sábado, 13 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 17

Cronotransporte-se para 1933: Link


Capítulo 17

         Logo que chegamos à Terra de Santa Cruz só não fomos canibalizados porque mostramos covardia, e porque o Bispo Sardinha parecia mais gostoso. Cunegundes e eu saímos em excursão pelo Novo Mundo desprevenidos dos perigos que corríamos. Estávamos corados, o que nos aproximava um pouco da cor dos nativos, mas isso só fez aumentar-lhes a gula quando nos capturaram em Pernambuco.
         Comecei a peidar desesperadamente. Quase alcei voo, ao que mais me contorci a fim de escapar por via aérea. Cunegundes, porém, agarrou meu pênis, que foi esticando..., esticando... Achei bom até o ponto em que, feito um elástico, ele se contraiu e me estatelou no terreno. Borrei-me, esparramei bosta por todo canto. Os índios não gostaram. Cobri a cabeça esperando o pior. Quando elevei o olhar, tinham sumido. Cunegundes riu, e descobriu o valor da covardia.
         Corajoso foi o Bispo Sardinha, que acabou no espeto. Mas, dependendo da situação, há total prudência em ter coragem; no martírio, por exemplo. O que parece, mas não foi o caso do Bispo Sardinha, que enfrentou os índios com ameaças em causa própria. Sei lá se foi injustiça eu ter me livrado por peidar e cagar em causa própria, agi sem pensar, e, pensando nisso, chego à conclusão de que a Providência Divina foi generosa comigo, e meu patrão acertou na mosca ao dizer que não era para se pensar. Tem coisa que vai no automático.
         Rotina vai no automático, se você for parar para pensar, aí sífu. E bastante mífu durante minha vida de empregado, num desemprego intermitente de dar agonia em motorista de ambulância. Sentiu a perspicácia da colocação? Motorista de ambulância, que já viu tudo que é medonho. E o pisca-pisca da sirene. Não. Foi mal. Foi péssimo.
         Se eu soubesse que era fácil assim escapar da morte iminente... “Se eu soubesse que a saudade não se esquece nem querendo, não deixava essa amizade para não ficar sofrendo.” — Noel Rosa, às vezes é inevitável. Tá aí outra unanimidade: Noël de Medeiros Rosa. Unanimidade é boceta e Noel Rosa.
         Concentremo-nos na boceta. Quem tem uma, cuida. Quem não tem, vive correndo atrás. Ou não. O homem sai dali, e passa a vida querendo entrar numa de novo. Se bem que esse costume está saindo de moda.
         Eu, por exemplo. Depois que enviuvei... nunca mais vi a cor. Hambúrguer te lembra alguma coisa? Porra, o hambúrguer é tão favorecido pelo gosto e bom gosto popular por quê? Porque hambúrguer tem cheiro de xoxota! Ou não. Aí depende do asseio.
         Asseio, entretanto, é pressuposto para tudo. Se você não toma banho todos os dias, voltou para a Idade Média.
         Ah, Idade Média, pelo menos havia ordem naquele tempo... e mais fedor... e amputação sem anestesia, e cauterização a força de azeite fervendo.
         Concentremo-nos em Noel Rosa, melhor assim. O Poeta da Vila seria um vilão naquela época? O Filósofo do Samba talvez e muito certamente seria o autor de cantigas de escárnio e maldizer. Toca Noel...

Filme: como era gostoso o meu francês

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sábado, 6 de outubro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 16



