sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

SACODE



sacode

tu me ensinas a lição
ditando o conto de fada
no qual és fera indomada
me impondo doutrinação.

por ti jorra a inspiração,
musa tesuda e amada,
deixas bem disciplinada
toda incontida tesão.

vem na minha direção,
vem, faz cara de tarada,
raba pro chão agachada,
põe meu pau na tua mão.

na tua mão ele explode,
dentro de ti nunca finda.
és das fadas a mais linda
por quem escrevo esta ode.

quero te dar um sacode,
fazer de um tudo também...
sinto que mesmo no além
o nosso amor inda fode.

marcos satoru kawanami

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

SAGITARIANA



sagitariana

bem longe de todo mal,
bem perto de todo bem
a nossa união astral
leva a vida mais além...

após conjunção carnal
querendo fazer neném,
melhor conjunção astral
nenhum outro mapa tem.

pois sendo eu de escorpião
e ela sagitariana,
sob o signo do tesão
a nossa carne se irmana.

e nossas almas explodem
imortais no paraíso,
pois lá também elas fodem
reproduzindo o sorriso.

e o sorriso de criança
que só minha amada tem
o céu me traz à lembrança,
leva a vida mais além...

marcos satoru kawanami

sábado, 7 de dezembro de 2019

PIRRAÇA

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pirraça

ela não gosta de mim,
mas parece que gosta.
é tão bom amor assim,
melhor que isso só bosta.

ela é tão boa pra mim,
me judiar ela gosta.
gosto dela bem assim,
gosto dela até na bosta.

quando está perto de mim,
de seduzir-me ela gosta.
e, se ela faz sempre assim,
é só pra me ver na bosta.

se muito amor tenho em mim,
faço tudo que ela gosta.
obedecê-la é assim:
ser feliz mesmo na bosta.

mas um tiquinho de mim
da pirraça também gosta...
e quer vê-la bem assim
caindo em cima da bosta.

marcos satoru kawanami

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

NÃO ARRIMA

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não arrima

a rima não arrima arrimo em si
no tempo deste estranho mundo novo,
que sempre foi presente em todo povo
conforme dizem salmos de davi...

conforme as eras que jamais eu vi
mas vejo nesta terra em que me movo.
pois tem a raça humana desde o ovo
plantado a má semente sempre aqui.

baleiros em baladas e os fuzis:
o crime muito bem a droga esgrima,
mas vejo, sem ser crime, coisas vis...

e nada posso a detonar a rima
no mundo, na cidade, no país
que por hábito o crime legitima.

marcos satoru kawanami

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

a lenda do jesus baiano

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a lenda do jesus baiano

eu olhei pra tua cara,
deu vontade de chorar.
a feiura é joia rara,
só de vê-la perco o ar...

o anel que tu me deste
era vidro e se quebrou.
tua mãe é a própria peste,
mas teu pai a muito amou.

esse santo pai da filha
é meio que são joaquim.
nesta tosca redondilha,
são josé sobrou pra mim?

isso muito justifica
eu ser casto em atitude
para tu, virgem pudica,
na feiura, achar virtude.

o consolo é a siririca,
a punheta também é.
a mulher quer uma pica,
e buceta o homem quer.

dessa má-compreensão
ainda resulta um mal:
mulher ganhando culhão,
e homem cortando o pau...

mas nossa casa é honrada,
minha esposa (quem diria?)
foi até mesmo embuchada
como foi santa maria.

nasceu um menino preto,
somos brancos anglicanos.
e cismo neste quarteto
que jesus era baiano...

marcos satoru kawanami

terça-feira, 19 de novembro de 2019

a baranga de ipanema - paródia a garota de ipanema de vinicius de morais e tom jobim


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a baranga de ipanema

olha que moça mais feia,
mais cheia de sarna,
que vem e que coça
o cu com a peia
do cão quando encarna
tatu lá na roça,
caminho do mar...
caminho do mar?

como é bom amar...

amar uma feia
é a coisa mais linda,
mais cheia de graça,
que vem e que passa
ou bem pode ainda,
se pegar na veia,
nunca mais passar,
caminho do mar...

delírio é casar...

quem casa quer casa,
quem casa não pensa,
quem pensa não casa,
mas a recompensa
é que desgraça pouca
é muita bobagem.
prepara a bagagem,
caminho do mar...

carinho é azar...

olha que coisa mais linda,
mais cheia de graça,
é ela menina que vem e que passa
fazendo pirraça?
então vá se catar!
caminho do mar...
vá mesmo pro mar...
vá lá se afogar...

mas sabe nadar?

o peixe baranga,
mocreia flutua,
a paz tumultua,
espanta as sereias
da vila e da roça,
me deixa de tanga
vivendo em palhoça,
me faz trabalhar...

castigo é suar...

mulher dá trabalho,
e nem sempre quer dar...
mas é bom para o malho
ser assim proletário,
ou digo o contrário,
preciso explicar?
melhor nem pensar...
caminho do mar...

pra vinicius de morais,
beleza é fundamental,
mas sou dos reles mortais
vivendo em mundo real.
meu carinho é na feiúra,
me desculpem as bonitas.
a tara das esquisitas
é que abre-me a fervura...

