estranha curiosidade mórbida pelo universo no geral, a cosmogonia da morte, o luto dos buracos negros, a eletrostática das pontas, o magnetismo invisível, o eletromagnetismo do espectro visível, e as coisas misteriosas do além.
        O fato é que, ou meu cérebro teve dificuldade em se dar um bom acabamento pós-uterino, ou já se fez defeituoso desde o útero. Fico com esta última explicação, em defesa de mamãe, a única pessoa que chegou a me visitar na cadeia. E creio mesmo que, se faleceu logo depois, foi por desgosto.
        Foi ela que corrigiu bem corrigida minha travessura, a tempo de meu tosco ser não pegar gosto pelo mal. A boa mãe não poupa a vara, diz o verso bíblico, só que colocando pai no lugar de mãe. O que dá no mesmo, e meu pai também não a poupou, não me poupando. Ainda bem.
        Mudando de assunto, quando foi que deste o cu? Ah, essa frase mereceria um corretivo. Mas não a digo por mal, tu nem existes ainda. Como ofender uma hipótese? Se, porém, ofendeste-te, é sinal que vieste a existir, o que pode ser bom ou mau. Já resolveste esse problema?
        Cristo o resolveu para mim, se bem que Cícero dá um bom paliativo aos ateus, em seu texto a propósito de saber envelhecer. E não leias Schopenhauer, senão fudeu.
        Lê Kant, aquilo sim é que é ciência e vigor mental! Ei, ei, espera! Aonde vais? Pensei que já houveste lido Kant. Espera, fica aqui, Kant é excelente, mas é difícil...
        Se tiveste preguiça de Kant, ficaste. O que tenho a dizer é inútil, mas é de fácil compreensão. Contudo, se encontrares no que escrevo alguma utilidade, o mérito é todo teu. Parabéns!, de antemão. Tomara que parabéns.
        Estás deixando de ser hipótese, ao chegar até aqui. Aqui, no caso, a cadeia. Tua condição não melhorou muito, ou a condição deste lugar ficou boa. Faz-se mais venturoso ser hipótese do que ter certos destinos errados. Eu agradeço a Deus por existir, e olha que estou preso...
        Mal comparando, São Paulo Apóstolo tinha esse costume de frequentar cadeias, na condição de preso. Não sei se numa dessas ocasiões foi que ele escreveu recomendando a quem estivesse casado que permanecesse, e a quem estivesse solteiro que assim também permanecesse. A cristandade teria acabado se todos tivessem seguido seu conselho. O que confirma a escritura de que o Evangelho deveria ser levado a todos os povos até os confins da Terra.
        Levar o Evangelho a todos tornou-se a missão essencial de cada cristão, mesmo que desempenhando funções diversas. As coisas têm seu devido valor conforme nos ajudam nessa missão. Há quem siga à risca esse pensamento, outros fazem o contrário. Eu ficava no meio-termo. E, se os mornos serão vomitados, hoje estou preso, ainda bem.
        Mereço a cadeia. Por todos os pecado infames que jamais ousei confessar senão a um padre. Tu, na condição de hipótese, não provas ser um padre, mas fiques sabendo que a prisão injusta não pareceria tão injusta diante dos meus pecados. Neste ponto, são inevitáveis na minha mente os versos do soneto Mal Secreto, de Raimundo Correia, versos que não deveriam ser consolo, mas são ao egoísmo de um pecador, ao confraternizá-lo com porção considerável dessa Humanidade que aí está, e que tem estado desde Caim.
        O pecado original me parecia absurdo, mas cada vez faz mais sentido. Constante universal na História Humana é o mal; o bem sempre tentou se manter em cena, sem, contudo, sobrepujar o protagonismo do mal, este sim, pomo da discórdia e munição das guerras, ou seja, musa predileta da História Humana.
        Mudar de assunto é bom, e é o que mais quero. O mal..., o mal..., o mal..., porém, gosta da companhia humana. Por que, nas conversas entre vizinhas a maledicência pretere o elogio? Ainda que o falso elogio marque território.
        Elogio com o qual não me conformo é o Elogio da Loucura, olha eu sendo maledicente em relação a Erasmo de Rotterdam. A loucura ali tratada era outra, em outro tempo, em outro contexto. Mas não deixava de ser loucura. Prefiro a sobriedade. E, se beber, não dirija. Mas, se sabe que bebe, por que fica ruim? A loucura apronta dessas, inverte as coisas. Inverte as coisas, vê coisas onde não existem, e deixa de ver o óbvio. O óbvio, por exemplo, de que há pessoas sérias fazendo loucuras. Gente que leva a sério coisas do tipo corrida armamentista. Gente que entra na Política para ser cleptomaníaca. Gente que faz de um tudo por conta das “metas”, e até perde a saúde por causa da “carreira”, quando não vem a perder a alma.
        Cala-te, boca maledicente!