Capítulo 16

         Aspirina faz um bem tremendo. Não é merchandising, o remédio genérico faz o mesmo efeito: ácido acetilsalicílico 500mg. No capítulo retrasado tive dor de cabeça, tomei o remédio, e, além de curar a dor, deu-me disposição física para continuar escrevendo; eu estava cansado.
         Reconheço que eu talvez não seja prolixo o suficiente para a prosa, nem por isso quem faz prosa o é. Concisão excessiva, sofro dessa patologia, a qual acomete quem costuma resumir tudo nos quatorze versos do soneto. Trova e haicai então, mas aí já acho exagero. Gosto de muitas trovas e haicais alheios, ainda que desenvolva melhor o soneto.
         Deveria existir aspirina para velório. É um respeito ao defunto, concordo; mas não chega a ser uma satisfação dada a quem veste o paletó envernizado, e cosido pelo marceneiro. Senão, veja, quem morre já foi desta para melhor, ou pior. Notará a minha presença? Ah, mas os familiares notarão minha ausência. Danem-se. Só fui ao velório de Cunegundes, e de Aquiles.
         Aquiles..., o dele foi o funeral. Velório é para os mortais. Quando um imortal morre, aí é funeral, com toda pompa e ocasião. Parece que foi ontem, Homero declamando em primeira audição o poema épico.
         Dizem os entendidos que a Literatura começou com a Poesia; então, por que atualmente o grande público quer Prosa? Eu pergunto e eu mesmo respondo: Tem culpa eu? Nunca! A culpa é do verso-livre, só não vê quem não quer, ou não consegue ver, ou não consegue no geral. Estou falando não de um Manuel Bandeira, que fazia verso-livre com maestria, mas também fazia com perfeição o verso tradicional; estou me referindo a quem deprecia o verso com rima, métrica e prosódia pelo fato de ser incapaz de uma trova em redondilha sequer. Pronto, falei. Tinha de falar, pois paira um cinismo quanto ao tema.
         Isto posto, vai vendo, vai vendo.
         Porém, ocorre que a prosa favorece a tradução, e o verso-livre também. Nesse ponto dou razão a quem não me deu razão quanto à estética que cultivo.
         Assisto ao velório da poesia? Jamais! Toda geração tem seus poetas sustentando o lábaro juvenil da inspiração. Literatura de Cordel, por exemplo; é tradicional e atual. Clássico é o que perdura.
         Ariano Suassuna, meu filho número não me lembro mais, fez jus ao nome. Na adolescência escreveu os cordéis "A ressurreição de Padre Cícero", "O Saci-Pererê e a Mula-sem-cabeça à procura do Mágico de Oz", e "Se não fosse seria – o duelo entre João Sem-Braço e o Vaqueiro Cego".
         Viva o Cordel, que preserva nossa tradição literária!
         Quero eu um dia escrever um cordel. Por enquanto falta-me a imaginação para tanto. Quem sabe este texto em prosa seja ensaio para o cordel.
         Inclusive acho que Homero foi o precursor do Cordel, e Aquiles o precursor de Virgulino Ferreira da Silva, o calcanhar-de-aquiles das volantes. Agora, o Cavalo de Troia... É, o Cavalo de Troia só pode ter sido precursor do J. J. Benítez e do vírus de software.

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sábado, 29 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 15



Capítulo 15

         Quem não chora não mama, e cada um chora por onde tem saudade. Por exemplo minha antiga vizinha, a velhinha Perpétua.
         Perpétua, viúva desde quando eu não o era e morava em terras cariocas, chorava o falecido todas as noites no quintal de sua casa, fazendo xixi na terra, e dizendo: “Vai, minha filha, já que não come, chora!”.
         Até que, numa noite, meu filho Nelson, então com doze anos de idade, viu Perpétua chorando o falecido, e achou bonito na noite seguinte presentear a velha. Raciocinou: “Eu vou comer essa velha...”. Cavocou a terra, a bem da verdade praticamente fez uma sepultura para si mesmo em solidariedade ao falecido, e deixou o pinto duro para fora. Perpétua logo veio fazer xixi, mas, sentido algo diferente, teve um momento de solilóquio: “É..., acho que conheço isso. É..., faz tempo, mas com certeza é.”. E assim, Nelsinho foi comendo a velha. Até que, numa noite, resolveu espiar se a velha iria sentir falta de alguma coisa, e ficou de tocaia encima do muro. A velha veio, foi apalpando a terra, e sentenciou inconformada: “Ah, esses moleques filhos da puta! Já arrancaram o pezinho de caralho que estava nascendo aqui!”.
         Nelson Rodrigues, orgulho do papai. Essa anedota popular cairia como uma luva para ele. Mas faz de conta que foi. Não poderia é deixar de registrar tão pitoresca estória.
         Nem tudo é tão fácil quanto imaginamos, nem tão difícil quanto parece. No caso do ovo de Colombo, foi o inverso. No caso do meu filho Nelson, não foi nem uma coisa nem outra.
         Eu, porém, matutava o dia inteiro, e por conta disso mesmo perdi cada um dos empregos de que fui demitido. Certa feita, tive dúvida a respeito do funcionamento duma máquina, e disse ao patrão: “Eu pensei que...”. Ao que imediatamente ele respondeu: “Não é para pensar.”. Achei isso de uma sabedoria profunda, conforme o ditado popular: “De pensar morreu um burro.”.
         Durei mais uns tempos naquele emprego, graças a um novo lema que formulei para minha vida: “Sem pensar viveu um burro.”. Foi ótimo, guardo o lema com carinho até hoje. Perceberam?
         Ingressei no movimento artístico Sanitarismo por essa época, usando o lema da irracionalidade. Chegava no ateliê sanitário, e pá! pá! pá!, mandava a letra com a primeira merda que me vinha. A rapeize de hoje em dia não sabe dar valor a uma boa literatura de banheiro, acho que é culpa do Modernismo que avacalhou com a Poesia.
         Imagino o que um Olavo Bilac, um Gregório de Matos, mais ainda um Augusto dos Anjos, o que esses vates seletos fariam se conhecessem o sanitarismo literário. Imaginem Michelangelo esculpindo em cocô, Botticelli pintando sobre vaso, Sócrates pensando no reservado como O Pensador, de Rodin?
         História não se faz com suposições, reconheço, a História é e pronto. Aliás, a vida não se faz com “supunhetemos que de repentelho” nem com supositórios, exceto, em parte, a dos farmacêuticos. Como diria Tenório Cavalcante, homem de fino trato: “A vida é feita de fases. Ou tu fazes, ou tu não fazes.”.