e se a carne fica dura
é lei procriar...
caminho do mar...
e eu nem sei nadar...

marcos satoru kawanami

domingo, 25 de agosto de 2019

NASCEU UM NENÉM

Orphans – Thomas Kennington 1885
Tate Gallery, London

nasceu um neném

nasceu um neném
no meio de tantos,
e nasceu aos prantos,
nasceu sem ninguém.

entrou pela porta
sangrenta do mundo;
num sono profundo
a mãe, está morta.

o pai não é um,
o pai são dezenas...;
nesta noite amena,
o pai é nenhum.

nasceu com estrela,
menina ou menino;
com a lua a pino
sem a mãe por vê-la.

passará a vida
conforme passamos,
pois a morte herdamos
sem outra saída.

sendo adolescente,
sentirá o amor,
seja lá quem for,
como toda gente.

terá riso e choro,
mais choro que riso,
pois sempre é preciso
engrossar o coro.

somente de Deus
é a gratuidade,
desta qualidade
são todos ateus.

e também nasceu
na mesma irmandade
a estranha orfandade
que agora nasceu.

no nosso defeito
errará legal,
é norma normal
alguém desse jeito.

e, ao fim do pavio,
se acaso envelheça,
se o inverno conheça:
demência senil...

mas a vida é boa
no eterno previsto,
se buscamos Cristo;
não é coisa à toa.

a vida é sim boa;
pra quem tem carinho
pra dar no caminho,
o caminho ecoa.

a vida é o caminho,
a verdade e a vida
em fé prometida
no pão e no vinho.

nascemos na merda,
até na orfandade;
a calamidade,
quem é que não herda?

a bosta é sadia,
a bosta é adubo,
sorri mesmo ao cubo
quem planta alegria.

nasceu um neném,
pensei verso triste;
mas ninguém resiste
à vida que vem.

e a vida é tão boa
que o mal se fez bem;
nasceu um neném,
este verso entoa!

marcos satoru kawanami

sábado, 24 de agosto de 2019

Soneto Solilóquio - acerca do autismo



SONETO SOLILÓQUIO

Naturalmente em mim autista hermético,
o drama foi fazendo-me... dramático!,
extravasando até o esquema tático
em prol de um benefício mais estético.

Atleta mais melódico que atlético,
sou simbiose de um sopro pneumático
trompista, e artifício matemático;
e em síntese resumo do frenético.

Pois disse-me a parteira no meu parto
que eu fosse à merda!; eu ri, e teve início
a minha saga errante de Pinóquio.

E dentro do meu crânio existe um quarto
em cena teatral onde o bulício
da platéia é aplauso a um solilóquio...

Marcos Satoru Kawanami

domingo, 28 de julho de 2019

CONTO DA CARROCINHA DE SÃO PEDRO - folclore brasileiro



conto da carrocinha de são pedro

         conforme uma obscura lenda das bruxas evangélicas do estado da bahia, quando são pedro andava pelo mundo puxando sua carrocinha... não estranhe quem me lê o fato de bruxas evangélicas acreditarem em santo, é que na bahia muita coisa pode, inclusive protestante oriundo do candomblé crendo em santo, pai-de-santo, e até um pouquinho no orixá de estimação. bem, quando pedro apóstolo andava puxando sua carrocinha mundo afora, passou por um trecho de lama, e a carrocinha atolou.
         o santo era forte, mas, não conseguindo desatolar a carrocinha sozinho, foi buscar ajuda.

         encontrou um grupo de lavadeiras à beira de um córrego, e disse:
         — ô, muiezada! cêis me ajuda desatolá minha carrocinha?
         as mulheres responderam desanimadas:
         — nóis tamo trabaiando, hômi, não tá vendo não?! vaza daqui!

         são pedro anotou o ocorrido na sua cadernetinha, e seguiu adiante. passando por uma venda na beira da estrada, viu um bando de homens à toa bebendo cachaça, cuspindo e coçando o saco. disse-lhes o santo:
         — ô, pingaiada! cêis me ajuda a desatolá minha carrocinha?
         e os homens todos foram se prontificando:
         — é pra já, meu rei! vamo nessa! só se for agora!

         os pinguços chegaram no local do atoleiro, fizeram força com gosto puxando daqui e dali, lambrecaram-se todos de lama, e só se deram por satisfeitos quando conseguiram desatolar a carrocinha.
         são pedro agradeceu, tomou uma cachacinha com eles, e seguiu viagem. porém, parou um pouco adiante na estrada, e anotou também na sua cadernetinha: “que a partir de hoje nunca falte cachaça pros hômi e trabaio pras muié!”.


(do imaginário popular)


terça-feira, 23 de julho de 2019

TERRA VISTA DA LUA



terra vista da lua

o que será que Cristo quer de mim?,
se sempre em trilha torta tenho andado,
por mais que, no meu peito, devotado
um coração repita à cruz seu sim.

a lucidez lunática a que vim
impõe-me eremitério segregado,
o que vale dizer que tal estado
nenhuma lucidez possui enfim.

pois a lunática visão de mundo
produz realidades irreais,
e a comunicação sofre ruído.

então, somente o íntimo profundo,
reduto dos primários ideais,
mantém-se na Verdade, e é instruído.


marcos satoru kawanami