até sexta-feira...

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domingo, 31 de março de 2019

webnamoro


webnamoro

andando pelas plagas da Internet,
achei de ser achado, um belo dia,
enquanto, feito agora, eu escrevia
além do que conheço e me compete.

foi Brenda..., para quem joguei confete
eufórico na tosca idiotia,
sabendo que ela a mim mui preteria
fiel ao Vladimir, que é um gilete.

cortando dos dois lados, esse infame
cortou meu coração nessa contenda
bizarra que merece atento exame.

invoco, para tanto, a justa fenda
que fica bem no meio do certame
no qual se mais disputa a dona Brenda!


Marcos Satoru Kawanami



webcorno

casei-me, nunca fui corno;
uma santa era Claudete...
fui receber tal adorno
namorando na Internet!

marcos satoru kawanami

sexta-feira, 29 de março de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 7



CAPÍTULO 7

        Enfeite é coisa que nada faz a não ser existir, está lá para ser visto, ou ser cheirado no caso do perfume, ou ser visto e sentido pelo tato no caso do veludo, da seda e da casimira. Estes últimos servem para vestir, mas qualquer pano faz isso, então tecidos bonitos e agradáveis ao tato servem como um tipo de enfeite também.
        Há coisas que ficam numa estante por anos sem serem usadas, ficam de enfeite mesmo sem terem sido fabricadas para isso. Certa vez, num antiquário, vi um cachimbo que nunca tinha sido usado. Então alguém se dá ao trabalho de fabricar um objeto para o desuso? Sim, coisas são fabricadas para serem vendidas, e, ainda que nunca sejam usadas, serviram como mercadoria, foram dinheiro na mão do fabricante.
        Sinto um mistério nas coisas que ficam sem uso por muitos anos até que vêm a ser usadas, cumprindo seu fim último, mais estranho é se são descartadas, destruídas, sem jamais terem sido usadas, as velhas virgens que me desculpem, essa elucubração não foi para elas.
        Outras coisas são usadas por um tempo, depois do qual viram peça de museu. É o caso desses livros empoeirados nas bibliotecas. Foram lidos a princípio, e agora deterioram em desuso até a inexistência...
        Se todos os fios de cabelo de nossas cabeças estão contados, e se nem uma folha cai de árvore alguma sem que Deus queira, quer me parecer que tudo tenha sua razão de ser no mundo. Inclusive este meu escrito, que no teu agora cumpre seu papel, servindo-te de passatempo no momento em que tu lês, ou, se ninguém o ler, cumpre seu papel no meu agora, servindo-me igualmente de passatempo.
        Tive a fase do pessimismo na adolescência, pensava em não ter filho, para não transmitir “a outra criatura o legado de nossa miséria”, que, para mim naquela época, era a morte. A morte roubava-me o sentido da vida, não tinha fé. A loucura que penei desabrochou por isso. Antes, era um botão de flor com o qual eu nascera. Uma flor disforme e malcheirosa cultivada no monturo da ignorância.
        Por anos a fio, sentia várias vezes ao dia o desespero supremo, a agonia da morte, mas não morria, e o sofrimento continuava. Talvez, tive a graça de provar do inferno, a fim de a ele não ser destinado por toda a eternidade. Sim, a dor é positiva. Sem a dor, o sujeito não se transforma. Sem a dor da loucura, eu teria permanecido como um cachimbo virgem, que, um dia, inevitavelmente seria quebrado ou atirado ao fogo para aniquilar-se. O sofrimento foi o tabaco queimado no fornilho aos poucos, formando o bolo de carbono que o protege.
        Diametralmente oposta a essa via, desabrocha a rosa radiante de beleza e perfume. Mas, em poucos dias, murcha e seca, perdendo a graça, como que numa depressão senil. Então a morte é pavorosa.
        Até chegar o suspiro final, porém, todo ser humano tem a ocasião de passar pela prova de fogo, conhecer mesmo que intuitivamente a verdade, e esta é irresistível para os que a ela foram destinados, pois realmente, conforme diz São Paulo aos Romanos, tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, que são chamados segundo o seu desígnio.