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sábado, 22 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 14



Capítulo 14

         A vida como ela é não é a vida como ela deveria ser. Os pais são cagadores de regra, mas os filhos não engolem qualquer merda. Principalmente os adolescentes. O que dizer a um adolescente? O bichinho não tem know-how nem para entender nossos conselhos, não formou ainda referências, ainda não teve tempo. Mas quer ser original, parece que a sociedade espera do adolescente originalidade, e isso tem sido prejudicial à sociedade, de forma restrita, geral, e globalizada. Será que não há manipulação por trás disso? Diz a mídia para o jovem botar a boca no trombone, e o coitado acaba dizendo na verdade as mentiras que querem que ele diga, em detrimento dele mesmo. A janela está aí que não me deixa mentir, é só dar uma olhada.
         Nesse ponto os rapazes acabam se expondo mais, morrem mais, são mais maltratados e combatidos pelas cruéis angustias da indigência, sofrem de inimigos a violência, gemem de tiranos oprimidos; não podem, ultrajados e perseguidos, achar nos Céus ou nos mortais clemência, e sofrem finalmente a dura ausência de um bem que para sempre está perdido. Quem diz isso não sou eu, porém Bocage.
         Bocage e as estatísticas. Sempre os rapazes morreram mais em toda a história. Talvez tenham também sofrido mais? Não sei.
         Não sei, pois mulher sofre bastante, pelas próprias contingências naturais. Se por um lado morrem menos na juventude por levarem em geral uma vida menos arriscada, por via de regra seguirem uma vida regrada, só as regras e cólicas menstruais já são o bastante para fazer qualquer homem desistir de ser mulher. Mormente quanto ao parto, é fácil cagar um melão?
         O atual culto à juventude e ao corpo grita para mim que o nazismo deixou uma triste cicatriz que até hoje ulcera.
         Esparta, a cidade-estado grega, globalizou-se. As crianças desde bebezinhas são deixadas na creche enquanto seus pais trabalham; depois escola desde a primeira infância, Internet, academia de ginástica, e o que mais há para alijá-las do convívio familiar. Agora o tal de Conselho Tutelar tutelando os filhos no lugar da família.
         Tradicionalmente as crianças cresciam protegidas pela tradição familiar de cada uma, ouvindo o conselho dos pais e dos mais velhos. Agora, até os velhos querem saber o que um jogador de futebol ou artista tem a dizer.
         Internet então... Concluam vocês.
         Fernando Pessoa, a única conclusão é morrer? É. Por conta da morte concluímos esta vida. Por conta da morte pensamos e chegamos a conclusões. Por conta da morte concluiu Fernando a sua obra, e tiramos conclusões dela. Por conta da morte existe a Rua Fernando Pessoa, e a Praça Castro Alves.
         Por conta da morte sou viúvo e escrevo, pensando na falecida até que a morte nos una numa vida já sem morte.
         Por conta da morte temos de comer, por conta de comer temos de trabalhar, por conta de trabalhar abri meu próprio negócio, e ganho a vida a peidar, mas, mesmo morto, tem morto que ainda peida.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

