sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

DAS PAREDES DO PORÃO DA CADEIA DE MONSANTO - capítulo 1

Forte de Monsanto, que, em 1914, deu origem à única prisão
de segurança máxima portuguesa: a Cadeia de Monsanto.

CAPÍTULO 1

        Eu. Essencialmente, é isso. Só posso falar por mim. O assunto sou eu mesmo. Outrem não me diz respeito; a não ser na medida em que interfira em mim; especular sobre impressões alheias então fica basicamente no achismo, mas, o que eu acho, eu digo, e duvidar é direito de qualquer um, inclusive eu de mim mesmo.
        Vai este relato geral e impreciso escrito a mão nas paredes de uma cela de cadeia, por necessidade de comunicação de um preso isolado dos demais, e sem outra alternativa natural ou artificial de receber ou enviar notícia. Se tu estás lendo isso, azar o teu.
        Ou sorte minha. Pensando bem, não. Pensando um pouco melhor, sim. Na verdade, tanto faz. No fim das contas, sou eu comigo mesmo, e tu contigo mesmo desde o debutar da consciência a fazer registros na memória até o encontro com Deus ou com o diabo, sem pai nem mãe nem advogado.
        Prestarei contas no além. Por isso, presto contas a mim mesmo agora e a todo momento. Mas o que estou falando? Estou preso! Já estou prestando contas aos milhões de cidadãos que estão lá fora, mas me sustentando aqui dentro... É. É..., preso deveria trabalhar, né? Bando de vagabundo! Escória da espécie humana! Eu.
        Eu, não. Sou inocente. Quero dizer: Eu não sou inocente, não. Eu sou inocente!
        Essa é só minha opinião, e a respeito de mim mesmo, fato que endossa a outra minha opinião que vem a ser a opinião de que minha opinião não interessa a mais ninguém a não ser a mim, na minha opinião. Tua opinião difere disso? Como poderei saber? No além, tu me diz, se formos para o mesmo destino. Agora, eu estou numa cela; e tu também estás, mas no teu agora, não no meu.
        No teu agora, eu não sei, mas, no meu agora, todos os planetas do sistema solar têm aparecido simultaneamente bem grandes no céu diurno, durante meus sonhos noturnos. Não sei o que isso significa, só sei que sou inocente, e uma coisa não tem nada a ver com a outra senão eu.
        Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. E, quem tiver olhos para ver, não apalpe. Apalpar dá processo... Eu, que nem apalpei, estou preso.
        Hoje, tudo dá processo. A sociedade atual colocou todos os seus sócios uns contra os outros conforme previsto em leis que usurpam qualquer mérito ou ensejo ao bom-senso ou apelo à bondade. Astúcia e malícia respaldadas pela legislação negam qualquer brecha à pureza volitiva e inocência. E eu sou inocente.
        Sou inocente na medida do possível; só posso responder por mim, a maldade na cabeça das pessoas não depende de mim. Se dependesse de mim, eu não estava preso, nem teu rabo. Por que tu não soltas o rabo? Eu jamais seguraria o rabo, nem meu nem de ninguém. Por isso não preciso soltar o rabo. Concordas comigo? Então, solta logo esse rabo!
        Nesse ponto temos de definir os parâmetros que diferenciam um rabo de uma raba, embasados teoricamente na diferenciação entre nabo e naba, que lhes é análoga. Análoga, etimologicamente, de analogia, foneticamente de anal logia, o conhecimento do que é próprio do cu.
        A propósito, quantas vezes mesmo foi que deste o cu? Se não lembras, o franzido já laceou. Se negas tê-lo dado, é porque a negação compõe um dos estágios primários da esquizofrenia sodomita. É, os anos passam, mas o ânus continua o mesmo, guardião da memória pré-consciente da bunda, análoga à do rabo, que se expande consideravelmente na raba, feita para a naba, assim como dogmatiza a anal logia ao estabelecer o rabo para o nabo.