        O carcereiro compartilha da minha fé católica, digo, ele é protestante, mas trouxe uma Bíblia para mim, extraoficialmente. Não tenho muita leitura, gostei de alguns livros, mas, de todos eles, restaram-me as Sagradas Escrituras, e acho que basta. O grande mentecapto, de Fernando Sabino, foi um livro que li três vezes, e vi o filme duas. Foi a literatura da qual mais gostei, percebeste? Bateu uma identidade com o personagem mentecapto, e o estilo cômico sem deixar de ser elegante cativa. Busquei esse ideal de prosa, faltando-me sempre a devida sensibilidade, então acabei só escrevendo sonetos tradicionais. Na carência de ideias bem boas, sentia-me na obrigação de ao menos alcançar algum valor artístico seguindo as regras da tradição. Sou bruto, verifiquei o quanto ao matar os tarados de mãos limpas. Tive a crua noção da falta de talento num ser tosco como eu, e desisti dos sonetos aqui na cadeia.
        O carcereiro não crê em anjo da guarda. Eu nunca dialoguei com o meu, mas para ele rezo, tendo a impressão de que por ele sou orientado em pensamento, coisa de maluco?
        Um anjo, não sei se o da guarda, apareceu-me por duas vezes aqui. Ao vê-lo pela primeira vez, pensei que fosse um extraterrestre. Da segunda vez, ordenei mentalmente que fosse embora e não voltasse mais. Obedeceu. E agora, por mais que eu o chame, não vem. Comecei a querer vê-lo de novo, porque, meses após suas aparições, li na Bíblia a descrição de um tipo de anjo idêntico ao ser que vi. Figura humana, muito magro, com a pele luminosa e movediça como o sol.
        Os anjos são da dimensão espiritual, mas podem se materializar na terceira dimensão a fim de cumprirem certas missões, como a do anjo Gabriel na Anunciação a Maria. Os anjos são mencionados na Bíblia, por isso ocuparam esforços de teologia, acontece que esta, às vezes, acaba criando mitologias ao averiguar mistérios além da possibilidade prática de experiência, e o que Deus quis revelar já o fez.
        Na quarta dimensão, pode-se transitar pelo tempo que, no caso, fica sendo uma das dimensões, e não apenas uma abstração mental. O espírito dissociado do corpo talvez possa transitar pelo tempo, Deus certamente que sim, se dizem que está fora do tempo, até porque criou o tempo. Teologia não me diz respeito, pois creio que seja um exercício de lógica feito a partir do fundamentado na Bíblia, e não vejo necessidade de especulação sobre o que já aceito plenamente pela fé. Mesmo assim, as demonstrações lógicas da existência de Deus são pertinentes ao próprio fortalecimento da fé.
        Sinto que a consciência não possa ser composta por partes, é uma coisa só, ainda que o cérebro seja composto por inúmeros átomos. A consciência depende do cérebro, que parece desempenhar a função de uma antena sintonizada com o espírito, sem o qual não teríamos consciência. Poderíamos parecer em tudo ter consciência e até mesmo livre-arbítrio, mas, se fôssemos só matéria, seríamos como uma reação em cadeia sem noção de si, uma fileira de dominós que se derrubam. O espírito é o dedo que pode interromper a queda dos dominós. Daí a consciência ser simples, e não composta por partes, simples como o espírito, por não se originar na matéria.
        Mudar de assunto é realmente bom, assim evita-se o ridículo de, por exemplo, discutir o sexo dos anjos, ou falar de Deus e o diabo na terra do sol.
        Contudo, tu crês em anjo? É que, após o matrimônio, Polínia, Erato, Euterpe e todas as musas, ninfas e sátiros nos abandonam. Saibas disso. Então, passei a pedir ao meu anjo da guarda inspiração, e deve ter sido ele mesmo que ma deu, pois produzi bastante poesia sacra.
        Versos de amor são os primeiros, mas devem ser evitados posteriormente, haja visto a profusão de canções românticas. O romantismo não sai de moda, por isso existia até antes do Romantismo, de maneira que de certo existem versos de amor melhores do que eu poderia compor em toda a minha existência.
        No extremo oposto (bendito teorema dos máximos e mínimos, do qual se vale a matemática e a física, mas também a teologia e a retórica) fazer poema com temas do tipo Crítica da razão pura pode dar ruim. Ou não, se o talento for os de Orestes Barbosa e Noel Rosa no samba intitulado Positivismo, ou, melhor ainda, no samba intitulado Habeas corpus, com letra e música do Poeta da Vila.