PALAVRA ATÔMICA - livro de Rafaela Figueiredo



         Não fazer propaganda do que é bom faz sentido, no sentido egoísta de algum raciocínio. Como não raciocino muito, nem faço muito sentido, mas fujo, a custo, do egoísmo, eis-me aqui outra vez novamente e agora de novo fazendo propaganda de mais um livro esquisito.
         Dizer minha opinião não convencerá ninguém, mesmo porque minha opinião não se coaduna com a do IBOPE, Datafolha ou a qualquer juízo de bom-senso de tanta gente nas altas esferas do por aí em qualquer lugar. Mas, se forem com a minha cara, ou com a minha bunda, assevero-vos que o livro Palavra Atômica é chique e joiado. Sua autora, a carioca Rafaela Figueiredo, concedeu-me o subido privilégio de revisá-lo antes da publicação. E é por isso que venho aqui puxar-lhe o saco.
         Sem por que advogar em causa própria, também não hei de advogar em causa alheia, posto que advogado não sou, menos mal. Contudo, o livro Palavra Atômica talvez alcance algum favor junto a quem realmente saiba apreciar Literatura.
         Dois poemas extraídos da obra:


asteráceas

       jogarei sementes
 quando o sol raiar
       para colher pétalas cadentes
 no meu jardim lunar

Rafaela Figueiredo


metanoato de etila

 dizem que
           a via láctea
           tem sabor de framboesa
 ah, e eu poderia degustá-la
           como uma sobremesa!
           — um iogurte de fruta vermelha —
 e apuraria, então,
           que a tal matéria escura
           a expandir o mundo
 é uma super
           caramelizada calda
           astronomicamente calórica!

Rafaela Figueiredo



sábado, 15 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 13




Capítulo 13

         Há sérias divergências entre anatomistas e teólogos a respeito do peido. Será que o peido foi a última tentativa de Deus para ver se o cu falava? Será que o peido foi criado desde priscas eras com a finalidade única de plantar o pomo da discórdia no elevador? Não sei, eu sou ignorante, já disse.
         Mas o chulé cumpre sua função natural. A propósito, também gosto do meu chulé, e era divino o chulezinho de Cunegundes. O pé feminino é venerado por muitos, nisso não causo espécie; mas gosto do chulé se o pé é bonito. O chulé cumpre seu papel natural, por exemplo, nos cachorros; quem não gosta de cachorro certamente nunca experimentou o chulé canino, e mantenho um pé atrás em relação a quem não gosta de cachorro. Se na sociedade humana o chulé já não tem função alguma, no cachorro o chulé vai espalhando seu odor no chão por onde ele passa, somando-se a isso o seu olfato sensível resulta um mecanismo que lhe facilita a volta a casa.
         Posso não gostar do chulé de algumas pessoas, mas é unânime o favor que o chulé de qualquer cão provoca em mim. O chulé canino tem cheiro de charuto, charuto de boa qualidade. E tanta gente odeia charuto... Por que será? É coisa que não entra nos meus miolos.
         Entra, mas a custo. O que entra a custo causa uma sensação de conforto depois que entra. Por exemplo a questão de o peido ser a última tentativa de Deus para ver se o cu falava. Uma vez comprovada essa hipótese, comprova-se a existência de Deus.
         Bem, não é por aí. Quem duvidar da existência de Deus, é só ler o primeiro capítulo da Suma Teológica de São Tomás de Aquino, em que não há apenas uma prova, mas cinco provas da existência de Deus.
         Meu nono filho, José Lindo Rêgo (maldito escrivão do cartório em que o registrei) professa a fé ateia de maneira exemplar, é santo sendo ateu, assim como há muito crente encapetado. No curso de primeira comunhão, a catequista lhe perguntou se ele amava a Deus, ao que ele respondeu: “Não sei, nunca o vi andando por aí, nunca me foi apresentado pessoalmente.”. E não houve argumento que o convertesse. No entanto foi o que menos pecou durante sua criação, e é bom homem até hoje. Eis o mistério da fé.
         Já minha filha Tieta chegou a ser noviça, comungava todos os dias e fazia jejum todas as sextas-feiras, aplicava-se a “disciplina” inclusive; mas, quando chegou a hora de fazer os votos perpétuos, Perpétua, nossa vizinha, a levou no terreiro Filhos da Jurema a fim de fazer uma sessão de descarrego antes de ingressar em tão severa jornada. Baixou a pomba-gira em minha filha. Hoje leciona História, é filiada a uma organização de esquerda, e dá consulta como mãe-de-santo na Baixada Fluminense.
Onde foi que eu errei?
         Somos resultado da genética e do meio ambiente; quem sai aos seus não degenera; casa teu filho com seu igual, e de ti não dirão mal; mas mania feia e desencaminhamento na vida acontece nas melhores famílias.
         Oh dó.