        Isso posto, bunda de cadeia fica passiva de ser passiva. Mas a minha não. Sou inocente.
        Porém, do supra exposto, indaga-se que, se minha bunda não foi passiva, foi ativa?
        Mudar de assunto é uma virtude, afinal obsessão é um vício, e este é mania feia. Mania feia semelhante a dar o cu. Então, quantas vezes foi mesmo que deste o cu?
        Obviamente ficarei sem resposta, estando eu na arqueologia de tua leitura. Mas espero ter aberto tua mente, expandindo teu raio de consciência durante a retração cósmica do teu terceiro olho, em analogia ao fenômeno onírico dos planetas gigantes no céu diurno durante uma apocalíptica retração do próprio sistema solar, se a Terra não for plana e centro da Criação...
        Mas tudo é uma questão de ponto de vista. Eu só posso responder por mim, tenho dito. Na óptica de Isaac Newton, no que a gente vê branco, ele via um arco-íris. Na minha perspectiva, porém, a gravitação celeste dele ficou avacalhada. E, o que eu chamo de azul, tu também o chamas, ainda que possas estar vendo o que eu vejo como amarelo. Daí, concluo novamente que eu só posso falar de mim mesmo. Mesmo que a mistura de azul com amarelo acabe sendo verde para nós dois. Mas verde é a palavra, o que tu vês como verde não é uma certeza absoluta para mim.
        Do que posso ter certeza afinal? Nem da existência dos outros e do Universo posso ter certeza. Tu existes? Pergunta inútil.
        É, mudar de assunto evita a paranoia, entre outros males. E olha que estou falando com uma parede de cadeia. Nem tanto, estou a escrevinhar nela. Mas, se tu não estás lendo, eu estou falando contigo sem que tu jamais o saibas, e tu acabas sendo todos retoricamente, na pessoa de ninguém objetivamente. Chegou a comida.
        Cagando estava a dama mais formosa, escreveu Bocage: Incultas produções da mocidade. Essa livre-associação vem a calhar na minha atual conjuntura. O fato é que a dama mais formosa cagava mesmo, consolo para as feias. Não sou feio, na verdade sou muito bem apessoado, mas minha modéstia me impede de dizer que sou o cavalheiro mais formoso, ainda que o seja. Outrossim, beleza não põe mesa. Logo, pau grande seria melhor. Mesmo porque pau grande ajuda até a pôr a mesa, é o pé de mesa. Se há uma constante universal é pau grande, tanto homem quanto mulher quer ter um.
        Se bem que uma das contradições da catilogência dialética, à luz de Lacan, numa abortagem freudiana, é que o Homem quer uma buceta, e a Mulher quer um caralho. Só siririca e punheta pra dar uma mãozinha nesse problema. Ou não, o que é muito melhor.
        Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Se tu estás lendo isso, é sinal que eu não estou mais aqui. Mas tu estás. Dizer o óbvio é melhor do que mentir. Não minto, sou inocente.
        A mentira pôs tudo a perder no mundo, junto com crer na mentira, por descrer da verdade. Às vezes a coisa é tão óbvia, que neguinho duvida. A dúvida e a curiosidade são duas gêmeas siamesas unidas pelo útero que pariram a Ciência.
        Ciência é sabença, não é sabedoria. Eu mesmo não duvido que tu podes estar duvidando da palavra de um condenado, nisso sou sábio, e tenho ciência. Mas apenas nisso, e pressupondo que estejas lendo o que escrevo. Nada palpável, e é bom não apalpar. Dá processo.
        Dá processo se alguém não gostar. Se gostar, não dá. Ou melhor, aí é que pode dar. Bem antigamente não havia esse problema; ninguém apalpava, era tudo na castidade muita, e funcionava pelo menos melhor que hoje. Contudo, dizer isso é implorar pela pecha de reacionário. Reacionário é palavrão, conservador é melhor. Aliás, conservador evita a gênese do reacionário, pois vai conservando de modo a não haver a necessidade de se reacionar.

continua sexta-feira...

