segunda-feira, 1 de julho de 2019

AMOR ATÉ NA MERDA



amor até na merda

o mundo virtual não tem virtude,
mas tem algumas frases bem legais
que lembram os antigos ideais
das frases que pensei enquanto pude.

talvez na nossa velha juventude,
naquelas afeições colegiais,
amor senti, porém não sinto mais
no mundo virtual, no tempo rude.

estranho-me a lembrar lembrança estranha
que o cérebro provoca caprichoso
por entre mil neurais teias de aranha:

amor é sentimento rigoroso,
é quando a moça amada tanto ganha
que até o seu cocô fica cheiroso...


marcos satoru kawanami

segunda-feira, 24 de junho de 2019

FOFOCALIZANDO



fofocalizando

gaudino, viúvo jovem e sem filhos,
manteve-se fiel à falecida;
amou além do justo, além da vida,
não tendo nem sequer algum idílio...

mas, se a defunta hauriu tamanho brilho
no túmulo em que jaz adormecida,
deixou por sobre a terra um suicida
morrendo a degustar amargo exílio.

e o falso testemunho achou de jeito
pintá-lo ao bel-prazer que se arreganha
de modo caricato no seu quengo,

em sátiro vertendo o tal sujeito,
e nisso aconteceu-lhe coisa estanha:
fez fama de boiola e mulherengo...


marcos satoru kawanami

sexta-feira, 21 de junho de 2019

FIGURA ELETROMAGNÉTICA



figura eletromagnética

um misto de ternura e canhestrice
agita aquela mente perturbada,
agita, em corpo lépido de fada,
canheta sem igual no apocalipse.

afirma não fazer o diz que disse,
mas diz, ao meio-dia da jornada,
que ouviu alguém dizer, de madrugada,
que o mundo ratifica a maluquice...

também maluca, nunca percebeu
a própria maluquice em que se afunda;
e afundo, ao vê-la assim, no sonho meu.

enseja fantasia rubicunda,
provoca devoção até no ateu,
e, no lugar do rosto, ostenta a bunda.


marcos satoru kawanami

terça-feira, 28 de maio de 2019

SEMENTE



semente

quem nunca a paz de espírito sentiu
pairar com aconchego no ambiente,
quem nunca se encontrou candidamente
na abundante carência do que é vil,

quem não quer ver virtude e a nunca viu
nos outros por em si ser esta ausente,
quem usa da razão, porém não sente
nem sentirá e nem jamais sentiu:

não pode mesmo ser chamado gente,
talvez nem alma tenha por pavio
da ígnea centelha que há na mente;

alguém que seja assim está no estio,
porém merece ao menos a semente
do nosso vai pra puta que pariu!


marcos satoru kawanami

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A maior quantidade de todas as coisas - Elga Arantes



A maior quantidade de todas as coisas

Anestesia e overdose,
Paralisia e psicose;
O sonho que atordoa,
O pesadelo que acolhe.

Farol que orienta solene
A embarcação ainda sem leme.
É o sobressalto do ânimo,
O acalanto perene.

É o medo que traz certeza,
Segurança sem agudez;
Insanidade que revigora
O equilíbrio e a sensatez.

Maternidade é substantivo
Para o inefável que diz;
Neologismo arcaico
Do que quase é, por um triz.

É o êxtase que aterroriza,
Pavor que faz desejar
Ser gigante, infalível
Em proteger e cuidar.

A mãe se culpa pelo acerto
De que mesmo tentando encontrar
Outros prazeres, delícias,
Afagos, fortunas, paixões,
Nada, no mundo inteiro,
Vai buscar ou trazer
Maior realização na vida
Que o êxtase do padecer.

Elga Arantes, 2019


sexta-feira, 17 de maio de 2019

FUNDE MEU CANECO



funde meu caneco

na escrotidão do mundo, encontro inspiração,
não sei por que, não sei, mas acho que é pirraça
ou mesmo o dom da fé, da força que me abraça
aquecendo meu sim contra o mundano não.

a gente que é cristão é igual padeiro e pão:
se mais nos sova o mal, melhor a nossa massa,
transformando num bem o mal que alguém nos faça,
multiplicando doze em imensa nação.

mas longe de fiel, poeta sou e peco,
e desse meu pecar talvez resulte a musa
com quem melhor me dou, de quem me bate um eco.

a escrotidão alheia, assim, de mim abusa:
enquanto o mal me pisa, e funde meu caneco,
o bem se escandaliza, e de ser mau me acusa!


marcos satoru kawanami

terça-feira, 14 de maio de 2019

PLANEJAMENTO


planejamento

não fosse o mundo exímio em ser esta engrenagem,
maior seria o caos e inútil a labuta
da física regrar com muita lei astuta
a vida no geral... e a humana malandragem.

um dia, o nada, à toa, estava de passagem,
passou, e a criação, na origem, impoluta,
mais enfeitada que penteadeira de puta,
exuberou, só para Adão fazer bobagem...

mas, mesmo na tosquice, o mundo tem girado,
a vida tem vivido, e o sol, de leste a oeste,
ainda não parou, e sempre tem marchado.

se tudo segue bem a bem do que não preste,
seria bem pior, não sendo planejado,
nos diz quem estudou mecânica celeste.


marcos satoru kawanami

sábado, 11 de maio de 2019

ENQUANTO ISSO EM TODA PARTE



enquanto isso em toda parte

a siririca mãe de todas as punhetas
sonoro verso faz, melada melodia;
e, se você que lê, meloso, a repudia,
ainda provarás da dor de ser maneta...

se o mundo fosse justo, abstinha-se das tretas;
do jeito que tem sido, afaga mas judia,
judia de Raquel enquanto casa Lia,
e, o mundo, o faz girar caralhos e bocetas.

a siririca pode, às vezes, sofrear
a guerra entre nações dispostas ao combate,
está nas nossas mãos ter sorte ou ter azar...

e em campo de batalha ou roça de abacate,
dos males o menor é ver a mão pecar,
punheta e siririca é coisa que se bate!


marcos satoru kawanami

CINEMA TRASH

https://www.youtube.com/watch?v=1vO-fYYicKA
LINK


cinema trash

à meia-noite, irei buscar a tua alma,
seu puto retardado, agora não dá mais;
perdi o trem das onze, e ainda estou no Brás,
saí do crematório aflito, peço calma.

um gato preto vai na frente a bater palmas
levando este bilhete até onde tu estás;
tão logo ele chegar, tão logo escutarás
o som mofino, o som do derradeiro trauma...

dobra o bilhete bem dobradinho..., desfeches
teu franzido que está certamente encolhido...,
mas, se não estiver, é dever que te avexes.

pois, enfia no cu desse gato bandido
todo teu tosco amor pelo cinema trash,
e da naba infernal hás de ser protegido!


marcos satoru kawanami

domingo, 5 de maio de 2019

NOTA DO AUTOR



nota do autor

cobiça e nada mais, cobiça apenas
eu sinto no que sinto, nunca amor,
ainda que este bem, chego a supor,
comigo flerte a custo, a duras penas.

talvez, se eu fosse mãe, virtudes plenas
afeitas ao afeto algum pendor
movessem para andar superior
na térrea condição da alma pequena.

poeta, sou a treva rutilante!;
nos ínferos parido, sirvo orfeu,
plangendo estranha lira dissonante.

o amor, na estranha lira, faleceu;
mas tenho por missão desde os meus antes
cantar alheios egos, não o meu.


marcos satoru kawanami