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sábado, 8 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 12



Capítulo 12

         Se tu comes, tu cagas; se tu cagas, tu peidas; logo, se tu comes, tu peidas. Assim, todos peidam, pois todos comem. Esse raciocínio consolou-me antes de conhecer Cunegundes; eu peidava muito, como continuo peidando por força do ofício, mas nos meus primórdios eu achava que peidar era defeito.
         Dos lugares menos extravagantes em que vivi antes da Antiguidade, na minha pré-história, a Ilha do Governador foi o mais normal, lá fiz muitas amizades. Foi um amigo daquela ilha que induziu-me ao raciocínio supra citado acima no parágrafo anterior. Num momento de filosofias de recreio escolar, ele levou o dedo indicador ao queixo, semicerrou os olhos, e disse: “Quem caga mais emagrece; quem come mais caga mais; logo, quem come mais emagrece.”. Confesso que, não entendi meu amigo, mas no dia seguinte formulei o raciocínio do peido.
         Havia no Rio de Janeiro, onde fica a referida ilha, a Zona do Peido Livre, imaginem. Nas imediações do cais do porto, um lugar em que peido algum superava a brisa do mar. Ali eu me sentia à vontade.
         Mas sou contra o despejo de esgoto no mar e nos rios principalmente. A civilização é contraditória desde o começo, se formos levar em conta Adão e Eva, Caim e Abel, Sara e Agar... Já, sem levá-los em conta, a civilização também é contraditória à partir de certo ponto lá nas origens. Os índios viviam em harmonia com a Natureza, e no entanto faziam guerra e comiam-se uns aos outros.
         “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”. É bem melhor. E para se fazer isso o povo tem se matado há séculos, e compartilhado esgoto e lixo. Meu filho José tem razão?
         José é um vagabundo. Se a Humanidade fosse constituída só de seus semelhantes, iria ser um bando de Zé; iria implodir-se; viria a barbárie. Nessa altura do campeonato, se a gente negar o problema e cruzar os braços, aí fudeu.
         Viria a barbárie porque, se o Filho de Deus teve de dizer que nos amássemos, quer dizer que o amor é custoso aos viventes, homens de pouca fé.
         Até em nome da fé conseguimos nos odiar; em nome da fé ou da inexistência dela. Bom-senso nunca é demais, porém mesmo em congregações de mesma fé o ser humano consegue fazer maldade, querendo-me parecer que a teoria do pecado original é positiva, sendo negativa obviamente; é negativa porque o pecado é mau, mas é positiva no sentido positivista da coisa. Se, por Eva o pecado entrou no mundo, por Maria entrou o Redentor, que morreu por nossos pecados, o que indica que os pecados continuariam a fim de separar o joio do trigo, produzindo santidade até a volta de Cristo.
         Bom-senso nunca é demais, tenho dito. Fé é um fenômeno só encontrado no bicho homem, os outros bichos não têm fé; de modo que não podemos igualar o ser humano aos outros seres do planeta. Bitolar na fé, porém, prejudica como as outras bitolações. Muita penitência faz mal a si e aos outros, até aí o pecado entra, por meio do sadismo, do masoquismo, pela soberba em esquecer que Cristo já fez o sacrifício perfeito por remissão de nossos pecados.
         Enfim: fé de mais fede menos, fé de menos fede mais.

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sábado, 1 de setembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 11