sábado, 9 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 34 e epílogo



Capítulo 34

         Cunegundes está entre os vivos.
         Vi em outro filme de Ana Carolina uma personagem confessar que tinha vergonha de desejar homem. Não sei por que, mas, realmente, mulher que sai desejando adoidado, expressando e concretizando seus desejos sexuais, acaba se dando mal ou se fodendo mesmo.
         Minha senhora, nesse ponto, foi mais venturosa. Desejava, apontava, e pronto. Era uma mulher muito viva.
            Cunegundes está entre os vivos.
         Eu estava assistindo ao telejornal da meia-noite, quando o presidente Temer apareceu numa reportagem. Senti um calafrio, e fui fechar a janela. Soltei um puta peido!, com caldinho e tudo. Era Temer na janela, mostrando os dentes caninos; tinha se transformado em vampiro. Percebendo meu cagaço, disse ele: “Minha vingança sará malígrina!”, e deu uma cuspidela para o lado. Era um vampiro brasileiro.
         Estando eu paralisado de horror, Vampiro Temer atravessou a parede, e créu, mordeu meu pescoço.
         Minha porção mulher veio à tona com tal mordida tão bem dada.
         Senti enjoo e cólica menstrual, mas senti fúria de TPM, eram os hormônios se rebelando. Pelos enormes nasceram em todo o meu corpo, minhas unhas viraram garras, meus dentes viraram presas. Eu virei lobisomem.
         Comi a minha vizinha.
         Mas, quando a caguei, ela se transformou num zumbi. O ciclo se completara. Zumbis mordiam gente, que viravam vampiros, que mordiam gente, que viravam lobisomens, que comiam gente, que eram cagadas zumbis!
         Juntei-me à horda de monstros, e saí comendo gente até encontrar Cunegundes, que foi a zumbi mãe de tudo aquilo.
         Soube então que Afrodite roubara uma retroescavadeira, e, cavocando no cemitério, libertara Cunegundes dos ínferos.
         Agora eu posso dizer: Sou feio, mas tô na moda.
         E nossa vingança será maligna! Você aí que me lê, tome esses escritos como advertência. Na próxima lua-cheia ou na próxima lua-nova, quando você sentir um calafrio no espinhaço, é nóis na fita. E créu.
         Sinal dos tempos, nossa horda disforme invadirá cada buraquinho deste mundo decrépito a fim de dar aos viventes a própria feição da desgraça em que têm vivido sua libertinagem. E créu.
         Vai vendo, vai vendo.
         Isto posto, ponho o ponto final.

   





Epílogo

         A propósito da Literatura Sanitarista referida nos anteriormentes deste livro, segue abaixo um soneto escrito nos conformes dessa estética, para livre divulgação latrinas do mundo afora:



FLATO VERÍDICO

O peido sai da peida, e é um gás
translúcido, odorífico, butano
mesclado com partículas do humano
cocô, e vem daí o seu cartaz.

O peido é igual a filho, só quem faz
aguenta. Digo bem e sem engano,
pois peido é sobre a gente soberano,
e, às vezes, é questão de guerra e paz.

Falar como se a boca fosse o cu
apraz quem reconhece, na humildade,
a leda condição de ser jacu.

Mas, tendo o erudito a tal vontade,
irá peidar, e, aí, o deixo nu,
despido de qualquer vã veleidade.