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terça-feira, 26 de março de 2019

BOM SINAL



BOM SINAL

As abominações são bom sinal,
dilata-se a maldade em larga escala,
e dá confirmação à antiga fala
profética de João sobre o final.

O sangue vira tinta de jornal
enquanto a mãe da vez se muito abala,
cristão ou é queimado ou morre a bala
colhido incauto em plena catedral.

Expanda o inimigo seu império,
revele sua face o mal supremo,
não reste por fazer um vitupério!

É bom sinal chegar o tempo extremo,
e terminar o tempo deletério
do edênico desterro que sofremos.


Marcos Satoru Kawanami

TEMPO DE ANTICRISTO



TEMPO DE ANTICRISTO

Esgoto a céu aberto, aberto o inferno
da trama da tramoia transilvânica,
não tem explicação senão satânica
oculta pelas mangas desses ternos...

Em breve a morte vem, e vem o inverno
na idade anticristã, era tirânica
oposta àquela vinda messiânica
do Cristo anunciando o reino eterno.

Pois reine o anticristo enquanto pode,
palhaço caricato que resume
a carnal corrupção, e se sacode.

O séquito infiel verte chorume
na vala da agonia de seu bode,
e o ar rescende a peido com perfume.


Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 22 de março de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 6


https://www.youtube.com/watch?v=y_lan2yPbko
LINK: Ataulpho Alves

CAPÍTULO 6

        Matei um gafanhoto. É, parece que agora enveredei mesmo pela senda sinuosa da criminalidade. Mas gafanhoto quando sai do mato e entra em habitação é porque já está no fim do pito. Dei o inseto para o Puto comer. Não comeu. Ou está de nojinho por conta do bom pasto que cá encontra, ou descobri cientificamente que camundongo não deglute gafanhoto.
        Nos meus bravos anos juvenis de universidade, disseram-me que ao poeta tudo é permitido, mas ao cientista não. Foi o professor de álgebra linear quem disse isso, depois de ler alguns sonetos cômicos e sem nexo que eu escrevera. Na verdade, vocação mesmo eu nunca tive para nada. Mas, na cadeia, descobri que consigo matar gente usando só as mãos, e matar gafanhoto também. Na escola em que frequentei o ensino ginasiano, ninguém nem eu pensávamos em cursar a universidade. O ensino secundarista, porém, fui fazê-lo em outra escola, e todos lá estavam neuróticos por causa do vestibular. Foram três anos de desespero adquirido do meio ambiente. Na escola anterior, o normal era terminar a escola, trabalhar, e mais nada. Já não estava bom? Mas fui lá eu encontrar com aquele bando de doidos por vestibular. Atualmente, quase todos os estudantes estão almejando a universidade; nessa toada, logo teremos advogados trabalhando como balconistas, e garis altamente qualificados...
        Quem não cola não sai da escola, já diziam os antigos. Eu, apesar de ladrão, nunca colei nas provas escolares, e prestava uma atenção medonha nas aulas, acho que isso era inerente à malandragem, que via utilidade em saber das coisas. E se alguma vez fui reprovado no exame de fezes, não foi por falta de cola, foi porque fiz merda mesmo.
        Mas, para não contrariar o ditado a respeito da cola, como me abstive dela, acabei voltando para a escola, mesmo que na condição de professor. O ambiente escolar é agradável sempre, lá reside a esperança. É que nem aqui na cadeia, todo dia a gente espera.
        Há quem espere, eu vivo a única vida que me restou. Não é de todo mal, levando-se em consideração minha personalidade introspectiva, mas sinto pela minha família que não creu na minha inocência e tem agora em si uma lacuna.
        Minha esposa é tão boa nessa coisa que eu substituo pela punheta! Será que masturbar-se pensando na esposa é pecado? Eis aí uma questão digna da Filosofia Moral, à luz da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.
        Por muito ignorar, espero não estar pecando. E uma vez que “o espírito está preparado, mas a carne é fraca”, sem apostatar, aposto todas as fichas na santa ignorância.