Capítulo 11

         O Quinze teve bicho-de-pé. Claro está que ele é o décimo quinto filho, mas é o vigésimo. Seu nome seria Raquel de Queiroz, mas nasceu menino e ficou sendo O Quinze mesmo.
         Quando ele descobriu o bicho-de-pé, fez que nem mineiro, achou logo que era câncer, e saiu gritando. Eu fui ver o pé dele, e já ia retirar o parasita quando Nelson Rodrigues, orgulho do papai, interveio dizendo “Deixa comigo.”. Ele sempre às voltas com a construção do conhecimento. Deu chá de cogumelo alucinógeno pro irmão tomar. O Quinze achou a ideia superfina, e bebeu tudinho porque queria se curar do câncer.
         O chá fez efeito. O menino começou a recitar I-Juca Pirama. O chá alucinógeno poderia tê-lo feito recitar Macunaíma, que é uma estória doidona, ou mesmo poderia tê-lo feito recitar o romance seu homônimo. Mas não. Recitou I-Juca Pirama do começo ao fim, batendo com o cabo da vassoura no chão, e batendo o pé bichado também.
         O pé inchou, o efeito do chá cessou, e tive de levar O Quinze ao posto de saúde. Lá, um enfermeiro parrudo causou mais desespero no menino, mas delicadamente o enfermeiro foi raspando a borda do bicho-de-pé até romper a epiderme e retirar o troféu, mostrando-o para meu filho admirado.
         E: “Quanta gente que ri, talvez, consigo guarda um atroz, recôndito inimigo, como invisível chaga cancerosa!” — Raimundo Correia.
         Tanta originalidade já foi escrita, que dá-me a certeza da inutilidade do que escrevo. Mesmo tudo de bom que já foi escrito, falado, pensado e feito não compensa o Éden perdido. Mas o passatempo da escrita é eficaz. A obra indica seu criador, mas criador de verdade foi um só Criador, o resto é reverberação.
         Se um bicho-de-pé dá ensejo a reflexão é sinal que o bicho-de-pé não está ali à toa, o bicho-de-pé se harmoniza com o cosmos neste instante. Tudo se harmoniza, a borboleta e o rinoceronte, o jacaré e o veadinho, o homem e a mulher... nem tanto.
         O darwinismo é a pedra angular do ateísmo; sem o darwinismo, o ateu fica com o pincel na mão. A seleção natural ocorre, as mutações também, mas duvido que sejam as únicas coisas que ocorreram em prol da vida. Não é porque algo ocorre que esse algo seja a única coisa que ocorre.
         Mas há quem prefira crer que veio de um aminoácido que milagrosamente por meios naturais extravagantes, os quais não se verificam nem em laboratório, resultaram na célula inicial que jamais cientista algum conseguiu construir do zero. Acho que dinossauro existiu, mas não há tanto tempo; a Ciência mesma se refuta a toda hora, vai que o método do Carbono 14 tem data de validade.
         Minha filha Teresa Batista, um dia, veio correndo da escola me contar: “Pai, o professor disse que a gente veio do macaco! É verdade?”. Eu lavei minhas mãos, disse: “Olha, minha filha, a família do teu professor não tem nada a ver com a nossa.”.

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sábado, 25 de agosto de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 10



Capítulo 10

         Quando vim da minha terra, eu passei na Barra Funda, amolei faca e facão no couro da tua bunda. Não é de minha lavra, infelizmente. Uma pérola do cancioneiro popular, bem popular. Contra o sucesso não se discute.
         Discute-se sim o sucesso. Há tanto sucesso discutível por aí, tanta verdade duvidosa. Desculpe quem faz um sucesso duvidoso, mas tapinha não dói, dói? Só sei que é doloroso ouvir as canções de sucesso atualmente. Tá aí uma frase que se encaixa na boca dum velho!
         As canções são reflexo de seu tempo; às vezes chove, às vezes bate sol, e às vezes fica tudo nublado. Está nublado, mas, chuva que é bom, nada. A chuva fertiliza a terra. O sol faz os frutos brotarem. E o dia nublado dá acidente de trânsito. A canção de um acidente de trânsito pode ter o título de “fratura exposta”, mas ser boa. O problema é que os autores das canções hodiernas é que parecem estar com uma fratura exposta, no crânio.
         Contra sucesso não há argumento. Não sei. Mas uma coisa é certa: pau grande. É, o falocentrismo esporrando para todo lado. Contra pau grande não há argumento. Se você tem um bem grande, experimente mostrá-lo numa discussão, todo o mundo cala a boca na hora; e talvez você seja preso por atentado ao pudor. Mas o silêncio dos argumentos é imediato. Mulher ou homem, não importa, sentir-se-ão intimidados por uma caralha monstra.
         Falocentrismo é o terror das feministas, e eu concordo com elas, melhor é a boceta. O movimento feminista foi tão bom em suas origens, defendia a dignidade da mulher, combatia a cultura da fêmea como objeto de procriação e prostituição. Mas, e agora? Aí está a “marcha das vadias” à guisa de falso feminismo que não me deixa mentir. As matriarcas do movimento feminista devem estar se revirando no túmulo. Será que mais de um século de feminismo serviu para hoje em dia a gente ver moças fazendo tutorial de maquiagem na Internet? Sem falar na pornografia imperante na mesma Internet, a qual parece mesmo ser a “grande prostituta” do Apocalipse.
         Olha como as pioneiras do feminismo se vestiam, os ideais honestos que as moviam. Ser mãe é a maior dignidade que alguém pode ter.
         Política, é de primordial importância, mas a evito; há sempre o risco da má compreensão do discurso. Mudemos de assunto.
         Mas o assunto que me vem continua sendo mulher. Outro dia ouvi uma conversa de homens recém casados. Um disse que se casou com uma mulher alta porque ele é baixinho, e queria equilibrar a prole. Outro se empolgou, e disse: “Tive a mesma ideia! Casei-me com uma loira porque sou negão.”. Outro falou que também pensou assim, e se casou com uma professora porque ele era analfabeto.
         Aí, meu filho Nelson Rodrigues, orgulho do papai, concluiu a conversa em estilo lapidar:
         — E eu, que tenho o pau pequeno, casei-me com uma mulher do pau grande.