Nhandeara, 9 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


não continua sábado

sábado, 2 de fevereiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 33



Capítulo 33

         Sinto atração pelo defeito. Mulher toda perfeitinha não é atraente. Cunegundes era bem dotada nesse quesito, tinha a qualidade defeituosa a contento. Uma de suas apetitosidades, além do joelho de porco, era o hiato entre seus dois primeiros dentes incisivos da arcada dentária superior. Outra apetitosidade sua era ter o mesmo defeito na arcada dentária inferior. Tinha as pernas tortas também, a bunda faltando um pedaço, sardas na testa, e olheiras roxas. Um piteuzinho.
         Minha cara-metade, meu outro lado da laranja, tinha domínio intelectual sobre o próprio peido; controlava-o ao extremo, não apenas retendo-o, mas dando o tom que quisesse a ele. Cunegundes assobiava com o cu. Eu muito me admirava desse talento nato do meu amorzinho, eu que consegui ser peidorreiro de ofício.
         Mas Cunegundes nunca ganhou a vida com o cu. E não foi por falta de incentivo. Cheguei a inscrevê-la num concurso público para primeiro trompete da Banda dos Fuzileiros Navais; ela, porém, em sua humildade, preferiu ser dona de casa. Mulher admirável, mulher à frente de seu tempo.
         Quem me lê, talvez esteja se perguntando por que tanto louvo as qualidades de Cunegundes, se ela, por racismo infame, preferiu ter todos os nossos filhos com outros homens. Ora, mas isso é só um detalhe, pai é quem cria, diz o ditado popular. E tem mais: Sara, esposa de Abraão, ordenou que sua escrava Agar se deitasse com ele a fim de poderem ter uma descendência. Eu, consentindo que minha senhora concebesse nossa prole com outros homens, livrei-a de qualquer culpa adulterina. É ou não é?
         O importante é participar. Necessário é o amor. Só o amor constrói. “O amor vem por princípio, a ordem por base, o progresso é que deve vir por fim.”. Não sou eu que o digo, mas Noel Rosa, que nunca foi corno.
         A cornologia, porém, é uma área do conhecimento humano fundada na Antiguidade junto com a cosmologia, a cosmogonia e a cornogonia. Filha da agonia, a sabedoria de todo corno é questionada e posta em xeque por uma frase indubitavelmente duvidosa, que vem a ser esta: “Todo castigo, para corno, é pouco.”. Eu nunca vi castigo algum, mesmo porque, corno não sou. Pelo contrário, sou é ovacionado por onde passo: “É ele! Lá vai ele!”.
         Debruçando-me sobre questões cornológicas, reparei, entre outras coisas pitorescas, que há corno que se gaba de o ser. Normalmente são as mulheres as mais orgulhosas pela galhada que ostentam, achando virtude no costume do marido de passar o rodo geral.
         No pertinente a sexo, existe de um tudo. Minervino, por exemplo. Minervino broxou, broxou de vez, e nem por um Viagra via o palhacinho envergar o paletó. Até que sua senhora lhe mandou a guampa. Minervino, quando a viu galopando sobre a pica de aço do mestre de obras como se fosse uma obra do mestre Picasso, ficou tesudo, e não pincelou mais, desde que a coisa fosse feita a três.
         O remédio de Minervino era o veneno da traição.

continua sábado...


"Cagar lo espiritual hasta hacerlo palpable, espiritualizar la mierda hasta hacerla invisible, en eso consiste el arte."
(Glauco Mattoso - Jornal Dobrabil)