        Um padre visita os outros presos. A mim não, porque sou de alta periculosidade. Quem diria? Um professor de adolescentes. Certo é que matei os três tarados, mas a justiça dos homens não foi sensível ao contexto em que tudo se deu. A estátua da Justiça tem os olhos vendados, uma balança numa mão, e uma espada na outra. Simbologia bonita.
        Não serei o primeiro nem o último a ser injustiçado, o problema é a revolta. A revolta é o pecado do diabo, punheta é pinto perto disso. Confiarei no Juízo Final, e pronto. É simples. O negócio é pensar com simplicidade. Evita-se assim de errar no que realmente interessa.
        A vida é boa, a gente é que a complica. Se eu não estivesse preso aqui, estaria igualmente preso lá fora, dentro da solidão intransponível da mente, na qual a felicidade só depende dela mesma. De onde percebo que sou feliz. Percebo por força de contingência, pois falta-me opção.
        A total falta de opção, a restrição ostensiva de liberdade, simplifica, e, simplificando, reduz o conflito mental, e, para quem sabe aproveitar, até aplaina quaisquer arestas de revolta. O extremo oposto, a liberdade muita, confunde, gera conflito e, inevitavelmente, a revolta. O termo “inevitavelmente” na frase anterior não advém de um raciocínio, mas é mera constatação da realidade humana. Observes uma criança, se deixada ao léu começa tudo bem mas acaba ficando irritadiça, isso em poucas horas. Adolescentes então, às vezes acabam se acidentando ou mesmo morrendo à toa, se deixados à toa.
        As férias de verão dos meus nove anos de idade, as passei em casa de minha avó paterna, que me impunha severo cabresto. Era estudar todos os dias, nenhuma brincadeira, nada de refrigerante nem chocolate. Com ela aprendi o senso de dever, o ascetismo e a ausência de vaidade. Mas sentia que ela tinha muita raiva em si, e também abominava música contemporânea, especialmente o rock.
        Fui então morar no Brasil, e na rádio só tocava rock. Eu, por assimilação da ancestral, não gostava, até que achei uma estação radiofônica que tocava samba, e gostei. No mesmo ano, isso já com doze anos, ingressei na banda escolar. Curiosamente, naquele ano, ensaiamos muitos sambas, destacadamente os de Ataulfo Alves, tocando também Cisne Branco, Capitão Caçula, e um samba-enredo campeão da União da Ilha do Governador.
        No ano seguinte, tudo bem memorizado, conheci o estado de Minas Gerais, marchando pelas ruas de Miraí a tocar os sambas do Ataulfo, em homenagem aos oitenta anos de nascimento do compositor, infelizmente ele já era de há muito falecido. E ainda, no ano consecutivo, comprei um disco LP com canções suas, que ouvi até furar. Força de expressão daquela época, o disco ainda funciona.
        Notei que os brasileiros não se interessam pelas coisas de Portugal como nós nos interessamos pelas de lá, talvez porque o Brasil tenha mais notícias locais, ou por temperamento tropical, sei lá. Só sei que o sotaque carioca, nunca o adquiri, mas pronuncio com sotaque carioca a palavra asterisco, que aprendi naquela época.
        Voltando à terrinha, verifiquei uma semelhança da índole de nossos povos, que é a desesperança no progresso, o culto ao fracasso, uma certa dose de preguiça. Nisso, os estadunidenses mostram por que tanto nos ultrapassaram. Simplificam as coisas, têm ânimo, espírito de equipe. Ultimamente, declinaram um pouco por conta de políticas de esquerda, burocracia, e ideologias depressivas que tomaram as mentes de sua população.
        Céus e Terra passarão, sim, mas façamos o melhor enquanto não passam. Façamos o progresso, e façamos com que o progresso mesmo seja cada vez melhor, façamos o progresso elevado ao quadrado. Aliemo-nos à Natureza, em vez de combatê-la.
        Mas não venha esse povinho hippie fumador de maconha para o meu lado, bando de vagabundo parasita. Falando em maconha...
        Tu já reparaste no imposto sobre o tabaco? Está tão alto, que praticamente o Governo parece querer criminalizar o tabaco, no mesmo passo em que articula-se a legalização da maconha...
        Ora, legalize tudo! Mas, primeiro, reduza o imposto sobre o tabaco a um décimo do que está, e deixe o povo escolher.

