terça-feira, 28 de março de 2017

ÚLTIMA FLOR DO MANGUE


ÚLTIMA FLOR DO MANGUE

Acerca dos achismos, tenho achado
que vai haver achismo sempre e tanto
que de me achar achando não me espanto,
ainda que não tenha procurado.

Achei que agora tenho escrevinhado
o nada essencial de algum encanto,
o pranto que comove e leva ao pranto
por tanta nulidade, que até nado.

Última flor do mangue, incauta e bela,
a fim de não achar que achou errado,
é sempre necessário ter cautela.

De modo que aqui jaz, arrazoado,
defunto meu achismo tagarela
no paletó de pau abotoado.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 26 de março de 2017

RIMA OBRIGATÓRIA

Qual é a da parada aí?

RIMA OBRIGATÓRIA

Fazer o bem, fazer alguém feliz
ao ler algum poema divertido,
de minha parte, muita vez tem sido
o lema para os versos que já fiz.

Porém tal intenção se escreve a giz,
não vejo o humor pra sempre ser retido
nas almas bem escassas que têm lido
a minha gozação, que nada diz.

Então, este soneto será triste
feito uma punhalada na rabeta,
e aqui sinto que alguém de ler desiste...

Mas gosta de bobagem a caneta,
porquanto quer lembrar, e nisso insiste,
que aceitará rimar só com buceta.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 16 de março de 2017

PARECERES


PARECERES

Existem pareceres parecidos,
mas fazem todos eles desavença
porque cada cabeça é uma sentença
conforme a distorção do que é sentido.

E tem um entra-e-sai prevalecido
no meio de entendidos da sabença,
que leva-me a supor que não compensa
posar de sabichão ou de entendido.

Verdade é uma só, o resto empata
em ditos de verdades parciais
da razão, que pretende ser exata.

Exata é a unidade, tudo mais
desune, desagrega, desacata
às minúcias infinitesimais...


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 6 de março de 2017

PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA



PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA

Tu vais fazer o que em Marte?,
se lá é tão frio. O amor
de certo não existe
num planeta sem ardor
que vem a me fazer supor
que seja onde for
aqui na Terra tu estarás muito melhor.

Se Deus nos fez este ambiente
aqui tão coerente, divino,
pra que esculhambar assim a nossa Terra?
Teu coração lá será lacerado,
gelado e petrificado sobre a murcha flor
desse teu peito ateu.

Tu vais te encarcerar legal
naquela espacial colônia penal
do meu falido amor, subido(?) amor.
Tu vais levar muito mais longe a flor.
Tu vais fazer na Criação
rombuda expansão, chego a supor.

O riso, a fé, a dor
em Marte chegarão, mas não terão sabor
em vozes tão dolentes, seja como for.
És láctea estrela,
és Via-Láctea estrela,
és tudo enfim que tem cabelo
em todo despudor da santa natureza.

Perdão se ouso confessar-te:
eu hei de ir sempre a Marte!
Oh, flor, meu peito não consiste,
e tamanha inconsistência é triste
na vã promessa exorbitante
que vais um dia orbitar,
e orbitar naquele
tal lugar.

Fincar teu pé onipotente
em solo avermelhado, e a dor,
a dor é minha só por tua ingratidão.
Depois, se eu tiver paciência,
escrevo à Ciência
carta em que dissertarei meu parecer
do teu enlouquecer.

Marcos Satoru Kawanami