sábado, 26 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 32



Capítulo 32

         “No princípio era o Verbo...”, diz o Evangelho.
         Os verbos indicam ação, e esta indica insatisfação. Deus luta, diz o Livro do Gênesis na ocasião em que Jacó se vê obrigado a lutar com o anjo. Deus, porém, é todo Graça e contentamento, pois, ao criar o mundo, Ele já o havia criado, Deus está fora do tempo e em todos os tempos. Logo, não faz sentido perguntar o que Deus fazia antes de criar o mundo. Até um peidorreiro feito eu enxerga isso, cacilda!
         O Verbo reverbera nos demais verbos particulares, nas nossas ações, as quais indicam nossas necessidades de reverberar o Verbo em nossos verbos constantemente. Os verbos em que estamos nós agindo, e, pensando bem, também os verbos que dependem de outrem alheio ao ser humano são centelhas divinas pelo mundo afora. Isso faz sentido quanto às almas humanas que animam os seres humanos, e às almas das coisas que animam as coisas, como um elétron, por exemplo. O mundo reverbera o Verbo.
         Sinto uma pontada meio na diagonal do ventre, e peido. Saboreio o peido, ou melhor, olfateio o peido, ou melhor, cheiro o peido, ou melhor, gozo meu próprio peido, pois de peido alheio quero distância.
         A felicidade custa tão pouco. A infelicidade custa caro. Vejo gente correndo atrás da infelicidade a vida inteira, sofrendo e fazendo sofrer em nome da infelicidade que em seu delírio lhe sorri. Sorri com um punhal na manga, com o qual despacha a gente coitada desta para pior.
         Felicidade, é em nós que ela existe. O único lugar onde pode haver felicidade é a alma. Esta felicidade começa com a Moral Natural, passa pela sabedoria, alia-se às virtudes, complementa-se com a fé, e alcança a plenitude em Nosso Senhor Jesus Cristo.
         É, admito que não sou politicamente correto. Professo minha fé católica despudoradamente. Para que pudor quanto a isso?
         Despudor pior é esse povo sem rumo fazendo merda, deitando em cima, rolando, e dando risada. Estou me referindo principalmente à degeneração da família, degeneração que é a célula máter do Livro das Lamentações. Vai lá e lê, vê se não tem tudo a ver com a crônica policial.
         Desgraça sempre houve, mas hoje o inimigo está primando em requintes apocalípticos, a desgraça globalizou-se. Por que não a fé globalizar-se também? A mídia cristã faz sua parte. O problema é que a grande mídia tem feito mil vezes mais, e melhor em ser pior.
         Peido é felicidade barata, felicidade dos sentidos. É lícito peidar e gostar do próprio peido, é justo. Mas não é sagrado. Sagrada é a felicidade em comunhão com a Verdade.
         O ser humano quer conhecer a Verdade, é um pendor natural. Só que o caminho da Verdade é a Cruz. Sofra tomando sua cruz, pois o sofrimento é fato com ou sem ela.
         A morte faz parte da vida, mas a vida faz parte da morte. Fora do Tempo viveremos a vida verdadeira e perene na Eternidade, e o Paraíso começa aqui.

continua sábado...


domingo, 20 de janeiro de 2019

ENSEJO EDIFICANTE

LINK

ENSEJO EDIFICANTE

O breu, não sei por que, lá muito havia;
a falta, o nada ser era patente
diante da ignorância onipresente,
pois luz sobreabundava em carestia.

Porém, rompendo a enérgica apatia,
um grito metralhou todo o ambiente;
o grito era festivo e descontente,
o grito fez valente a covardia.

E, enquanto retumbava a euforia,
a mui leal prudência deu o alarme,
pois inda era só breu que persistia.

Mas tudo então brilhou no extremo charme
da verdade, por quem eu não perdia
o ensejo edificante de calar-me.


Nhandeara, 3 de agosto de 2017
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 19 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 31