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sexta-feira, 15 de março de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 5



CAPÍTULO 5

        Eu posso falar por mim, não posso falar pelos outros, porque ignoro muito o mundo e a psicologia dos outros junto com sua sociologia. Mas confesso que deixo-me guiar pela cabeça dos outros, sou influenciável. Percebi isso por meio do meu hábito de fumar tabaco em cachimbo. Fumava em cachimbos curvos, até que um amigo mostrou-me seus cachimbos, todos do cabo reto. E passei a usar, de preferência, cachimbos do cabo reto. Nunca andei na moda quanto à indumentária, mas, quanto a outras coisas, sou um bicho imitativo igual ao macaco. Será que sou só eu? A existência da propaganda me diz que não. Mesmo quando procuramos ler um livro, normalmente o fazemos porque já alardearam aos quatro ventos seu título, ou tem fama seu autor. Digo fama porque, outro dia, uma dançarina vendeu livro à beça. Mas, em geral, o que buscamos é o prestígio literário do autor. Posso dizer por mim, que busco aprender com autores de prestígio, buscava quando lá fora. Agora, só busco pelo Puto, quando ele desaparece por mais de um dia. Carência afetiva.
        No tempo em que fui puto, fui um puto safado. A quintessência do moleque e da traquinagem. Mentia, furtava, ludibriava os outros putos, neles batia, e cheguei a bater até num adulto na rua, recebendo a devida recompensa...
        Mereço estar preso, pelo menos pelo furto da lapiseira:
        Na escola, cobicei a lapiseira de um colega. Esperei que a sala se esvaziasse na hora do recreio, catei o objeto do desejo, e coloquei-o cuidadosamente na lata de lixo, embrenhando-o sob os papéis. Na volta do recreio, o dono da lapiseira reclamou sua falta à professora, e o drama se estendeu até o fim do tempo regulamentar. Todos foram revistados, tudo foi revistado, menos o lixo. A professora liberou a saída da turma, e o puto chorando. Não tive dó. Depois que a sala ficou vazia, voltei lá, e furtei em definitivo a lapiseira, retirando-a do lixo. Mereço a cadeia. Agora entendo por que.
        Longe de mim fazer apologia do anti-herói modernista. Para mim, e realmente só acho que possa aqui falar por mim, bem, para mim, o Modernismo foi um movimento que, apesar de se pretender artístico, teve cunho político, e efeito avassalador na instrução pública. Basta ver o caos nas universidades públicas, e a opulência da ignorância com que o cidadão recebe o canudo do Ensino Médio.
        Na Poesia, o verso-livre democratizou a possibilidade de alguém achar que seja poeta, mas vejamos se hodiernamente livros de poemas vendem como no tempo do verso feito nas regras da arte.
        Assim, que o puto safado que fui não venha a inspirar nenhum puto bem comportado a se desvirtuar. Porém, meu anjo da guarda me guiava... E percebi a tempo que aquela aparente ascendência que eu exercia sobre meus pares certamente me prejudicaria se eu me criasse na malandragem e, futuramente, por que não na Política? Então, abandonei o costume de enganar e de bater nos outros putos, mesmo porque, além de bater, eu começara a apanhar também.