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obra completa: aqui

sábado, 18 de agosto de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 9



Capítulo 9

         O peido no palco de um teatro é avassalador. Se proposital, causa riso na plateia, e depende de sonoplastia, ou mesmo dela prescinde se for um peido intencional da peça mas um peido silencioso. Agora, imagina um peido que escapa sem querer no palco. É bem provável que o público não o sinta nem escute, o efeito avassalador será nos outros atores em cena, monólogos à parte.
         Você que me lê, já reparou que atores e atrizes são cínicos em cena? Vivem de fingir. Então por que raios tanta gente quer saber a opinião de atores e atrizes como se eles fossem os porta-vozes da verdade? Eu gosto das artes cênicas, admiro muitos de seus profissionais, mas péra lá! A opinião de um amigo vale mais para mim, seja ele um padre, médico ou policial que esteja contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social. Toca Raul...
         O mesmo vale para outros tipos de arte. Seus autores não são Deus, nem deuses se esses fossem possíveis. Inclusive o que eu escrevo aqui não vale como verdade nem sabedoria, para verdade e sabedoria existe a Bíblia; o resto é passatempo, diversão. E repare nesta palavra diversão, pode ser malévola.
         Ficar bitolado, porém, pode ser uma agonia. Já pensou? Aí estão os workaholics para ilustrar a bitolação. Inevitável pensar nas carmelitas enclausuradas e nos monges, mas eles também têm momentos de descontração.
         Imagine se eu só me dedicasse ao meu negócio, não tem cu que aguente!
         Espairecendo um pouco, penso em Cunegundes. Meu amor foi à primeira vista, e à primeira vista ela peidou em retribuição. Gostei de seu peido à primeira inalação, mas cometi a indelicadeza de jamais perguntar-lhe se gostava ela também do meu. Oh dúvida cruel... Eu supunha que sim, nunca duvidei de tal reciprocidade. Agora é tarde, Inês é morta.
         Inês é um nome tão romântico... Inês causa uma associação em minha mente; imagino uma senhorinha medieva sendo enaltecida em redondilha por um trovador galante, mas servil, arrasado, pudibundo mesmo. Antes de Cunegundes, fui esse trovador.
         Comecei nessa vida de trovador aos quinze anos de idade, comecei tarde. Antes de cultivar a lira, cultivei uma roça de verduras, as quais oferecia a minha musa, uma espécie de Dulcinea dos meus treze anos de idade.
         Estranho é que, quando a gente se casa com a musa, ela deixa de ser musa e se torna a nossa patroa. Muito prejuízo teve minha verve depois do casamento. Ou não, porque passei a escrever sobre temas mais diversificados, mas a escrever bem menos. A família é a célula máter da sociedade, o dever nos chama, temos de matar um leão por dia, só o amor constrói. É.
         Acho a coisa mais linda esses casais velhinhos que vivem implicando um com o outro, tornaram-se irmãos. Com irmão, no meu caso irmã  só tenho um irmão, que não é irmão, é irmã. Com minha irmã, a gente tinha tanta fraternidade que brigava todos os dias. Se você não pode brigar com alguém, esse alguém ainda não é seu amigo, seu irmão camarada. É ou não é?
         Isto posto, continuo a pôr.

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