Capítulo 31

         Tenho dois CDs do compositor e cantor cearense Falcão, gosto das músicas dele, do humor, do estilo e da crítica. Um dos CDs leva o título da canção A besteira é a base da sabedoria. Frase espirituosa, e, de certa maneira, certa, certeira e com certidão de verdade. Sim, pois, quando fazemos uma besteira, é porque erramos, e é errando que se aprende.
         Ocorre-me assim este corolário: A ignorância é a base da sabedoria.
         Nem sempre erramos por ignorância, mas esta colabora bastante com o erro. Escatologicamente falando, quem conhece a verdade não erra, a não ser que goste do erro, goste do mal.
         Todavia, a ignorância é a base da sabedoria uma vez que move, pela insatisfação, à vontade de conhecimento, seja por necessidade legítima, seja por curiosidade desnecessária. Constatada a ignorância, somos movidos a dissipá-la por meio de suposições e experiências. Após conhecer o que antes se ignorava, muitas vezes surge uma nova ignorância a ser superada, e assim por diante.
         De modo que a ignorância é a base da sabedoria, e, quanto mais se ignora, mais se conhece.
         Não, porque ciência não significa sabedoria. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Pensa bem. Sabedoria é mais próxima do bom-senso cumulado de vivência, enquanto ciência está mais próxima da técnica e do conhecimento.
         Logo, o corolário corrigido fica: A ignorância é a base da ciência.
         Já a base da sabedoria é o bom-senso. Mesmo porque, onde se despreza o bom-senso, inexiste sabedoria. Bem e mal novamente duelam; quero acreditar que o bom-senso busque o bem, e o bem ame a verdade.
         Mas, como não dou um peido pelo meu bom-senso nem merda nenhuma pelo meu conhecimento, tenho o costume de fazer besteira. Mas, se a besteira é a base da sabedoria, estou pregado na base.
         O jeito é estudar a fim de adquirir bom-senso. Quem estuda sem adquirir bom-senso gosta da coisa torta, de perseverar no erro. A intuição tropeça fazendo besteira, e aciona um alarme retumbante: Olha, tu te esqueceste da Moral Natural!
         Para quem não possui Moral Natural, ela não faz sentido; mas advirto que até os animais a têm. Vi um vídeo em que uma onça mata uma macaca a fim de devorá-la; nisso, repara que apegado à macaca está um filhote; então, a onça cata delicadamente o macaquinho, e pousa-o num galho de árvore; a onça, perdendo o apetite, deixa o local e o cadáver que devoraria. Isso é Moral Natural.
         Quanto ser humano não tem tal bom-senso instintivo, quanta gente, talvez por não ter alma, é inferior a uma besta fera. Dá pena e asco ao mesmo tempo.
         Seria possível ao ser humano não ter alma? Parece que considerável parcela da Humanidade, por não ter alma, está nesta vida como que figurantes ou robôs, gente que é só matéria, tipo um tubo de ensaio onde uma reação química se desencadeia sem a interferência de uma vontade própria. Os desalmados aparentam vontade, mas ali não reside consciência volitiva.

continua sábado...

"Cuidar muito da saúde é doença."
(Olavo de Carvalho)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ANNO GRATIA 2019



ANNO GRATIA 2019

Um mundo pós-cristão se descortina,
masturba-se no XVIDEOS todo dia,
normal é praticar a sodomia,
mamãe é, na novela, a cafetina.

Se é fake ou fato, o fato é que se opina
demais no Facebook, à revelia,
e o muito se mostrar, de anomalia,
virou uma obsessão por purpurina.

A bicicletaria está às moscas,
engorda a juventude ao celular,
e passa em videogame as horas foscas.

Um broto de bambu em chão lunar
distrai do pertinente a coisas toscas
o povo entorpecido a vegetar.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 12 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 30



Capítulo 30

         Peido inoculado em pneumáticos foi a tecnologia que desenvolvi, modéstia à parte. Sim, a tecnologia tem seu lado bom. Fato que me leva a ponderar sobre os lados das coisas. Que lado é melhor: o lado de fora ou o lado de dentro? O que seria melhor: admirar a beleza exterior, ou penetrar na beleza interior?
         Para um condenado preso, o lado de fora é melhor. Quanto à beleza, normalmente penetrar na beleza interior depende de se admirar a beleza exterior. Na dúvida, foda-se.
         A tecnologia tem seu lado bom, mas tem muito seu lado mau. Pelo andar da carruagem, a carruagem já virou carro, o carro virou avião, e o avião virou espaçonave. A espaçonave virará teletransporte. Nisso, já inventei tecnologia de ponta, pois peido será sempre peido, é flato consumado.
         Um dos lados maus da tecnologia é a gente ficar na mão dela, coisa que já acontece. Mas, e se nossas vidas dependerem totalmente da tecnologia? Louvada seja a policultura agronômica e também o selo orgânico. Ou seja, Deus tinha razão. E vivemos no melhor dos mundos possíveis, concordando veementemente com o Dr. Pangloss.
         No entanto, querem colonizar Marte. É. Disfarça, digo nada.
         Mas, se eu não fosse eu, seria o quê? Você, se não fosse você, seria o quê? Não seríamos, de modo geral. A consciência é o dedo que interfere movendo ou parando uma fileira de dominós que se derrubam. Se não tivéssemos consciência, ainda que pudéssemos aparentar consciência de nossa própria existência, não a teríamos. O fator externo ao corpo é a alma, e por ela temos consciência, pela alma somos.
         Logo, se eu não fosse eu, simplesmente não seria. E, se minha mãe fosse homem, eu teria dois pais. O que me leva a um problema infinitamente complexo: se o peido não fosse o peido, o que seria?
         Se Deus é onipotente, poderia criar uma cadeira em que não pudesse Se sentar? Ou não é onipotente? Ora, se Deus nos concedeu sabiamente o livre-arbítrio, Ele quis não ser onipotente.
         Que graça haveria em ser onipotente?
         Criar a Criação foi um ato de amor. Contar com a colaboração das criaturas significa que o Criador não quer ser autossuficiente, não quer a solidão. Quem quer companhia quer amigos, quem quer amigos quer amar e ser amado. Por isso Deus ama. Por isso Deus quer que o amemos. Por isso existe o drama da entrada do pecado no mundo.
         E o peido há de possuir sua finalidade também. Que é encher pneu. Minha colaboração no drama da existência foi aplicar cientificamente o peido, direcionando-o introspectivamente por meio da tecnologia rumo ao interior do pneu, na direção oposta ao meu interior extrovertido. Senão, vejamos: a cada ação, corresponde uma reação de igual intensidade em sentido contrário.
         Se ninguém concorda comigo, Isaac Newton concorda.
         E basta.