        Todavia, continuei na marginalidade. É, passava sempre à margem do caminho, não me misturava, era a loucura congênita latejando para exuberar, o que finalmente ocorreu durante o curso de Engenharia.
        Se deixara de ser malandro, fora por refinada malandragem, a marginalidade continuou em mim. O crime é um tipo de loucura, assim como o são os tiques nervosos, as manias, e a mania feia.
        Adquiri a tendência equivocada de concordar em conversas, sem discutir nada. Fazia sonetos, resumia toda ideia em quatorze versos. As estórias que imaginei, não as escrevi. Em vez de falar, costumo calar.
        Mas creio que aqui cabe o debate, “da discussão sai a razão”, diz o samba de Noël de Medeiros Rosa.
        Bicha louca é uma expressão brasileira que designa homem afeminado ou também travestido de mulher. Se a expressão existe, em algum momento teve sua razão de ser. Causa estranhamento alguém desmunhecando, até em mulher isso seria estranho, caso fosse costume feminino, e não é. Desmunhecar seria um tique nervoso ou mania? Aqui se dá uma discussão sincera sobre o tema, pois mesmo homossexuais se perguntam o porquê de serem diferentes da norma, e desmunhecar é só um aspecto da questão, pois a homossexualidade transcende a aparência. Tu, aí no futuro, tens respostas para a pergunta que fiz?
        No momento, não ouso responder. Há uma censura tácita sobre o tema. Mas nesta parede de cadeia ela não chega, então prossigo. Só posso falar por mim, já disse. Na minha opinião, a loucura se manifesta de tantas formas, que alguns são presos por serem loucos, e outros não; alguns tomam remédio por serem loucos, e outros não; alguns são elogiados por serem loucos, e outros não.
        Política, atenção! Política! Sempre evitei o tema lá fora, mas noto que ele tem sido recorrente aqui. O perigo vem do Islã. Para eles, a gente nunca deixou de ser considerado o povo infiel. E cá vêm eles invadindo a Europa, enquanto nossa cultura ocidental decai no ateísmo e na degeneração moral. A quem interessa o enfraquecimento da família cristã? E por acaso o enfraquecimento da masculinidade heterossexual não colabora para a fragilidade da estrutura social como um todo? Vê se no Irã se dá estímulo a movimentos do tipo LGBT.
        Quantas mulheres têm sido sodomizadas para atender às expectativas de seus parceiros sexuais... Isso está na boca do povo, não carece um encarcerado dizer. É feio expor a realidade por escrito. Mas nem o termo parceiro sexual deveria existir fora do matrimônio. Sexo apenas dentro do matrimônio resolve muitos problemas sociais: doenças venéreas, gravidez indesejada, aborto, desagregação familiar, mães adolescentes que muitas vezes se encaminham para a prostituição por falta de formação profissional, e, o que eu mais verifiquei na prática, alunos com problemas cognitivos decorrentes da referida desagregação familiar.

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