continua sábado...


"quando come osso,
todo bassê faz um troço
branco, duro e grosso."
(Glauco Mattoso)



sábado, 5 de janeiro de 2019

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 29



Capítulo 29

         Tive vinte e cinco filhos com Cunegundes, e só tive filhos com ela. Todos eles frutos dos coitos de minha senhora com outros machos. Mas pai é o que cria, e eu criei os vinte e cinco com muito empenho, que nem o passarinho tejo cria os filhos do passarinho chupim. Outrossim registrei no meu nome todos eles em cartório. O que faz toda a diferença.
         Fui feliz no casamento, tive família. A família é a célula máter da sociedade, e a sociedade ou é de capital fechado ou é de capital aberto. A minha sociedade foi de capital escancarado. Em compensação, nossa descendência povoa a Terra, e ainda sou muito elogiado: “É ele! Lá vai ele!”.
         Ter muitos filhos tem a vantagem de ganhar ajuda do governo. Só de bolsa-família quase fiquei milionário. Pensei até em fazer carreira nisso. Mas daí veio José com aquele cabeção, e conduziu Cunegundes ao óbito arrombatório no seu vigésimo quinto trabalho de parto normal.
         A cabeçorra de José é que não é normal. Puta que o pariu! De mim, com certeza, ele não herdou aquelas dimensões cranianas de E.T.. Talvez Cunegundes tenha sido abduzida, e emprenhada numa nave extraterrestre, diria um ufólogo.
         Ufólogo não sou, graças a Deus. A ufologia demonstra movimento demais, ou seja, extrema insatisfação. É difícil investigar o assunto, e achar o assunto, movimento demais. E tem revista especializada nisso. Imagino quanta fraude os editores da revista têm de descartar.
         Não nego, porém, a existência de vida inteligente fora da Terra; se mais rara é inteligência na Terra... Ora, a apologia insistente e impertinente do crescimento econômico, por exemplo.
         Crescimento econômico interessa a quem? A mim não interessa. A você interessa? Então por que os telejornais ficam dando tanta importância ao assunto até estourar o saco de nossa paciência?
         Mistério... Nunca se sabe.
         “Só sei que nada sei.”, atribuem o famoso adágio a Sócrates, e ele foi um sujeito que dividiu a Filosofia em antes e depois dele, sem nunca ter deixado nada escrito. Pô, ele é o cara! E não sabia nada. Mas o oráculo de Delfos disse que sabia pra dedéu. Donde podemos concluir que há mais sabedoria em não saber do que em saber. Paradoxo fundamental para entender a santa ignorância, da qual sou arauto e porta-voz, porta-voz e porta-bandeira, porta-bandeira e mestre-sala. Tem algum preconceito com Carnaval? “Quem não gosta de Samba bom sujeito não é; é ruim da cabeça, ou doente do pé.”, cantou o filósofo das sacadas dos sobrados da velha São Salvador.
         A lembrança de donzelas do tempo do Imperador, aliás, remete-nos novamente ao crescimento econômico. Hoje não há mais escravidão, ainda bem. E, no entanto, a maioria esmagadora do povo anda trabalhando mais que escravo, por conta das metas, por conta da necessidade do lucro, por conta do crescimento econômico. Enfim, por conta da guerra dos mercados, da disputa entre as nações para ver quem vai implodir-se mais rapidamente, com a degeneração da família, com o tráfico de drogas, com a guerra urbana, com a escassez dos recursos naturais.

continua sábado...


Alegria de maquiador é fazer mulher bonita ficar feia.



sábado, 29 de dezembro de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - capítulo 28



Capítulo 28

         Movimento é insatisfação. Calor é movimento, mas não é insatisfação. Vento é movimento, mas não é insatisfação.
         Contudo, se no frio ligamos o aquecedor, o calor resultante é consequência da insatisfação. E se no calor ligamos o ventilador, o vento por ele produzido é resultado da nossa insatisfação.
         Para que o movimento seja causado pela insatisfação, é necessário haver um eu, ainda que seja o eu de um inseto. O inseto mexendo a perninha, está lá a insatisfação.
         Sogra é insatisfação. Dizem. Tive a sorte de não ter sogra, minha senhora nasceu de uma ostra gigante. Isso já dá ideia para muita gente querer ensaiar um movimento de transformar a sogra em ostra. Porém, como disse Dicró, eu amo a sogra da minha mulher.
         Justiça seja feita. Há sogras que vêm para bem. Tenho visto sogras criando os netos, e tenho visto noras que parecem... E genros que seriam...
         Será que minha insatisfação está me movendo a escrever? Então estaria eu agora transmitindo insatisfação? Fui satisfeito no casamento, mas a insatisfação da viuvez causa este movimento. E você que me lê, está insatisfeito?
         A idade pesa. Gera insatisfação. E até mover-se na velhice é insatisfatório. Resulta que estou no cu do Saci, por estar no fim do pito.
         Terei uma boa morte, estou tranquilo quanto a isso. O que me instiga a escrever é a vontade de transmitir a outra criatura um pouco do que vivi, o que é bem diferente de transmitir a outra criatura o legado de nossa miséria. Mesmo porque tive vinte e cinco filhos, teria transmitido o legado de nossa miséria adoidado. Só que sou otimista.
         O otimismo tende a ser bastante procriativo. Não. Obviamente não. Padres e freiras são excelentes no otimismo, escatologicamente falando. E olha que eu falo como se a boca fosse o cu. Se tem tanta gente falando merda e sendo ouvida, por que não posso também?
         Não insinuo que esteja eu fazendo teu ouvido de penico, mesmo porque tu estás lendo. Mas, se fores cego e estejas ouvindo tudo isso, o que te move é a severa insatisfação do legado de nossa miséria. Mas, se estiveres lendo, a mesma insatisfação vale para ti. Ou não?
         Nunca se sabe, dizia um amigo meu, mas o dizia em qualquer situação, o que induzia-me a crer que ele fosse retardado. Acontece que ele tinha razão, nunca se sabe. Levei anos para verificar a sabença do meu amigo, sua agudeza de discernimento sapiencial em tão incipiente idade, pois ele já falava isso aos doze anos de idade. Na Física, o nunca se sabe é o princípio da incerteza; e, na Filosofia, Descartes também duvidava sempre. É ou não é?
         Não sei. Nunca se sabe.
         O que dizer então do que não se sabe mesmo? Tem coisa no conhecimento que a gente nem supõe que desconhece. A bem da verdade, em geral, é melhor desconhecer. O necessário já nos foi revelado desde Adão e Eva. Mas resolveram ter curiosidade..., olha no que deu.

continua sábado...